segunda-feira, 13 de outubro de 2008

@mor.com

Enfim consegui organizar os posts neste blog para que estivesse na ordem correta dos capítulos.

Ainda falta muita coisa para arrumar, há inúmeros assassinatos à pobre gramática, estética e bom senso.

Um dia ainda arrumo tudo. Se por acaso alguém quiser se aventurar, tome antes um suquinho de maracujá pra não se desesperar diante de tantos erros.

Um grande abraço,

Carla (duas das oito mãos)


Obs. Não sei como fiz isto, mas os capítulos 3 e 4 estão em lugares trocados... como já está tudo editado e não to com paciência, vai ficar assim por um bom tempo.

Capítulo 1

@MOR.COM
Eight Hands
Carla, Marcela, Rapha e Talissa

Fanfiction escrita por Carla, com apoio, correções, sugestões, xingamento, etc, de Rapha, Talissa e Marcela (Sem Toba).

Avisos:
- Há cenas de sexo explícito entre duas mulheres adultas. Se você é menor de 18 anos, ou por qualquer motivo não pode ler este tipo de material, é melhor procurar outra leitura.

-Este texto está protegido por direitos autorais e não infringe qualquer direito que os Studios USA/Renaissance detém sobre o seriado Xena, a Princesa Guerreira, pois não visa qualquer tipo de lucro com a publicação deste texto.

- É possível interagir com as personagens através do orkut delas, com link no texto.

Contato:
eight.hands@gmail.com, ou http://www.orkut.comProfile.aspx?uid=11551861240946617106




- O quê?! Eu ir lá no meio das desvairadas casamenteiras, me esbofetear por um buquê? Mas nem se você me oferecesse uma nota de cem reais, eu iria me permitir este vexame, Arthur. Estou fora! Quer circo? Arrume outra palhaça! – agora com um sorriso sarcástico e uma sobrancelha levantada, comentou. – No circo, sou no máximo a domadora de leões, mande uma fera pra mim que eu amanso rapidinho.

- Que é isto, Sam? Casamento não é tão ruim assim, você tem que ter esperança...

- Esperança? Não seja ridículo! Como se a idéia de me prender fosse algo desejável – isto a tinha mesmo irritado.

- ... esperança de achar alguém com quem você possa estar junto sem se sentir presa. Mania feia de me interromper, eu ia me sair bem! – Arthur estava entre zangado e divertido.

Eles se conheciam há muito tempo. Eram amigos de infância, uma das poucas pessoas a quem Samantha Figueiredo, permitia acesso à sua vida com alguma constância.

Ela tinha pavor de se sentir amarrada, condicionada. Não se prendia a amigos, emprego fixo e, nem mesmo de sua família era muito próxima. Por compreender esta natureza, Arthur conseguia se aproximar, deixava espaço para que ela o procurasse, e escolhesse os "quandos" e "ondes".

- E então, loira domadora, vamos ao menos assistir os peixinhos lutando pelo único pão que vai cair na água até o próximo casamento?

- Este tipo de espetáculo deprimente não me empolga nem um pouco. Se quiser, vá lá. Estou vendo vários de seus amigos babando com as apostas para ver qual delas vai ter o comportamento mais ridículo - levantando-se, completou. - Não se preocupe comigo, vou dar uma volta por ai, para ver se encontro algum peixe que, ao invés de um pão embolorado, prefira uma... refeição rápida e completa – deu uma piscadela para o amigo antes de se encaminhar para o salão interno, que não estava mais cheio como antes, já que muitos tinham ido ver a noiva jogar o buquê.

- Refeição rápida, completa e, principalmente, sem amanhã minha linda e amada amiga - encostou o copo no rosto antes de continuar resmungando. - Mais que muito amada, no entanto só amiga – Arthur bateu a cabeça na mesa, inconformado mais uma vez por ter se deixado cair na armadilha e ter se apaixonado por Sam.

Mantinha este sentimento em segredo, se declarar a ela era seria a senha para que nunca mais se vissem. E ele não queria isto, gostava da companhia dela, dos lugares que iam juntos, gostava do mundo iluminado que ela conhecia.

Sabia que assim que falasse em transformar a amizade em namoro ela se decepcionaria com ele, afinal ela não se permitia a paixão.

Para Sam, paixão, amor e seus derivados, são as maiores prisões. Pior que isto, eram correntes postas voluntariamente por pura estupidez, insensatez ou simples falta de ter o que fazer.

Os olhos verdes - anódinos para todos que cruzavam seu caminho - sabiam se encher de intensidade, diversão, brilho e safadeza quando lhe convinha, geralmente motivado por uma bela imagem, que sabia captar como poucos nas lentes de suas câmeras.

O ar de maturidade e independência, que seu rosto orgulhoso ostentava, moldado pelos cabelos loiros mantidos bem curtos, era realçado pelo corpo pequeno e atlético.

Seu temperamento difícil - tinha fama de ser uma pedra pontiaguda de gelo - não a impedia de conseguir bons trabalhos, pois era, na fotografia, uma verdadeira artista, com sensibilidade suficiente para captar poesia e beleza nos momentos.

Desde criança fora arredia, preferia observar à distância e quando entrava em uma brincadeira, era para ganhar, pois conhecia os pontos fracos e atacava-os sem perdão. As outras crianças aprenderam a temê-la e, por isto, isolá-la. Sua aparente indiferença ocultava a decepção e magoa que sentia.

Com o passar dos anos, sua aparência física desabrochou e ela passou a atrair olhares fascinados, de ambos os sexos e, depois de observá-los como sempre fez, escolhia quem queria, como queria, dava boa-noite e ia embora. Sem dor, sem compromisso, sem... amanhã.

Morava sozinha desde os dezoito anos, em um apartamento na beira da praia, em Recife. Na verdade, após a morte de sua mãe, quando Sam tinha sete anos, vivera praticamente só. O pai s entregara ao trabalho, não sabia de seus dons artístico e muito menos de sua dificuldade em se relacionar e seu irmão, onze anos mais velho, já frequentava a faculdade e seguia os passos do pai, inclusive literalmente. Já Sam, escolheu a fotografia. Com freqüência revivia a conversa com seu pai quando o informou de sua vocação.

- Você quer fazer o quê?
- Fotografia artística, pai.
- Isto não é carreira, é hobbie!
- Não é um trabalho chato, de escritório, mas é profissão sim!
- Samantha, há muito eu me conformei de te sustentar pelo resto da sua vida. Tudo o que eu fiz é para você e seu irmão mesmo... vá, faça o que você bem entender.
- Então o senhor está dizendo que vai me ajudar no começo – com os olhos semi-cerrados e pensamentos maquiavélicos borbulhando na cabeça, continuou. – Porque eu vou precisar de um estúdio, vou ter que morar nele para não correr nenhum risco de assalto ou coisa assim.

Seu pai ficou parado em pé, apoiando-se na cadeira, quando finalmente respondeu.

- Pode ficar com o apartamento na praia, ele iria mesmo ser seu. Vou garantir uma mesada que dê para seu sustento também. Se um dia colocar juízo nesta cabeça, me procure que eu te ajudo a entrar na faculdade de Direito.

Samantha ria quando se lembrava disto. Ela ganhava mais que o suficiente para se sustentar, mantendo um bom padrão de vida. Mas seu pai merecia uma lição, pela arrogância. O valor que ele dava a ela, era rigorosamente depositado em um banco. Um dia, renderia uma ótima viagem, ou quem sabe, uma mudança definitiva do país.

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- Minha casa! Minha casa! Minha casa! - Laura jogou suas malas no sofá e beijou o chão empoeirado de seu apartamento.

- Como eu sempre me meto nestas roubados e te abandono, casinha querida! Prometo nunca mais te trair assim – arregalou seus olhos azuis cansados e pensou por um instante. – Na verdade não prometo, mas ... Ah, eu te amo!

Estirada no chão de seu apartamento, agora tão empoeirada quanto ele, curtia o simples prazer de estar em casa após três meses de viagens pela África.

Fotografar cenas de guerra a exauriam completamente. Fazia fotos-reportagens como free-lance, para periódicos de respeito, sempre enfocando o lado humano e social e - embora fosse conhecida, premiada e respeitada por seu trabalho - nunca conseguiria se acostumar com a barbárie, tinha certeza disto.

Apesar de ser brasileira, Laura Sanches, desde que adotara a Espanha como lar há cinco anos, não conseguira voltar para o Brasil. Estava estrategicamente mais perto dos focos de guerra, alvo de seu trabalho, porém a saudade andava a atormentando.

A internet e suas maravilhosas ferramentas de comunicação apareciam como uma bóia de salvação a ela. Amava o Orkut e através dele conseguia não só manter contato com sua família e amigos, como também investigar suas conversas, seguir passos de seus namoros, sempre fazendo algum comentário divertido, jogando fogo... ou, em alguns casos, um pouco de água. Tinha reencontrado pessoas que achava que nunca mais teria notícias. Mantinha-se presente, mesmo na ausência.

Curtia o aconchego de seu apartamento, o silêncio e a paz que se jogar no sofá e ver um pouco de tv enquanto navegava na net lhe proporcionava. Entretanto, para seu desgosto, estar em casa era raridade, o mais comum era estar empoeirada e suando em bicas, com disparos de armas como trilha sonora.

Apesar da dualidade entre a paz que desejava e a guerra que a rodeava, sabia que não tinha muita escolha. Não saberia viver em mundo tão desigual sem tentar fazer uma pequena parte que fosse.

Desde pequena, observava as diferenças sociais com uma certa angústia. Morara, quando criança, em um bairro muito tranqüilo, de uma cidade nada tranqüila. Sua família tinha condições financeiras bem estáveis, mas não era esta a realidade de todos no bairro.

Bobagens do tipo cor, religião, profissão dos pais de seus amigos nunca passava por sua cabeça. Só sabia que gostava de brincar com Jussélia e seus irmãos. Às vezes, esticava a brincadeira e ficava para o jantar. Aprendeu a comer verduras e que carne não era o essencial para uma refeição ser chamada de boa. A comida de dona Anália era realmente fantástica, apesar de simples.

Quando entrou na escola, sentiu como se fosse na sua, a discriminação pela cor da pele de sua amiga. Doia em si a exclusão violenta dos que usavam uniformes de segunda mão, material cedido pelo governo, não moravam em belas casas ou qualquer outro tipo de diferença com a maioria.

Laura bem que tentava, mas não entendia o comportamento das pessoas. Quando era ela, Ju e mais alguém, brincavam pacificamente. Quando chegava mais um grupo de crianças, pronto, já começavam a atormentar sua amiga. Bem, eles tentavam, porque logo Laura começou a usar sua altura avantajada para impor respeito.

Quando fez nove anos, Laura ganhou o presente que iria mudar sua vida. Seu pai comprou uma câmera fotográfica, modelo infantil e disse que era para tirar fotos de coisas importantes, porque uma fotografia iria guardar o momento para sempre.

A máquina tinha vindo com filme, mas ela não saiu batendo fotos. Teve o seu bolo, a família reunida, mas nenhuma foto saiu daquela festa. Ela já sabia bem quais eram os momentos importantes.

Um dia, após a aula, entregou para seu pai o filme e pediu para que ele revelasse. As fotos eram da mesa simples onde estava toda a família da Jussélia em harmonia. Das brincadeiras na escola, quando eram grupos pequenos e, uma foto que o comoveu: em primeiro plano a amiga de sua filha com os olhos lacrimejantes e ao fundo algumas crianças com dedo apontado e rindo. Ele comparou as duas fotos e notou que eram as mesmas crianças da foto anterior.

Estas fotos foram apresentadas para a diretora da escola, foram expostas em reunião com pais e professores e conseguiu comover o suficiente para que fosse montado um projeto multidisciplinar para combater as formas de racismo e discriminação na escola. O projeto rendeu uma promoção para a diretora, o primeiro prêmio de Laura... e a felicidade e gratidão de Jussélia.

*****

Laura estava extasiada com seu dia de folga. Tinha acordado cedo, pelo hábito. Passou um tempo olhando pela janela que tinha deixado aberta, vendo a luminosidade invadir o quarto, os primeiros raios do Sol aquecendo seus pés. O livro que tinha lido até tarde ainda estava sobre a cama. Espreguiçou-se com preguiça de levantar. Ligou o som ao lado da cama e ficou lá um bom tempo, aproveitando as maravilhas de uma vida independente.

Levantou depois de ouvir algumas músicas que sempre a deixavam tranqüila e inspirada. Tomou seu banho, sentindo o prazer de deixar a água escorrer por seu corpo, em uma temperatura agradável, com as gotas iluminadas pela luz do dia que invadia seu banheiro. Os banhos eram sempre preciosos quando ela voltava destes lugares tão áridos.

