segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Capítulo 3

Assim como Eduardo e Mônica, Laura e Sam passaram a conversar todo dia, e a vontade crescia como tinha que ser...

As brincadeiras que faziam no orkut, controlando as visitas que a outra recebia, indo ver os recados que deixavam, não era assim tão brincadeira. Realmente ficavam enciumadas com aquela avalanche de mulheres que freqüentavam os scraps da outra.

Por outro lado, as conversas no msn começavam a adquirir um tom mais apimentado, as brincadeiras e provocações, confidencias que escapavam, conversas sérias que buscavam se entender.

Depois da noite em que conversaram sobre a morte de sua mãe, Sam sentiu um grande alívio. Não imaginava que precisava chorar, ignorava que ali estava a raiz de alguns de seus problemas.

Não que ela tivesse resolvido seus temores. Não era algo tão simples. Aprender a confiar completamente nas pessoas seria uma lição que demoraria a ser aprendida. Imaginava se algum dia seria capaz de se por nas mãos de alguém.

Entretanto, começava a confiar em Laura. Resolveu que, se tinha que começar por algum lugar, começaria por ela. Tinham muita coisa em comum, mas existia, acima de tudo, uma empatia difícil de explicar. Ficava ansiosa o dia todo, esperando a hora de chegar em casa para conversar com ela.

Começara a abrir mão de parte do grande peso que carregava. Seguindo os conselhos da morena, não se armava pra uma guerra a cada vez que precisava sair de casa. Saber que em algum lugar do mundo, existia alguém que a compreendia sem que precisasse falar, que tinha uma fé gratuita nela, a fazia sentir mais carinho por quem estava próximo.

Seu comportamento com os outros beirava a simpatia. Só beirava, pois anos e anos de construção de uma imagem propositalmente feita para ser repelida, não seria transformada do dia para a noite. Nem ela queria isto.

Tinha se acostumado a aceitar os limites que o muro que ela mesma construía impunha. Seu alívio vinha de dentro, da qualidade do que sentia. Já não era mais formada apenas de mágoa, cinismo e gelo.

Com o tempo, o resultado desta mudança interna, transpareceu nas atitudes dos outros. Ela recebeu um convite muito espontâneo para ir à festa surpresa para Andréa, que seria feita na casa de Arthur. E ele nem ao menos precisou chantagear alguém para que a chamassem.

Sam preparou alguns painéis com belíssimas fotos de Andréa e Virna para presenteá-las e compor o cenário da festa. Um último olhar de artista exigente sobre seu trabalho a fez reparar que buscara momentos de carinho, cumplicidade, troca de olhares.

"Por que isto, agora?", seu hábito de fugir dos pensamentos inquisitores não foi mais rápido que a resposta que se deu. "Eu quero algo assim para mim."

Surpresa e disposta a não pensar muito sobre o assunto, resolveu ir mais cedo para a casa de Arthur e ajudar com o restante dos preparativos.

- Oi Sam! Estava te esperando para mais tarde – admirou-se Arthur, após ganhar um beijinho e
um apertão na bochecha.

- Resolvi vir antes. Sua mãe não está por aqui?

- Não, ela foi viajar. Acha que eu posso dar a festa como?

- Sem comentários, Arthur! Já te disse que você não deveria estar dependendo dela ainda. Mas isto é um problema só seu - notou que o amigo tinha fechado a cara e, por não estar disposta a dicutir, mudou o rumo da conversa. - Você não pode fazer a gentileza de me ajudar com os painéis, estão na caminhonete?

- Oi Gabriel! Que bom que tem outro homem forte por aqui, você pode nos ajudar? – Sam falou, dando um beijinho no rapaz.

- Fazer o quê? - respondeu o rapaz fazendo bico e balançando uma longa cabeleira imaginária. - Como diz a Andréa “homem é bastante útil na hora de trocar lâmpadas, gás e carregar coisas”! Um dia eu ainda vou participar da revolta das cuecas e vamos ficar livres da ditadura feminina.

