segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Capítulo 8

Entraram no apartamento ainda em silêncio. A ligação de Lupe tinha esfriado o ânimo de ambas. A espanhola tinha ligado para avisar que sua mãe estava internada, após sofrer um problema cardíaco. Talvez fosse necessário fazer uma cirurgia. Aproveitou a ligação para perguntar se Laura tinha se encontrado com Sam, ouviu apenas um ‘sim’ que indicava que não iria se prolongar no assunto.

Sam também não se sentia confortável com a ligação. Ainda estavam no carro quando o telefone tocou e ela não podia só fingir ser surda, nem ao menos queria isto. Lembrou dos pais de Laura comentando sobre ela também ‘esticar o olho’ para a espanhola. No entanto, percebeu que era um assunto sério, notou a preocupação de Laura, mas não achou justo fazer perguntas. Ficou pensando que afinal de contas, sua amante tinha uma vida em outro país e sua estada ali não seria para sempre. Esta idéia a deixou em desespero, por sorte Laura tinha ido ao banho, senão veria seu transtorno.

Laura saiu do banheiro e Sam entrou rapidamente, trancando a porta. Pensar em sua velha amiga dona Carmen, a tinha deixado preocupada. A matriarca espanhola a tinha recebido tão bem quando ela se mudou para o apartamento ao lado. Com freqüência comia na casa deles e sempre uma das ‘meninas’ era enviada para verificar se estava tudo bem com a ‘menina grande’, como a chamava. Pediu para que Lupe a mantivesse informada, mas agora pensava se isto não seria um erro, talvez devesse manter distância, seria mais fácil, agora que ela pensava seriamente em voltar a morar no Brasil, caso Sam não quisesse ir com ela para a Europa.

- Hum, não existe vida longe do computador, mocinha? - Sam se aproximou por trás de Laura, a abraçando pelas costas e beijando o alto de sua cabeça.

- Estou só vendo as novidades do Fator. Você já leu esta fic da Donovan? - vendo o gesto de negativa, comentou - Quase derreteu a tela de tão quente que é!

- E você está lendo fics quentes por quê? - perguntou a loira com um sorriso se sentando em uma das pernas da morena, olhando interessada para a tela.

- Eu sou bem criativa, mas nunca é demais pegar umas diquinhas aqui e ali, né? - Laura ofereceu uma taça de vinho, que tinha deixado preparada para Sam.

- Diquinhas, nem sei se tudo o que falam ai é possível. Às vezes fico imaginando que tipo de contorcionista dá conta de fazer do jeito que descrevem, além do que são incansáveis e...

- Sam... Lembra quantas vezes nós saímos do quarto nestes quatro dias sem que fosse só para variar o ambiente? E se fossem descrever algumas coisas eu não sei se alguém imaginaria que é possível... Lá na varanda mesmo, ou então ali no seu estúdio, ou ao lado da geladeira... Hum! A área de serviço!

- Tudo bem! Tudo bem... É, a área de serviço! Realmente, nós somos criativas, também.

- Mas eu ainda quero testar se tudo isto é possível. Mudando de assunto, precisamos sair, fazer umas compras, até já fiz uma lista.

- Deixa eu ver... Hum... Isto é no supermercado, frutas é melhor em uma casa de frutas aqui perto, açou... Ah, isto aqui só em sex shop! - Olhou para Laura e falou - acredita que nunca usei estas coisas? Nunca corri atrás de sexo, acontecia de sair e encontrar, às vezes.

- Também não tenho prática, mas estava lendo a tal fic e foi bem interessante... Aí, voltei e li O Corpo!

- Hum, este Corpo! Que belo uso para o tal brinquedo!

- Ei, vamos brincar de fics e contos? A gente faz o tipo descrito mesmo!

- Interessante! Tem aquela da freirinha com a conserta-tudo! Eu não tenho mesmo um arzinho angelical?

- Você quer ser a prostituta iniciante do corpo e a freira da Rose Angel, no mesmo dia? Só falta emendar com a quenga experiente da Karina, pra terminar a noite. Estou achando que você está em conflito, pequena loira do meu coração!

- Pra falar a verdade nós já começamos com isto... E foi pela cigana e a engenheira da Wind, lembra o dia que eu estava cozinhando e você estava vindo da sala?

- Ah, se lembro! Nós até brindamos à Wind! E que tal as estudantes da Paula Marinho, é uma bela de uma preliminar aquela luta na cama!

