segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Capítulo 4

- Senta aqui Laura e fique sabendo que agora você só vai levantar quando contar tudo pra gente – o tom de Lupe e o olhar atento das irmãs Martinez mostravam que o pelotão estava pronto para o fuzilamento.

As irmãs tinham entrado sem muita cerimônia em seu apartamento, enquanto ela estava sentada em sua poltrona lendo um jornal. Elas a pegaram pela mão e a sentaram no sofá entre elas. Não pareciam dispostas a dar brechas para fuga.

- Ah, bom dia para vocês também, pessoas simpáticas.

- Não começa a enrolar, não! Pode começar a contar.

- Tudo bem eu conto! Eu sei que é triste e vai ser um choque para vocês, mas é verdade – com um tom pesaroso, completou. – A Xena morreu mesmo no fim da série e Gabrielle ficou sozinha.
Imediatamente, uma saraivada de almofadas começaram a se chocar contra Laura, que rindo, tentava se defender.

- Sua palhaça! Conta pra gente o que está acontecendo com você!

"Palhaça... é tão gracioso quando ela me chama assim! Que saudade do que eu ainda nem vivi!"

- Não sei do que estão falando! – Laura falou para ganhar tempo.

- Olha só! Não estou falando! Olha pra sua cara agora e você vai ver do que estamos falando. É paixão! E das bravas! – Dana olhava divertida para o ar ligeiramente patético no rosto da amiga.

- Conta Laura, mais dia menos dia você vai contar mesmo, então economiza nos dias.

Elas eram como uma família para Laura, mas sempre tinha o incômodo dos sentimentos de Lupe em relação a ela para a preocupar. Ela sabia que as irmãs tinham notado o comportamento da irmã do meio, mas notava que não falar sobre o assunto era um acordo tácito. Era um equilíbrio que Laura fazia grande esforço para não romper. Lupe, ao contrário das irmãs, não parecia nada festiva com a novidade.

- Tudo bem, tudo bem... Vamos lá, podem perguntar que eu respondo.

- Está bem, eu quero saber.... TUDO!

- Bem, eu não sei direito como contar, nós ainda não nos conhecemos pessoalmente e...

- Você acessa estes programas de namoro por telefone? Que desespero de causa, Laura!

- Não, Su! Também não estou catando papel em ventania, me poupe! A gente se conheceu, por acaso, por Internet e eu não estava caçando, foi obra do acaso.

- E como é que é esta garota que está te deixando com esta cara de besta?

- Ela é brasileira, mora na minha cidade, não muito longe dos meus pais, é loirinha, bem pequenininha, branquinha, tem umas coxas magníficas, um tanquinho de arrasar em qualquer combate, é fotografa... e o que mais, ela tem um olhar muito safado e adora lasanhas.

- Mora perto dos seus pais e você dizendo que estava correndo o mundo pra achar sua cara-metade – Dana estava rindo da amiga, e de olho em Lupe. – Este mundo é muito pequeno mesmo!

- Namoro por Internet, Laura? Ou vocês não estão namorando, estão só conversando? – o tom de Lupe parecia mais aliviado, apesar dela não estar rindo como as outras.

- É, eu também nunca levei fé nestas coisas. Não só por ser com uma pessoa que, como é meu caso, nunca se viu pessoalmente, mas também porque estar longe, o que é fogo! Sempre que ouvia falar destes casos, pensava que estava imune a isto.

- E que bicho te mordeu pra você mudar assim de opinião? – Dana interrompeu.

- Pela sua descrição andou rolando algum strip... isto está me cheirando é safadeza! – Su falou animada.

- Não Su! Não rolou safadeza... bem, quer dizer, ah... sei lá, nada proposital, ou constante, só um deslize e quando eu falei com ela sobre isto ouvi muita bronca! – Laura caiu na risada quando se lembrou da besteira que fez em perguntar para Sam se o “festivo deslize da web cam” tinha sido proposital.

- Esta parte eu vou querer ouvir com mínimos detalhes!

- Não vai ouvir nem com mínimos e nem com nada! Já falei demais sobre o assunto... e pronto – o tom de Laura foi conclusivo o suficiente para que Su fizesse um biquinho e desistisse do interrogatório. – E respondendo sua pergunta, Dana, eu não sei o que me fez mudar de opinião. É que desde a primeira vez que nós conversamos eu senti tantas mudanças na minha cabeça, no meu modo de pensar, senti tanta vontade de falar com ela e esta vontade cresceu tanto que quando eu vi me sentia ‘dependente’.