- Isto quer dizer que você ajuda ou não? - Sam perguntou já abrindo a porta para ele.

- Isto quer dizer, princesinha, que você pode ficar ai que os machões dão conta do recado.

- Já que você insiste! – Sam falou rindo, indo ver como estavam os preparativos.

Chegar mais cedo havia sido providencial. O pessoal, um grupo de 6 amigos, tinha se reunido há algumas horas, mas, ficaram com fome e fizeram um churrasco, que deu sede e fizeram caipirinha, que deu sono e foram descansar.

Enfim, não só não tinham produzido nada, como ainda tinham deixado a maior bagunça.

Sam aproveitou sua gloriosa fama de autoritária para distribuir tarefas, que não foram questionadas. Encarregou-se dos enfeites e em pouco tempo estava tudo preparado, faltando apenas o gelo que Gabriel fora buscar, obviamente recitando seu mantra da ditadura feminina.

Às oito em ponto, Virna chegou arrastando Andréa pela mão, que imaginando o que a esperava, fazia charme. Entretanto, quando entraram, ficaram as duas boquiabertas. A sala toda enfeitada com os painéis de ambas, alguns balões espalhados, uma mesa muito requintada posta, arranjos de flores. Foi preciso que Ângela e Juliana fechassem a boca de ambas, para que voltassem à terra.

- Nossa! Achei que a surpresa era só pra Andréa! Que lindo isto, Sam! – falouVirna , ainda segurando na mão da namorada. - Estas fotos estão magníficas!

- Olha só! Até eu fiquei bonita! Como é que você consegue fazer estas mágicas!

- Além de serem boas modelos, o amor de vocês transborda. Foi muito fácil, para ser franca.

A gentileza nas palavras, representadas com sinceridade nas fotos, comoveu as amigas, que pularam no pescoço dela, dando beijinhos.

- Ah, não abusa! Eu ainda sou a Sam, lembram? – falou Sam, que na verdade estava mais comovida do que gostaria de admitir.

Depois do jantar, Sam pediu para Arthur para usar o computador dele, argumentando que não tinha falado com Laura ainda e queria contar da festa a ela. Se esperasse chegar em sua casa, estaria muito tarde na Espanha. "E eu não agüento ficar um dia sem falar com ela?! Que desespero é este?", ela pensou, em um quase eco ao pensamento de Arthur.

- Pode usar, mas você vai acabar viciando nisto. Acaba com a vida social esta coisa de internet.

- Não estou viciada, cabeção! Só falo com a Laura. Ai, net discada! Ninguém merece!

Sam não conseguiu decifrar o olhar que recebeu de Arthur. Ele terminou de fazer a conexão e saiu do quarto, mas voltou para dizer que a mãe dele iria ligar e então, ela não poderia demorar muito.

- Tudo bem, Tio Patinhas. Dez minutinhos, só.

Ele só assentiu e fechou a porta.

- Com coisa que ela não sabe o número do celular dele - resmungou para si mesma. - Homens, bah!

Logo que entrou na Internet, viu que Laura estava online. O nick "Laura - jogada às moscas”, fez Sam rir. Ainda mais quando leu o recado do subnick: “comendo lasanha, SOZINHA”. Nem bem havia entrado e a janela já estava aberta.

Laura: Já acabou a festa?
Sam: Não, nós estamos aqui ainda
Laura: Ah, então você não vai poder ficar muito comigo
Sam: Pobrezinha! Sua lasanha está tão ruim assim que todos fugiram? Onde estão aquelas espanholas espaçosas, as suas vizinhas que ficam mais ai do que na casa delas?
Laura: Foram viajar com a família. Algum problema de família pelo que parece.
Sam: Entendo... Se não fosse isto, elas estariam ai, com você, não é?
Laura: Talvez, quem sabe :)
Sam: E eu achando que você estava sentindo a minha falta!
Laura: Eu comi lasanha pensando em você, serve?
Sam: Se as calorias ficarem todas com você, serve sim
Sam: Hum... Laura, vou até a sala, volto em um minuto, está bem?

