O tempo é um indecifrável mistério que circula nossas vidas. Um nada, como afirmou Sartre, ou então, nas palavras de S. Agostinho, apenas presente, sem passado ou futuro. E assim, sem que fosse percebido, o tempo foi passando. Um nada que transformava passado e futuro de duas pessoas, em um único presente. Um presente onde só importava que se completavam, que se uniam e isto dava significado à vida, toda ela.
- Você tem noção que dia é hoje? - Laura se sentou à mesa, pegando uma maça meio murcha que estava por ali.
- Dia de namorar? - Sam se virou pra ela, com um sorriso de orelha à orelha.
- Dia de namorar vão ser todos os dias, baixinha .... - deu um sorriso e falou baixinho - tarada.
- Eu posso ouvir muito bem daqui, sabe. Vou fazer greve por isto.
- Greve? Quero ver se você resiste... estamos falando de 1,80 de pura delícia e beleza e competência e... ah são tantas habilidades!
- Tirando o ‘pura’ ... mas aposto que você é que não resiste muito tempo.
Sam chegou muito perto de Laura, nivelando seu rosto ao da morena, com seu olhar que era puro fogo. Laura ergueu a mão para tocar no rosto de Sam.
- Ei grandona, quer um babador? - a loira saiu rindo de perto, voltando para o fogão, onde preparava o café da manhã... pela claridade de fora ao menos parecia ser de manhã.
- Jogo sujo! Eu vou descontar isto depois.... Mas é sério, eu queria saber que dia é hoje.
Sam foi até o interfone e ligou para o porteiro, pediu para ele enviar ao apartamento dela o jornal do dia. Alguns minutos depois, enquanto elas tomavam o café com as últimas torradas que tinham no apartamento, a campainha tocou.
- Ou a gente sai pra comprar alguma coisa pra comer, ou vamos acabar morrendo de fome...
- Sair de casa? Nos expor ao sol? Outras pessoas? Nem sei, pode ser traumatizante!
Sam abriu a porta sorrindo, o que era algo estranho para o ‘seu’ Lázaro, o porteiro que nestes anos todos estava acostumado a ver a loira sempre séria.
- Tudo bem com a senhora, dona Samantha? Eu achei que a senhora estava viajando, tem um recado lá na portaria.
- É, eu voltei de noite, não era o senhor quem estava na portaria.
- Eu vou deixar anotado lá então...
- Ah... está bem... tudo bem. Tenha um bom dia.
- ... a.. senhora também...está tudo bem mesmo?
- Tudo bem ... tudo ótimo.
Sam fechou a porta, não sem antes receber mais um olhar de estranheza do porteiro.
- Acredita que já é quinta-feira! Que dia mesmo você chegou?
- Domingo ... e você estava indo, que loucura! Já pensou a nossa cara se a gente não tivesse se encontrado!
- Você ainda tem a sua família aqui, mas eu iria ficar muito... - parou pra imaginar sua reação - acho que ficaria frustrada.
- Ah, você ia estar na Europa, outono, é sempre legal dar uma voltinha por lá.
- Não vou nem responder o que pensei, você já é ‘inflada’ o suficiente.
- Tudo bem, então nem conto que apesar de estar morrendo de saudade da minha família, eu ficaria me sentindo horrivelmente vazia.
- Vazia é? Se quiser sei um jeito perfeito de completar espaços vazios - Sam balançava as duas sobrancelhas, em um gesto provocador.
- Como se eu não soubesse que você sabe. - Laura a agarrou por trás e se jogou no sofá, com ela por cima. - Você sabe fazer muita coisa muito perfeitamente, imagino que seja tudo ... instinto.
- Eu tenho know-how....- entre beijos e carinhos, emendou - ei, você não vai ver sua família, não?
- Hum, que hora pra por família no meio.... Nós vamos... quinta-feira... vai ser interessante aparecer numa quinta-feira lá, se eles não mudaram os hábitos. Vamos nos trocar. - Laura levantou, entusiasmada, pegando Sam pela mão e levando para o quarto.
Duas horas depois, estavam saindo do apartamento.
- Você demora pra tomar banho, não é? - comentou a morena, olhando distraidamente para as teclas do elevador.
- Quando me deixam tomar banho sozinha, não muito... Nem me lembre deste banho, nunca, nunca, nunca, sonhei em ser tão... instintiva como desta vez.