- Você não a conhecia antes? Nunca se esbarraram enquanto você morava perto dela?

- Não que eu saiba. Ela é mais nova que eu, então acho que nós nem chegamos a nos cruzar na escola ou mesmo que tivéssemos o mesmo círculo de amigos.

- Mas desde quando vocês estão conversando? Você parece diferente desde que voltou desta sua última viagem.

- É... pois é, foi desde o dia que eu voltei da viagem. Muito perspicaz você, mocinha!

- Uhhh! Perspicaz! Sulamita, a pulga perspicaz! - Dana adorava provocar a irmã caçula, que se esquentava com facilidade.

- Ah, para com isto! Vou te contar quem é a pulga – falou isto já pulando no pescoço da irmã, a empurrando para o chão.

- Zeus! Vocês não imaginam o quanto é complicado pra mim, ter que assistir duas espanholas bronzeadas, gatésimas rolando no meu tapete! – Laura falou com cara de quem estava babando. Sabia que isto era o melhor remédio pra desconcertar as duas gatas de rinha, o que de fato funcionou.

- Se você gosta de espanholas, porque foi namorar com uma brasileira? Acaso te falta opção aqui, Laura?

- Não é isto, Lupe. Eu não posso negar que acho – olhou fixamente para ela – as espanholas lindas, super desejáveis e se acaso eu sentisse despertar, por uma delas, algum sentimento além desta, como diria, profunda admiração... Eu poderia viver pra sempre com esta pessoa. Acontece que este tal sentimento surgiu por esta brasileira. Eu não estou à procura de uma nacionalidade, mas de um amor.

- E que espécie de sentimento é assim tão poderoso que em dois meses, sem ao menos se ver pessoalmente, faz você estar assim, se dizendo mudada? Isto beira o ridículo! E não venha me falar em “amor”! Você nem viu esta pessoa pra falar que ama!

- Lupe! “Coração dos outros é terra que ninguém pisa”, não esqueça disto. É muito fácil ficar de fora e apontar os dedos para as atitudes das pessoas, sem saber exatamente o que as motiva.

- O duro é que eu sou obrigada a concordar com ela, Dana. Eu também não entendo como isto aconteceu tão rápido. Dois meses... na verdade não foram necessários dois meses. Como eu disse, me senti mudada desde a primeira conversa. Não posso dizer que foi “paixão”, “amor”, ou o que seja... eu não sei, juro que eu não sei que nome dar ao que estou sentindo! Só sei que é um sentimento poderoso, é bom, me dá uma sensação de conforto... entre inúmeras outras sensações.

- Então se livra disto, Laura! Por que ficar dando corda a um relacionamento que começou do nada? Com certeza vai acabar do nada, também! Vai que a guria tem mau-hálito, ou tem uma voz horrível, ou..

- A voz dela é linda! Ela tem a voz meio rouquinha e tem balanço e ...

- Ah! Pára! Você não está nem ouvindo o que eu estou falando! Quer saber, Laura? Vai atrás desta idiotice, perca seu tempo, perca suas amigas, perca a mim... Perca tudo o que você diz que gosta de ter!

- Lupe, não precisa disto! Tem espaço pra todo mundo na minha vida. O que a gente viveu nunca vai deixar de existir. Você sabe que eu amo a sua família, nunca vou deixar de ser grata a vocês!

- Pro inferno com este amor! Não é isto que eu quero, nunca foi isto que eu quis e você sabe muito bem disto!

Lupe levantou e saiu correndo da casa de Laura, Su fez menção de a seguir, mas Dana a impediu.

O acordo de silêncio estava a beira de ser rompido e Laura notou, com pesar, que as coisas poderiam ficar muito diferentes dali para a frente.

*****

Sam e Laura conversaram à tarde, era um sábado quente e Sam tinha marcado de sair com seus amigos, à noite. O bom e velho barzinho de sempre, que era da prima de Arthur. Apesar de estarem sempre mandando mensagens pelo celular, nunca dispensavam a conversa pelo msn, principalmente para poder usar a web cam.

- Hei, Laura! Que cara preocupada é esta?