-------

Sam foi até a sala para pegar seu celular na bolsa, pois os dez minutos que prometeu à Arthr estavam terminando e ela queria continuar a conversa. Quando notou que esqueceu o fone em casa, pegou o de Arthur que estava sobre a mesa. Respondeu o olhar dele com um sorriso de todos os dentes.

- Prepare o bolso! Ligação internacional.

Voltando seu olhar à tela, viu que Laura tinha ficado resmungando, colocando vários emoticons de ira, de suspiro, batendo os dedos, assoviando, lixando as unhas... isto mesmo, me deixa sozinha...quem se importa comigo mesmo, vai lá, eu fico aqui contando moscas... E NEM TEM MOSCAS! Que fim leva esta morena deliciosa multi-habilidosa... sozinha!!!

Sam: Que desespero, hein! Já viciou em mim?
Laura: Você é sempre tão .... metida a besta! Mas tudo bem, talvez esteja certa.
Sam: Lau, não vou poder ficar no msn agora, você pode me ligar?
Laura: Não.
Sam: Puxa, assim na lata... Tudo bem, então...
Laura: Mas se eu tivesse um número, já estaria discando
Sam: Ai Lau... já te disse que vc é palhaça?
Laura: Me deixe pensar... hum... acho que hj ainda não. E olha que estou com o nariz vermelho.
Sam: Me poupe! Anota o número 9796-62976
Laura: Me aguarde, Garfield!

Sam estava desligando a conexão e o fone tocou.

- Hum! Você é rápida no gatilho.

- Tenho muitas habilidades, sabe como é!

- Você sempre faz charme assim pra falar, ou é um privilégio meu?

- Eu não estou fazendo charme, sua VAIDOSA! – fez uma pausa. – Isto foi um jeito discreto de elogiar minha voz?

- Ah, deixa eu te contar da festa! – Sam mudou rápido de assunto.

- Conta! Você armou os painéis? Achei as fotos lindas. Elas devem ter adorado!

- Aham! Foi super legal, elas ficaram emocionadas, você precisa ver. A idéia de montar os painéis aqui primeiro foi realmente boa, Lau!

- E o restante da turma? Preparou tudo?

- Ah, depois que eu cheguei, eles fizeram tudo certinho. Você vai gostar deles, quando vier. Isto é, se você... ah, deixa pra lá.

- Vou gostar sim! Quero competir com eles em contar causos sou muito habilidosa e...

- E em que você não é habilidosa? – cortou Sam.

- Deixa eu pensar, deve ter alguma coisa....hum, nisto eu também sou boa. Vamos ver... Ah, sim! Sou péssima para decorar números de telefone! Não sou ninguém sem a agenda do meu celular. Mas acho que este seu número é fácil de decorar, deixa eu ver.

Laura desligou o telefone e ficou repetindo o número várias vezes. Discou em seguida, muito satisfeita com ela mesma pelo feito.

- Decorei! Agora nunca mais esqueço, sempre que for te ligar vai ser direto e...

- Lau! Você demorou uma eternidade para ligar de volta.

- Era pra você ficar ansiosa – disse sorrindo.

- Quase não me pega! Eu já ia devolver o celular pro Arthur.

Fez-se uma pausa prolongada. Laura franziu o cenho e falou mais alto do que o normal.

- O que foi? Devolver o que pra quem??

- O celular, Laura... eu não iria roubar dele, só emprestei um pouquinho, porque esqueci o meu e... – Sam se continha para não rir.

- PALHAÇA! Você está brincando, não é?

- Ei! Achei que a gente tinha combinado que palhaça é você! E não, não estou brincando. Embora eu não possa negar que estou me divertindo muito – não conteve mais a gargalhada.

- Não me lembro de ter combinado isto! E agora estou MUITO irritada! Muito mesmo! – e estava, mas o riso tão feliz de Sam valia o preço.