Preparou seu café da manhã, como sempre fazia quando estava em casa, não gostava de sair para comer fora, pelo menos não de manhã. Arrumou a mesa: um copo de suco, uma xícara de café, um prato com um pão recheado com um ovo mexido.

Normalmente ela levantaria e iria correr, mas o dia de outono já estava frio e ela tinha muita poeira para derrotar em seu apartamento. Realmente não gostava do serviço caseiro, mas não era do tipo que fugia de desafios e, afinal, era sua casa.

Algumas horas mais tarde, ligeiramente cansada, mas plenamente satisfeita consigo mesma e com a casa e roupas limpas, se deu o prazer de se jogar no sofá e esticar as pernas, com o notebook à bordo.

Era sexta-feira e no Brasil deveriam ser umas duas horas da tarde. A maior parte de seus contatos ou estava offline, ou estavam ocupados. "Todos trabalhando e eu... folga, folga, folga!"

Deixou seu MSN ligado, mas ficou no status offline, sabia que se ficasse online iria ter que conversar com pessoas que não estava interessada no momento, tendo que contar uma história que iria se repetir vários outras vezes. Decidiu que quando a maioria de seus contatos estivessem online, juntaria todos e falaria de uma vez. Realmente não gostava de ficar falando de suas viagens, não quando era este tipo de viagem, não quando os horrores da guerra ainda estavam impregnados na sua mente.

Conferiu seus e-mails, deletou dezenas de mensagens que ela não entendia como ficavam mandando, será que achavam que alguém realmente leria tudo aquilo? Riu de algumas mensagens. Meu Deus, depilar realmente é tudo isto! Depois, caixa de entrada limpa, foi conferir seu Orkut. Alguns scraps para responder, alguns amigos de colégio e faculdade que a tinham adicionado. Respondeu a todos, conferiu o perfil de seus amigos que tinha acabado de aceitar e foi ver as comunidades. Notou que algumas estavam a cada dia mais paradas. É, as pessoas mudam rápido de hábito, eu gostava de ver estes barracos no Barraco, nem o Divã com a Rapha tem se movimentado, ainda bem que o Fator está um caldeirão borbulhante, agora vamos ver as comus de fotografia...Hum, olha só, esta eu não conhecia... Fotógrafas Sexys... por Zeus, vamos conferir se elas são tudo isto mesmo.

Empolgada com a comunidade descoberta, Laura entrou nos tópicos para ler os comentários e, obviavemente, para olhar as fotos das que se diziam sexys. Em um dos tópicos, uma moça que era bonita, apesar de não ser seu tipo, comentava que aquela comunidade era absurda, porque uma mulher só ficaria atrás de uma câmera se não tivesse beleza o suficiente para ficar à frente dela. Laura ergueu uma sobrancelha e deu um meio sorriso quando leu isto. O comentário a seguir, de uma figura que usava a foto do Garfield e se chamava Sam, respondeu que o requisito principal para estar atrás da câmera era cérebro, o que evidentemente faltava em grande parte das pessoas que ficavam à frente delas. O troco cortante, fez com que Laura risse muito.

Foi pesquisar o perfil de ambas. A primeira, tinha um álbum recheado de fotos de pretensa modelo. "Mais uma deslumbrada com este mundo de fantasia". Já o da segunda, despertou toda a atenção de Laura. A começar pelo álbum. Fotos lindas, momentos do cotidiano capturados em seu momento mais mágico, aquelas fotos, tão simples, mas tão inspiradas e eloqüentes, fizeram com que Laura sentisse uma emoção estranha, um aperto de solidão amargo, que a fez, pela primeira vez que chegou, ter vontade de ligar para sua família.

Enquanto falava com seus pais, continuou mexendo no perfil de Sam, olhando suas comunidades. Notou que tinham muito em comum, gostavam do mesmo estilo de livros, filmes, música, de morar sozinhas... O perfil pessoal era muito engraçado. Sam gostava de luz de velas, depois comentou que pra ficar perfeita a noite, a pessoa tinha que apagar as velas quando fosse embora.

Decididamente, aquele gato amarelo era uma pessoa interessante. Procurou o e-mail e, para sua satisfação, ele estava disponível. Adicionou no MSN e ficou esperando que ela aceitasse, apesar de ser uma desconhecida. "Ela não vai aceitar. Quem aceita desconhecidos?" pensou fazendo um biquinho, mas ao continuar sua pesquisa deu um sorriso. "Quem está em uma comunidade chamada 'Sou mais curiosa que cuidadosa' . É, existe uma possibilidade".

Quando percebeu que seu convite foi aceito, Laura riu alto.

- Esta Sam Garfield é mesmo curiosa! - falou para si mesma, ainda rindo.

Bloqueou os outros contatos e ficou online. Imediatamente viu abrir uma janela de conversação.

Sam: Oi, vc me add aqui... eu te conheço?
Laura: Não, mas eu gostaria de trocar uma idéia com vc, se não for incômodo, é claro.
Sam: Hum! Vc está querendo me incomodar, é?
Laura: Uau... vamos direto ao ponto!
Sam: Brincadeira, desculpa! O que vc quer falar comigo?
Laura: Estava vendo seu perfil no Orkut, temos alguns interesses em comum...Além de sermos da mesma cidade.
Sam: Ah! Vc tb investigou o meu orkut! Que abusada!
Laura: É público u.u"
Sam: Como foi que vc chegou lá? Alguma comunidade da cidade?
Laura: Não...
Sam: ?
Laura: uma comunidade que me deu curiosidade para pesquisar os membros...
Sam: ??
Laura: Fotógrafas Sexys... Fui conferir se eram mesmo.
Sam: NÃO ACREDITO! Eu só entrei nesta comunidade para discutir por um comentário que achei muito insano, esqueci de sair dela depois!
Laura: Eu vi seu comentário lá, ri muito dele.
Sam: Hum...
Laura: O que foi?
Sam: Vc veio falar comigo pq estou naquela comunidade, logo...
Laura: Logo quer saber se achei que vc é mesmo sexy?
Sam: :/
Laura: Vc não é? Puxa! Sabia que aquela foto sua no orkut era muito gata pra ser verdade
Sam: Foto? Eu uso a imagem do Garfield!
Laura: Muito gato então, desculpa. Sempre tive dificuldades em descobrir o sexo dos animais u.u
Sam: Hei, mas ele é famoso
Laura: Vc se identifica com ele?
Sam: ¬¬¬ Quer saber pq? Isto está soando como um convite para comer lasanha!
Laura: Com vinho!!! :)
Sam: Ok! Aceito, só que eu não vou lavar a louça depois
Laura: é, tenho que concordar, afinal, cheiro de detergente tira um pouco o clima da dança, depois do jantar.
Sam: Uau! Seu cenário tem luz de velas, tb?
Laura: Ah, sim! Vi que isto está no seu perfil. E é uma das coisas q temos em comum
Sam: Isto não é justo! Vc me investigou e estou em desvantagem aqui... :X
Laura: Não precisa chorar, bebê! Toma o link para vc se divertir também
Laura: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=15148617871771162184
Sam: \o/ Vamos ver quem é a investigadora misteriosa...
Sam: Hum, bela foto! Pena que SEJA A FOTO DA LUCY LAWLESS
Laura: Até vc acha isto? Alguns amigos comentaram que me pareço com ela, mas eu não acho. Ela é loira e eu ...bem, eu sou inteligente
Sam: PALHAÇA! Eu sou loira ¬¬¬
Laura: Tudo bem, eu tenho paciência pra te ensinar as coisas do céu, terra, água e o mar
Sam: Vou ignorar seu comentário besta. Está parecendo foto de modelo...
Laura: não... na verdade é de uma fotógrafa.
Sam: sexy???
Laura: Vc achou? :)
Sam: Achei o que criatura?
Laura: A fotógrafa, vc achou sexy? :)
Sam: Hum.... eu comeria lasanha com ela
Laura: É só marcar o dia então
Sam: Nem vem!
Sam: eu ainda não acredito que seja vc
Laura: Não, não... eu uso esta foto na Internet, mas, na verdade, sou uma mulher de 40 anos, 120 Kg e desdentada.
Sam: Vc deveria escovar os dentes... após as 10 refeições que deve fazer pra manter seus 120Kg.
Laura: Eu passaria o dia só comendo e escovando os dentes O.o
Sam: Hei
Sam: Vc tem algumas fotos no seu álbum que eu reconheço...
Sam: são da Laura Sanches, ela ganhou alguns prêmios com estas fotos.
Laura: É, mas as pessoas retratadas não sofreram menos por isto. :/
Sam: O trabalho dela é importante. Ela divulga situações que as pessoas não querem ver, porque é mais fácil fechar os olhos.
Laura: As pessoas retratadas não sofreram menos por isto....
Sam: Mas outras pessoas deixaram de sofrer. Ouvi dizer que depois que esta matéria foi publicada, foram enviadas tropas de paz para lá
Laura: Eu sei, mas sinto que talvez tivesse ajudado mais indo ajudar ao invés de parar para tirar as fotos.
Sam: ...?
Laura: ...??
Laura: O que foi??
Sam: VOCÊ É LAURA SANCHES??
Laura: Vc não tinha visto meu nome no perfil?
Sam: Sim, mas.... Por acaso vc acha que eu sou mesmo o Garfield??
Laura: hauhauahuahuah
Laura: Tudo bem, vamos começar do começo... Muito prazer, eu sou Laura
Sam: Com prazer é mais caro... Laura Sanches
Laura: Eu ganhei um prêmio aí, estou meio abonada.
Sam: ... eu não preciso me apresentar. Vc sabe quem eu sou
Laura: Vc é a Sam, que gosta de lasanha e luz de velas, mora em Recife, usa piercing no umbigo, mora sozinha com muito prazer, não gosta de lavar louça, gosta de MPB e ... é fotografa
Sam: sexy, não se esqueça
Laura: puxa, que cabeça a minha! >_< style="color: rgb(51, 51, 153);">Sam: não poderia deixar passar um detalhe importante destes
Sam: Bem... Meu nome é Samantha Figueiredo... mas pode me chamar só de Sam, mesmo
Laura: Gosto disto, digitar menos letras evita LER.
Sam: vc tb é...
Laura: ...?
Sam: fotógrafa...
Laura: Ah, não me achou sexy, não?
Sam: cof.... muito. Tenho que sair.
Laura: Vai sair na melhor parte da conversa?
Sam: É, marquei com uns amigos pra ir num barzinho na praia.
Laura: Saudade deste clima bom daí...
Laura: barzinho na praia é tudo de bom com o calor daí.
Sam: É sim, é um lugar legal também, de umas amigas. É gls, tem videokê, muita gente boa
Laura: Do tipo boa gente? ;)
Sam: Do tipo gente boa.. boa pra caçar.
Laura: :P
Laura: Estou te atrasando. Boa caça, não esquece de salgar para guardar, nunca se sabe do dia de amanhã.
Sam: Não se preocupe, eu tenho uma agenda, opa, uma despensa cheia.
Laura: Boa noite, então
Sam: Boa noite pra vc tb. Divirta-se.

"É, vou me divertir... na cama... by myself". Ficou pensando que isto na verdade não a incomodava. Ou melhor, costumava não incomodar.

De repente, achou sua cama muito grande, muito fria. Achou que a idéia de dormir e acordar sozinha, sem ninguém para reclamar da luz acesa até tarde, ou da janela aberta, já não era um alívio tão grande. E, se levantar para preparar seu próprio café... fazer café da manhã para ela mesma.... Notou que uma ou duas lágrimas corriam pelo seu rosto e nem quis parar para pensar no motivo, tentou afastar os pensamentos, todos eles e só se concentrar em sua tentativa de dormir... sozinha.



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Capítulo 2

Sam encontrou com Arthur na porta de seu prédio e foi logo pulando no pescoço dele.

- Cara! Você não acredita com quem eu estava falando!
- Considerando sua animação deve ter sido com o Brad Pitt...- ele pareceu considerar por um segundo - ou com a Angelina Jolie, talvez.
- Oxe! E eu lá sou tiete deles? Ta me estranhando, cabeção? – deu uma pedalada em seu amigo, de baixo para cima, pois seu 1,63m não permitia muita coisa com ele em pé.
- Vamos lá, sou péssimo para adivinhações.
- Tcharan! Com Laura Sanches! – ela falou saltitando, de frente para ele, com as duas mãos fechadas sobre a boca.

Arthur ficou olhando para ela, achando que nunca a tinha visto tão bela. Com certeza, nunca tão entusiasmada.