- Nada de mais. Não estou em um bom dia, eu acho.

- TPM ?

- Eu não me afeto com estas coisas! TPM é psicológico.

- Ah! Então, decididamente é TPM... já reparou que as pessoas nunca dão o braço a torcer quando alguém fala que é por isto que elas estão alteradas?

- Eu não estou alterada! Grrrrrrr

Sam caiu na risada. Realmente Laura não deveria estar em um grande dia, mas o mau humor dela era bem engraçado.

- Hum, acho que vou rosnar pra você mais vezes, se você sempre sorrir assim para mim.

- Se você continuar rosnando, o máximo que vai ganhar é uma coleira anti-pulgas... Mas é sério, Lau... o que você tem?

- Nada não. Nada para você se preocupar.

- Não vou me preocupar, te prometo. Pode contar.

- Este seu olhar “Gato de Botas” é fogo! Não tem mau-humor que resista a ele, sabia?

- E você não parece estar de mau-humor, parece estar triste. Não tenho lá muita experiência com namoros, mas acho que li no Manual que não se deve deixar a namorada triste sozinha.

- Ah, você lê manuais de instrução! São raras as pessoas que lêem! Minha garota é rara!

- E você vai mudar de assunto a noite inteira e não vai falar para mim, não é?

"Como eu poderia falar que estou triste porque uma pessoa queria entrar na minha vida e não tem espaço... porque você tomou conta de tudo?"

- Você ... é muito importante para mim, Sam. Independente se eu te conto meus fantasmas ou não, só de você existir, mesmo fazendo bico como agora... Só isto já me basta para seguir em frente.

- Ah! Aprendeu a fazer o olhar “Gato de Botas”!

- Eu sou uma aluna muito habilidosa

- Ah sim, claro... Suas habilidades, não podemos nunca nos esquecer destas suas habilidades.

- Pois é, uma das minhas habilidades é a audição. Sabia que seu interfone começou a tocar muito antes que o seu celular, não sabia?

- Ah, nem estou mais com vontade de sair. Você está me deixando triste.

- Não, Sam! Está tudo bem, não deixe de sair com seus amigos não. Aproveita, porque quando eu estiver por aí, você vai ser exclusividade minha.

- Ai, eles não desistem! Vou ter que descer mas eu te ligo mais tarde, está bem? E se você resolver falar, ou só falar alguma coisa, me liga.

- Só de você falar isto, já me deixa tão feliz.

- É sério! Pode me ligar... até à cobrar.

- Nossa! Isto sim é prova de amor! Tudo bem, vou ligar à cobrar pra você mais tarde pra gente ficar horas conversando. Agora vai, que este interfone está me enlouquecendo.

- É, vou bater em uns chatos abusados, hoje. Um beijo, Lau... fica bem.

- Divirta-se. Um beijão.

*********

- Cambada de desesperados! – Sam saiu do prédio resmungando com seus amigos e já tomando o rumo do barzinho, seguida por Andréa, Virna e Gabriel.

- Que é isto Sam! O Arthur falou que você poderia estar dormindo e que era pra fazer barulho até você acordar – falou Virna, tentando fazer um ar de inocência.

- É verdade, ele instruiu... e como não era nada assim, muito desagradável de fazer, nós concordamos gentilmente com ele. – Andréa emendou, rindo

- Eu, dormindo?? Imagina, eu nunca durmo neste horário. E o Arthur sabe disto.

- Ué, demorou por que, então?

- Eu estava... ocupada.

- Ocupada... sozinha em casa, no telefone não estava, que ligamos no celular e na sua casa mesmo. ... – Virna disse, franzindo o cenho.

- Ahhh! Você por acaso não estava... – Gabriel parou de sopetão, para exclamar agudamente no meio da rua.

- Não! Não quero nem imaginar o que você ia perguntar, mas não mesmo! Eu só estava conversando pela Internet com ... com .. com a Laura – Sam gaguejou, não sabia se eles sabiam de Laura.

- Hum! Com a Laura, é claro!

- Oxe! Me perdi, quem é Laura?

- A namorada dela Gabriel.

- Namorada dela?? Credo, Sam! Até tu? To enrolado neste grupo, daqui a pouco até eu começo a gostar de mulher! Não tem ninguém pra falar de homem comigo!

- É cara, você que tinha que virar hetero, pra poder discutir mulher com a gente.