*****

Na verdade, aquela ligação valia o dia de cão que tinha tido. Tinha acordado cedo para sua corrida matinal, mas uma mensagem codificada em seu celular a fez mudar os planos. Foi até uma antiga editora no centro da cidade e entrou o mais discreta possível. Lá encontrou, Pierre de Sancé, um francês, com seus quarenta e cinco anos, que parecia agitado.

- Laura, ainda bem que você veio! – o homenzinho a agarrava pelos braços, dando tapinhas em seus braços. – Nossa, menina! Você parece que cresceu, ah eu lembro ...

- O que aconteceu, Pierre? – Laura o cortou, pois sabia que ele tinha muita dificuldade em ser objetivo.

- O Sr Olivier foi.. – encolheu os ombros e a olhou por cima dos óculos.

- Não! Ele não faria isto – interrompeu ela, já sabendo do que se tratava. – Não sem mim, ou sem me avisar.

- Ele estava preocupado com você, disse que você se arriscou muito neste último trabalho e... bem, ele queria ver com os próprios olhos...

Laura deu um soco na mesa.

- Eu trouxe as fotos, foi o que eu vi! O que ele queria ver, diga Pierre! Ou não foi idéia dele? Foram eles que mandaram?

- Não que eu saiba. Acho que foi idéia dele mesmo.

Ela andava de um lado para o outro enfurecida, pensando em alguma forma de evitar que Olivier de Morens, seu mentor, se enfiasse em mais problemas. Ele tinha o dom de se enfiar em enrascadas quando resolvia ir à campo. Mas ela sempre estava junto e, em mais de uma ocasião, isto já o tinha salvo.

Quando Laura começou a se destacar com suas foto-reportagens, ainda na faculdade, no Brasil, chamou a atenção do velho fotógrafo francês, que tinha passado sua vida se dedicando às ONGs humanitárias, que trabalhavam na África. Viu um de seus trabalhos através da indicação de um voluntário brasileiro do “Médicos Sem Fronteiras”.

Olivier estava procurando alguém para treinar e para substituí-lo na organização. Ficou encantado com o trabalho de Laura. Na época, ela desenvolvia um projeto social na faculdade, retratando os contrastes sociais que moviam a roda do desespero no sertão de Pernambuco. Os interesses por detrás da fome, os programas que não eram implementados como deveriam para favorecer apenas quem já tinha muito. Suas fotos tinham provocado controvérsia, constrangimentos e era um trabalho arriscado, que ela fazia sem temor, ainda que não de forma irresponsável.

A habilidade de Laura em se meter em encrencas e de sair delas ilesa, fez com que ele decidisse. Já tinha encontrado sua sucessora. O trabalho premiado de Laura, era apenas a ponta de um grande iceberg. Assim que terminou a faculdade, mudou-se para a Espanha, onde mantinham um escritório da organização.

O trabalho aparente deles, consistia em divulgação das imagens das sangrentas guerras fratricidas que se desenrolavam sem fim na África, buscando ajuda humanitária e econômica para a região. Entretanto, o grande projeto envolvia esquemas para frustrar as tentativas de apropriação e explorações diversas que ocorriam de forma avassaladora no continente.

Era exploração das riquezas minerais, uso indiscriminado da população como cobaias em testes diversos, como se fossem ratos de laboratório. Não era à toa que faltava comida, mas nunca armas ou munição. Que faltasse instrução, mas nunca drogas para serem distribuídas para crianças guerreiras.

Como a exploração era uma cultura apregoada há séculos, era difícil combatê-la. O povo era exaurido, mas acostumado ao esquema. Sua organização sabia bem que o grande inimigo não era quem estava com a arma na mão, em um campo de batalha, mas os engravatados que forçavam este jogo desumano, mexendo peças vias em seu tabuleiro vergonhoso.

Laura havia passado por um rico treinamento em estratégias, técnicas de sobrevivência, combates. Não que usasse isto com frequência em suas tarefas, mas era necessário ter este conhecimento para qualquer eventualidade. Possuía habilidade natural para o uso de armas mas, acima de tudo, possuía estratégia suficiente para não ter que usá-las. Com pouco tempo na organização, ela já era muito respeitada e suas fotos ajudavam a identificar os locais e os envolvidos nos esquemas.