- Se é! E nesta coisa de preliminar, ainda tem a luta safadíssima que a Rapha escreveu em Piratas. É engraçado como às vezes, mesmo não rolando sexo, conseguem deixar as fics sensuais, não é! Lembro-me de quando li O Lado Cego do Amor, da Dreams. Nossa, o que não tinha escrito eu imaginei... Por Zeus! Como imaginei!

- Você está com a mesma cara de tarada que fez naquele dia que a gente foi brincar de Mel e Bia, da Cecília, na rede! Que manhã linda aquela! Tão natural, nós de índias peladas na rede, aquele balanço tão bom!
- Nem me lembre! Mel e Bia foram as personagens mais famintas que eu já vi! E ... Eu acho que a gente estava no clima.
- É porque elas sabiam que precisavam mandar boas vibrações pra fazer um mundo melhor! Sabedoria secular.
- Sem dúvida! O mundo é muito feio, é preciso uma lente de amor pra ver beleza. - Sam disse, colocando uns fiozinhos do cabelo preto, atrás da orelha bem desenhada, que estava circulando com os dedos.
- Você consegue fazer isto. Suas fotos me deram uma sensação tão boa, desde antes de falar com você. O que você procura quando fotografa?
- Eu pensava: o que nunca ninguém vê? E eu tentava buscar o que eu também nunca olharia, porque algo me dizia, que toda a beleza da vida está no nunca. - se olharam com paixão, Laura se levantou e levou Sam para a cama. No final das contas, se amaram ao seu próprio jeito.
Acordaram na sexta-feira com o som insistente do telefone. Sam esticou o braço para atender, Laura o puxou de volta.
- Prisioneiros têm direito a uma ligação!
- Você não está ao alcance dos direitos humanos aqui, loira! - e puxou o outro braço, que ia em direção ao odioso aparelho.
- Laura! Eu pago pedágio! Deixa-me atender... Ou jogar o aparelho longe! - após o oitavo toque, o aparelho parou de tocar.
- Hum... Pode pagar o pedágio - fez biquinho e fechou os olhos.- Não consegui atender, não pago. - Estava sentada na cama, com as duas mãos ainda presas pela morena, que mantinha o biquinho e os olhos apertados.
- Tudo bem, mas me solta... Isto, boa menina.
Sam se aproximou da morena, colocou duas pernas para fora da cama, agarrou sua camiseta e ... Mordeu a boca da morena, saindo correndo do quarto em seguida.
- Volta aqui, sua trambiqueira! Você me mordeu! - Laura pulou da cama do jeito que estava. Achou a loirinha na sala com o sofá a protegendo.- Mantenha distância, sua índia pelada! Se chegar perto eu abro a porta.- Vai ser bonito abrir a porta de calcinha e camiseta! - Laura estava se aproximando com um brilho perigoso no olhar. - Além do que eu chego na porta antes que você.
- Não chega não! - Sam correu para a porta e abriu, Laura chegou quase junto com ela.
O que elas não esperavam era encontrar duas pessoas em pé, atrás da porta. Um deles, que levava a mão à campainha, paralisado no meio do caminho. Olhando pasmo o corpo nu da morena, não menos assustada que ele, que surgira de repente em sua frente.
Sam, foi a primeira a se recuperar do choque. Pediu licença e fechou a porta na cara dos indesejáveis visitantes.
- Acho melhor a gente se vestir.
- Quem é o rapaz com o Arthur?
- O que vai precisar parafusar o queixo? Cássio, meu irmão.
- Uuuh! - Foi tudo o que Laura conseguiu falar. Tinha entrado com o pé esquerdo na complicada família de Sam.
Sam colocou um short, não trocou a camiseta. Passou pelo banheiro e lavou o rosto, escovou rapidamente os dentes e na volta, ao passar por Laura, disse apenas:
- Amo você, não se preocupe com nada.

Laura se preocupava, mas não tinha sido chamada para ir até a sala, então, o máximo que pode fazer foi se manter pronta. “Puxa vida, que droga o rapaz me ver assim! Deve estar falando horrores pra ela! Que vontade de ir lá!” Para passar o tempo, começou a arrumar a bagunça do quarto. Sam tinha pego sua correspondência e tinha jogado perto da cama, Laura a pegou e guardou dentro do criado mudo, fechou a gaveta, piscou algumas vezes, refletiu outras.... Abriu novamente a gaveta.