Lembrou que tinha aberto o chuveiro quando Laura entrou no banheiro. Ela pediu que a morena saísse, mas não foi obedecida. Pelo contrário, sem dizer nada, viu que a outra estava tirando a roupa, olhando fixamente pelo box de vidro. Só que ela realmente queria tomar banho sozinha desta vez, estava ansiosa pela perspectiva de conhecer o ‘ninho de onde Laura saiu". Abriu a porta do box e pediu que ela saísse, mas foi ignorada. Acabou se irritando, pela primeira vez, com a morena.
- Sai Laura, quero só tomar um banho rápido, depois você vem.
Mas ao invés de sair, Laura a olhou com desafio. E foi em sua direção. Sam colocou a mão na frente, para manter a distância, mas a morena, em um gesto rápido, segurou sua mão e forçando pelo braço a girou, apoiando seu corpo contra o dela, a prensando na parede.
- Eu quero você, agora.
Laura a prendia com o corpo, uma das mãos segurava seu braço levantado e o outro passeava pelos seios, dando apertões, conforme transitava. Beijava o pescoço e em seguida subia até a orelha, que era mordida, recebia beijos e palavras que mostravam posse. Sam tentou se livrar, mas o máximo que conseguiu, foi aumentar o contato do corpo das duas. Laura baixou sua mão e sentiu a umidade que não vinha do chuveiro.
- Ah, você também quer, não é? Gosta de ser maltratada, loira? - deu um tapinha no volume que buscava contato com seu corpo.
- Não! Eu gosto é de maltratar!
Com toda a força que pode, conseguiu ficar de frente com Laura. Sua estatura lhe permitia ficar muito próxima dos seios da morena, ela os agarrou com a boca com violência, se alegrando com o gemido alto que ouviu.
- Você quer forçar a barra, então vamos ver quem força mais. – disse, colocando sem muita cerimônia dois dedos na abertura da morena que estava buscando uma melhor posição. Sem tirar os dedos de dentro, girando-os dentro morena que arranhava suas costas, Sam a colocou na parede do box, dando mais liberdade para as firmes estocadas que dava, enquanto mordia seus seios, os mamilos enrijecidos. Cada gemido de Laura, que indicasse dor, provocava nela o instinto de aumentar a força do contato. A morena foi escorregando pela parede e Sam ficou sobre ela, com a água caindo em suas costas. Laura a manejou, para que ficasse em 69. Agora ambas faziam movimentos iguais, com língua e dedos forçando a resistência da outra. Os movimentos eram firmes, intensos. Sam atingiu o maior orgasmo de sua vida. Nos minutos seguintes, perdeu a noção de ser um ser pensante. Ficou acariciando e lambendo o corpo que a tinha satisfeito tão plenamente e que se satisfez tão plenamente com o seu.
A lembrança deste momento tinha tirado toda a sua concentração. Abriu os olhos e se viu dentro do elevador, com Laura tagarelando ainda sobre o banho.
- Mas é tudo pela natureza! Cada pessoa gasta em torno de 243 litros de água em um banho. Fui só reduzir o consumo pela metade.
- Hum... então me lembra da próxima vez de fechar a torneira enquanto... a gente não está propriamente tomando banho.
- É... - com ar sonhador continuou - tem a parte não banho do processo, ensaboar, esfregar, esfregar, hum.... ensaboar... Vamos voltar e tomar mais banho?
- Não, Laura... Esta parte de ensaboar e esfregar... eu não achei que conseguiria depois daquilo tudo.
- Tem muito mais de onde veio este! Vamos voltar lá?
- Nós vamos ver seus pais, lembra? - Sam estava puxando Laura para o carro, quando parou de repente - Ver seus pais... ei, eu não vou ver seus pais, não!
- Claro que vai! Eu não vou ficar sozinha com os pestinhas.
- Pestinhas? Você é sempre assim carinhosa com seus pais? Mais ainda que não vou! Te espero na porta.
- Eu vou ficar o dia inteiro lá.
- Eu te esperaria a vida toda, mas faço um desconto por um dia só.
- Ai como ela é linda.... - voltou para dar um beijo em Sam, não que precisasse de muita desculpa para ter vontade de fazer isto o dia todo. - os pestinhas são meus sobrinhos.... adoro eles, ensinei muita coisa quando eles eram menorzinhos e depois pela internet.