- Creeeedo, Mona! Só de pensar eu fico arrepiado! – Gabriel estava com cara exagerada de nojo, mas logo a curiosidade falou mais alto e ele se entusiasmou. – Mas me conta este babado forte! Quem é esta que eu nunca vi!

- Ninguém nunca viu! A Sam esconde da gente a sete chaves, nunca ninguém viu nem foto, mas está rolando uma lenda urbana que diz que é uma sereia de rabo azul e vive com os peitos de fora, só com uma estrelinha do mar tampando, e que tem uma voz de afundar navios no deserto e...

- ... e nada! Quanta abobrinha! Bem, exceto quanto à voz, ela tem uma voz de abalar mesmo! E é linda também, mas... eu nunca vi, err – Sam gaguejava – eu nunca vi nada disto que vocês estão falando.

- Nunca viu o que? O rabo da sereia?

- Ai céus! Dá pra voltar pra Terra? E quem foi que falou dela pra vocês, Virna?

- Seus olhos quando fala dela, o espaço que ela tem na sua agenda... sua presença no msn, que nunca tinha existido antes... e agora, você não negou, logo...

- Logo você jogou verde comigo, não é safada!

- Ah Sam! Todo mundo já notou que você está diferente, está muito melhor, por sinal.

- Ah, suas traíras! Ninguém me contou que era por uma mulher! E eu achando que ia aparecer um bofe novo na turma!

- Gabriel... guarda a purpurina para mais tarde, amigo! Com este grito que você deu no meio da rua, nós podemos ser localizados por satélite é só seguir a mancha cor-de-rosa...

Assim, caminharam rindo e brincado, fazendo todas as perguntas absurdas que eram capazes de pensar, querendo saber detalhes sobre Laura. Sam, a princípio tinha pensado sobre o que falar, mas logo se sentiu à vontade falando de Laura. Ela realmente estava gostando muito do assunto.

Logo chegaram ao charmoso barzinho de madeira e cobertura de sapê, à beira da praia. As luzes amarelas não muito forte davam um ar retro ao ambiente, o som animado das vozes misturadas, ocultava, ligeiramente, a tentativa de uma bela morena de conseguir se afinar na música, do videokê. Entraram animados logo localizando Arthur, Fernanda e Gisele, que estavam sentados na mesa habitual deles, com duas garrafas vazias de cerveja sobre a mesa e as latinhas de refrigerante, das meninas. Arthur estava com ar de poucos amigos.

Os amigos comentavam que Arthur e Sam pareciam estar em uma gangorra. À medida que o humor dela melhorava e se tornava mais espontânea e sociável, mais Arthur se tornava taciturno e irritadiço, além de estar, comumente, exagerando na bebida.

- Oras, oras, que grupo mais animado! Ainda bem que vocês não ficaram com a tarefa de ficar esperando, talvez estivessem rindo menos. – Arthur falou, com uma aparência não muito animada.

- Ah, mas se nós tivéssemos tomado duas cervejas enquanto esperávamos, estaríamos alegres sim! – Andréa mexia nas garrafas enquanto falava.

- Arthur, que história é esta que eu durmo e é preciso ficar apertando a campainha e telefone e ...até sinal de fumaça eles mandaram! – Sam falou enquanto se sentava.

- Resolveu, não resolveu? – com um exagerado assentimento de cabeça que Gabriel fez, Arthur continuou - Então está tudo certo.

- Nossa! Que bicho te mordeu em rapazinho? Ou foi uma bicha?? Ah, eu adoro este lugar, todo mundo morde todo mundo! Estou louco pra ser mordido hoje!

- Por Zeus, alguém segura este menino que hoje ele está atacado!

- Pode me soltar que hoje eu estou abalando! Acordei para arrasar.

- Ah, Gabriel, bebe e cala a boca, está parecendo que você engoliu um saco com gatinhos, fala feito homem! – Arthur já tinha enchido o copo do amigo e o passou para ele com alguma violência, derrubando um pouco do líquido na mesa.

- Qual é Arthur! Não me amarrota que eu to passado!

Sam olhava a cena mordendo a língua. Há dias ela tinha notado que seu melhor amigo estava com um comportamento estranho. Ele não tinha diminuído as visitas a ela, nem as ligações, mas sempre estava seco e de mau humor. Como ela era, até então, a rainha das respostas secas, sabia que ele tinha este direito, além do que, ele era a pessoa com quem podia falar sobre Laura.

