Sam foi até seu apartamento com Gabriel. Caminharam sem conversar e, quando chegaram, ele olhou para ela, perguntando sem falar, se ela queria companhia. Ela ergueu os pés e deu um beijo em seu rosto, selando a despedida daquela noite.
Gabriel entendeu, retribuiu o beijo, emendou um abraço e a deixou ir. Ficou olhando enquanto Sam entrava no prédio com a cabeça baixa, passos curtos. Isto cortou seu coração. Logo em seguida, ele olhou para o porteiro do prédio e pensou: ô delícia! Pronto, simples assim e ele já estava preparado para voltar para a noite!
****
Andréa ficou mais algum tempo tentando conversar com Arthur, mas ele estava arredio, não queria papo, não queria consolo. Queria ficar sozinho. Ela viu que não teria jeito mesmo e o deixou, voltando ao bar, onde encontrou Virna sozinha à mesa, olhando com divertimento a loira Fernanda dançando muito agarrada com morena Gisele. Estas duas vão longe, com este fogo todo! E assim... a vida continua, tomara que Arthur não pense em cobrar pelo que ele ofereceu sem que Sam pedisse. Resolveu aproveitar a note, já que não podia mais ajudar com nada e sua namorada/esposa estava lá, toda sorridente esperando por ela.
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Arthur enfim conseguiu ficar sozinho e se refugiou em seu carro. Ligou o som e procurou a música que ele ouvia como um hino, estes dias. She will be loved, do Maroon 5:
"... ela tinha problemas com ela mesma, ele sempre tava lá pra ajudá-la, ela sempre pertenceu a outra pessoa.." "eu sei onde você se esconde, sozinha no seu carro, sei todas as coisas que fazem de você, você, eu sei que 'adeus' não quer dizer nada, volta e me obriga a segurá-la toda vez que ela cai"
Ficou recostado no banco, imaginando que sempre gostou da função de super-herói, para Sam. Mas que ela nunca ao menos percebia isto. E isto o irritava. Queria que ela ao menos demonstrasse um carinho especial, reconhecimento. Queria que na frente de seus amigos, ela falasse só dele, ou que se comportasse como se ele fosse importante. Quem é que estava ao lado dela quando ninguém mais queria? Que droga! Eu preferia quando ela não parecia assim tão bacaninha! Ela está ficando uma pessoa como as outras, fazendo amizades, falando com as pessoas. Droga! Ela está tirando o meu espaço!
Por outro lado, o que Andréa falou sobre ele ser um amigo só para as horas difíceis, o tinha pego de contrapé. Afinal de contas, ele sempre soube que esta paixão não seria uma estrada de duas mãos.... isto não o impedia de querer. E todo mundo tem o direito de querer ser feliz. Ele tentaria ser. Não importava muito o que tivesse que fazer para isto.
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Laura, estava em um dos lugares que mais gostava de ficar. Sentada na amurada, de seu prédio, ouvindo música... uma música que falava sobre a distância que o oceano impunha, mas que não era assim tão longe. Olhou para a lua e imaginou como estaria sendo a noite daquela baixinha, que tinha relutado tanto para ir ao encontro dos seus amigos, só porque percebeu que ela não estava legal.
E assim, como se o seu pensamento tivesse o poder de atrair a vontade da outra, o telefone tocou... e ela teve certeza de quem ligava, sem ter que olhar para o identificador de chamadas. Se sentiu feliz, atendeu imediatamente. A conversa entre elas, foi leve, divertida. Elas sempre se provocavam e ficavam fazendo charme uma para a outra. Laura se sentia tão inserida no mundo quando falava com Sam!
Ela pensou sobre as prioridades da sua vida. No momento, tinha concluído a última etapa da missão que designaram a ela. Ainda havia a preocupação com seu mestre na África, mas não podia fazer nada a respeito.
A situação com a família Martinez estava delicada. A explosão de Lupe, na frente das irmãs, arrancou a frágil máscara que enevoava as intenções da bela espanhola com ela. Sabia que, apesar de sempre ter sido aceita na família, sua orientação sexual era um tabu para os mais velhos daquela casa. Como reagiriam quando soubesse da paixão de Lupe por ela? E qual seria o posicionamento de Su e Dana? Ela sabia que elas não eram preconceituosas, mas eram muito apegadas com a irmã e, no momento, ela estava sofrendo por sua causa. Ou ela pensa que é por minha causa.