- Suponho que eu deveria saber quem é, não é mesmo?
- Aff! Em que planeta você vive, cabeção?! Laura Sanches é uma fotógrafa suuuuuuper famosa. Ela tem uma das coleções mais invejáveis de prêmios que um fotógrafo de respeito pode desejar. Sou super fã dela!
- Que legal! Ela te ligou para algum trabalho?
- Na verdade não, nós conversamos por MSN, mesmo. E não, não era sobre trabalho

Ele agora parecia realmente interessado em saber mais, o que, pela primeira vez com Sam, não parecia ser algo difícil de conseguir.

- E então, como foi a conversa com sua ‘ídola’?
- Ah, Arthur, ela é uma profissional que admiro muito, mas nunca fui do tipo tiete, sabe? Nem tinha reparado bem em como ela era. Sempre reparei muito nas fotos que ela tirou, talvez por isto não tenha prestado atenção nela mesma, antes.
- Está dizendo que agora prestou?
- É, estou...prestei atenção em uma foto no orkut, porque aquela palhaça colocou uma foto do Garfield no MSN.
- Você também usa.
- Pois é, ela colocou para tirar sarro de mim!
- Ah é? Mas ela colocou durante a conversa ou antes?
- Quando entrou já estava assim, por quê?
- Ela entrou só para falar com você, então.

Sam parou para considerar sobre isto. Iria perguntar para Laura na próxima conversa. Ficou animada novamente, contou para Arthur durante o trajeto à pé, até o bar, quase toda a conversa.

Quando chegaram, estavam rindo das brincadeiras que haviam feito sobre “fotógrafa sexy”. Sam notou que os amigos de Arthur pararam de rir quando os viram, assumindo uma postura mais rija na cadeira. Ela sabia muito bem o motivo disto. Não costumava deixar passar uma oportunidade para ser sarcástica e enfiar o dedo na ferida alheia. Não era a toa que os amigos de Arthur sempre perguntavam a ele se ela estaria junto, quando marcavam alguma coisa.

Só que Sam não estava com instinto destruidor nesta noite. Sentia-se animada, tinha tirado algumas fotos muito boas de manhã, tinha se divertido com a conversa... ela tinha falado com Laura Sanches!

Sentou-se à mesa ainda rindo. Olhou para eles e disse:

- Calma povo! Eu não mordo... a não ser se for pizza! Estou morrendo de fome, já pediram?
- Ainda não, estávamos esperando vocês, a gente pediu uma porção de frios para esperar, pode ser? – Andréa falou passando a travessa para o outro lado da mesa, sua voz parecia um tanto receosa. Ver Sam brincando não era algo muito comum. Não sem ter alguém chorando, pelo menos.

Apesar do clima inicial permanecer tenso por mais alguns minutos, logo estavam todos se divertindo com os causos que Virna, a namorada de Andréa estava contando.

Conforme as rodadas de bebida iam se sucedendo, mais pessoas adquiriam coragem para subir ao palco e soltar a voz... alguns para deleite dos ouvintes, outros para a saudável destilação de veneno, mesmo. Logo, o pessoal da mesa de Sam começou a pedir para que ela fosse cantar. Um olhar que faria congelar toda água do oceano, foi eloqüente o suficiente para que mudassem o alvo da brincadeira. É, não deveriam abusar da sorte. Ainda mais que a noite estava se saindo surpreendentemente boa.

******

Laura teve dificuldade de dormir quase a noite toda. Ficou pensando em seu estilo de vida, ficou pensando em Garfield, e em seu trabalho (afastava este pensamento como se fosse uma mosca), pensava que gostaria de ter um rosto para pensar em Sam...

Acordou ouvindo barulhos abafados na porta da frente de seu apartamento. Ficou deitada, rindo, esperando. Logo, ouviu a porta se abrir e uma sucessão de “psius” e “shhh” que fariam acordar uma múmia. Levantou da cama e foi esperar na parede, ao lado da porta. Logo, a porta se abriu com violência e três garotas entraram correndo e pularam na cama. Laura foi logo atrás delas, se jogando sobre suas invasoras.

- Ai! Isto não vale! – gritou Lupe, tentando achar uma brecha para escapar
- Socorro! Tão me amassando! - Su não conseguiria sair dali, tinha muita gente sobre ela, o máximo que podia fazer era tentar espernear.
- Peste! Nunca dá pra te enganar, não é? – por fim, Dana, a mais velha e mais forte das três irmãs Martinez, resmungou com falsa irritação.
- Iam pular em cima de mim? Eu gosto mais de ficar por cima, baby! – Laura falou já se arrependendo, quando reparou no imenso subtexto, que a frase continha... não, isto é supertexto mesmo. – E aí, vão se render ou querem que eu role mais um pouquinho aqui em cima?

- NÃO!!!! Desce daí sua ...vaca!
- Sua o que? Não ouvi direito! – Laura deu um pulo sobre elas.
- Sua forte, invencível e poderosa ! – responderam as irmãs, entre risos e gemidos.
- E linda – emendou Lupe, ela não deixaria passar a chance.

Laura saiu de cima das amigas, já sabendo que seria alvo de uma guerra de travesseiros. Era sempre assim, sempre que chegava suas vizinhas vinham dar as “boas vindas”, contar a ela todas as (poucas) novidades da cidade e depois, saiam juntas para um jogo de vôlei de praia. Elas estavam viajando no dia anterior, por isto só notaram a presença de Laura no dia seguinte. Tinham, por segurança, uma cópia da chave do apartamento da amiga. A mãe delas, dona Carmem fazia imensos discursos sobre os perigos de uma moça morar sozinha. Ela achava graça, mas era bom encontrar este afeto materno assim tão perto.

Dana, a filha mais velha de dona Carmen, tinha a mesma idade que Laura, Su, a caçula tinha 24 e Lupe, 27. Lupe, desde que ela se mudara ali, tinha ficado interessada nela. Laura fingia não perceber, porque, apesar de ser uma espanhola muito, muito sensual, não despertara paixão nela. E não iria se arriscar a perder as valiosas amizades só por aventura. Mas só Deus sabe o quanto era difícil resistir às investidas daquela belíssima mulher, de pele e cabelos castanhos, com mais curvas que a estrada de Santos, ainda mais depois de tanto tempo que ela não ficava com ninguém.

Laura foi praticamente arrastada para um almoço na casa de suas vizinhas, depois, saíram para aproveitar o dia mais quente que o normal, para um joguinho de vôlei na praia. Ficaram a tarde toda jogando e depois esticaram até uma lanchonete para beber uma cerveja e rir dos tombos que se deram na partida.

Chegou em casa tarde da noite e tudo o que conseguiu fazer foi tomar um belo banho e tirar a areia que parecia estar por todos os cantos de seu corpo, queria conferir seu orkut, ver se Sam tinha respondido seu scrap. Ela tinha feito uma pergunta e Sam saiu pela tangente. Perguntou o motivo dela estar entusiasmada na noite anterior, quando havia saído com seus amigos, mas Sam só respondeu que... que não responderia! No entanto, estava mesmo muito cansada, deixou para o dia seguinte.

Laura se acomodou no sofá para conferir seus recados. Viu que Sam tinha deixado um scrap, pedindo para conversar à tarde. Olhou seu relógio e notou que já estava muito atrasada, mesmo assim, resolveu tentar.



Laura: Bom noite, Sam
Sam: Boa !
Sam: pq vc perguntou se eu estava rouca?
Laura: porque vc foi cantar ontem
Laura: em cima do muro...pra lua
Sam: palhaça!
Sam: pagar micos não é o meu forte.
Laura: ah não?
Laura: que tipo de bicho vc gosta de pagar?
Sam: kkkkkkk
Sam: Sereias.... leões
Laura: Leoas não?
Sam: Hum... Para falar a verdade, eu pego o que é mais prático para cozinhar...
Laura: :o
Sam: vou ter que explicar isto?
Laura: vai sim, quero ler isto por extenso.
Sam: Ai, ai... Lá vai, então. Eu não corro atrás de ninguém, não vale o esforço, geralmente. Se noto que tem alguém interessado em mim e se acho que vale a pena dar alguns minutos do meu tempo, então, deixo rolar
Laura: sem dó nem piedade
Sam: é, simples assim
Laura: vc nunca se apaixonou?
Sam: eu??
Laura: não, o gato com quem eu to conversando
Laura: por fala nisto...
Laura: vc não pode por uma foto aí?
Laura: é difícil continuar falando com um gato
Sam: vc tem certeza que quer fazer isto?
Sam: eu não posso garantir sua paz de espírito depois
Laura: :/
Laura: vc colocou foto da Renée O'Connor!
Sam: está louca??
Sam: eu sou muito mais jovem! E incrivelmente mais sexy! =]
Laura: Hum! É vc mesmo?
Sam: claro
Laura: Ai, meu Deus! :o
Laura: vc sabe o q isso significa?
Sam: que eu sou linda e carismática? ;-)
Laura: não!
Laura: quer dizer, é, mas não é isto! Nós estamos fadadas a nos apaixonar!
Sam: O.o
Sam: Coitada, enlouqueceu!
Laura: nunca leu fics?
Laura: a sósia da Lucy e a sósia da ROC sempre se apaixonam!
Sam: kkkkkkkkkkk
Sam: vc tem cada uma, Laura! Eu não me acho parecida com a ROC ...
Laura: agora não vai ter como fugir, Sam. A nossa sorte é que as fics têm finais felizes!
Sam: Cara!Já levei muita cantada, mas esta sua, por Zeus!
Laura: convencidaaaaaa
Sam: nem! Vc está ai falando de, se eu entendo o subtexto, de almas gêmeas!
Laura: e não tente me enganar, vc ainda não respondeu minha pergunta!
Sam: :o
Sam: nem lembro qual era
Laura: vc já se apaixonou?
Sam: não, nunca. Por que, deveria?
Laura: sim, é bom
Sam: isto significa que vc já passou por isto...
Laura: não é ruim, Sam. Vc fala como se fosse algo... nocivo!
Sam: é mais que nocivo é ... irracional!
Sam: pq, em sã consciência, alguém coloca seus melhores sentimentos nas mãos de outra pessoa?
Laura: não acho que, quando a pessoa certa aparecer, vc vá ter opção
Sam: como saber quem é a pessoa certa?
Laura: quando vc se sentir em casa, quando sentir que encontrou um lar e não precisa mais procurar por nada... ai vc achou o amor
Sam: poético isto, mas a vida não é poesia, a verdade é muito dura
Sam: "não importa o quanto vc se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam"
Laura: alguém te machucou
Sam: não.
Sam: bem... talvez
Sam: mas não assim deste jeito
Laura: de que jeito então, Sam?
Sam: é uma história boba
Sam: boba demais pra tomar seu tempo
Laura: estou de férias e...
Laura: Pronto! Já estiquei as pernas, pode ficar a vontade
Sam: eu nunca falei sobre isto com ninguém
Laura: eu não tenho nada contra a exclusividade
Sam: hum....
Sam: tudo bem, mas se ficar entediada não diga que não avisei e eu sei bem que é idiotice minha.
Laura: eu já paguei pelas fichas, minha cara...
Sam: bem, eu tinha um cachorro quando era criança, me lembro dele desde... desde sempre
Laura: Ah é? E como era o nome dele?
Sam: Ralf, era um labrador, muito manso, muito meu amigo
Laura: labrador? era maior que vc então
Sam: Argh! >.<
Sam: Pior que é verdade, ele era sim e ele era meu cavalo, meu travesseiro, meu gira-gira
Sam: amava o Ralf, e ele tb me amava
Laura: hum...
Sam: ele me defendia quando achava que eu estava em perigo, não fui uma criança que namorou... e a culpa era dele. Um dia, meu irmão arrumou briga na rua
Sam: eu fiquei batendo no menino com a minha bolsa para ele parar de bater no meu irmão e ele levantou e me tirou do chão, o Ralf viu e veio na disparada para me defender e ...
Sam: bem, ele foi atropelado, coitadinho
Sam: mainha veio correndo para fora, o menino me soltou, meu irmão ficou na minha frente, não queria me deixar passar, ela chegou até mim e me abraçou, só ela conseguiu me acalmar
Sam: acho que nunca chorei tanto, no colo da minha mãe, sentindo o calor do abraço dela ...
Sam: consigo me lembrar até hoje do som da respiração dela, daquele calor... e dela me dizendo para ficar tranquila, pq ela estava lá.... ela estaria sempre lá
Sam: eu disse que o Ralf me amava e foi embora
Sam: e ela me disse que me amava mais... e nunca me deixaria
Laura: sua mãe morreu, Sam?
Sam: alguns meses depois do Ralf, eu tinha sete anos e não conseguia entender muita coisa. Só sabia que a ausência de Ralf me doía e que eu não queria que minha mãe ficasse longe de mim, ainda mais para sempre
Sam: Ela morreu depois de me dizer que eu poderia ficar tranqüila que ela estaria sempre ao meu lado...
Laura: vc acha q ela te traiu?
Sam: eu sei que isto é irracional, Laura, te disse que era idiotice minha, sei que as pessoas não morrem porque querem
Sam: mas é assim que eu sinto. Acreditei e não consegui... eu não consegui perdoar ela por isto
Sam: por ter ido... acreditei tanto que ela estaria mesmo pra sempre
Sam: aprendi que não devo confiar, que NINGUÉM merece confiança, as pessoas prometem coisas que não podem cumprir.
Laura: Sam, vc não pode assumir esta postura
Laura: está tornando sua vida muito amarga
Laura: como se relaciona com amigos, se não confia nas pessoas?
Sam: não preciso de ninguém, aprendi a viver sozinha
Laura: hum, de gato para guerreira-poetisa, para ilha, que metamorfose!
Sam: e você continua sendo a palhaça! Nunca fala a sério, Laura?
Laura: falo sim, Sam, só queria te aliviar um pouco
Sam: eu tenho um amigo, o Arthur
Laura: e ele te 'arthura' mesmo não confiando nele?
Sam: eu sou uma boa companhia, está bem! A gente sai junto, ele tem um grupo de amigos que me aceita na boa e pra mim está bom
Laura: está bem... sem grandes envolvimentos, pelo jeito
Sam: Laura... eu me sinto mais segura desta forma
Laura: pq?
Sam: pq ninguém se aproxima o suficiente para me machucar
Laura: vc faz todo o trabalho sozinha, não é mesmo?
Sam: vou me poupar de comentários sobre isto...
Sam: E vc, espertinha? Vc já se apaixonou?
Laura: mudança estratégica de assunto... vou fingir que não percebi
Sam: esta coisa de se sentir em casa e tals?
Laura: já sim
Laura: Bem, quer dizer, não exatamente assim. Mas já gostei de algumas garotas
Sam: teve alguma que vc pudesse dizer "mas depois de vc as outras são os outras?"
Laura: pois é! esta ainda não apareceu!
Sam: não perca as esperanças
Laura: não perco, ainda vou achar meu lar ambulante por aí
Laura: já viajei o mundo inteiro tentando encontrar, uma hora consigo
Sam: vou comprar uma lupa no Natal para você!
Laura: A conversa está boa, mas preciso ir dormir, agora, este jogo de ontem foi cansativo, se é que me entende. ;)
Sam: p-a-l-h-a-ç-a
Sam: já até sei pq vc gosta de vôlei de praia!
Laura: Hum, nem me fale! Biquines, suor, areia entrando, mãos tirando a areia... ai delícia!
Sam: Laura, vc tem noção que é MUITO sem-vergonha?
Laura: tenho muitas habilidades!
Sam: e ainda acha bonito ser feia!
Laura: Sam, vc é muito bicuda!
Sam: não sou, não! Vc que é safada!
Sam: e agora, vá dormir, pq está muito cansada
Sam: ficou jogando ontem a tarde toda, depois foi beber cerveja... E hj, só Deus sabe o que você aprontou.
Laura: é, já vou mesmo, foi bom ver sua foto. Assim não vou ter pesadelos com gatos preguiçosos tentando invadir a minha cama
Sam: pretenciosa...
Sam: boa noite, Laura