Tinha acabado de voltar de uma missão bastante arriscada, em uma região que estava incandescente e, tudo o que ela não precisava era que Olivier tivesse ido para lá. As fotos que trouxe e os dados que colhera eram suficientes para que eles colocassem os planos em andamento. Iriam desbancar, se tudo desse certo, um dos maiores laboratórios clandestinos, que para se manterem invisíveis, fomentavam as guerrilhas da África Central. Um dos mais violentos inimigos que seu grupo já enfrentara.

Passou o dia em complicadas ligações a procura de seu mentor. No final da tarde, conseguiu localizá-lo. Fez com que ele prometesse que, em hipótese alguma, sairia da cidade. Outros contatos, poderiam seguir suas instruções. Ela sabia que não adiantava pedir para que ele voltasse. Então, o máximo que poderia fazer, era cuidar de sua segurança à distância.

****

- Alguém poderia avisar ao ET que abduziu a Sam que nós não queremos trocar mais o nosso clone? Ele que fique com a azeda e deixa esta divertida com a gente!

- É mesmo Arthur! Você que anda mais próximo dela, conta pra gente que bicho mordeu a Sam? A gente tem que garantir um estoque disto, ela está bem demais!

- Vocês estão exagerando, ela está normal. – falou ele, esticando o olho para seu quarto.

Entretanto, ele mais do que ninguém sabia que ela não estava normal. Notava a nítida mudança de humor, a constância e o brilho em seu sorriso. Podia perceber, no riso que estava ouvindo, naquele momento uma alegria que nunca tinha notado. O brilho no olhar. Ele estava ficando preocupado. Desde a primeira vez que Sam tinha conversado com Laura pode sentir algo de diferente, alarmante. Agora estava mesmo se assustando.

- Que normal o quê? Ela conversou com todo mundo hoje! Brincou, ajudou, foi, imagine isto! Foi quase carinhosa.

- E, ultimamente, ela tem sido simpática com todo mundo.

-Verdade! Faz tempo que não vejo aquela correria quando ela chega,

- Sem contar a fila pra chorar no banheiro!

- É! Ela está zen!

- Viu só! – falou Gabriel para Arthur. – É visível, portanto deve ser algo "palpável"- completou com malícia, sabendo que o amigo estava na fila por Sam há tempos.

- Vocês estão viajando - respondeu amargo.

Já não existiam conversas paralelas, todos tinham algo a contar desta nova e excitante aventura que era desbravar o comportamento de Samantha. E tentar descobrir a causa.

Arthur sabia a causa. E não gostava nada dela. Foi até seu quarto para chamar Sam. Precisava ganhar tempo, reconquistar terreno. Apesar de nunca ter tido nenhum. Ouviu um pouco da conversa, quando se aproximou da porta sem ser notado.

- Não, Lau! Eu já te disse que minha cam é péssima, fica tudo escuro e não dá pra ver nada. .... Vou pensar no seu caso... Mas o que eu vou ganhar com isto? ... UAU! Vou arrombar uma loja hoje ainda....- riu antes de completar. - Que nada, você só promete! ... Laura, eu não sou do tipo que foge da raia...

- Samantha, você ainda está no fone? O pessoal quer cortar o bolo!

Laura ouviu a voz masculina ao fundo. "Como se não fosse óbvio que ela está ao telefone", pensou irritada.

- Vou desligar, ele está com saudade da companhia mais íntima dele, com certeza.

- Você? – a voz de Laura soou um tanto quanto alarmada

- O celular. Mas como você é ciumenta!

- Droga, isto quer dizer que o celular é dele mesmo! Você tem sorte de não estar na minha frente agora, com a ira me dominando.

- Ah, eu ia sim! – a resposta que saiu antes que ela pudesse se editar, a deixou ligeiramente constrangida.

- Não gostaria não, eu iria agarrar o teu pescoço.

- Ah, promessas, promessas... – "Droga, preciso desligar antes que eu pule no pescoço da mulher, nem que seja via satélite."