No Brasil estava toda a família de Laura. Seus pais tinham uma pousada perto do mar, que vinha recebendo muitos turistas do exterior. Andavam animados com o movimento crescente dos últimos anos. Seu irmão Leandro, de 21 anos, estava quase terminando a faculdade de Administração de Empresas, era um rapaz empolgado, cheio de idéias, que vinha colocando em prática na pousada, modernizando-a. Sua irmã, Lídia, com 32 anos, formada em Educação Física, cuidava das atividades de lazer, quando os ‘pestinhas’ deixavam. Lídia tinha dois filhos gêmeos, de 9 anos, que eram movidos a uma espécie de bateria que nunca acaba. Eles eram a grande paixão de Laura.
Mas eram mesmo? Quando Laura pensou na sua grande paixão, só conseguia se lembrar da conversa com Sam. Olhou para a lua, mas só conseguiu se lembrar daquele oceano verde que a fascinava tanto pela minúscula tela do msn. Sentiu frio, mas sabia que não haveria blusas que a fizessem se aquecer. Sentiu um frio na alma, um frio que pede o que não pode mais ser protelado. Laura percebeu que precisava ver Sam.
E esta era a prioridade, a única.
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Droga! Eu estava tão feliz! Por que ele me disse estas coisas? Por que eu estou pensando sobre elas??
Sam tinha vindo do bar até sua casa, em silêncio. Gabriel tinha vindo com ela, mas ela não conseguiria conversar, apesar de ter se sentindo confortável com a presença dele e por ele respeitar seu silêncio. Achava que somente Arthur saberia fazer isto. Ele é meu melhor amigo, sempre foi o único!
“guardou seus sentimentos como um tesouro... trocar por bugigangas”
Afinal de contas, quem era ela para Laura? Mais que isto! Quem Laura era para ela? Um “lance de Internet... uma brincadeira”... Não, isto não! Eu sei que não. Mas sabia mesmo? Como saber se ela não sabia nem ao menos o sabor preferido do sorvete de Laura, ou se ela tinha cicatrizes pelo corpo? Como saber que atitude uma pessoa pode tomar, se não tinham se olhado nos olhos?
Elas sempre usavam a cam, mas, a dinâmica da cam é muito diferente, afinal, ou você olha para a pessoa que está na tela ou você olha para a câmera... não, elas não tinha se olhado nos olhos. E trocavam muitas confidências. Mas, palavras são tão fáceis para serem escritas. E palavra escrita é só palavra... Seria? Não era para ela. Ela tinha aberto seu coração para Laura. Em todos os sentidos. Ela abriu seu coração para deixar sair dele os fantasmas que a assombravam. Abriu para deixar entrar um sentimento límpido, cristalino, quente.... Meu Deus, eu estou terrivelmente apaixonada por ela!
Este pensamento fez com que ela chorasse. Eram tantos os sentimentos que vieram à tona em um instante, em um reconhecimento! Sim, ela estava irremediavelmente apaixonada, podia sentir todo o seu ser afirmando isto. Se sentia feliz por ser por Laura, sentia tristeza pelas palavras de Arthur, menosprezando o que era tão importante para ela. Sentia também vontade de voar, fazer bolhas de sabão, gritar na janela, bater a cabeça na parede... mas não conseguia se mexer dali, não conseguia parar de chorar, mas nem tinha certeza se estava chorando mesmo. E se estava, qual era o motivo. Sam se sentia limpando sua alma para poder aconchegar melhor esta outra que era tão bem-vinda.
Teve uma certeza neste momento... não queria mais este oceano no meio do caminho.
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Laura acordou bem cedo. Na verdade não tinha conseguido fazer mais do que rolar alguns quilômetros na sua cama. Na noite anterior tinha providenciado uma reserva no primeiro vôo para o Brasil. Pegou o telefone para ligar para Sam, mas achou que fazer surpresa seria melhor.
Fez sua mala com as roupas de dia-a-dia, desfez, pegou as suas peças mais elegantes e sensuais e colocou na mala... tirou as elegantes e jogou na cama... Ai, que roupa eu levo? Como ela vai gostar de mim? Vamos ver...como eu gostaria que ela estivesse? HUM... não, Laura! Pelada você não pode chegar! Pegou novamente o fone para ligar para Sam e, novamente deu um tapa da sua testa, para tentar controlar a ansiedade.