A MENSAGEM “boa noite, Laura” NÃO PODE SER ENTREGUE AO DESTINATÁRIO


****

Sam meditava sobre a conversa que acabara de ter. Sempre se negara a falar sobre sua mãe. Na medida do possível, negava-se até mesmo pensar sobre o assunto.

Não conseguia entender porque falara disto com uma pessoa praticamente desconhecida. Mas talvez, exatamente por ser uma desconhecida que conseguira, concluiu.

Outro ponto que a intrigara era o assunto ter vindo à tona quando foi perguntada sobre não confiar nas pessoas. Jamais imaginara ser este o motivo. Ou teria sido só uma desculpa para não dizer que era totalmente imotivado?

Com grande esforço, fez o movimento contrário ao que sempre fazia.

Desta vez se forçou-se a permanecer no momento daquele abraço, da sensação de conforto e segurança que sentira. Lembrou-se de quanto amor sentiu por sua mãe, e como isto a fazia sentir-se aquecida por completo.

Logo em seguida, a imagem de seu pai chorando agarrado ao caixão, seu irmão sentado em um canto, com sua tia abraçando-o e ela tentando entender porque sua mãe não parava com aquela brincadeira sem graça.

Aquilo só poderia ser uma brincadeira. Ela tinha prometeu que ficaria para sempre ali. Sam não aceitou ninguém por perto, olhou para sua mãe o tempo todo, desafiando-a mentalmente, querendo ver até quando duraria a farsa. Na hora de fechar o caixão, bateu nos agentes funerários, chutou, gritou com eles “então não viam que era só uma brincadeira?”.

Mas não teve jeito. Sua tia explicou que “mamãe estava muito cansada, com muita dor e agora estava descansando, mas que estaria sempre ali, com ela”. Sam chamou sua tia de mentirosa, sua mãe não se cansava. Nunca! E também não estaria mais ali, sabia disto agora, pois se ela estivesse, nunca deixaria seu irmão com o nariz escorrendo como estava agora. Não... ela não voltaria mais. Era tudo uma mentira. Só era verdade a dor e a solidão.

Sam virou-se na cama e chorou, como não fazia desde aquela noite em que perdeu a fé nas pessoas. Chorou tanto, que acabou dormindo de cansaço. Mas não antes de falar em voz alta: “mãe, eu sinto tanta falta de você!”


***
Ao mesmo tempo, mas em espaço tão distinto, Laura deitou-se pensando em quanta mágoa pode se esconder em um semblante sério. Imaginou o quanto aquela loirinha bicuda deveria estar sofrendo neste exato momento. Sozinha, em um mundo só seu.

Sam não era mais que uma garotinha que se viu sozinha e teve medo do mundo. Sentiu uma grande vontade de abraçá-la neste momento e de poder aliviar sua dor. Podia imaginar que ela estaria chorando....

Desejava poder ajudá-la a descobrir o mundo que só parecia ver através da lente de sua câmera. Laura pensou sobre isto. As fotos de Sam capturavam muita beleza. Muita solidão, mas também muita beleza.

Tinha a impressão é que ela não estava muito longe de conseguir vir ao mundo dos sentimentos. "Quem sabe com minha ajuda?", pensou. Vontade não lhe faltava, interesse muito menos....

Assim, dando-se conta que não conseguia pensar em mais nada, deixou-se um recado antes de adormecer:

"Cuidado com o que pede a Deus, ele costuma atender!"

Capítulo 4

- Senta aqui Laura e fique sabendo que agora você só vai levantar quando contar tudo pra gente – o tom de Lupe e o olhar atento das irmãs Martinez mostravam que o pelotão estava pronto para o fuzilamento.

As irmãs tinham entrado sem muita cerimônia em seu apartamento, enquanto ela estava sentada em sua poltrona lendo um jornal. Elas a pegaram pela mão e a sentaram no sofá entre elas. Não pareciam dispostas a dar brechas para fuga.

- Ah, bom dia para vocês também, pessoas simpáticas.

- Não começa a enrolar, não! Pode começar a contar.

- Tudo bem eu conto! Eu sei que é triste e vai ser um choque para vocês, mas é verdade – com um tom pesaroso, completou. – A Xena morreu mesmo no fim da série e Gabrielle ficou sozinha.
Imediatamente, uma saraivada de almofadas começaram a se chocar contra Laura, que rindo, tentava se defender.

- Sua palhaça! Conta pra gente o que está acontecendo com você!

"Palhaça... é tão gracioso quando ela me chama assim! Que saudade do que eu ainda nem vivi!"

- Não sei do que estão falando! – Laura falou para ganhar tempo.

- Olha só! Não estou falando! Olha pra sua cara agora e você vai ver do que estamos falando. É paixão! E das bravas! – Dana olhava divertida para o ar ligeiramente patético no rosto da amiga.

- Conta Laura, mais dia menos dia você vai contar mesmo, então economiza nos dias.

Elas eram como uma família para Laura, mas sempre tinha o incômodo dos sentimentos de Lupe em relação a ela para a preocupar. Ela sabia que as irmãs tinham notado o comportamento da irmã do meio, mas notava que não falar sobre o assunto era um acordo tácito. Era um equilíbrio que Laura fazia grande esforço para não romper. Lupe, ao contrário das irmãs, não parecia nada festiva com a novidade.

- Tudo bem, tudo bem... Vamos lá, podem perguntar que eu respondo.

- Está bem, eu quero saber.... TUDO!

- Bem, eu não sei direito como contar, nós ainda não nos conhecemos pessoalmente e...

- Você acessa estes programas de namoro por telefone? Que desespero de causa, Laura!

- Não, Su! Também não estou catando papel em ventania, me poupe! A gente se conheceu, por acaso, por Internet e eu não estava caçando, foi obra do acaso.

- E como é que é esta garota que está te deixando com esta cara de besta?

- Ela é brasileira, mora na minha cidade, não muito longe dos meus pais, é loirinha, bem pequenininha, branquinha, tem umas coxas magníficas, um tanquinho de arrasar em qualquer combate, é fotografa... e o que mais, ela tem um olhar muito safado e adora lasanhas.

- Mora perto dos seus pais e você dizendo que estava correndo o mundo pra achar sua cara-metade – Dana estava rindo da amiga, e de olho em Lupe. – Este mundo é muito pequeno mesmo!

- Namoro por Internet, Laura? Ou vocês não estão namorando, estão só conversando? – o tom de Lupe parecia mais aliviado, apesar dela não estar rindo como as outras.

- É, eu também nunca levei fé nestas coisas. Não só por ser com uma pessoa que, como é meu caso, nunca se viu pessoalmente, mas também porque estar longe, o que é fogo! Sempre que ouvia falar destes casos, pensava que estava imune a isto.

- E que bicho te mordeu pra você mudar assim de opinião? – Dana interrompeu.

- Pela sua descrição andou rolando algum strip... isto está me cheirando é safadeza! – Su falou animada.

- Não Su! Não rolou safadeza... bem, quer dizer, ah... sei lá, nada proposital, ou constante, só um deslize e quando eu falei com ela sobre isto ouvi muita bronca! – Laura caiu na risada quando se lembrou da besteira que fez em perguntar para Sam se o “festivo deslize da web cam” tinha sido proposital.

- Esta parte eu vou querer ouvir com mínimos detalhes!

- Não vai ouvir nem com mínimos e nem com nada! Já falei demais sobre o assunto... e pronto – o tom de Laura foi conclusivo o suficiente para que Su fizesse um biquinho e desistisse do interrogatório. – E respondendo sua pergunta, Dana, eu não sei o que me fez mudar de opinião. É que desde a primeira vez que nós conversamos eu senti tantas mudanças na minha cabeça, no meu modo de pensar, senti tanta vontade de falar com ela e esta vontade cresceu tanto que quando eu vi me sentia ‘dependente’.

- Você não a conhecia antes? Nunca se esbarraram enquanto você morava perto dela?

- Não que eu saiba. Ela é mais nova que eu, então acho que nós nem chegamos a nos cruzar na escola ou mesmo que tivéssemos o mesmo círculo de amigos.

- Mas desde quando vocês estão conversando? Você parece diferente desde que voltou desta sua última viagem.

- É... pois é, foi desde o dia que eu voltei da viagem. Muito perspicaz você, mocinha!

- Uhhh! Perspicaz! Sulamita, a pulga perspicaz! - Dana adorava provocar a irmã caçula, que se esquentava com facilidade.

- Ah, para com isto! Vou te contar quem é a pulga – falou isto já pulando no pescoço da irmã, a empurrando para o chão.

- Zeus! Vocês não imaginam o quanto é complicado pra mim, ter que assistir duas espanholas bronzeadas, gatésimas rolando no meu tapete! – Laura falou com cara de quem estava babando. Sabia que isto era o melhor remédio pra desconcertar as duas gatas de rinha, o que de fato funcionou.

- Se você gosta de espanholas, porque foi namorar com uma brasileira? Acaso te falta opção aqui, Laura?

- Não é isto, Lupe. Eu não posso negar que acho – olhou fixamente para ela – as espanholas lindas, super desejáveis e se acaso eu sentisse despertar, por uma delas, algum sentimento além desta, como diria, profunda admiração... Eu poderia viver pra sempre com esta pessoa. Acontece que este tal sentimento surgiu por esta brasileira. Eu não estou à procura de uma nacionalidade, mas de um amor.