- Ah safada! Você tem os brinquedinhos! Vamos ver... Tudo na embalagem, isto muito me agrada... Uau! Com este daqui dá pra gente fazer igual no Corpo....

Laura colocou o ‘brinquedo’ em sua frente e ficou imaginando se usaria a técnica do corpo ou da Donovan. Neste instante, Cássio abriu a porta.

- Laura, a Samantha está chaaa.... - o rapaz ficou olhando para Laura, que tinha vestido a couraça por sobre sua roupa. - ela.. É...

- Eu já vou lá - tirou a peça rapidamente - eu não sou sempre assim, viu. - mas não notou nenhum sinal de simpatia no rosto do seu ‘cunhado’.

- E então, desfez a má impressão? - Sam perguntou ao seu irmão, mas ele se limitou a olhar para elas e ir até a porta.

- Vamos, Arthur. Eu não fico mais aqui. Você vai ter notícias... Irmãzinha!

Arthur imitou o olhar de desprezo para Laura, se virou para Sam, cumprimentou com a cabeça e saiu.

- Laura, Laura... O que você fez que assustou o meu irmão? - Sam perguntou curiosa, mas divertida - ele saiu da sala disposto a desfazer a primeira imagem.

- Eu... Temo que ofereci a ele uma segunda imagem ainda pior que a primeira. - Sam caiu na risada ao ver o ar de constrangimento da morena.

- Não acredito! Você estava vestida quando eu sai do quarto. Imaginei que estaria esperando eu te chamar.

- Pois é - se jogou no sofá, esticou as pernas e colocou uma almofada no rosto - mas eu achei os seus brinquedinhos.

- Você achou o que Laura Sanches? Tira a almofada pra falar.

- Não falo. Vai no quarto que você vê!

Laura ficou na sala, enquanto Sam foi ao quarto. Ouviu a porta abrir, os passos da loira, depois um “oh” e risos, muitos risos. A loira gargalhava e quando finalmente se acalmou, veio até a sala, se sentou ao lado de Laura, tirou a almofada do rosto dela é disse:

- Me sinto tão vingada pela webcam!

- Não acredito que você .... Sua vingativa! Você ainda estava guardando a história da cam?

- Laura! Uma história como esta não se esquece! Você veio me perguntar se... Bandida! - pulou em cima da morena e começou a tentar fazer cócegas nela.

- Se você tinha feito de propósito! - Laura se defendia com uma mão e com a outra atacava. - O que tem? Era só curiosidade, vai que você estava querendo partilhar este ... Ai, é guerra então, né!

O toque do celular de Sam interrompeu a briga que já estava na fase de beijos e amassos.

- Não vai não, fica aqui...

- Fico. Ai painho, que tem a chave aparece na sala, para completar o dia dos flagras.

- Opa! Corre lá atender, vai, depressa!

A careta de Sam ao atender, demonstrou que era mesmo seu pai ao telefone. Foi até a varanda e fechou a porta para que Laura não a ouvisse. Não estava muito preocupada com a reação dele. Morava sozinha, viveria bem sem a mesada dele, ela nem se lembrava da última vez que ele foi presente em sua vida. Não tinha grande coisa a perder. Isto fez com que se sentisse calma, só se distanciou de Laura para que ela não se sentisse chateada, caso discutissem.

- Ora, ora! Quem é vivo sempre aparece!

- Samantha, seu irmão chegou aqui com uma história muito confusa sobre você. Não conseguiu falar direito.

- Ele sempre teve dificuldade de articulação, pai.

- Ele está falando algo sobre uma mulher linda nua, um... Não vou reproduzir o gesto obsceno que ele faz e ele já esteve falando que você não sai de um bar gay, isto é verdade?

- Eu vou com alguma freqüência sim, ela freqüenta também, não me lembro de tê-lo visto, lá.

- Samantha! Você vai lá porque você é gay?

- Si fueris Romae, Romano vivito more (em Roma faça como os romanos).

- Seu latim continua impecável, já suas atitudes! Quem é esta mulher que está em sua casa?

- Minha namorada, se chama Laura e..

- E eu quero conhecer, hoje. No almoço. Você sabe onde almoço, não sabe?

- Sei sim, 13h, o seu horário de sempre. Tiau. - desligou com um sorriso.