Deveria ligar, Sam poderia ter outros planos, poderia até... droga, não existe outra pessoa, senão ela me falaria. Tem este Arthur, que ela tanto fala. Não... ela não gosta dele. Vou ligar e avisar, assim ela pode se preparar. Ou não... na verdade eu quero ver a reação dela.
Estava nesta indecisão, quando ouviu alguém entrar no seu apartamento. Ao se lembrar da cena do dia anterior fez uma careta. Não poderia ir viajar e deixar este assunto pendente... não tão pendente, pelo menos.
- Bom dia, Laura – era Lupe, que chegou cabisbaixa e logo ficou ainda mais pálida quando notou a mala sobre a cama – vai voltar pra África?
- Não... – contar, não contar... contar. – Vou voltar para o Brasil.
- Voltar?? – Lupe se sentou na cama, a cor tendo fugido de vez de seu rosto.
- É... não. Quer dizer... voltar, mas para ... err, faz tempo que não vejo minha família. Estou de férias... logo eu volto.
- Ah! Sua família... – Lupe tinha os olhos marejados, enquanto mexia nas lingeries que Laura tinha acabado de colocar, pela milésima vez, dentro da mala.
- Vou ... conhecer a Sam, também. – Laura se sentou ao lado de Lupe e pegou sua mão. – Olha para mim, Lupe.
- Por que, Laura? Por que você não gosta de mim? – Lupe abraçou Laura e chorou em seu colo.
- Lupe! – Laura fazia carinho nos longos cabelos de Lupe, falando carinhosamente com ela – Se eu não gostasse de você, simplesmente poderia te usar. Não é isto o que eu quero. Quero ver você feliz, quero que encontre alguém que possa te oferecer tudo o que você merece.
- Não importa o quanto outras pessoas ofereçam, Laura. Eu só quero receber qualquer coisa que seja de você.
- Isto não é verdade, Lupe. Você pode até achar isto e tentar se convencer. Mas olhe, o que eu já te ofereço não é suficiente.
- Por que esta menina foi aparecer, agora!
- Ela é muito importante pra mim, Lupe... mas ela não tem nada a ver com o que eu sinto por você.
- Com o que você não sente por mim...
Laura a abraçou mais forte, ficou a embalando e dando beijinhos em sua cabeça, até sentir que ela se acalmava. Quando a respiração da espanhola se acalmou, ela se ajeitou na cama e encostou seus lábios, temerosamente, nos de Laura. Laura não a repeliu, sabia que não era o começo de nada, era apenas o fim de um sonho.
- Lupe... você tem um espaço só seu no meu coração. Nunca se esqueça disto.
Laura ganhou um olhar dolorido como resposta, um olhar que viajou dela para a mala.. e novamente para seu rosto. Sem conseguir conter as lágrimas, Lupe se virou e foi embora. Laura ouviu quando ela bateu a porta. Fechou seus olhos e passou as mãos pelos lábios... bom! Muito bom! Mas... não era nada além disto. Como até agora tinha sido. Sam nunca a tinha beijado, mas ainda assim, provocava sentimentos tão maiores.
Olhou para sua passagem, fechou a mala e sentiu a certeza no seu coração. É você quem tem poder sobre meu sentimento, baixinha.
****
A noite de Sam ainda não tinha acabado. Ela tinha tentado dormir, mas não se sentia em paz. Precisava se acertar com Arthur, precisava definir sua situação com Laura. Comprou, por Internet, uma passagem para a Espanha. Ela quase tinha ido para a Europa no meio do ano. Um serviço grande de última hora tinha adiado os seus planos, mas toda a documentação estava em dia. Assim, ela conseguiu um vôo para o fim daquela tarde.
Passou a madrugada arrumando sua mala. Levaria pouca coisa, era sempre melhor comprar roupa na Europa, de qualquer forma. Precisava cancelar alguns trabalhos para esta semana. Por sorte eram coisas que, ou podia adiar, ou remanejar.
O que não podia esperar sua volta era a conversa com Arthur. Foi até o apartamento dele, que não ficava longe do seu. Apertou a campainha, se dando conta de que ainda era muito cedo. Pensou em ir embora e voltar mais tarde. Mas logo dona Marina abriu a porta. Quando viu Sam, abriu um sorriso.