- E que espécie de sentimento é assim tão poderoso que em dois meses, sem ao menos se ver pessoalmente, faz você estar assim, se dizendo mudada? Isto beira o ridículo! E não venha me falar em “amor”! Você nem viu esta pessoa pra falar que ama!

- Lupe! “Coração dos outros é terra que ninguém pisa”, não esqueça disto. É muito fácil ficar de fora e apontar os dedos para as atitudes das pessoas, sem saber exatamente o que as motiva.

- O duro é que eu sou obrigada a concordar com ela, Dana. Eu também não entendo como isto aconteceu tão rápido. Dois meses... na verdade não foram necessários dois meses. Como eu disse, me senti mudada desde a primeira conversa. Não posso dizer que foi “paixão”, “amor”, ou o que seja... eu não sei, juro que eu não sei que nome dar ao que estou sentindo! Só sei que é um sentimento poderoso, é bom, me dá uma sensação de conforto... entre inúmeras outras sensações.

- Então se livra disto, Laura! Por que ficar dando corda a um relacionamento que começou do nada? Com certeza vai acabar do nada, também! Vai que a guria tem mau-hálito, ou tem uma voz horrível, ou..

- A voz dela é linda! Ela tem a voz meio rouquinha e tem balanço e ...

- Ah! Pára! Você não está nem ouvindo o que eu estou falando! Quer saber, Laura? Vai atrás desta idiotice, perca seu tempo, perca suas amigas, perca a mim... Perca tudo o que você diz que gosta de ter!

- Lupe, não precisa disto! Tem espaço pra todo mundo na minha vida. O que a gente viveu nunca vai deixar de existir. Você sabe que eu amo a sua família, nunca vou deixar de ser grata a vocês!

- Pro inferno com este amor! Não é isto que eu quero, nunca foi isto que eu quis e você sabe muito bem disto!

Lupe levantou e saiu correndo da casa de Laura, Su fez menção de a seguir, mas Dana a impediu.

O acordo de silêncio estava a beira de ser rompido e Laura notou, com pesar, que as coisas poderiam ficar muito diferentes dali para a frente.

*****

Sam e Laura conversaram à tarde, era um sábado quente e Sam tinha marcado de sair com seus amigos, à noite. O bom e velho barzinho de sempre, que era da prima de Arthur. Apesar de estarem sempre mandando mensagens pelo celular, nunca dispensavam a conversa pelo msn, principalmente para poder usar a web cam.

- Hei, Laura! Que cara preocupada é esta?

- Nada de mais. Não estou em um bom dia, eu acho.

- TPM ?

- Eu não me afeto com estas coisas! TPM é psicológico.

- Ah! Então, decididamente é TPM... já reparou que as pessoas nunca dão o braço a torcer quando alguém fala que é por isto que elas estão alteradas?

- Eu não estou alterada! Grrrrrrr

Sam caiu na risada. Realmente Laura não deveria estar em um grande dia, mas o mau humor dela era bem engraçado.

- Hum, acho que vou rosnar pra você mais vezes, se você sempre sorrir assim para mim.

- Se você continuar rosnando, o máximo que vai ganhar é uma coleira anti-pulgas... Mas é sério, Lau... o que você tem?

- Nada não. Nada para você se preocupar.

- Não vou me preocupar, te prometo. Pode contar.

- Este seu olhar “Gato de Botas” é fogo! Não tem mau-humor que resista a ele, sabia?

- E você não parece estar de mau-humor, parece estar triste. Não tenho lá muita experiência com namoros, mas acho que li no Manual que não se deve deixar a namorada triste sozinha.

- Ah, você lê manuais de instrução! São raras as pessoas que lêem! Minha garota é rara!

- E você vai mudar de assunto a noite inteira e não vai falar para mim, não é?

"Como eu poderia falar que estou triste porque uma pessoa queria entrar na minha vida e não tem espaço... porque você tomou conta de tudo?"

- Você ... é muito importante para mim, Sam. Independente se eu te conto meus fantasmas ou não, só de você existir, mesmo fazendo bico como agora... Só isto já me basta para seguir em frente.

- Ah! Aprendeu a fazer o olhar “Gato de Botas”!

- Eu sou uma aluna muito habilidosa

- Ah sim, claro... Suas habilidades, não podemos nunca nos esquecer destas suas habilidades.

- Pois é, uma das minhas habilidades é a audição. Sabia que seu interfone começou a tocar muito antes que o seu celular, não sabia?

- Ah, nem estou mais com vontade de sair. Você está me deixando triste.

- Não, Sam! Está tudo bem, não deixe de sair com seus amigos não. Aproveita, porque quando eu estiver por aí, você vai ser exclusividade minha.

- Ai, eles não desistem! Vou ter que descer mas eu te ligo mais tarde, está bem? E se você resolver falar, ou só falar alguma coisa, me liga.

- Só de você falar isto, já me deixa tão feliz.

- É sério! Pode me ligar... até à cobrar.

- Nossa! Isto sim é prova de amor! Tudo bem, vou ligar à cobrar pra você mais tarde pra gente ficar horas conversando. Agora vai, que este interfone está me enlouquecendo.

- É, vou bater em uns chatos abusados, hoje. Um beijo, Lau... fica bem.

- Divirta-se. Um beijão.

*********

- Cambada de desesperados! – Sam saiu do prédio resmungando com seus amigos e já tomando o rumo do barzinho, seguida por Andréa, Virna e Gabriel.

- Que é isto Sam! O Arthur falou que você poderia estar dormindo e que era pra fazer barulho até você acordar – falou Virna, tentando fazer um ar de inocência.

- É verdade, ele instruiu... e como não era nada assim, muito desagradável de fazer, nós concordamos gentilmente com ele. – Andréa emendou, rindo

- Eu, dormindo?? Imagina, eu nunca durmo neste horário. E o Arthur sabe disto.

- Ué, demorou por que, então?

- Eu estava... ocupada.

- Ocupada... sozinha em casa, no telefone não estava, que ligamos no celular e na sua casa mesmo. ... – Virna disse, franzindo o cenho.

- Ahhh! Você por acaso não estava... – Gabriel parou de sopetão, para exclamar agudamente no meio da rua.

- Não! Não quero nem imaginar o que você ia perguntar, mas não mesmo! Eu só estava conversando pela Internet com ... com .. com a Laura – Sam gaguejou, não sabia se eles sabiam de Laura.

- Hum! Com a Laura, é claro!

- Oxe! Me perdi, quem é Laura?

- A namorada dela Gabriel.

- Namorada dela?? Credo, Sam! Até tu? To enrolado neste grupo, daqui a pouco até eu começo a gostar de mulher! Não tem ninguém pra falar de homem comigo!

- É cara, você que tinha que virar hetero, pra poder discutir mulher com a gente.

- Creeeedo, Mona! Só de pensar eu fico arrepiado! – Gabriel estava com cara exagerada de nojo, mas logo a curiosidade falou mais alto e ele se entusiasmou. – Mas me conta este babado forte! Quem é esta que eu nunca vi!

- Ninguém nunca viu! A Sam esconde da gente a sete chaves, nunca ninguém viu nem foto, mas está rolando uma lenda urbana que diz que é uma sereia de rabo azul e vive com os peitos de fora, só com uma estrelinha do mar tampando, e que tem uma voz de afundar navios no deserto e...

- ... e nada! Quanta abobrinha! Bem, exceto quanto à voz, ela tem uma voz de abalar mesmo! E é linda também, mas... eu nunca vi, err – Sam gaguejava – eu nunca vi nada disto que vocês estão falando.

- Nunca viu o que? O rabo da sereia?

- Ai céus! Dá pra voltar pra Terra? E quem foi que falou dela pra vocês, Virna?

- Seus olhos quando fala dela, o espaço que ela tem na sua agenda... sua presença no msn, que nunca tinha existido antes... e agora, você não negou, logo...

- Logo você jogou verde comigo, não é safada!

- Ah Sam! Todo mundo já notou que você está diferente, está muito melhor, por sinal.

- Ah, suas traíras! Ninguém me contou que era por uma mulher! E eu achando que ia aparecer um bofe novo na turma!

- Gabriel... guarda a purpurina para mais tarde, amigo! Com este grito que você deu no meio da rua, nós podemos ser localizados por satélite é só seguir a mancha cor-de-rosa...

Assim, caminharam rindo e brincado, fazendo todas as perguntas absurdas que eram capazes de pensar, querendo saber detalhes sobre Laura. Sam, a princípio tinha pensado sobre o que falar, mas logo se sentiu à vontade falando de Laura. Ela realmente estava gostando muito do assunto.

Logo chegaram ao charmoso barzinho de madeira e cobertura de sapê, à beira da praia. As luzes amarelas não muito forte davam um ar retro ao ambiente, o som animado das vozes misturadas, ocultava, ligeiramente, a tentativa de uma bela morena de conseguir se afinar na música, do videokê. Entraram animados logo localizando Arthur, Fernanda e Gisele, que estavam sentados na mesa habitual deles, com duas garrafas vazias de cerveja sobre a mesa e as latinhas de refrigerante, das meninas. Arthur estava com ar de poucos amigos.

Os amigos comentavam que Arthur e Sam pareciam estar em uma gangorra. À medida que o humor dela melhorava e se tornava mais espontânea e sociável, mais Arthur se tornava taciturno e irritadiço, além de estar, comumente, exagerando na bebida.

- Oras, oras, que grupo mais animado! Ainda bem que vocês não ficaram com a tarefa de ficar esperando, talvez estivessem rindo menos. – Arthur falou, com uma aparência não muito animada.

- Ah, mas se nós tivéssemos tomado duas cervejas enquanto esperávamos, estaríamos alegres sim! – Andréa mexia nas garrafas enquanto falava.

- Arthur, que história é esta que eu durmo e é preciso ficar apertando a campainha e telefone e ...até sinal de fumaça eles mandaram! – Sam falou enquanto se sentava.

- Resolveu, não resolveu? – com um exagerado assentimento de cabeça que Gabriel fez, Arthur continuou - Então está tudo certo.

- Nossa! Que bicho te mordeu em rapazinho? Ou foi uma bicha?? Ah, eu adoro este lugar, todo mundo morde todo mundo! Estou louco pra ser mordido hoje!

- Por Zeus, alguém segura este menino que hoje ele está atacado!

- Pode me soltar que hoje eu estou abalando! Acordei para arrasar.

- Ah, Gabriel, bebe e cala a boca, está parecendo que você engoliu um saco com gatinhos, fala feito homem! – Arthur já tinha enchido o copo do amigo e o passou para ele com alguma violência, derrubando um pouco do líquido na mesa.

- Qual é Arthur! Não me amarrota que eu to passado!

Sam olhava a cena mordendo a língua. Há dias ela tinha notado que seu melhor amigo estava com um comportamento estranho. Ele não tinha diminuído as visitas a ela, nem as ligações, mas sempre estava seco e de mau humor. Como ela era, até então, a rainha das respostas secas, sabia que ele tinha este direito, além do que, ele era a pessoa com quem podia falar sobre Laura.

Arthur sempre perguntava sobre ela, sobre o que conversavam, sobre o tempo que passavam conversando. Ele estava se mostrando um belo curioso e ela gostava de falar.... eu adoro falar sobre a Laura, adoro falar com a Laura. Pegou seu celular e foi até as escadarias que levavam do bar para a praia, era bem mais silencioso lá fora. O telefone foi atendido quase imediatamente, quando começou a dar sinal.

- Parece que tem gente que anda com o fone grudado na orelha!

- Pura coincidência, eu nem estava ansiosa esperando ninguém ligar...

- Ah, então eu vou desligar e te deixar descansar...

- Imagina! Eu sou educada, você pode falar que eu te dou atenção. – Laura falou, fazendo charme.

- Quanta bondade! Ah, está uma noite tão linda aqui, Laura! Apesar do calor estar de matar, tem uma lua cheia maravilhosa.

- Eu estou ouvindo barulho do mar, barulho de música... desafinada, você está onde exatamente?

- Perto de casa, no bar que sempre venho. Adoro ficar sentada aqui fora, vendo o mar. Consigo viajar quando o vejo assim, me dá uma sensação tão boa.

- Sam olha para o nordeste, o mais longe que você puder.

- Estou olhando, o que tem?

- Daqui da minha janela dá para ver o mar também. E se eu olhar para o sudeste...

- Só vai existir um oceano...

- É sempre este oceano no meio, mas fico feliz por estarmos olhando para o mesmo lugar, estamos olhando para a mesma água, vendo a mesma lua. De alguma forma isto nos une.
Sam fechou os olhos e inspirou profundamente. Isto fazia sentido, se sentia unida a Laura através dos elementos que compartilhavam. E isto era uma sensação muito boa.