Arthur sempre perguntava sobre ela, sobre o que conversavam, sobre o tempo que passavam conversando. Ele estava se mostrando um belo curioso e ela gostava de falar.... eu adoro falar sobre a Laura, adoro falar com a Laura. Pegou seu celular e foi até as escadarias que levavam do bar para a praia, era bem mais silencioso lá fora. O telefone foi atendido quase imediatamente, quando começou a dar sinal.

- Parece que tem gente que anda com o fone grudado na orelha!

- Pura coincidência, eu nem estava ansiosa esperando ninguém ligar...

- Ah, então eu vou desligar e te deixar descansar...

- Imagina! Eu sou educada, você pode falar que eu te dou atenção. – Laura falou, fazendo charme.

- Quanta bondade! Ah, está uma noite tão linda aqui, Laura! Apesar do calor estar de matar, tem uma lua cheia maravilhosa.

- Eu estou ouvindo barulho do mar, barulho de música... desafinada, você está onde exatamente?

- Perto de casa, no bar que sempre venho. Adoro ficar sentada aqui fora, vendo o mar. Consigo viajar quando o vejo assim, me dá uma sensação tão boa.

- Sam olha para o nordeste, o mais longe que você puder.

- Estou olhando, o que tem?

- Daqui da minha janela dá para ver o mar também. E se eu olhar para o sudeste...

- Só vai existir um oceano...

- É sempre este oceano no meio, mas fico feliz por estarmos olhando para o mesmo lugar, estamos olhando para a mesma água, vendo a mesma lua. De alguma forma isto nos une.
Sam fechou os olhos e inspirou profundamente. Isto fazia sentido, se sentia unida a Laura através dos elementos que compartilhavam. E isto era uma sensação muito boa.

- Laura, o oceano não precisa ficar sempre no nosso meio...

- Não, ele não precisa... mas no momento, não tem outro jeito.

- É... lamentável isto. Mas, estou feliz, você parece estar com uma voz mais tranqüila.

- Eu falei com você, não tem como alguma coisa ter o poder de me deixar mal depois disto.

- Ah, mas é trovadora!

- E posso garantir que você ainda não viu nada!

- Hum, vou desligar antes que você venha me falar da sua habilidade em ‘cantar’ e eu acho que não vou gostar de saber disto.

- Que é isto! Estou guardando todas as minhas cantadas para você.

- Acho bom mesmo, palhaça!

- Ei, eu não posso falar das minha habilidades mas você pode me chamar de palhaça!

- É que eu sei que você gosta, deve ficar esperando.

- E o duro é que eu gosto mesmo. Mas não vou te contar isto!

- Tudo bem, eu não conto seu segredo... Hummmm, agora tenho que ir.

- Sei que é duro pra você, Sam, deixar de falar com a multi-habilidosa e deliciosa namorada, mas pode ir... eu deixo.

- Céus! Eu poderia ter dormido sem esta! Tiau, sua metida!

- Tiau linda, divirta-se.

Sam voltou para a mesa e notou que o clima não tinha melhorado enquanto esteve fora. O humor de Arthur parecia ter se espalhado pelo restante do grupo. O que era uma pena, já que a noite tinha começado tão bem. Aliás, ela estava tão comovida com a sensação que teve, sentindo a noite partilhada com Laura... Se abaixou atrás de Arthur, o abraçando pelas costas e deu-lhe um beijo no rosto. Em seguida, espalhou o cabelo sempre arrumadinho dele e disse:

- E se você tentar esquecer o que está te perturbando agora e a gente só se divertir esta noite, meu caro? Depois a gente partilha este seu problema e fica tudo bem.

- O meu problema é o meu problema, Sam. Não tem esta de partilhar.

- Que é isto, Arthur! Nós somos amigos você sempre partilha os meus problemas, não tem nada de mais partilharmos os seus.

Ele pensou, olhando firme para ela, segurando a língua para não falar. Na verdade estava cheio de ser amigo dela, cheio de ouvir ela contando das histórias dela com Laura, cheio de vê-la sair de fininho e voltar com este ar insuportavelmente feliz e sonhador. O grande problema dele era ela. E ele estava tendo uma imensa dificuldade em ocultar isto.