- Imagino o tipo de coisa que você ensinou... mas é sério, não sei se estou pronta pra ir conhecer sua família... "oi, muito prazer, eu estou desfrutando muito da sua filha"....
Laura caiu na risada. Imaginou a cara da sua mãe se ouvisse isto. Ela já ia ficar uma fera quando soubesse que, com quatro dias na cidade, não tinha recebido ao menos um telefonema. Toda a família de Laura sabia de sua orientação. Sempre foi uma pessoa firme o suficiente para ser respeitada, apesar de saber que estava destruindo alguns planos de casamento, netos e todas as coisas que os pais sonham para os filhos. Nunca tinha levado nenhuma namorada em casa, apesar de saber que eles não tratariam mal, só não tinha tido esta vontade antes.
- Ah, eu acho que esta não é uma boa frase de apresentação não. Se bem, que vão estar tão embasbacados com você que nem vão prestar atenção nos detalhes.
Enquanto Sam dirigia, Laura apertou a tecla de discagem rápida de seu celular.
- Alô - a voz imponente do pai de Laura atendeu ao telefone.
- Oi, eu queria saber se tem um pai cabeludo perdido por ai.
- Tinha! Até agora a pouco, mas uns pestes estavam brincando com um estúpido aparelho de cortar cabelo. - Laura riu, enquanto o ouviu gritar ao longe - Patroa! A desaparecida no telefone! - E então, menina, nós recebemos uma mensagem sua avisando que você ia viajar, achei que ia ficar meses sem ouvir sua voz.
- Nem todas as viagens são demoradas, nem são para longe.
- Ai, calma mulher, credo, sua mãe acha que você é filha só dela, nunca me deixa conversar com você.
- Ah, vai cuidar da carne, eu vou pegar o sem fio e já levo pra você... .Filha! Como está? Viu seu pai? Cada dia mais resmungão!
- Estão fazendo churrasco? - Olhou para Sam e deu um sorriso, que indicava que tinha acertado o seu prognóstico.
- É, filha... nós aproveitamos a quinta-feira, você sabe, dia mais calmo na pousada. Mas me conta, como é que você está?
- Estou ... com fome! Que vontade de comer este churrasco com vocês! - jogou a isca.
- Então venha! - sua mãe riu - Está quase pronto, se quiser eu passo pelo fio pra você.
- Não vai adiantar, mãe, eu estou no celular. Mas acho que vou aceitar o convite para almoçar... e vou levar minha namorada junto. - Já tinham estacionado o carro na frente da casa. Sam ouvia a conversa com um misto de diversão e apreensão.
- Namorada? Você sabe que vai ser sempre bem-vinda filha! Bem que podia ser verdade mesmo, estou morrendo de saudade de você.
- Ah, mãe, não vai chorar de novo... deixa eu desligar. Te amo.
- Eu estou levando o fone pro seu pai, ele vai ficar louco se não falar com você de novo...
Laura tinha desligado o fone e agora levava Sam pelos fundos da casa, iria entrar direto no quintal, onde sabia que todos estariam reunidos em volta da piscina, seu pai e seu cunhado na churrasqueira. Entraram sem serem notadas e pode ouvir sua mãe chegando até seu pai.
- Ela desligou o telefone! Não fui eu! - e riu quando disse - ela disse que queria almoçar aqui.... com uma namorada. - o coração de Sam disparou quando ouviu isto, aguçou o ouvido pra ouvir a reação.
- Pobrezinha, nunca deve ver um churrasco como este por lá. Então ela está namorando é, aposto que é a do meio.
- É, deve ser a Lupe mesmo, eu lembro dela esticando os olhos pra Laura, bonita espanhola, e a Laura não parecia indiferente pra ela não!
Laura levou um beliscão que nem a pegou tão de surpresa... não tinha previsto que o assunto iria chegar neste ponto tão delicado. De qualquer forma, seria melhor parar por ali, antes que piorasse.
- E então, tem comida suficiente pra mais duas? - não ousou olhar pra cara de Sam, só a segurou pela mão para levá-la até seus pais.
- Sua... sem-vergonha! Não se faz isto com a mãe! - a mãe de Laura, uns 10cm mais baixa que a filha, se jogou em seus pescoço.