- Laura, o oceano não precisa ficar sempre no nosso meio...

- Não, ele não precisa... mas no momento, não tem outro jeito.

- É... lamentável isto. Mas, estou feliz, você parece estar com uma voz mais tranqüila.

- Eu falei com você, não tem como alguma coisa ter o poder de me deixar mal depois disto.

- Ah, mas é trovadora!

- E posso garantir que você ainda não viu nada!

- Hum, vou desligar antes que você venha me falar da sua habilidade em ‘cantar’ e eu acho que não vou gostar de saber disto.

- Que é isto! Estou guardando todas as minhas cantadas para você.

- Acho bom mesmo, palhaça!

- Ei, eu não posso falar das minha habilidades mas você pode me chamar de palhaça!

- É que eu sei que você gosta, deve ficar esperando.

- E o duro é que eu gosto mesmo. Mas não vou te contar isto!

- Tudo bem, eu não conto seu segredo... Hummmm, agora tenho que ir.

- Sei que é duro pra você, Sam, deixar de falar com a multi-habilidosa e deliciosa namorada, mas pode ir... eu deixo.

- Céus! Eu poderia ter dormido sem esta! Tiau, sua metida!

- Tiau linda, divirta-se.

Sam voltou para a mesa e notou que o clima não tinha melhorado enquanto esteve fora. O humor de Arthur parecia ter se espalhado pelo restante do grupo. O que era uma pena, já que a noite tinha começado tão bem. Aliás, ela estava tão comovida com a sensação que teve, sentindo a noite partilhada com Laura... Se abaixou atrás de Arthur, o abraçando pelas costas e deu-lhe um beijo no rosto. Em seguida, espalhou o cabelo sempre arrumadinho dele e disse:

- E se você tentar esquecer o que está te perturbando agora e a gente só se divertir esta noite, meu caro? Depois a gente partilha este seu problema e fica tudo bem.

- O meu problema é o meu problema, Sam. Não tem esta de partilhar.

- Que é isto, Arthur! Nós somos amigos você sempre partilha os meus problemas, não tem nada de mais partilharmos os seus.

Ele pensou, olhando firme para ela, segurando a língua para não falar. Na verdade estava cheio de ser amigo dela, cheio de ouvir ela contando das histórias dela com Laura, cheio de vê-la sair de fininho e voltar com este ar insuportavelmente feliz e sonhador. O grande problema dele era ela. E ele estava tendo uma imensa dificuldade em ocultar isto.

- Me deixa, Sam. Outro dia a gente conversa.... Eu não estou legal hoje, acho que vou é embora.

- Nossa, hoje é dia. A Laura também não estava legal.
Um copo cheio, não precisa de muito para derramar. Esta menção de Laura, quando era ele quem precisava de atenção, aliado à cerveja, à irritação com os amigos que o olhavam tentando decifrar, à escapada de Sam... o copo de Arthur derramou.

- Você não tem idéia, Sam, do papel ridículo que está fazendo? Laura, Laura... você nem conhece ela! Será que só você não nota que ela está brincando com você?

- Ei, calma ai, Arthur! Não vá falar nisto agora, está bem? Você está alterado. E a Sam não tem nada a ver com isto, não vá descarregar nela. – Virna tentou evitar que ele continuasse falando, mas depois que se começa, é difícil de parar.

- Calma nada! Vocês acham que é papel de amigos ficar vendo ela se enrolar assim e ficarem quietas? Para vocês é muito cômodo, achavam ela insuportável antes, é muito melhor indefesa do jeito que ela está ficando, não é?

- Enrolada... Por que acha isto?

- O que você acha que vai acontecer com este seu fabuloso namoro? Acha que é uma coisa para a vida toda? Acha que ela se importa como você se importa?

- Bem... eu acho sim. – Sam já tinha perdido a linha da serenidade que havia encontrado na conversa com Laura. Agora estava se sentindo na corda bamba.

- É ridículo você achar isto, Sam! Na primeira oportunidade ela te troca pelo trabalho, ou você acha mesmo que por um lance de Internet ela vai deixar de rodar o mundo? Se liga! Ela é famosa, ela é reconhecida... Você está sendo um bom passatempo, ela gosta de desafios e você deve ter sido um, bem dos fáceis, para ela, por sinal.

- Arthur! Agora sou eu quem diz para você falar como homem! – Gabriel interveio.

- Você guardou seus sentimentos a vida toda, como se fosse um tesouro! Ofereça, Sam... ofereça todo este tesouro em troca das bugigangas que ela tem para te dar em troca. Arrisque ser chacota, ser usada. Só que depois não fique chorando pelos cantos, quando você notar que ela não se importa. Quando perceber que você não é nada para ela.

Sam ficou olhando para Arthur por um tempo, os lábios se prendendo com força, um brilho dolorido no olhar. Olhou ao redor, percebeu que seus amigos estavam boquiabertos, que nas mesas ao lado havia silêncio, odiava chamar atenção, odiava a vontade de chorar que a estava acometendo. Enfim, sacudiu a cabeça, se levantou, pegou sua bolsa e respondeu:

- Eu vou arriscar Arthur, nunca arrisquei. Nada antes me pareceu valer a pena. E também não acho que se trate de bugigangas. Tenham uma boa noite.

Ninguém sabia o que falar, se deveriam falar, se deveriam acompanhar Sam. Enfim, Gabriel se levantou para ir com ela até seu apartamento.

Os outros olhavam para baixo, às vezes arriscando um olhar para Arthur. Era meio evidente que ele tinha uma queda por Sam, todos já tinham notado. Mas tinham notado também, ao menos concordavam com isto, que ele não levava isto muito a sério, pois nunca tomara nenhuma atitude para demonstrar para ela o que sentia. Arthur se levantou em seguida e sem olhar para os amigos, também saiu do bar. Andréa pediu licença e o seguiu, indicando para eles continuarem ali. Ela o alcançou na rua

- O dito popular é de que em uma hora ruim é que você conhece os amigos. – falou Andréa, quebrando o constrangedor silêncio. – Você já pensou que o contrário também pode ser verdade?
Algumas pessoas só sabem ser amigos quando o outro está no chão. É este tipo de amigo que você quer ser para ela, Arthur?

- Me deixa, Andréa, você não sabe de nada! Eu não quero ver ninguém no chão, muito menos a Sam!

- Então deixa ela tentar ser feliz!

- Eu quero que ela seja feliz, eu sempre quis... – o tom de voz dele foi diminuindo e foi em um sussurro que terminou – mas eu quero que ela seja feliz comigo.

- Ah, amigo - ela o abraçou, sabendo que um dos dois sairia ferido desta história... no momento, os dois estavam.

Capítulo 3

Assim como Eduardo e Mônica, Laura e Sam passaram a conversar todo dia, e a vontade crescia como tinha que ser...

As brincadeiras que faziam no orkut, controlando as visitas que a outra recebia, indo ver os recados que deixavam, não era assim tão brincadeira. Realmente ficavam enciumadas com aquela avalanche de mulheres que freqüentavam os scraps da outra.

Por outro lado, as conversas no msn começavam a adquirir um tom mais apimentado, as brincadeiras e provocações, confidencias que escapavam, conversas sérias que buscavam se entender.

Depois da noite em que conversaram sobre a morte de sua mãe, Sam sentiu um grande alívio. Não imaginava que precisava chorar, ignorava que ali estava a raiz de alguns de seus problemas.

Não que ela tivesse resolvido seus temores. Não era algo tão simples. Aprender a confiar completamente nas pessoas seria uma lição que demoraria a ser aprendida. Imaginava se algum dia seria capaz de se por nas mãos de alguém.

Entretanto, começava a confiar em Laura. Resolveu que, se tinha que começar por algum lugar, começaria por ela. Tinham muita coisa em comum, mas existia, acima de tudo, uma empatia difícil de explicar. Ficava ansiosa o dia todo, esperando a hora de chegar em casa para conversar com ela.

Começara a abrir mão de parte do grande peso que carregava. Seguindo os conselhos da morena, não se armava pra uma guerra a cada vez que precisava sair de casa. Saber que em algum lugar do mundo, existia alguém que a compreendia sem que precisasse falar, que tinha uma fé gratuita nela, a fazia sentir mais carinho por quem estava próximo.

Seu comportamento com os outros beirava a simpatia. Só beirava, pois anos e anos de construção de uma imagem propositalmente feita para ser repelida, não seria transformada do dia para a noite. Nem ela queria isto.

Tinha se acostumado a aceitar os limites que o muro que ela mesma construía impunha. Seu alívio vinha de dentro, da qualidade do que sentia. Já não era mais formada apenas de mágoa, cinismo e gelo.

Com o tempo, o resultado desta mudança interna, transpareceu nas atitudes dos outros. Ela recebeu um convite muito espontâneo para ir à festa surpresa para Andréa, que seria feita na casa de Arthur. E ele nem ao menos precisou chantagear alguém para que a chamassem.

Sam preparou alguns painéis com belíssimas fotos de Andréa e Virna para presenteá-las e compor o cenário da festa. Um último olhar de artista exigente sobre seu trabalho a fez reparar que buscara momentos de carinho, cumplicidade, troca de olhares.

"Por que isto, agora?", seu hábito de fugir dos pensamentos inquisitores não foi mais rápido que a resposta que se deu. "Eu quero algo assim para mim."

Surpresa e disposta a não pensar muito sobre o assunto, resolveu ir mais cedo para a casa de Arthur e ajudar com o restante dos preparativos.

- Oi Sam! Estava te esperando para mais tarde – admirou-se Arthur, após ganhar um beijinho e
um apertão na bochecha.

- Resolvi vir antes. Sua mãe não está por aqui?

- Não, ela foi viajar. Acha que eu posso dar a festa como?

- Sem comentários, Arthur! Já te disse que você não deveria estar dependendo dela ainda. Mas isto é um problema só seu - notou que o amigo tinha fechado a cara e, por não estar disposta a dicutir, mudou o rumo da conversa. - Você não pode fazer a gentileza de me ajudar com os painéis, estão na caminhonete?

- Oi Gabriel! Que bom que tem outro homem forte por aqui, você pode nos ajudar? – Sam falou, dando um beijinho no rapaz.

- Fazer o quê? - respondeu o rapaz fazendo bico e balançando uma longa cabeleira imaginária. - Como diz a Andréa “homem é bastante útil na hora de trocar lâmpadas, gás e carregar coisas”! Um dia eu ainda vou participar da revolta das cuecas e vamos ficar livres da ditadura feminina.

- Isto quer dizer que você ajuda ou não? - Sam perguntou já abrindo a porta para ele.

- Isto quer dizer, princesinha, que você pode ficar ai que os machões dão conta do recado.

- Já que você insiste! – Sam falou rindo, indo ver como estavam os preparativos.

Chegar mais cedo havia sido providencial. O pessoal, um grupo de 6 amigos, tinha se reunido há algumas horas, mas, ficaram com fome e fizeram um churrasco, que deu sede e fizeram caipirinha, que deu sono e foram descansar.

Enfim, não só não tinham produzido nada, como ainda tinham deixado a maior bagunça.

Sam aproveitou sua gloriosa fama de autoritária para distribuir tarefas, que não foram questionadas. Encarregou-se dos enfeites e em pouco tempo estava tudo preparado, faltando apenas o gelo que Gabriel fora buscar, obviamente recitando seu mantra da ditadura feminina.

Às oito em ponto, Virna chegou arrastando Andréa pela mão, que imaginando o que a esperava, fazia charme. Entretanto, quando entraram, ficaram as duas boquiabertas. A sala toda enfeitada com os painéis de ambas, alguns balões espalhados, uma mesa muito requintada posta, arranjos de flores. Foi preciso que Ângela e Juliana fechassem a boca de ambas, para que voltassem à terra.

- Nossa! Achei que a surpresa era só pra Andréa! Que lindo isto, Sam! – falouVirna , ainda segurando na mão da namorada. - Estas fotos estão magníficas!

- Olha só! Até eu fiquei bonita! Como é que você consegue fazer estas mágicas!

- Além de serem boas modelos, o amor de vocês transborda. Foi muito fácil, para ser franca.

A gentileza nas palavras, representadas com sinceridade nas fotos, comoveu as amigas, que pularam no pescoço dela, dando beijinhos.

- Ah, não abusa! Eu ainda sou a Sam, lembram? – falou Sam, que na verdade estava mais comovida do que gostaria de admitir.

Depois do jantar, Sam pediu para Arthur para usar o computador dele, argumentando que não tinha falado com Laura ainda e queria contar da festa a ela. Se esperasse chegar em sua casa, estaria muito tarde na Espanha. "E eu não agüento ficar um dia sem falar com ela?! Que desespero é este?", ela pensou, em um quase eco ao pensamento de Arthur.