- Eu decorei o número. Não tem espaço pra números de telefone no meu cérebro, só abri uma exceção pra você e .... EI, VOCÊ ESTÁ RINDO DE NOVO!

O tom zangado de Laura, era hilário. Ela, vendo que Arthur não arredara o pé de seu lado esperando o celular, achou melhor desligar. Conseguiu falar um tiau no meio de muito riso e desligou o telefone.

- Qual foi a piada com meu celular? - perguntou sem conseguir conter a irritação.

- Ela decorou o número. Se receber alguma ligação estranha no meio da noite, não se assuste! – saiu do quarto rindo e foi se juntar aos outros na sala.

*****


Sam: Lau, eu tenho que concluir um teste aqui no meu pc, de um hard que instalei, acho melhor a gente não conversar no msn por enquanto, pode ser?
Laura: Vamos pro Orkut então, tem um tópico no Fator X pra conversas inúteis e final de semana não tem ninguém por lá mesmo, que tal?
Sam: Impressão minha ou você é viciada em orkut?
Laura: Eu gosto mesmo, tá! Na verdade, comento pouco. Acho que no Fator mesmo eu nunca comentei, mas é legal ir pra lá com alguém conhecido.
Sam: Tudo bem, não vou te negar este prazer. Vc tem o link? Aposto que já está com a página aberta.
Laura: Err.... estou mesmo, tá, pega ai
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4285310&tid=2549745835388606870&na=2&nst=60


Trocaram alguns scraps, quando Sam enfim contou o que estava instalando: sua nova web cam.

Laura quase subiu pelas paredes. Há semanas vinha pedindo à Sam para conversarem por vídeo e fone, mas a loira era meio empacada.

- Ah, enfim uma grande evolução no nosso relacionamento.

Laura ficou eufórica quando recebeu as primeiras imagens. Ampliou para tela cheia e ficou conversando recostada em sua poltrona, no quarto. A loira era muito mais bonita do que aparentava nas fotos, seu cabelo estava lindo, ela estava com uma camiseta branca de alcinha que deixava sua aparência angelical, embora nem sempre o olhar comprovasse esta tese.

Sam também ampliou a tela, ela não falava mesmo com outras pessoas, não tinha nenhuma pesquisa para fazer, então podia dedicar toda sua atenção para a conversa com Laura. Deixou o notebook aberto em suas pernas e ficou encostada na cabeceira da cama. Riu com o comentário de Laura.

- Nós temos um relacionamento? Alguém esqueceu de me avisar!

- Nós não temos? – Laura se aproximou de sua cam, olhando fixamente para ela.

A visão daquelas safiras brilhantes que a olhavam diretamente, fez Sam engolir em seco. Falar com Laura por msn, vinha sendo algo que a fazia se sentir extremamente bem. No entanto, no dia anterior tinha ouvido aquela voz. Uma voz que falava dentro dela. Era muito difícil transformar em palavras os sentimentos que aqueles sons provocaram. "Mas, por Zeus! O que Como ela pode ser assim, tão linda! E estes olhos, isto não existe!" Não era só a cor, o formato, o brilho, tudo nos olhos de Laura pareciam fabulosos para Sam. Tudo a deixava com os sentidos lentos e, paradoxalmente, com sentimentos acelerados.

- Pelo que posso entender, você quer ser minha namorada? – Sam se viu falando, estranhando a si mesma, no entanto, ansiosa pela resposta.

- Eu não ia falar nada, mas já que você pediu, eu quero sim! Pronto, agora você não pode mais mudar de idéia.

- Eu pedi? Não me lembro de ter pedido eu só estava... Mas tudo bem, sou uma mlher de palavra. Não lembro de ter pedido, mas se você diz eu não posso mudar de idéia.

- Hum, quem me dera que você quisesse mesmo.

- Acho que talvez seja interessantes você levar em consideração o que eu penso a respeito.

- Ai, tenho até medo de perguntar.

- Você! Com medo? Achei que você fosse "A" destemida! Que decepção cruel!