- Sai, dá espaço... dá um abraço no pai careca, filha! Ai, que saudade.
- Tia! Bagunça! - e logo, tanto o pai quanto a mãe foram substituídos pelos pestinhas, encharcados, que tinham pulado nos braços da tia.
A mãe de Laura estava olhando para Sam, sem entender bem. A moça não parecia espanhola, e Laura tinha falado em namorada, logo era a tal namorada.
- Oi filha, seja bem-vinda! Meu nome é Letícia Cruz Sanches. Você fala português?
- Muito prazer, dona Letícia. Samantha Figueiredo. Eu sou daqui mesmo.
- Ah...daqui? Está morando na Espanha também? Vem cá, Gilberto, conhecer a moça.
- Ah, deixa que eu apresento - Laura disse, assim que se soltou do abraço de sua irmã. - Esta é a Samantha, Sam... minha namorada - viu o rubor na face de Sam e quase se desconcentrou - ela é tímida, então não a deixem constrangida.
- Não precisa, maninha, você já fez isto - o irmão caçula de Laura, que estava bem mais alto que ela, a abraçou por trás, com sua mão esquerda, enquanto estendia a direita para a loirinha muito vermelha. - Lê, irmão e gênio da casa.
- Metido da casa, você quis dizer, não é? - deu um tapa na bunda dele, quando se adiantava para estender a mão - Muito prazer, sou Lídia, sua cunhada, meu marido, o Beto, e os pestinhas Marcos e Mateus, meus filhos.
- Mateus e Marcos mãe, desculpa ai moça, minha mãe confunde a gente. Você é lébisca que nem minha tia?
- Ah.... - Sam estava lilás e não sabia como responder, quando o outro irmão deu uma pedalada nele.
- Claro que é, né! Olha como ela é bonita, lembra que a gente tava falando que as gatas mais gatas se pegam?
- É! Tia nós contamos pros nossos amigos que nossa tia é lébisca e eles ficaram doidos pra te conhecer!
- Não é assim que se fala, moleque! É lésbica, repete com o tio...
ai, que foi, Lídia, o menino tá falando errado!
- Mãe, vou mostrar a casa pra Sam, já volto!
- Vai filha, que o sol ta fazendo mal pra ela. Eu já vou ai fazer companhia pra vocês. - falou, fazendo careta pros netos - Vocês dois pra piscina já, vão lá apagar este fogo!
- Nem olha pra mim, pai. Não faço idéia de com quem eles aprenderam estas coisas. - Lídia olhou do marido para o irmão, os dois arregalaram os olhos e voltaram para o que estavam fazendo - Embora suspeite.
A casa era grande, com grandes corredores, muito clara, com grandes janelas que, além de arejar ainda deixavam o ambiente iluminado a maior parte do dia. Móveis muito confortáveis, artesanatos espalhados, fotos em quadros, cadeiras de vime, redes, não era sofisticado, mas decididamente, um lar.
- Cuidado com as coisas que os meninos deixam pelo chão.
- Eles... fazem jus ao apelido...
Sam ainda estava vermelha, nunca tinha se definido como lésbica. Como sempre fazia, não pensava muito sobre as coisas. Já tinha ficado com mulheres antes e com homens. De quem gostava mais? Não saberia dizer, tentou olhar pra trás e viu Laura... atrás dela, os outros... e os outros eram os outros e só, ninguém fantástico, ninguém sobressaindo. Decidiu que era simplesmente "laurasexual".
- É tratamento de choque, vai ver, eles já quebraram todo o gelo que poderia ter. Vem cá, conhecer meu quarto. Nossa!
- Ai filha, eu vim atrás de você antes de você chegar aqui... então né, nós estamos reformando o quarto dos pes.. aff, até eu... dos moleques, mas ainda não está pronto. Eles estão ficando por aqui, mas não se preocupe que eu vou ajeitar...
- Não precisa, mãe. Eu estou na casa da Sam.
- Como assim na casa da Sam? Quando a senhora chegou dona Laura! - reconheceu aquele ar de culpa no rosto de sua filha - Não me diga que chegou e passou na casa dela antes de vir aqui!
- Ah, mãe.. deixei minha mala lá, tomei um banho... não queria chegar aqui cheirando mal.