- Pode usar, mas você vai acabar viciando nisto. Acaba com a vida social esta coisa de internet.

- Não estou viciada, cabeção! Só falo com a Laura. Ai, net discada! Ninguém merece!

Sam não conseguiu decifrar o olhar que recebeu de Arthur. Ele terminou de fazer a conexão e saiu do quarto, mas voltou para dizer que a mãe dele iria ligar e então, ela não poderia demorar muito.

- Tudo bem, Tio Patinhas. Dez minutinhos, só.

Ele só assentiu e fechou a porta.

- Com coisa que ela não sabe o número do celular dele - resmungou para si mesma. - Homens, bah!

Logo que entrou na Internet, viu que Laura estava online. O nick "Laura - jogada às moscas”, fez Sam rir. Ainda mais quando leu o recado do subnick: “comendo lasanha, SOZINHA”. Nem bem havia entrado e a janela já estava aberta.

Laura: Já acabou a festa?
Sam: Não, nós estamos aqui ainda
Laura: Ah, então você não vai poder ficar muito comigo
Sam: Pobrezinha! Sua lasanha está tão ruim assim que todos fugiram? Onde estão aquelas espanholas espaçosas, as suas vizinhas que ficam mais ai do que na casa delas?
Laura: Foram viajar com a família. Algum problema de família pelo que parece.
Sam: Entendo... Se não fosse isto, elas estariam ai, com você, não é?
Laura: Talvez, quem sabe :)
Sam: E eu achando que você estava sentindo a minha falta!
Laura: Eu comi lasanha pensando em você, serve?
Sam: Se as calorias ficarem todas com você, serve sim
Sam: Hum... Laura, vou até a sala, volto em um minuto, está bem?

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Sam foi até a sala para pegar seu celular na bolsa, pois os dez minutos que prometeu à Arthr estavam terminando e ela queria continuar a conversa. Quando notou que esqueceu o fone em casa, pegou o de Arthur que estava sobre a mesa. Respondeu o olhar dele com um sorriso de todos os dentes.

- Prepare o bolso! Ligação internacional.

Voltando seu olhar à tela, viu que Laura tinha ficado resmungando, colocando vários emoticons de ira, de suspiro, batendo os dedos, assoviando, lixando as unhas... isto mesmo, me deixa sozinha...quem se importa comigo mesmo, vai lá, eu fico aqui contando moscas... E NEM TEM MOSCAS! Que fim leva esta morena deliciosa multi-habilidosa... sozinha!!!

Sam: Que desespero, hein! Já viciou em mim?
Laura: Você é sempre tão .... metida a besta! Mas tudo bem, talvez esteja certa.
Sam: Lau, não vou poder ficar no msn agora, você pode me ligar?
Laura: Não.
Sam: Puxa, assim na lata... Tudo bem, então...
Laura: Mas se eu tivesse um número, já estaria discando
Sam: Ai Lau... já te disse que vc é palhaça?
Laura: Me deixe pensar... hum... acho que hj ainda não. E olha que estou com o nariz vermelho.
Sam: Me poupe! Anota o número 9796-62976
Laura: Me aguarde, Garfield!

Sam estava desligando a conexão e o fone tocou.

- Hum! Você é rápida no gatilho.

- Tenho muitas habilidades, sabe como é!

- Você sempre faz charme assim pra falar, ou é um privilégio meu?

- Eu não estou fazendo charme, sua VAIDOSA! – fez uma pausa. – Isto foi um jeito discreto de elogiar minha voz?

- Ah, deixa eu te contar da festa! – Sam mudou rápido de assunto.

- Conta! Você armou os painéis? Achei as fotos lindas. Elas devem ter adorado!

- Aham! Foi super legal, elas ficaram emocionadas, você precisa ver. A idéia de montar os painéis aqui primeiro foi realmente boa, Lau!

- E o restante da turma? Preparou tudo?

- Ah, depois que eu cheguei, eles fizeram tudo certinho. Você vai gostar deles, quando vier. Isto é, se você... ah, deixa pra lá.

- Vou gostar sim! Quero competir com eles em contar causos sou muito habilidosa e...

- E em que você não é habilidosa? – cortou Sam.

- Deixa eu pensar, deve ter alguma coisa....hum, nisto eu também sou boa. Vamos ver... Ah, sim! Sou péssima para decorar números de telefone! Não sou ninguém sem a agenda do meu celular. Mas acho que este seu número é fácil de decorar, deixa eu ver.

Laura desligou o telefone e ficou repetindo o número várias vezes. Discou em seguida, muito satisfeita com ela mesma pelo feito.

- Decorei! Agora nunca mais esqueço, sempre que for te ligar vai ser direto e...

- Lau! Você demorou uma eternidade para ligar de volta.

- Era pra você ficar ansiosa – disse sorrindo.

- Quase não me pega! Eu já ia devolver o celular pro Arthur.

Fez-se uma pausa prolongada. Laura franziu o cenho e falou mais alto do que o normal.

- O que foi? Devolver o que pra quem??

- O celular, Laura... eu não iria roubar dele, só emprestei um pouquinho, porque esqueci o meu e... – Sam se continha para não rir.

- PALHAÇA! Você está brincando, não é?

- Ei! Achei que a gente tinha combinado que palhaça é você! E não, não estou brincando. Embora eu não possa negar que estou me divertindo muito – não conteve mais a gargalhada.

- Não me lembro de ter combinado isto! E agora estou MUITO irritada! Muito mesmo! – e estava, mas o riso tão feliz de Sam valia o preço.

*****

Na verdade, aquela ligação valia o dia de cão que tinha tido. Tinha acordado cedo para sua corrida matinal, mas uma mensagem codificada em seu celular a fez mudar os planos. Foi até uma antiga editora no centro da cidade e entrou o mais discreta possível. Lá encontrou, Pierre de Sancé, um francês, com seus quarenta e cinco anos, que parecia agitado.

- Laura, ainda bem que você veio! – o homenzinho a agarrava pelos braços, dando tapinhas em seus braços. – Nossa, menina! Você parece que cresceu, ah eu lembro ...

- O que aconteceu, Pierre? – Laura o cortou, pois sabia que ele tinha muita dificuldade em ser objetivo.

- O Sr Olivier foi.. – encolheu os ombros e a olhou por cima dos óculos.

- Não! Ele não faria isto – interrompeu ela, já sabendo do que se tratava. – Não sem mim, ou sem me avisar.

- Ele estava preocupado com você, disse que você se arriscou muito neste último trabalho e... bem, ele queria ver com os próprios olhos...

Laura deu um soco na mesa.

- Eu trouxe as fotos, foi o que eu vi! O que ele queria ver, diga Pierre! Ou não foi idéia dele? Foram eles que mandaram?

- Não que eu saiba. Acho que foi idéia dele mesmo.

Ela andava de um lado para o outro enfurecida, pensando em alguma forma de evitar que Olivier de Morens, seu mentor, se enfiasse em mais problemas. Ele tinha o dom de se enfiar em enrascadas quando resolvia ir à campo. Mas ela sempre estava junto e, em mais de uma ocasião, isto já o tinha salvo.

Quando Laura começou a se destacar com suas foto-reportagens, ainda na faculdade, no Brasil, chamou a atenção do velho fotógrafo francês, que tinha passado sua vida se dedicando às ONGs humanitárias, que trabalhavam na África. Viu um de seus trabalhos através da indicação de um voluntário brasileiro do “Médicos Sem Fronteiras”.

Olivier estava procurando alguém para treinar e para substituí-lo na organização. Ficou encantado com o trabalho de Laura. Na época, ela desenvolvia um projeto social na faculdade, retratando os contrastes sociais que moviam a roda do desespero no sertão de Pernambuco. Os interesses por detrás da fome, os programas que não eram implementados como deveriam para favorecer apenas quem já tinha muito. Suas fotos tinham provocado controvérsia, constrangimentos e era um trabalho arriscado, que ela fazia sem temor, ainda que não de forma irresponsável.

A habilidade de Laura em se meter em encrencas e de sair delas ilesa, fez com que ele decidisse. Já tinha encontrado sua sucessora. O trabalho premiado de Laura, era apenas a ponta de um grande iceberg. Assim que terminou a faculdade, mudou-se para a Espanha, onde mantinham um escritório da organização.

O trabalho aparente deles, consistia em divulgação das imagens das sangrentas guerras fratricidas que se desenrolavam sem fim na África, buscando ajuda humanitária e econômica para a região. Entretanto, o grande projeto envolvia esquemas para frustrar as tentativas de apropriação e explorações diversas que ocorriam de forma avassaladora no continente.

Era exploração das riquezas minerais, uso indiscriminado da população como cobaias em testes diversos, como se fossem ratos de laboratório. Não era à toa que faltava comida, mas nunca armas ou munição. Que faltasse instrução, mas nunca drogas para serem distribuídas para crianças guerreiras.

Como a exploração era uma cultura apregoada há séculos, era difícil combatê-la. O povo era exaurido, mas acostumado ao esquema. Sua organização sabia bem que o grande inimigo não era quem estava com a arma na mão, em um campo de batalha, mas os engravatados que forçavam este jogo desumano, mexendo peças vias em seu tabuleiro vergonhoso.

Laura havia passado por um rico treinamento em estratégias, técnicas de sobrevivência, combates. Não que usasse isto com frequência em suas tarefas, mas era necessário ter este conhecimento para qualquer eventualidade. Possuía habilidade natural para o uso de armas mas, acima de tudo, possuía estratégia suficiente para não ter que usá-las. Com pouco tempo na organização, ela já era muito respeitada e suas fotos ajudavam a identificar os locais e os envolvidos nos esquemas.

Tinha acabado de voltar de uma missão bastante arriscada, em uma região que estava incandescente e, tudo o que ela não precisava era que Olivier tivesse ido para lá. As fotos que trouxe e os dados que colhera eram suficientes para que eles colocassem os planos em andamento. Iriam desbancar, se tudo desse certo, um dos maiores laboratórios clandestinos, que para se manterem invisíveis, fomentavam as guerrilhas da África Central. Um dos mais violentos inimigos que seu grupo já enfrentara.

Passou o dia em complicadas ligações a procura de seu mentor. No final da tarde, conseguiu localizá-lo. Fez com que ele prometesse que, em hipótese alguma, sairia da cidade. Outros contatos, poderiam seguir suas instruções. Ela sabia que não adiantava pedir para que ele voltasse. Então, o máximo que poderia fazer, era cuidar de sua segurança à distância.

****

- Alguém poderia avisar ao ET que abduziu a Sam que nós não queremos trocar mais o nosso clone? Ele que fique com a azeda e deixa esta divertida com a gente!

- É mesmo Arthur! Você que anda mais próximo dela, conta pra gente que bicho mordeu a Sam? A gente tem que garantir um estoque disto, ela está bem demais!

- Vocês estão exagerando, ela está normal. – falou ele, esticando o olho para seu quarto.

Entretanto, ele mais do que ninguém sabia que ela não estava normal. Notava a nítida mudança de humor, a constância e o brilho em seu sorriso. Podia perceber, no riso que estava ouvindo, naquele momento uma alegria que nunca tinha notado. O brilho no olhar. Ele estava ficando preocupado. Desde a primeira vez que Sam tinha conversado com Laura pode sentir algo de diferente, alarmante. Agora estava mesmo se assustando.

- Que normal o quê? Ela conversou com todo mundo hoje! Brincou, ajudou, foi, imagine isto! Foi quase carinhosa.

- E, ultimamente, ela tem sido simpática com todo mundo.

-Verdade! Faz tempo que não vejo aquela correria quando ela chega,

- Sem contar a fila pra chorar no banheiro!

- É! Ela está zen!

- Viu só! – falou Gabriel para Arthur. – É visível, portanto deve ser algo "palpável"- completou com malícia, sabendo que o amigo estava na fila por Sam há tempos.

- Vocês estão viajando - respondeu amargo.

Já não existiam conversas paralelas, todos tinham algo a contar desta nova e excitante aventura que era desbravar o comportamento de Samantha. E tentar descobrir a causa.

Arthur sabia a causa. E não gostava nada dela. Foi até seu quarto para chamar Sam. Precisava ganhar tempo, reconquistar terreno. Apesar de nunca ter tido nenhum. Ouviu um pouco da conversa, quando se aproximou da porta sem ser notado.

- Não, Lau! Eu já te disse que minha cam é péssima, fica tudo escuro e não dá pra ver nada. .... Vou pensar no seu caso... Mas o que eu vou ganhar com isto? ... UAU! Vou arrombar uma loja hoje ainda....- riu antes de completar. - Que nada, você só promete! ... Laura, eu não sou do tipo que foge da raia...