- Eu não tenho medo de muita coisa, tá, mocinha! Mas é que nunca nada foi tão importante pra mim.

- Laura...

- Hum?

- Quer namorar comigo?

- Quero - Laura respondeu prontamente, quase saltando da cadeira. - Você quer? - completou já sem tanto entusiasmo, a expressão de espanto.

- Acha que eu perguntei por quê?

- Você não é do tipo que precisa de razões, ou que seja fácil de prever ou.... Você quer mesmo?

- Quero, Laura, eu quero... - Sam sorria. - Eu posso confiar em você?

- Sabe que pode.

- Não. Eu não sei, por isto estou perguntando.

- Sim, você pode.

- Por quê?

- Porque até hoje eu fiz pouca coisa por mim - Laura falava pausadamente, buscando a resposta dentro de si. - Tive retorno, não estou reclamando. Só que agora eu sinto esta vontade, uma necessidade de ser feliz, de te fazer feliz. Eu quero ser confiável pra você. Quero porque isto me faz bem também.

- Ah, é? Mas por quê?

- Porque... Porque você tem a voz que eu espero o dia todo para ouvir, você tem os comentários que me fazem ver um mundo que é bonito. Porque quando penso que você tudo fica tranquilo, e o mundo não é feito de coisas ruins. Existe beleza, existe suavidade, existe explicação. As coisas, mesmo as que eu não sei, se justificam quando falo com você.

- Você sente isto por mim? - perguntou incrédula.

- Sinto... e olha! Fiz umas pesquisas no google e descobri que isto é amor, não é estranho?

- Sim é estranho, considerando que você não sabe se tem alergia ao meu cheiro, por exemplo.

- Tudo bem, eu compro um antialérgico se isto acontecer, mas não vou te pertder.

- Por quê?

- Porque, criança de quatro anos... Porque eu descobri que não posso abrir mão de você. Ainda mais agora que sei que você gosta de mim! Quem sabe está até apaixonada – Laura exibia um sorriso brilhante, que embora quisesse que parecesse gozador, mostrava comoção.

- Na verdade, não sei dar nome ao que sinto por você, Laura. Nunca senti nada assim antes.– ao olhar de espanto de Laura, emendou – Acho que está tudo muito rápido e muito estranho.

- Você não precisa dar nome... por agora. Sinta. Eu estou sentindo muitas coisas por você também, sabe.

- Ah é? Que tipo de coisas?

- Me sinto em casa com você. Como nunca me senti antes – falou sorrindo.

- Sabe que este seu sorriso é de matar, não sabe? Você faz de propósito.

- Hum... Por quê?

- Como?

- Agora é minha vez de perguntar, sua espertinha. De matar, por quê? Que tipo de sensação te provoca- Laura olhou novamente fixamente para a cam, mas tomando o cuidado de deixar todo o seu rosto ficar exposto na tela.

- Hum, Laura... Eu nunca namorei por Internet – colocou um dedo no queixo e forçou o pensamento, enrugando a testa. – Pra falar a verdade, eu nunca namorei. Não sei como funciona isto.

- Eu também nunca namorei por internet. Talvez isto seja bom, talvez a gente só consiga deixar as coisas fluírem e vamos ver onde vai dar.

- Pra mim está bom assim. E, nestes 10 minutos de namoro posso dizer que, definitivamente a sensação é boa – falou com um sorriso.

- Você é tão meiga! Me espanta que façam os comentários que você diz que fazem a seu respeito.

- Eu sou, era, sou... sei lá. Nunca fui de me relacionar, ou de manter amizades.

- Sei, você é um abatedouro, não é?

- Ah, você não é muito diferente, pelo que me disse. Falou que já namorou, mas não que foi apaixonada mesmo por alguém.

- Eu ando tão comportada ultimamente. Ei! Faz de novo?

- Hã?

- Faz de novo esta cara que você fez quando disse que não é de manter relacionamentos? O meu print foi muito lento.

- Ah, você está tirando cópias de mim!