- Me deixa, Sam. Outro dia a gente conversa.... Eu não estou legal hoje, acho que vou é embora.

- Nossa, hoje é dia. A Laura também não estava legal.
Um copo cheio, não precisa de muito para derramar. Esta menção de Laura, quando era ele quem precisava de atenção, aliado à cerveja, à irritação com os amigos que o olhavam tentando decifrar, à escapada de Sam... o copo de Arthur derramou.

- Você não tem idéia, Sam, do papel ridículo que está fazendo? Laura, Laura... você nem conhece ela! Será que só você não nota que ela está brincando com você?

- Ei, calma ai, Arthur! Não vá falar nisto agora, está bem? Você está alterado. E a Sam não tem nada a ver com isto, não vá descarregar nela. – Virna tentou evitar que ele continuasse falando, mas depois que se começa, é difícil de parar.

- Calma nada! Vocês acham que é papel de amigos ficar vendo ela se enrolar assim e ficarem quietas? Para vocês é muito cômodo, achavam ela insuportável antes, é muito melhor indefesa do jeito que ela está ficando, não é?

- Enrolada... Por que acha isto?

- O que você acha que vai acontecer com este seu fabuloso namoro? Acha que é uma coisa para a vida toda? Acha que ela se importa como você se importa?

- Bem... eu acho sim. – Sam já tinha perdido a linha da serenidade que havia encontrado na conversa com Laura. Agora estava se sentindo na corda bamba.

- É ridículo você achar isto, Sam! Na primeira oportunidade ela te troca pelo trabalho, ou você acha mesmo que por um lance de Internet ela vai deixar de rodar o mundo? Se liga! Ela é famosa, ela é reconhecida... Você está sendo um bom passatempo, ela gosta de desafios e você deve ter sido um, bem dos fáceis, para ela, por sinal.

- Arthur! Agora sou eu quem diz para você falar como homem! – Gabriel interveio.

- Você guardou seus sentimentos a vida toda, como se fosse um tesouro! Ofereça, Sam... ofereça todo este tesouro em troca das bugigangas que ela tem para te dar em troca. Arrisque ser chacota, ser usada. Só que depois não fique chorando pelos cantos, quando você notar que ela não se importa. Quando perceber que você não é nada para ela.

Sam ficou olhando para Arthur por um tempo, os lábios se prendendo com força, um brilho dolorido no olhar. Olhou ao redor, percebeu que seus amigos estavam boquiabertos, que nas mesas ao lado havia silêncio, odiava chamar atenção, odiava a vontade de chorar que a estava acometendo. Enfim, sacudiu a cabeça, se levantou, pegou sua bolsa e respondeu:

- Eu vou arriscar Arthur, nunca arrisquei. Nada antes me pareceu valer a pena. E também não acho que se trate de bugigangas. Tenham uma boa noite.

Ninguém sabia o que falar, se deveriam falar, se deveriam acompanhar Sam. Enfim, Gabriel se levantou para ir com ela até seu apartamento.

Os outros olhavam para baixo, às vezes arriscando um olhar para Arthur. Era meio evidente que ele tinha uma queda por Sam, todos já tinham notado. Mas tinham notado também, ao menos concordavam com isto, que ele não levava isto muito a sério, pois nunca tomara nenhuma atitude para demonstrar para ela o que sentia. Arthur se levantou em seguida e sem olhar para os amigos, também saiu do bar. Andréa pediu licença e o seguiu, indicando para eles continuarem ali. Ela o alcançou na rua

- O dito popular é de que em uma hora ruim é que você conhece os amigos. – falou Andréa, quebrando o constrangedor silêncio. – Você já pensou que o contrário também pode ser verdade?
Algumas pessoas só sabem ser amigos quando o outro está no chão. É este tipo de amigo que você quer ser para ela, Arthur?

- Me deixa, Andréa, você não sabe de nada! Eu não quero ver ninguém no chão, muito menos a Sam!

- Então deixa ela tentar ser feliz!

- Eu quero que ela seja feliz, eu sempre quis... – o tom de voz dele foi diminuindo e foi em um sussurro que terminou – mas eu quero que ela seja feliz comigo.

- Ah, amigo - ela o abraçou, sabendo que um dos dois sairia ferido desta história... no momento, os dois estavam.

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