- Samantha, você ainda está no fone? O pessoal quer cortar o bolo!

Laura ouviu a voz masculina ao fundo. "Como se não fosse óbvio que ela está ao telefone", pensou irritada.

- Vou desligar, ele está com saudade da companhia mais íntima dele, com certeza.

- Você? – a voz de Laura soou um tanto quanto alarmada

- O celular. Mas como você é ciumenta!

- Droga, isto quer dizer que o celular é dele mesmo! Você tem sorte de não estar na minha frente agora, com a ira me dominando.

- Ah, eu ia sim! – a resposta que saiu antes que ela pudesse se editar, a deixou ligeiramente constrangida.

- Não gostaria não, eu iria agarrar o teu pescoço.

- Ah, promessas, promessas... – "Droga, preciso desligar antes que eu pule no pescoço da mulher, nem que seja via satélite."

- Eu decorei o número. Não tem espaço pra números de telefone no meu cérebro, só abri uma exceção pra você e .... EI, VOCÊ ESTÁ RINDO DE NOVO!

O tom zangado de Laura, era hilário. Ela, vendo que Arthur não arredara o pé de seu lado esperando o celular, achou melhor desligar. Conseguiu falar um tiau no meio de muito riso e desligou o telefone.

- Qual foi a piada com meu celular? - perguntou sem conseguir conter a irritação.

- Ela decorou o número. Se receber alguma ligação estranha no meio da noite, não se assuste! – saiu do quarto rindo e foi se juntar aos outros na sala.

*****


Sam: Lau, eu tenho que concluir um teste aqui no meu pc, de um hard que instalei, acho melhor a gente não conversar no msn por enquanto, pode ser?
Laura: Vamos pro Orkut então, tem um tópico no Fator X pra conversas inúteis e final de semana não tem ninguém por lá mesmo, que tal?
Sam: Impressão minha ou você é viciada em orkut?
Laura: Eu gosto mesmo, tá! Na verdade, comento pouco. Acho que no Fator mesmo eu nunca comentei, mas é legal ir pra lá com alguém conhecido.
Sam: Tudo bem, não vou te negar este prazer. Vc tem o link? Aposto que já está com a página aberta.
Laura: Err.... estou mesmo, tá, pega ai
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4285310&tid=2549745835388606870&na=2&nst=60


Trocaram alguns scraps, quando Sam enfim contou o que estava instalando: sua nova web cam.

Laura quase subiu pelas paredes. Há semanas vinha pedindo à Sam para conversarem por vídeo e fone, mas a loira era meio empacada.

- Ah, enfim uma grande evolução no nosso relacionamento.

Laura ficou eufórica quando recebeu as primeiras imagens. Ampliou para tela cheia e ficou conversando recostada em sua poltrona, no quarto. A loira era muito mais bonita do que aparentava nas fotos, seu cabelo estava lindo, ela estava com uma camiseta branca de alcinha que deixava sua aparência angelical, embora nem sempre o olhar comprovasse esta tese.

Sam também ampliou a tela, ela não falava mesmo com outras pessoas, não tinha nenhuma pesquisa para fazer, então podia dedicar toda sua atenção para a conversa com Laura. Deixou o notebook aberto em suas pernas e ficou encostada na cabeceira da cama. Riu com o comentário de Laura.

- Nós temos um relacionamento? Alguém esqueceu de me avisar!

- Nós não temos? – Laura se aproximou de sua cam, olhando fixamente para ela.

A visão daquelas safiras brilhantes que a olhavam diretamente, fez Sam engolir em seco. Falar com Laura por msn, vinha sendo algo que a fazia se sentir extremamente bem. No entanto, no dia anterior tinha ouvido aquela voz. Uma voz que falava dentro dela. Era muito difícil transformar em palavras os sentimentos que aqueles sons provocaram. "Mas, por Zeus! O que Como ela pode ser assim, tão linda! E estes olhos, isto não existe!" Não era só a cor, o formato, o brilho, tudo nos olhos de Laura pareciam fabulosos para Sam. Tudo a deixava com os sentidos lentos e, paradoxalmente, com sentimentos acelerados.

- Pelo que posso entender, você quer ser minha namorada? – Sam se viu falando, estranhando a si mesma, no entanto, ansiosa pela resposta.

- Eu não ia falar nada, mas já que você pediu, eu quero sim! Pronto, agora você não pode mais mudar de idéia.

- Eu pedi? Não me lembro de ter pedido eu só estava... Mas tudo bem, sou uma mlher de palavra. Não lembro de ter pedido, mas se você diz eu não posso mudar de idéia.

- Hum, quem me dera que você quisesse mesmo.

- Acho que talvez seja interessantes você levar em consideração o que eu penso a respeito.

- Ai, tenho até medo de perguntar.

- Você! Com medo? Achei que você fosse "A" destemida! Que decepção cruel!

- Eu não tenho medo de muita coisa, tá, mocinha! Mas é que nunca nada foi tão importante pra mim.

- Laura...

- Hum?

- Quer namorar comigo?

- Quero - Laura respondeu prontamente, quase saltando da cadeira. - Você quer? - completou já sem tanto entusiasmo, a expressão de espanto.

- Acha que eu perguntei por quê?

- Você não é do tipo que precisa de razões, ou que seja fácil de prever ou.... Você quer mesmo?

- Quero, Laura, eu quero... - Sam sorria. - Eu posso confiar em você?

- Sabe que pode.

- Não. Eu não sei, por isto estou perguntando.

- Sim, você pode.

- Por quê?

- Porque até hoje eu fiz pouca coisa por mim - Laura falava pausadamente, buscando a resposta dentro de si. - Tive retorno, não estou reclamando. Só que agora eu sinto esta vontade, uma necessidade de ser feliz, de te fazer feliz. Eu quero ser confiável pra você. Quero porque isto me faz bem também.

- Ah, é? Mas por quê?

- Porque... Porque você tem a voz que eu espero o dia todo para ouvir, você tem os comentários que me fazem ver um mundo que é bonito. Porque quando penso que você tudo fica tranquilo, e o mundo não é feito de coisas ruins. Existe beleza, existe suavidade, existe explicação. As coisas, mesmo as que eu não sei, se justificam quando falo com você.

- Você sente isto por mim? - perguntou incrédula.

- Sinto... e olha! Fiz umas pesquisas no google e descobri que isto é amor, não é estranho?

- Sim é estranho, considerando que você não sabe se tem alergia ao meu cheiro, por exemplo.

- Tudo bem, eu compro um antialérgico se isto acontecer, mas não vou te pertder.

- Por quê?

- Porque, criança de quatro anos... Porque eu descobri que não posso abrir mão de você. Ainda mais agora que sei que você gosta de mim! Quem sabe está até apaixonada – Laura exibia um sorriso brilhante, que embora quisesse que parecesse gozador, mostrava comoção.

- Na verdade, não sei dar nome ao que sinto por você, Laura. Nunca senti nada assim antes.– ao olhar de espanto de Laura, emendou – Acho que está tudo muito rápido e muito estranho.

- Você não precisa dar nome... por agora. Sinta. Eu estou sentindo muitas coisas por você também, sabe.

- Ah é? Que tipo de coisas?

- Me sinto em casa com você. Como nunca me senti antes – falou sorrindo.

- Sabe que este seu sorriso é de matar, não sabe? Você faz de propósito.

- Hum... Por quê?

- Como?

- Agora é minha vez de perguntar, sua espertinha. De matar, por quê? Que tipo de sensação te provoca- Laura olhou novamente fixamente para a cam, mas tomando o cuidado de deixar todo o seu rosto ficar exposto na tela.

- Hum, Laura... Eu nunca namorei por Internet – colocou um dedo no queixo e forçou o pensamento, enrugando a testa. – Pra falar a verdade, eu nunca namorei. Não sei como funciona isto.

- Eu também nunca namorei por internet. Talvez isto seja bom, talvez a gente só consiga deixar as coisas fluírem e vamos ver onde vai dar.

- Pra mim está bom assim. E, nestes 10 minutos de namoro posso dizer que, definitivamente a sensação é boa – falou com um sorriso.

- Você é tão meiga! Me espanta que façam os comentários que você diz que fazem a seu respeito.

- Eu sou, era, sou... sei lá. Nunca fui de me relacionar, ou de manter amizades.

- Sei, você é um abatedouro, não é?

- Ah, você não é muito diferente, pelo que me disse. Falou que já namorou, mas não que foi apaixonada mesmo por alguém.

- Eu ando tão comportada ultimamente. Ei! Faz de novo?

- Hã?

- Faz de novo esta cara que você fez quando disse que não é de manter relacionamentos? O meu print foi muito lento.

- Ah, você está tirando cópias de mim!

- Claro! Você é tão econômica em fotos e, sabe, eu tenho sentido saudades. Morro de inveja destes seus amigos que podem te ver o dia todo. E agora eu sou sua namorada, então eu posso.

- É eu também tenho, desta mulherada que te segue em todo lugar.

- E no entanto, só você me interessa.

- E no entanto, só você me interessa – imitou Sam com um sorriso tímido. – Já é bem tarde ai, não é? Você me disse que tem que acordar cedo amanhã.

Laura olhou para o relógio com grande desânimo.

- É, tenho que levantar daqui a pouco.

- Vai dormir então, amanhã a gente conversa mais. Agora que você é minha namorada, pode me ligar quando quiser. Só que liga no meu celular, não no do Arthur, tá.

Laura riu.

- Eu decorei aquele número, sua malvada! Minha dificuldade pra decorar números nem é de brincadeira. Duvido que vá conseguir de novo.

- Não precisa, sabe. Inventaram um negócio muito útil, que chama agenda. Até deve ter no seu celular.

- Vou ignorar o seu comentário... Olha só, que luxo, vai ganhar o número 1,na discagem rápida. Privilégio de namorada.

- Sei... Nem quero pensar na quantidade de discagens rápidas seu celular deve ter registrado.

Sam falou o número e Laura anotou na agenda do celular. Pensou em tentar decorar, mas agora estava tão ocupada olhando para aquele rosto e tentando gravar as imagens em sua cabeça que não ia perder tempo com isto.

- Bem, já que a patroa mandou, vou me deitar então. Dá um beijinho aqui, Sam.

Laura se aproximou da câmera para dar um beijo. Sam olhava-a quase hipnotizada. Ao notar a reação da outra, Laura abriu um sorriso malicioso e falou.

- Ah, se eu estivesse ai, você estaria sendo coberta de beijos agora. Sua boca parece ser tão macia, eu te daria um beijo longo, estaria desbravando sua boca, conhecendo seus sabores.

- Laura... – Sam estava com a garganta seca, olhando a morena falando com ela com aquele brilho no olhar, colocando a língua entre os lábios, mordendo os próprios lábios. – Por favor! Isto é maldade demais!

- E então...

- Ah, vá dormir! Bandida!

Com um sorriso e um balançar de sobrancelhas, Laura desejou boa noite, em um tom que sugeria muito. E foi. Sam minimizou a tela e afastou o notebook para os pés de sua cama.

Sozinha em seu quarto, ficou repassando o que tinha visto. Estava muito excitada, com apenas alguns olhares, com aquela voz, com aquele tom de voz. Fechou os olhos e tentava se conter. Mas seu corpo estava trabalhando por si. Ouvia sua própria respiração se tornar profunda, sentiu necessidade de sentir contato em seu corpo. Passou uma mão pelos lábios, pois podia sentir quase, o beijo que Laura descreveu. A outra mão, tocou em seus seios, voluntariamente, arrancando dela um gemido de desejo.

- Laura... – chamou.

Laura estava no banheiro, escovando os dentes. Quando voltou para o quarto e ia desligar o computador, ouviu seu nome, mexeu no mouse para tirar o descanso de tela... e viu!

Seu coração disparou, seu queixo caiu... ela caiu sentada na poltrona, enquanto assistia sua namorada se tocar em movimentos lentos. Desligou o microfone de sua máquina, para não perturbá-la neste momento quase sagrado. "Zeus! Ela é simplesmente uma delícia! "

A posição em que a cam estava, lhe proporcionava uma visão única. Pode ver a mão que estava na boca, descer para dentro da lingerie, e perceber os movimentos insinuantes que fazia ali dentro. Os movimentos do corpo que se aceleravam, enquanto a outra mão permanecia fazendo carícias nos seios. Pode ver a loira firmar os pés para se arquear na cama, enquanto em um espasmo, novamente chamava seu nome.

Laura achou melhor desligar a cam antes que Sam percebesse que teve audiência. Ela provavelmente se sentiria constrangida. Foi se deitar com a certeza de que esta seria uma noite em que o sono demoraria a chegar...

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