- Claro! Você é tão econômica em fotos e, sabe, eu tenho sentido saudades. Morro de inveja destes seus amigos que podem te ver o dia todo. E agora eu sou sua namorada, então eu posso.

- É eu também tenho, desta mulherada que te segue em todo lugar.

- E no entanto, só você me interessa.

- E no entanto, só você me interessa – imitou Sam com um sorriso tímido. – Já é bem tarde ai, não é? Você me disse que tem que acordar cedo amanhã.

Laura olhou para o relógio com grande desânimo.

- É, tenho que levantar daqui a pouco.

- Vai dormir então, amanhã a gente conversa mais. Agora que você é minha namorada, pode me ligar quando quiser. Só que liga no meu celular, não no do Arthur, tá.

Laura riu.

- Eu decorei aquele número, sua malvada! Minha dificuldade pra decorar números nem é de brincadeira. Duvido que vá conseguir de novo.

- Não precisa, sabe. Inventaram um negócio muito útil, que chama agenda. Até deve ter no seu celular.

- Vou ignorar o seu comentário... Olha só, que luxo, vai ganhar o número 1,na discagem rápida. Privilégio de namorada.

- Sei... Nem quero pensar na quantidade de discagens rápidas seu celular deve ter registrado.

Sam falou o número e Laura anotou na agenda do celular. Pensou em tentar decorar, mas agora estava tão ocupada olhando para aquele rosto e tentando gravar as imagens em sua cabeça que não ia perder tempo com isto.

- Bem, já que a patroa mandou, vou me deitar então. Dá um beijinho aqui, Sam.

Laura se aproximou da câmera para dar um beijo. Sam olhava-a quase hipnotizada. Ao notar a reação da outra, Laura abriu um sorriso malicioso e falou.

- Ah, se eu estivesse ai, você estaria sendo coberta de beijos agora. Sua boca parece ser tão macia, eu te daria um beijo longo, estaria desbravando sua boca, conhecendo seus sabores.

- Laura... – Sam estava com a garganta seca, olhando a morena falando com ela com aquele brilho no olhar, colocando a língua entre os lábios, mordendo os próprios lábios. – Por favor! Isto é maldade demais!

- E então...

- Ah, vá dormir! Bandida!

Com um sorriso e um balançar de sobrancelhas, Laura desejou boa noite, em um tom que sugeria muito. E foi. Sam minimizou a tela e afastou o notebook para os pés de sua cama.

Sozinha em seu quarto, ficou repassando o que tinha visto. Estava muito excitada, com apenas alguns olhares, com aquela voz, com aquele tom de voz. Fechou os olhos e tentava se conter. Mas seu corpo estava trabalhando por si. Ouvia sua própria respiração se tornar profunda, sentiu necessidade de sentir contato em seu corpo. Passou uma mão pelos lábios, pois podia sentir quase, o beijo que Laura descreveu. A outra mão, tocou em seus seios, voluntariamente, arrancando dela um gemido de desejo.

- Laura... – chamou.

Laura estava no banheiro, escovando os dentes. Quando voltou para o quarto e ia desligar o computador, ouviu seu nome, mexeu no mouse para tirar o descanso de tela... e viu!

Seu coração disparou, seu queixo caiu... ela caiu sentada na poltrona, enquanto assistia sua namorada se tocar em movimentos lentos. Desligou o microfone de sua máquina, para não perturbá-la neste momento quase sagrado. "Zeus! Ela é simplesmente uma delícia! "

A posição em que a cam estava, lhe proporcionava uma visão única. Pode ver a mão que estava na boca, descer para dentro da lingerie, e perceber os movimentos insinuantes que fazia ali dentro. Os movimentos do corpo que se aceleravam, enquanto a outra mão permanecia fazendo carícias nos seios. Pode ver a loira firmar os pés para se arquear na cama, enquanto em um espasmo, novamente chamava seu nome.

Laura achou melhor desligar a cam antes que Sam percebesse que teve audiência. Ela provavelmente se sentiria constrangida. Foi se deitar com a certeza de que esta seria uma noite em que o sono demoraria a chegar...

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