Dona Letícia se aproximou da filha, cheirou perto dela e percebeu aromas misturados... com certeza ela tinha tomado banho, mas com certeza estava na cidade algumas horas antes de aparecer ali. E isto a deixava muito brava.
- Te contei, Sam, que espanhóis são muito ciumentos? - a morena agarrou sua mãe, a jogou na cama e dava beijinhos em seu rosto, fazendo cócegas. - Ah, que saudade deste sorriso da dona Letícia!
- É, da mãe, porque o pai nem chegou a ser apresentado pra... namorada, nem ganhou beijos, nem rolou na cama... só a mãe!
- Vem cá, meu espanhol ciumento e... quase careca! Que desastre fizeram no seu cabelo, bonitão! - Laura puxou seu pai pra cama e ficou fazendo carinho neles, deitada no meio de seus pais.
Sam estava sentada na banqueta da bancada, que os ‘pestinhas’ tinham personalizado para eles. Ainda tinha coisas que, certamente pertenciam a Laura, mas estavam misturadas com cadernos e livros semi destruídos, canetas, aviõezinhos, bonecos de luta, vídeo-game em uma bagunça indescritível.
- Olha Sam, o que fizeram na cabeleira do meu pai! - mostrou a linha que tinham cortado com máquina 0, abaixo das orelhas, em direção ao centro.
- Pai que se chama ... - mas foi interrompido pelo estouro da boiada.
- Amontoado! - gritaram os irmãos, se jogando sobre os três, na cama.
- Ai menino! Vocês estão molhados! Sai, ai, cócega de novo não, ai, peste!
Laura conseguiu escapar e ficou na torcida, ensinando aos sobrinhos os pontos fracos de sua mãe. Eles eram bem treinados, um orgulho estes moleques. Olhou para Sam, que estava analisando a situação.
- Quê? Eu não vejo eles faz quatro anos, não tenho nada com isto! - mas sua cara não parece ter convencido muito a loira. - Venham aqui pequenos anjinhos, vamos deixar o casalzinho namorando. Qual dos dois vai pegar uma água pra sua tia mais querida?
- O Mateus! Eu vou pegar pra Sam que é mais gata!
- Chamando a tia de .... qual é a palavra pra quem não é gata?
- Baranga - Sam ofereceu, rindo
- Baranga! Hehehehehe ... não é não, a tia é gata, mas é família, né... não pode pegar tia, né tio Lê?
- Não, está no manual do pegador, capítulo 1: "Parente e mulher de amigo é encrenca, mas não deixam de ser boas, principalmente primas e mulher de amigo"
- Olha só de onde saem as besteiras que passam na cabeça dos pirralhos! Tem vergonha não, Lê? - Laura falou, sentando no colo do seu irmão.
- Euuuu? Mas... eu to ajudando, tive que aprender tudo sozinho - deu uma piscadela cúmplice ao seu cunhado - estou evitando isto aos meus sobrinhos.
- Beto! Eu que saiba que você.... - respirou fundo e achou melhor incluir Sam na conversa - e aí, cunhada, você mora na Espanha também?
- Não, moro aqui mesmo...
- Mas vocês se conheceram lá? Ou você também faz estas doideiras e vai pra África?
- Não.... - Sam olhou para Laura, pedindo socorro - e eu não acho que a Laura é louca por ir pra África.
- Ahh, que bonitinha! Defendendo a namorada!
- A gente se conheceu por Internet, Lídia.
- Não diga! Naqueles programas de encontros? Sério mesmo?
- Não, Beto. Foi ... casualidade.... destino.
- Destino é mais romântico... mas .... peraí, vocês não se conheciam pessoalmente?
- Não.
- Laura! Desde quando você está na cidade?
Sam tinha percebido que este seria um assunto espinhoso, já tinha notado que a morena estava tentando fugir dele, mas agora tinha sido confrontada diretamente. Notou que dona Letícia estava se aproximando e imaginou que ela iria ficar magoada. Resolveu intervir.
- Nós já nos conhecíamos por web-cam, telefone, já estávamos.... err.. namorando mesmo. Ela deu uma passadinha pelo meu apartamento, mas foi rápido. - nem estava mentindo muito, sentia vontade de estar com Laura por toda a vida, então estes quatro dias poderiam ser resumidos em ‘passadinha’.