- Bom dia, minha filha! Entra, vem tomar um cafezinho que eu estou passando agora.
- Bom dia, dona Marina... – deu um beijnho no rosto da mulher, que tinha mais ou menos sua estatura – já foi fazer a caminhada?
- Já! Eu não perco tempo, não. Quando estava saindo o Arthur estava chegando. Ah, Samantha, este menino só anda me dando desgosto.
- Ah, é? Ele anda muito estranho mesmo, vim para falar com ele, mas pelo jeito, vai demorar pra ele acordar, se chegou faz pouco tempo.
- Oxi! Ele não acorda cedo não! Me dá um aperreio ver este menino brincando com a vida assim! Mas eu tenho fé que você vai acabar botando juízo na cachola dele!
- Eu? – Sam tinha aceitado a xícara de café e quase engasgou quando notou a expressão de dona Marina quando disse que ela daria um jeito nele. – Por que eu?
- Você é ajuizada, Samantha! Eu vejo seus trabalhos, ele me mostra. Nós fomos ver aquela exposição que você fez! Cada coisa de encher os olhos. Ele só quer viver de mesada, pega o carro cedo e só volta ...cedo. E agora deu de voltar bêbado! E está mais agressivo também.
- Ele nunca foi agressivo comigo.
- Ah, mas ele é muito apaixonado por você! Desde que vocês começaram a namorar, ele deu uma melhorada. Mas de uns meses para cá... Que foi, filha? Afogou, ergue os braços, vou dar uns tapinhas nas suas costas.
Sam tinha se engasgado com o café. Agora além de controlar a tosse e a respiração, tinha que se certificar se, na verdade, não tinha caído no sono e isto era só um pesadelo. Quando sentiu os socos na costa, teve certeza de que, pelo menos, dormindo ela não podia estar. Como assim apaixonado por mim? Céus, desde quando ele é meu namorado?
- Tudo bem, dona Marina, já estou bem ... quem falou sobre nós estarmos namorando?
- Ele é todo vaidoso disto! Mostra sua foto pra todo mundo, a namoradinha dele. Eu sempre soube que ele era apaixonado, mas gostei quando ele resolveu te contar e ele disse que você ficou tão feliz! Pena que até agora não tinha dado tempo de você vir até aqui. Mas eu entendo, filha, esta sua vida é muito corrida.
- É, bem ... corrida. - Tanto que eu não tenho tempo nem para saber quem namoro – Eu acho que ele vai demorar muito para acordar e tenho que preparar umas coisas para viajar, hoje. Outra hora eu ligo pro Arthur.
- Ah, filha, que pena... visitinha de médico!
Não senhora, nada de brincar de médico com este mocinho... ele vai ter que explicar tudinho! Ai sim, ele vai precisar de uma visitinha de médico!
- Foi um prazer falar com a senhora, outra hora eu venho tomar outro cafezinho.
- Venha sim, filha. Avisa antes, que eu faço um bolinho de tapioca pra você.
- Pode deixar! – deu um beijinho no rosto da mulher e saiu apressada para seu carro.
Que loucura é esta afinal? Arthur gosta de mim? Me... namora! Sam ligou seu carro, não tinha destino, estava se sentindo muito confusa, mais que isto... estava se sentindo traída. Achava que Arthur estivesse por perto desinteressadamente. Pensava que ele só queria ser seu amigo, que se sentisse bem ao seu lado, agora não tinha certeza disto.
Prestou atenção na rua... estava perto da sua casa. Estacionou o carro e resolveu se sentar na praia. Ouvir o mar sempre a acalmava. Sam, estava com uma calça de algodão branca que ia até abaixo dos joelhos e uma frente única branca desenhos de flores azuis, tinha tirado a sandália e caminhava na beira da praia, deixando que a água chegasse aos seus pés. Resolveu sentar ali perto, os pensamentos e recordações a tomando de assalto.
Pensou nos anos que viveu praticamente sozinha, de seu pai sempre ocupado, seu irmão fazendo de tudo pra chamar a atenção, das brigas na escola.... Arthur sempre esteve meio por perto. Ele não aparecia quando brigava, ou quando estava realmente furiosa. Mas, nos seus períodos de calmaria, ele surgia trazendo um chocolate, falando de uma festa, um baile, apresentando aos seus amigos. Lembrava dele namorando, várias vezes. Nestas ocasiões, ela ia ao cinema sozinha, se entregava ao prazer de fotografar, alugava filmes. Em que momento esta amizade tinha se desviado?