Seria interessante, seu pai não era tão difícil quando Cássio. O problema de seu irmão era estar sempre querendo agradar seu pai, fazia de tudo para ser o mais conservador e sério possível. Ela, às vezes, tinha pena dele. Outras vezes achava que ele era bobo demais para ter pena. Ele nunca aparecia em seu apartamento, só se encontravam nas raríssimas vezes que tinha que ir à casa de seu pai. Um jantar de negócios, que ele exibia à família, alguns sombrios Natais, aniversários. Sua visita repentina nesta manhã só podia ser arte de Arthur. Foi Cássio quem o tirou da cadeia e já estava entrando com processo contra o estado, por constrangimento. Com a desculpa de contar para ela sobre o ocorrido, tinha levado seu irmão para mostrar Laura. Sam riu quando se lembrou o tanto que viram da sua namorada.

- Surpreendente! Achei que você fosse estar chateada ou algo parecido.

- Que nada. Eu e painho não temos muito assunto nem para discutir. Vamos comer fora, já que a gente não tem nada pra fazer aqui, mesmo?

- Vamos, claro. Minha irmã me falou de um lugar...

- Não. Hoje eu escolho. E vamos logo , que o melhor dos pratos é servido às 13h em ponto!

- Ainda não são nem 11! Que ansiedade é esta?

- Sei bem que a gente não consegue entrar naquele quarto e sair em meia-hora.

- Você sempre tem bons argumentos. Poderia ter feito Direito, como ele queria.

- Eu não faço... Direito?

- Baixinha! Você é mulher pra todos os talheres!

*******

Enquanto Laura estacionava o carro, Sam entrou no restaurante e avisou que o Dr. Rafael Figueiredo a aguardava. Um garçom foi chamado para conduzi-la à mesa, ela dispensou ajuda. Seu pai se sentava sempre na mesma mesa.

- Oi amor, conseguiu uma mesa? Restaurante bacana! Se você tivesse avisado eu teria me produzido melhor. - Laura estava com uma calça jeans preta e camisa azul clara, de manga comprida. Ela tinha pego camisas erradas para o Brasil, tinha que comprar alguma coisa mais tropical.

- Você está linda! Meu pai vai ficar babando em você.

- Você que está... Como? - Laura parou na hora, olhou para frente e viu um senhor gesticulando.

Sam caminhou em direção a ele. Laura respirou fundo e a seguiu. Que dia, que loira maluca...ela vai me pagar esta! Faz cara de gente séria, tenta salvar sua reputação, não ser expulsa do restaurante. Zeus! Eu não tinha que me lembrar disto agora! Laura, sentiu o sangue subir para seu rosto, ao imaginar o que Cássio teria dito ao pai.

Assim como o filho, o Dr Rafael era alguns centímetros mais baixo que Laura, também tinha olhos verdes e os cabelos, castanhos claros, a diferença é que os seus tinham alguns fios brancos, que o clareavam ainda mais. Apesar de mais corpulento que o filho, não podia ser descrito como fora de forma, e não aparentava mais que cinqüenta anos, apesar de muito provavelmente ser mais velho que isto. Ele se levantou, deu um ligeiro abraço em Sam, beijando-lhe o rosto uma vez e desviou o seu olhar à morena que o examinava atentamente.

- E você deve ser a Laura, namorada da minha filha.

Laura levou um choque, não esperava por um ataque tão rápido. Touché!

- Err... É, eu sou sim, Dr Rafael - apertou a mão dele e olhou em volta - o Cássio não veio?

- Não! - recebeu um olhar observador, enquanto se sentavam - Ele está muito alterado e, penso que você tem culpa nisto.

Laura corou violentamente. Sem dúvida, este era um dia que ficaria marcado em sua memória.

- Ele não tem do que reclamar da sorte, painho. Não é todo mundo que tem o privilégio de ver o que ele viu.
- O que você faz da vida? – perguntou o pai de Sam repentinamente, olhando para Laura como se fosse em um tribunal... E ela a ré.
Enfim um assunto que a fazia se sentir confortável. Em uma situação de saia justa, falar de um assunto que dominava e do qual tinha orgulho, lhe dava confiança. Estufou o peito e respondeu.
- Sou fotógrafa!
- Xiii! – ele balançou o guardanapo que estava em sua mão, como se tivesse afastando uma mosca, enquanto balançava negativamente a cabeça - mais uma sustentada pelo pai!
Como Laura ficou boquiaberta tentando entender pra qual dimensão paralela havia sido transportada, ele continuou.
- A propósito, seu pai faz o quê? Preciso saber se ele vai poder partilhar comigo, ou se vai sobrar tudo pra mim.
- Ahn... Meu pai... Hum... Minha família tem uma pousada – respondeu olhando para Sam, que estava muito concentrada em observar as lagostas no aquário.
- Ah, uma pousada! – falou acariciando a gravata em tom sonhador – ele tem advogados?
A conversa tinha iniciado constrangedora, mas em algum ponto que Laura não soube precisar tinha se tornado bizarra. Decidiu se concentrar, pois seu ar atônito, decididamente, não causaria uma boa impressão. Depois aquela loira sonsa iria ter que explicar umas coisinhas. Ah iria!
O restante do almoço seguiu seu curso, entre interrogatório, prospecção... Constrangimento. Laura teve a sensação de que tinha se esquecido de tirar a casca de sua lagosta antes de comê-la... De tentar comê-la. Já Sam, tinha o semblante de quem estava lendo uma livro cômico durante uma aula muito chata. Esforçava-se muito para não rir. Estava até vermelha de tanto prender o ar.
Se Laura não estivesse tão zangada teria ficada encantada com aquele rosto. Olhou-a novamente... Decididamente, o rosto mais lindo do mundo... Ainda mais quando está fazendo arte. Mas tinha que ser comigo? Ah, mas ela é tão linda! É, na verdade, a irritação não suportou uma segunda olhada. Ela sempre sairia perdendo frente ao nível do adversário.
Quando finalmente se despediram do pai de Sam, após ele deixar com Laura alguns cartões de visita, pedindo para ela marcar um encontro entre ele e seu pai, Sam se armou de seu rosto mais angelical para pedir que fossem à sorveteria. Laura puxou o ar para contestar, mas... Após tantas bizarrices, esta não seria a mais desagradável.
- Vamos, senhorita! Afinal de contas, o tal bicho-papão demonstra que existe... E que mora dentro do seu estômago.
- Estou pedindo por você, Lau! – Sam colocou uma mão no peito e olhava carinhosamente para ela – notei que você não comeu nada no almoço!
- Por que será, não é?
Todo o riso contido durante o almoço resolveu sair de uma vez. Sam chegou a se sentar na rua de tanto que ria.
- Gostaria muito de partilhar de sua hilaridade, mas minha situação não foi das mais confortáveis, sabe! – apesar deste protesto, não pode fazer nada além de acompanhar o riso da loira.
Quando chegaram na sorveteria, Sam montou duas imensas taças, exatamente iguais. Ia pegando seus sabores preferidos e dizendo que Laura não podia deixar de experimentar aquele, e este outro, tão exótico... E mais este que é imperdível... Ficou imenso.
- Você tem idéia de quantas pessoas podem se alimentar por um mês com estas calorias? - Laura olhava o resultado com um ar de espanto.
- Não esquenta não, eu gosto de ter onde pegar. – falou com um sorriso malicioso.
- É, eu também gosto. Mas... Confesso que hoje eu já tive que me controlar para não pegar no seu pescoço. Com força. Muita força. Para morder, mas você não precisa saber deste detalhe.
O rosto de Sam, de repente ficou semelhante ao do Gato de Botas, no Shrek.
- Não entendo porque tanta irritação, Lau! Meu pai foi até simpático! Depois de tudo o que ouviu de Cássio. Gostei quando ele disse que confiava em você pra cuidar de mim.
- Pois é, mas agora me diz, bem seriamente, o que foi aquilo de ser sustentada pelo pai?
A resposta de Sam foi apenas um sorriso amarelo, entre duas colheradas de sorvete.
- ... Você não é sustentada por ele...
- Não.
- E então....? – Laura circulava a colher, indicando que era para ela continuar a história.
- Mas ele me dá uma mesada, todo mês.
- Oxe! Mas, eu conheço seu trabalho e sua reputação, você talvez ganhe mais que ele! Já disse isto pra ele?
- Mas Lau, painho acha que arte não dá nada! Ele só quer me ajudar! E não, não disse isto pra ele. Nós... Bem, nós não conversamos muito. Minha família é muito diferente da sua, acho que conversei mais com a sua mãe ontem do que com o meu pai durante todo este ano.
- Vocês se deram bem mesmo, não é? O que tanto conversaram?
- Acredita que ela conhece o meu trabalho?! Sua mãe também é artista e você não me disse nada! Ela foi me mostrar as telas que pintou. Ela me disse que era o sonho dela quando era apenas “Letícia Cruz”, depois que adicionou o Sanches, passou a ter outros sonhos e a pintura virou só hobbie.
- E como era a sua mãe, Sam? Você nunca me disse o nome dela, o que ela sonhava.
- Minha mãe era formada em jornalismo, Jackeline Rodrigues Figueiredo. Ela também adorava pintura, mas não dava pra viver disto, então foi trabalhar em um jornal como crítica de arte.
- Nossa! Então se elas se conhecessem, ou elas seriam muito amigas ou então seria um duelo constante.
- Acho que seriam amigas. Mainha era muito risonha, carinhosa, extremamente atenta e gostava de decifrar as pessoas. Foi péssimo ela ir embora assim! E ela levou muito de painho junto com ela!
- Samantha!
Laura olhou para ela e começou a entender. Seus olhos estavam semicerrados e ela parecia buscar as respostas que Sam escondia no fundo dela mesma. Tal olhar, assustou Sam, que se agitou.
- O quê? O que foi? O que você está pensando?
- Ele não tem muita coisa para te oferecer além de dinheiro, não é? – falou com pesar.
Ela não estava preparada para isto. Sempre fugia de seus pensamentos, dos seus sentimentos, das coisas que a faziam sentir dor. E seu pai ou era tratado com superficialidade, ou lhe causava mais dor do que poderia gerenciar. Por isto, fazia sempre o que parecia mais cômodo em relação a ele. E aceitar dinheiro era muito cômodo. Ficou remexendo em sua taça, já sem muita vontade de comer a meleca que estava virando ao ser misturada.
- Por que você faz isto? – respondeu finalmente.
- Faço o quê?
- Você me percebe. E eu não sei se estou pronta, ou se quero ter minhas sujeiras retiradas de baixo do tapete.
Laura considerou um pouco antes de responder.
- Você já pensou que esta sujeira é que te provoca gripe?
Se ela fosse considerar muito a respeito, sabia que iria acabar chorando. Eu sou chorona, Laura... Não me faça pensar sobre isto, não agora, não aqui!
- Gripe é vírus! – respondeu mostrando a língua.
Laura entendeu o recado. Ela não queria continuar o assunto. Tinha notado seus olhos cheios d’água, ela não insistiria, não agora.
- Puxa, é mesmo! E resfriado vem de coisas frias não é? Como estas! – Laura passou uma colher do sorvete melequento pela região da boca de Sam. – Olha como ficou linda resfriada!
- Palhaça! Pode limpar!
Laura não se fez de rogada. Limpou a boca de Sam da melhor forma que poderia fazer.
- Sabe que o sorvete ficou melhor assim? Agora só vou tomar sorvete na sua boca.
- Também não achei ruim, não. Se não fosse a enorme seta vermelha e barulhenta que se ergueu nas nossas cabeças, fazendo todo mundo olhar pra nós, eu até iria querer fazer de novo.
- Você se importa?
- Com o que?
- Com a opinião dos outros? Estas pessoas – Laura olhou ao redor – que nós nem ao menos conhecemos.
Sam também olhou ao redor, realmente, estavam olhando para eles. E, realmente não conhecia... ah, conhecia sim, ergueu a mão e cumprimentou umas garotas que riam como se estivessem bêbadas. Laura imediatamente olhou para elas.
- Ei, nós não conhecemos ninguém aqui, lembra? Eu ia falar sobre a opinião de desconhecidos sobre quem somos ou o que fazemos... e você conhecer alguém, estraga tudo!
- É a minha conhecida Rapha, e a sua conhecida Priscila, além da Beth, e da Barata... a Raphaela Cavalcanti está naquela mesa, também.
- Raphaela Cavalcanti daquela fic que tem as meninas na moto, que ficam se provocando, é?
- Esta mesma! Acho que vou passar na casa do meu pai pra pegar minha moto!
- Grande idéia! E quem é a minha conhecida? – Laura olhou novamente, prestando mais atenção agora. Não reconheceu de imediato, mas cumprimentou mesmo assim. – Conheço de onde, heim?
- Eu vi, logo que te conheci, uma piscadinha dela no seu orkut. Pensa que me esqueço destas coisas?
- No meu orkut? – Laura tentou se lembrar – Ah, é a Pri da comunidade da Xena, eu tinha pedido pra ela me deixar entrar e a piscada foi só o jeito dela responder. Não foi nada – falou rindo. – O que me faz supor que a Rapha ao lado dela, seja a tal Rapha do Divã? – fechou a cara – com a qual você fez uma... noitada no cinema, comendo pipoca e batatinha?
- É ela mesma, acho que nunca ri tanto como naquele dia. – Sam ria novamente, se lembrando da discussão com as pessoas no cinema, porque ela não parava quieta roubando as batatas da pirata aloprada e tendo que ouvir isto por uma semana.
- Eu não te faço rir, então – Laura estava com um imenso bico, encostada na cadeira.
- Faz sim! Muito! Hoje mesmo, você me fez rir demais! Acho que mais do que no dia do cinema.
- É rir comigo e não de mim!

*******
Antes de voltar para casa, passaram no shopping para comprar tudo o que precisavam. Laura escolheu umas roupas mais leves e levou ao provador para experimentar, Sam entrou com ela e a ajudou a tirar a roupa, aproveitando para pegar em tudo o que podia do corpo que estava exposto.
- Você sabe que isto não vai dar em boa coisa, não é? - Laura falou baixinho, no ouvido dela, que após tirar seu sutiã estava apertando o bico de seus seios.
- Você acha que não é boa coisa? - apertou com um pouco mais de força e Laura teve que morder sua mão para não soltar um gemido alto ali.
- Acho que a gente tem que terminar isto logo para voltar para casa. - falavam em sussurros.
- Então vamos terminar logo
Sam já tinha tirado a calça de Laura, colocou a mão por dentro da calcinha dela e achou rapidamente o nervo enrijecido da morena, provocando nela uma reação de choque. Laura deu um passo para trás, para aproximar o seu corpo do da mulher que a estava enlouquecendo, mas esta não esperava o movimento e acabou tropeçando. Ambas caíram, invadindo a cabine ao lado com metade de seus corpos. Sam tirou a mão de dentro da morena rapidamente, pediram desculpas para a mulher que estava de olhos arregalados olhando para elas. Laura se vestiu rapidamente e decidiram levar tudo, sem provar mesmo.
Só conseguiram se olhar quando entraram no carro. Ambas caíram em uma crise de riso, daquelas que deixa o corpo dolorido.
- Que dia! Nunca na minha vida passei tanta vergonha! Imagina: fui vista nua pelo seu irmão e por um cara que é apaixonado por você, almoço com seu pai de surpresa e ele brinca de aranha e mosca comigo. Depois... ah! Zeus! Que loucura!
- Tirando este último evento eu me diverti muito! E isto também foi engraçado! Viu a cara da menina! - começou a rir novamente.
Quando chegaram no prédio, Laura pediu para Sam buscar alguns lanchinhos na padaria enquanto ela descarregaria as compras.

***
Sam entrou no apartamento e viu Laura sentada com seu roupão branco no sofá, a olhando intensamente, de cima a baixo.
- Siga esse corredor à sua frente, entre na última porta à esquerda e tome um banho. Lá você encontrará um roupão, o vista e volte aqui.
Sam a olhou assustada. Estava com a voz rouca, sensual. Ela era mesmo a criatura mais linda que já vira. Seus cabelos soltos e negros caíam-lhe sobre os ombros e a abertura do roupão na altura de seus seios.
- Você não me ouviu? – Laura perguntou após dar uma olhada no papel em sua mão, falou baixinho para Sam - as fics, lembra?
Sam lutou para não rir. Tudo bem, se era para brincar de fics, encarnaria Carol e encantaria sua “cliente”.
- Ah! Tudo bem, mas saiba que para você eu me daria de graça!
A noite prometia...

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Perdão pela imensidão do capítulo, mas quisemos fazer uma homenagem para escritoras por quem somos apaixonadas. As fics e contos citados podem ser encontrados no FatorX http://www.fatorx.net/ e no Xana In Box http://glsplanet.terra.com.br/cgi-bin/xanainbox/xanainbox.cgi . Havencrow, perdão, mas seu texto foi chupado (uuh!) nos últimos parágrafos (www.fatorx.net/fatorxubercurso1.htm) .



Comentário salvo na mudança de ordem
1 aventureiros:

TantoFaz disse...

¬¬³

eu quero que esse Arthur morra do fim da fic, que cara mala, Carla!

dá um karatê nele pra ver o que é bom pra tosse!

Rãg's

;*

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