- Eu estou com fome! Alguém mais está? - a pergunta foi dirigida aos pequenos, que fizeram algazarra o suficiente pra tirar o foco dela. - Obrigada... - falou baixinho, para só a loirinha ouvir.
O almoço foi animado, tinham muitas perguntas para fazer para Laura. Ela tinha andado meio distante desde que voltou da última viagem para a África e só agora conseguiam entender o motivo. Sam logo estava no clima de brincadeira, sentada entre os meninos e de frente para Lê, tinha dificuldade em reconhecer o mais terrível.
Depois do almoço, foram todos até a grande área na frente da casa. Alguns deitaram na rede, outros se sentaram nas cadeiras de vime, Sam se sentou no chão, junto com os meninos que estavam mostrando pra ela um jogo de baralho. Laura estava sentada por perto, olhando, secando os lábios da loirinha. Ela é linda demais, que saudade desta boca. Como vivi tanto tempo sem te beijar? Que beijo, me deixa sem ar. Me tira do chão, faz sumir o tempo, me deixa sem noção de onde estou... E hoje... me enlouqueceu!
Despertou do devaneio com um violão balançando em sua frente.
- Agora você toca pra nós... não tem churrasco sem alguém cantando... e você sabe que é a titular, né maninha!
- A Laura canta?! - Sam perguntou, com puro ar de malandragem.
- E pelo jeito se dá bem cantando - respondeu Lídia mais matreira ainda.
- Eu não... cantei a Sam, eu chamei assim, ó - fez gesto e som de quem chama gatos. - e ela veio.
Trocaram um risonho olhar de compreensão. Laura pegou o violão e pensou em uma música que poderia traduzir sua vontade. Cantou olhando para Sam, vendo que ela enrubescia, mas não desviava o olhar. Pode ver no oceano verde, que o desejo era plenamente correspondido.
Kiss me
Kiss me out of the bearded barleyNightly, beside the green, green grassSwing, swing (swing, swing)Swing the spinning stepYou wear those shoes and I will wear that dressOh, kiss me beneath the milky twilightLead me out on the moonlit floorLift up your open handStrike up the band and make the fireflies danceSilver moon's sparklingSo kiss meKiss me (kiss me)Down by the broken tree houseSwing me (swing me)Upon it's hanging tireBring, bring (bring, bring)Bring your flowered hatWe'll take the trail marked on your father's mapOh, kiss me beneath the milky twilightLead me out on the moonlit floorLift your open handStrike up the band and make the fireflies danceSilver moon's sparklingSo kiss meKiss me beneath the milky twilightLead me out on the moonlit floorLift your open handStrike up the band and make the fireflies danceSilver moon's sparklingSo kiss meSo kiss me... (2x more
Beije-MeBeije-me longe da moita de cevadaTodas as noites junto à verde, verde gramaBalance, balance, balance o degrau giratórioUse aqueles sapatos e eu usarei aquele vestidoBeije-me sob o crepúsculo leitosoLeve-me para fora, no solo enluaradoLevante sua mão abertaToque uma música e faça os vagalumes dançaremA lua prateada está cintilanteEntão, beije-meBeije-me ao lado da casinha na árvore quebradaBalance-me alto no seu pneu penduradoTraga, traga, traga seu chapéu floridoNós tomaremos o caminho marcado no mapa do seu paiBeije-me sob o crepúsculo leitosoLeve-me para fora, no solo enluaradoLevante sua mão abertaToque uma música e faça os vagalumes dançaremA lua prateada está cintilanteEntão, beije-me
http://www.youtube.com/watch?v=tDU3Z_PAPS0
- Depois diz que não canta.... cantou e cantou bonito! Vamos jogar um pouquinho de misturobol? Dar uma esfriada no sangue, antes que vocês se atraquem aqui?
- Nossa! Quanto tempo eu não jogo isto, Lídia! Você colocou este jogo no programa da pousada?
- Coloquei! Faz o maior sucesso!
- Misturobol???? Eu não sei jogar isto não!
- Qualquer coisa que você saiba jogar, vale. A Laura te explica, enquanto eu e o Lê vamos montar a rede.
- É simples, é um jogo de vôlei de praia, mas você pode usar qualquer outro esporte, desde que grite antes qual esporte vai usar. Também não é recomendável boxe ou coisas assim.