Poderia não ser verdade. Ele poderia ter falado isto somente para que sua mãe não ficasse com cobranças. Ele morava só com sua mãe, desde a separação dos pais. Arthur tinha começado a fazer faculdade de Relações Internacionais, mas não tinha se interessado a continuar o curso. O mais próximo que fazia de trabalho, era o que Sam lhe oferecia. Sempre que ela pegava um trabalho grande, o contratava para ajudar na produção.
Que bicho mordeu o Arthur? Pensando bem, isto explicaria o fato dele estar tão diferente... ciúmes. Droga! Sam se lembrou de como passou estes últimos meses. Desde o primeiro dia que falou com Laura, ela contou para ele quase tudo o que falavam. Ela mesma já chegou a se assustar com o tanto que pensava na morena. Imagina o que ele estaria sentindo ouvindo ela falar tanto assim?
É, Sam falava em Laura o tempo todo. Era uma coisa tão grande dentro dela que era difícil de conter. Se sentia feliz por atualmente se sentir bem com o restante da turma, eram mais pessoas que poderiam ouvir sobre a Laura.
Sam se lembrou que conheceu uma menina de sua cidade na Internet, a Rapha e tinha ido com ela ao cinema. Durante o filme falou tanto na Laura que chegou a incomodar as pessoas que estavam nas outras poltronas. Porque a Laura não teria medo disto, a Laura iria rir daquilo, se a Laura se sentasse aqui teria que ficar abaixada na poltrona... se a Laura estivesse aqui, este cara ia ter que engolir este “shhhh”. Sam se deitou na areia e riu dela mesma. Tinha se divertido muito neste dia, mas o melhor foi poder contar da Laura para uma pessoa disposta a ouvir.
Era tão bom falar, sentia que a iluminava por dentro. Como se só de pensar nela uma vela se acendesse dentro do seu coração. Era reconfortante poder ter alguém no mundo que fizesse valer a pena cada inspiração. Quando seu pensamento chegou neste ponto, bateu a mão na cabeça e se levantou. Com o gesto tinha espalhado areia pelo rosto e cabelo, mas mesmo assim abriu os olhos assustada. Tenho que correr, vou viajar ainda hoje!
****
Laura enfim se sentia aliviada, pisar naquele aeroporto tinha sido seu sonho daquele dia. Nem acreditava que estava fazendo isto. No entanto, um sentimento estranho a estava incomodando. Sentia que precisava ficar alerta... confiava neste seu instinto, ele já a tinha salvo outras vezes. Olhou para as pessoas ao redor... se espantou com o rosto conhecido, que fez seu corpo todo se retesar. Ser vista, ali, por aquela pessoa colocaria todos os seus planos por água abaixo.
Laura agora estava tensa, precisava descobrir o que significava a presença daquela pessoa no aeroporto, mas não podia se dar ao luxo de ser vista. Seus planos estavam todos feitos, queria seguir com eles. Queria chegar logo.... mas precisava investigar isto...
*****
Enfim, Sam ouviu a chamada para seu vôo. Tinha enrolado o dia todo para que chegasse esta hora. Seu celular tinha ficado desligado, de propósito, para evitar a tentação de falar com Laura. Também não queria conversar com Arthur. A esta altura ele já saberia que ela tinha ido em sua casa e o teor de sua conversa com dona Marina. Conversaria com ele quando voltasse. Agora ela nem saberia o que dizer. Só conseguia sentir uma felicidade imensa pela decisão de se encontrar com Laura.
Sam se levantou em um salto e pegou sua bagagem. Não estava levando quase nada, sua mala era tão pequena que poderia ser levada com ela. Quando se virou para pegar a mala viu Arthur, que estava nitidamente procurando por alguém. E ela sabia ser o alguém procurado. Como não dava pra se fingir de estátua, resolveu bancar a transparente e andar à frente de outras pessoas para que ele não a visse.
Quando já tinha entregue sua passagem à funcionária da companhia e estava se sentindo livre, sentiu um braço a segurar pela cintura. Se sentiu congelar e se virou já falando:
- Arthur...
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