- Deixa eu ver se entendi direito. Estou jogando vôlei, e posso chutar a bola se gritar "futebol", é isto?
- Exatamente! Você vai jogar com o meu irmão, que é pra eu poder ficar te olhando de frente.
- Laura... - Sam aproveitou enquanto os ‘cunhados’ estavam armando a rede e fez com que Laura parasse.
- Oi - puxada e sem impor muita resistência, ficou bem próxima.
Sam ergueu os pés e colou seus lábios aos da mulher mais alta, que aspirou profundamente e passou um braço pelas costas da pequena loira, a trazendo bem para perto de si, enquanto aproveitava o prazer daquele beijo. Mas Sam, colocou uma mão em seu colo, para aumentar a distância entre elas, colocou a língua entre os dentes e, com os olhos brilhando falou:
- A adversária está devidamente debilitada. - e saiu rindo, indo para o lado em que estava Lê.
- Lauraaaa! É pra hoje! Vai vir jogar ou vou ficar sozinha aqui? - Lídia estava em posição de sacar, esperando sua irmã que tinha ficado imóvel, de costas para a quadra.
- Ela não pode agora mamys! A Sam dopou ela. ... tia, tia, olha pra mim, você consegue tia! - os meninos, que não eram muito menores do que Sam, balançavam sua tia, que agora fingia estar em transe.
Laura brincou um pouco com os meninos, fingindo que estava despertando, depois correu atrás deles e colocou cada um em um time. O jogo era muito divertido e Sam, competitiva como sempre estava se empenhando, abusando da sedução com a ‘adversária’. Quando Lídia se preparou para receber uma bola, Laura ficou marcando Sam e, assim que a loirinha se preparou para fazer o levantamento, Laura gritou "rúgbi" e se jogou em cima de Sam, caiu por baixo dela, mas segurou muito forte... como em um jogo de rúgbi, ela soltou a bola pra Lídia, que correu com a bola no campo contrário, sendo seguida pelos meninos.
- Há horas estou esperando pra ficar assim com você! Aproveita que estão se matando pela bola e me dá um beijo, vai!
- Você sabe que é louca, não sabe? - mas não negou o beijo, estava sobre sua amada, sujas, suadas... porém, aqueles olhos, com tanto amor...
- Ah! Tá namorando! Ta namorando! Pega ela tia! Marcos, corre lá pegar a máquina; a gente vai ganhar uma grana com a foto!
- Que máquina o que! Seus paparazzi! Vou processar vocês! - Laura levantou da areia, olhando desconfiada pro lado de sua irmã - desculpa ai, foi um ...
- Uma vontade incontrolável.... bons tempos estes. Fica tranqüila, eles estão sendo educados para entender que é natural. O que não é natural é este nosso irmão ficar... empolgado ... Homens!
Algumas horas mais tarde, estavam voltando para casa. Tinham ficado para jantar, o pai de Laura, depois de várias tentativas, conseguiu dizer seu nome, Géo. Todo mundo ficou no pé dele até que disse o nome completo, Georvalino, não era algo de que se orgulhasse, ainda mais quando os pestinhas rolavam no chão pra rir. "Se continuarem a rir do seu avô, vou pedir pra sua mãe trocar o nome de vocês, um vai ser o Geo e o outro Orvalino. Vocês vão ver! " A chantagem tinha funcionado, os dois foram fazer agrados no avô. Durante todo o dia, as duas tinham arrumado motivos pra se ausentarem, iam buscar água na cozinha, iam ver um passarinho no quintal, o movimento na frente da casa. Tudo valia a pena por um segundinho de privacidade, um beijo, um carinho. A grande dificuldade foi convencer dona Letícia de que Laura não ficaria com eles. Ela ficou emburrada, fez chantagem, argumentou, mas não conseguiu convencer sua filha. No final, combinaram de elas aparecerem na pousada nos dias seguintes.
- Sam, o que foi? Por que este ar tão distante?
- Nada, querida.... - deu um suspiro profundo e olhou pela janela - eu já tinha me esquecido o que é ter uma família.
- Pois é bom aprender a conviver com uma - Laura respondeu de um tempo pensando - esta que você conheceu hoje, já é sua.
O celular de Laura tocou e no marcador, o nome de Lupe foi visto pelas duas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário