Sam encontrou com Arthur na porta de seu prédio e foi logo pulando no pescoço dele.
- Cara! Você não acredita com quem eu estava falando!
- Considerando sua animação deve ter sido com o Brad Pitt...- ele pareceu considerar por um segundo - ou com a Angelina Jolie, talvez.
- Oxe! E eu lá sou tiete deles? Ta me estranhando, cabeção? – deu uma pedalada em seu amigo, de baixo para cima, pois seu 1,63m não permitia muita coisa com ele em pé.
- Vamos lá, sou péssimo para adivinhações.
- Tcharan! Com Laura Sanches! – ela falou saltitando, de frente para ele, com as duas mãos fechadas sobre a boca.
Arthur ficou olhando para ela, achando que nunca a tinha visto tão bela. Com certeza, nunca tão entusiasmada.
- Suponho que eu deveria saber quem é, não é mesmo?
- Aff! Em que planeta você vive, cabeção?! Laura Sanches é uma fotógrafa suuuuuuper famosa. Ela tem uma das coleções mais invejáveis de prêmios que um fotógrafo de respeito pode desejar. Sou super fã dela!
- Que legal! Ela te ligou para algum trabalho?
- Na verdade não, nós conversamos por MSN, mesmo. E não, não era sobre trabalho
Ele agora parecia realmente interessado em saber mais, o que, pela primeira vez com Sam, não parecia ser algo difícil de conseguir.
- E então, como foi a conversa com sua ‘ídola’?
- Ah, Arthur, ela é uma profissional que admiro muito, mas nunca fui do tipo tiete, sabe? Nem tinha reparado bem em como ela era. Sempre reparei muito nas fotos que ela tirou, talvez por isto não tenha prestado atenção nela mesma, antes.
- Está dizendo que agora prestou?
- É, estou...prestei atenção em uma foto no orkut, porque aquela palhaça colocou uma foto do Garfield no MSN.
- Você também usa.
- Pois é, ela colocou para tirar sarro de mim!
- Ah é? Mas ela colocou durante a conversa ou antes?
- Quando entrou já estava assim, por quê?
- Ela entrou só para falar com você, então.
Sam parou para considerar sobre isto. Iria perguntar para Laura na próxima conversa. Ficou animada novamente, contou para Arthur durante o trajeto à pé, até o bar, quase toda a conversa.
Quando chegaram, estavam rindo das brincadeiras que haviam feito sobre “fotógrafa sexy”. Sam notou que os amigos de Arthur pararam de rir quando os viram, assumindo uma postura mais rija na cadeira. Ela sabia muito bem o motivo disto. Não costumava deixar passar uma oportunidade para ser sarcástica e enfiar o dedo na ferida alheia. Não era a toa que os amigos de Arthur sempre perguntavam a ele se ela estaria junto, quando marcavam alguma coisa.
Só que Sam não estava com instinto destruidor nesta noite. Sentia-se animada, tinha tirado algumas fotos muito boas de manhã, tinha se divertido com a conversa... ela tinha falado com Laura Sanches!
Sentou-se à mesa ainda rindo. Olhou para eles e disse:
- Calma povo! Eu não mordo... a não ser se for pizza! Estou morrendo de fome, já pediram?
- Ainda não, estávamos esperando vocês, a gente pediu uma porção de frios para esperar, pode ser? – Andréa falou passando a travessa para o outro lado da mesa, sua voz parecia um tanto receosa. Ver Sam brincando não era algo muito comum. Não sem ter alguém chorando, pelo menos.
Apesar do clima inicial permanecer tenso por mais alguns minutos, logo estavam todos se divertindo com os causos que Virna, a namorada de Andréa estava contando.
Conforme as rodadas de bebida iam se sucedendo, mais pessoas adquiriam coragem para subir ao palco e soltar a voz... alguns para deleite dos ouvintes, outros para a saudável destilação de veneno, mesmo. Logo, o pessoal da mesa de Sam começou a pedir para que ela fosse cantar. Um olhar que faria congelar toda água do oceano, foi eloqüente o suficiente para que mudassem o alvo da brincadeira. É, não deveriam abusar da sorte. Ainda mais que a noite estava se saindo surpreendentemente boa.
******
Laura teve dificuldade de dormir quase a noite toda. Ficou pensando em seu estilo de vida, ficou pensando em Garfield, e em seu trabalho (afastava este pensamento como se fosse uma mosca), pensava que gostaria de ter um rosto para pensar em Sam...
Acordou ouvindo barulhos abafados na porta da frente de seu apartamento. Ficou deitada, rindo, esperando. Logo, ouviu a porta se abrir e uma sucessão de “psius” e “shhh” que fariam acordar uma múmia. Levantou da cama e foi esperar na parede, ao lado da porta. Logo, a porta se abriu com violência e três garotas entraram correndo e pularam na cama. Laura foi logo atrás delas, se jogando sobre suas invasoras.
- Ai! Isto não vale! – gritou Lupe, tentando achar uma brecha para escapar
- Socorro! Tão me amassando! - Su não conseguiria sair dali, tinha muita gente sobre ela, o máximo que podia fazer era tentar espernear.
- Peste! Nunca dá pra te enganar, não é? – por fim, Dana, a mais velha e mais forte das três irmãs Martinez, resmungou com falsa irritação.
- Iam pular em cima de mim? Eu gosto mais de ficar por cima, baby! – Laura falou já se arrependendo, quando reparou no imenso subtexto, que a frase continha... não, isto é supertexto mesmo. – E aí, vão se render ou querem que eu role mais um pouquinho aqui em cima?
- NÃO!!!! Desce daí sua ...vaca!
- Sua o que? Não ouvi direito! – Laura deu um pulo sobre elas.
- Sua forte, invencível e poderosa ! – responderam as irmãs, entre risos e gemidos.
- E linda – emendou Lupe, ela não deixaria passar a chance.
Laura saiu de cima das amigas, já sabendo que seria alvo de uma guerra de travesseiros. Era sempre assim, sempre que chegava suas vizinhas vinham dar as “boas vindas”, contar a ela todas as (poucas) novidades da cidade e depois, saiam juntas para um jogo de vôlei de praia. Elas estavam viajando no dia anterior, por isto só notaram a presença de Laura no dia seguinte. Tinham, por segurança, uma cópia da chave do apartamento da amiga. A mãe delas, dona Carmem fazia imensos discursos sobre os perigos de uma moça morar sozinha. Ela achava graça, mas era bom encontrar este afeto materno assim tão perto.
Dana, a filha mais velha de dona Carmen, tinha a mesma idade que Laura, Su, a caçula tinha 24 e Lupe, 27. Lupe, desde que ela se mudara ali, tinha ficado interessada nela. Laura fingia não perceber, porque, apesar de ser uma espanhola muito, muito sensual, não despertara paixão nela. E não iria se arriscar a perder as valiosas amizades só por aventura. Mas só Deus sabe o quanto era difícil resistir às investidas daquela belíssima mulher, de pele e cabelos castanhos, com mais curvas que a estrada de Santos, ainda mais depois de tanto tempo que ela não ficava com ninguém.
Laura foi praticamente arrastada para um almoço na casa de suas vizinhas, depois, saíram para aproveitar o dia mais quente que o normal, para um joguinho de vôlei na praia. Ficaram a tarde toda jogando e depois esticaram até uma lanchonete para beber uma cerveja e rir dos tombos que se deram na partida.
Chegou em casa tarde da noite e tudo o que conseguiu fazer foi tomar um belo banho e tirar a areia que parecia estar por todos os cantos de seu corpo, queria conferir seu orkut, ver se Sam tinha respondido seu scrap. Ela tinha feito uma pergunta e Sam saiu pela tangente. Perguntou o motivo dela estar entusiasmada na noite anterior, quando havia saído com seus amigos, mas Sam só respondeu que... que não responderia! No entanto, estava mesmo muito cansada, deixou para o dia seguinte.
Laura se acomodou no sofá para conferir seus recados. Viu que Sam tinha deixado um scrap, pedindo para conversar à tarde. Olhou seu relógio e notou que já estava muito atrasada, mesmo assim, resolveu tentar.
Laura: Bom noite, Sam
Sam: Boa !
Sam: pq vc perguntou se eu estava rouca?
Laura: porque vc foi cantar ontem
Laura: em cima do muro...pra lua
Sam: palhaça!
Sam: pagar micos não é o meu forte.
Laura: ah não?
Laura: que tipo de bicho vc gosta de pagar?
Sam: kkkkkkk
Sam: Sereias.... leões
Laura: Leoas não?
Sam: Hum... Para falar a verdade, eu pego o que é mais prático para cozinhar...
Laura: :o
Sam: vou ter que explicar isto?
Laura: vai sim, quero ler isto por extenso.
Sam: Ai, ai... Lá vai, então. Eu não corro atrás de ninguém, não vale o esforço, geralmente. Se noto que tem alguém interessado em mim e se acho que vale a pena dar alguns minutos do meu tempo, então, deixo rolar
Laura: sem dó nem piedade
Sam: é, simples assim
Laura: vc nunca se apaixonou?
Sam: eu??
Laura: não, o gato com quem eu to conversando
Laura: por fala nisto...
Laura: vc não pode por uma foto aí?
Laura: é difícil continuar falando com um gato
Sam: vc tem certeza que quer fazer isto?
Sam: eu não posso garantir sua paz de espírito depois
Laura: :/
Laura: vc colocou foto da Renée O'Connor!
Sam: está louca??
Sam: eu sou muito mais jovem! E incrivelmente mais sexy! =]
Laura: Hum! É vc mesmo?
Sam: claro
Laura: Ai, meu Deus! :o
Laura: vc sabe o q isso significa?
Sam: que eu sou linda e carismática? ;-)
Laura: não!
Laura: quer dizer, é, mas não é isto! Nós estamos fadadas a nos apaixonar!
Sam: O.o
Sam: Coitada, enlouqueceu!
Laura: nunca leu fics?
Laura: a sósia da Lucy e a sósia da ROC sempre se apaixonam!
Sam: kkkkkkkkkkk
Sam: vc tem cada uma, Laura! Eu não me acho parecida com a ROC ...
Laura: agora não vai ter como fugir, Sam. A nossa sorte é que as fics têm finais felizes!
Sam: Cara!Já levei muita cantada, mas esta sua, por Zeus!
Laura: convencidaaaaaa
Sam: nem! Vc está ai falando de, se eu entendo o subtexto, de almas gêmeas!
Laura: e não tente me enganar, vc ainda não respondeu minha pergunta!
Sam: :o
Sam: nem lembro qual era
Laura: vc já se apaixonou?
Sam: não, nunca. Por que, deveria?
Laura: sim, é bom
Sam: isto significa que vc já passou por isto...
Laura: não é ruim, Sam. Vc fala como se fosse algo... nocivo!
Sam: é mais que nocivo é ... irracional!
Sam: pq, em sã consciência, alguém coloca seus melhores sentimentos nas mãos de outra pessoa?
Laura: não acho que, quando a pessoa certa aparecer, vc vá ter opção
Sam: como saber quem é a pessoa certa?
Laura: quando vc se sentir em casa, quando sentir que encontrou um lar e não precisa mais procurar por nada... ai vc achou o amor
Sam: poético isto, mas a vida não é poesia, a verdade é muito dura
Sam: "não importa o quanto vc se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam"
Laura: alguém te machucou
Sam: não.
Sam: bem... talvez
Sam: mas não assim deste jeito
Laura: de que jeito então, Sam?
Sam: é uma história boba
Sam: boba demais pra tomar seu tempo
Laura: estou de férias e...
Laura: Pronto! Já estiquei as pernas, pode ficar a vontade
Sam: eu nunca falei sobre isto com ninguém
Laura: eu não tenho nada contra a exclusividade
Sam: hum....
Sam: tudo bem, mas se ficar entediada não diga que não avisei e eu sei bem que é idiotice minha.
Laura: eu já paguei pelas fichas, minha cara...
Sam: bem, eu tinha um cachorro quando era criança, me lembro dele desde... desde sempre
Laura: Ah é? E como era o nome dele?
Sam: Ralf, era um labrador, muito manso, muito meu amigo
Laura: labrador? era maior que vc então
Sam: Argh! >.<
Sam: Pior que é verdade, ele era sim e ele era meu cavalo, meu travesseiro, meu gira-gira
Sam: amava o Ralf, e ele tb me amava
Laura: hum...
Sam: ele me defendia quando achava que eu estava em perigo, não fui uma criança que namorou... e a culpa era dele. Um dia, meu irmão arrumou briga na rua
Sam: eu fiquei batendo no menino com a minha bolsa para ele parar de bater no meu irmão e ele levantou e me tirou do chão, o Ralf viu e veio na disparada para me defender e ...
Sam: bem, ele foi atropelado, coitadinho
Sam: mainha veio correndo para fora, o menino me soltou, meu irmão ficou na minha frente, não queria me deixar passar, ela chegou até mim e me abraçou, só ela conseguiu me acalmar
Sam: acho que nunca chorei tanto, no colo da minha mãe, sentindo o calor do abraço dela ...
Sam: consigo me lembrar até hoje do som da respiração dela, daquele calor... e dela me dizendo para ficar tranquila, pq ela estava lá.... ela estaria sempre lá
Sam: eu disse que o Ralf me amava e foi embora
Sam: e ela me disse que me amava mais... e nunca me deixaria
Laura: sua mãe morreu, Sam?
Sam: alguns meses depois do Ralf, eu tinha sete anos e não conseguia entender muita coisa. Só sabia que a ausência de Ralf me doía e que eu não queria que minha mãe ficasse longe de mim, ainda mais para sempre
Sam: Ela morreu depois de me dizer que eu poderia ficar tranqüila que ela estaria sempre ao meu lado...
Laura: vc acha q ela te traiu?
Sam: eu sei que isto é irracional, Laura, te disse que era idiotice minha, sei que as pessoas não morrem porque querem
Sam: mas é assim que eu sinto. Acreditei e não consegui... eu não consegui perdoar ela por isto
Sam: por ter ido... acreditei tanto que ela estaria mesmo pra sempre
Sam: aprendi que não devo confiar, que NINGUÉM merece confiança, as pessoas prometem coisas que não podem cumprir.
Laura: Sam, vc não pode assumir esta postura
Laura: está tornando sua vida muito amarga
Laura: como se relaciona com amigos, se não confia nas pessoas?
Sam: não preciso de ninguém, aprendi a viver sozinha
Laura: hum, de gato para guerreira-poetisa, para ilha, que metamorfose!
Sam: e você continua sendo a palhaça! Nunca fala a sério, Laura?
Laura: falo sim, Sam, só queria te aliviar um pouco
Sam: eu tenho um amigo, o Arthur
Laura: e ele te 'arthura' mesmo não confiando nele?
Sam: eu sou uma boa companhia, está bem! A gente sai junto, ele tem um grupo de amigos que me aceita na boa e pra mim está bom
Laura: está bem... sem grandes envolvimentos, pelo jeito
Sam: Laura... eu me sinto mais segura desta forma
Laura: pq?
Sam: pq ninguém se aproxima o suficiente para me machucar
Laura: vc faz todo o trabalho sozinha, não é mesmo?
Sam: vou me poupar de comentários sobre isto...
Sam: E vc, espertinha? Vc já se apaixonou?
Laura: mudança estratégica de assunto... vou fingir que não percebi
Sam: esta coisa de se sentir em casa e tals?
Laura: já sim
Laura: Bem, quer dizer, não exatamente assim. Mas já gostei de algumas garotas
Sam: teve alguma que vc pudesse dizer "mas depois de vc as outras são os outras?"
Laura: pois é! esta ainda não apareceu!
Sam: não perca as esperanças
Laura: não perco, ainda vou achar meu lar ambulante por aí
Laura: já viajei o mundo inteiro tentando encontrar, uma hora consigo
Sam: vou comprar uma lupa no Natal para você!
Laura: A conversa está boa, mas preciso ir dormir, agora, este jogo de ontem foi cansativo, se é que me entende. ;)
Sam: p-a-l-h-a-ç-a
Sam: já até sei pq vc gosta de vôlei de praia!
Laura: Hum, nem me fale! Biquines, suor, areia entrando, mãos tirando a areia... ai delícia!
Sam: Laura, vc tem noção que é MUITO sem-vergonha?
Laura: tenho muitas habilidades!
Sam: e ainda acha bonito ser feia!
Laura: Sam, vc é muito bicuda!
Sam: não sou, não! Vc que é safada!
Sam: e agora, vá dormir, pq está muito cansada
Sam: ficou jogando ontem a tarde toda, depois foi beber cerveja... E hj, só Deus sabe o que você aprontou.
Laura: é, já vou mesmo, foi bom ver sua foto. Assim não vou ter pesadelos com gatos preguiçosos tentando invadir a minha cama
Sam: pretenciosa...
Sam: boa noite, Laura
A MENSAGEM “boa noite, Laura” NÃO PODE SER ENTREGUE AO DESTINATÁRIO
****
Sam meditava sobre a conversa que acabara de ter. Sempre se negara a falar sobre sua mãe. Na medida do possível, negava-se até mesmo pensar sobre o assunto.
Não conseguia entender porque falara disto com uma pessoa praticamente desconhecida. Mas talvez, exatamente por ser uma desconhecida que conseguira, concluiu.
Outro ponto que a intrigara era o assunto ter vindo à tona quando foi perguntada sobre não confiar nas pessoas. Jamais imaginara ser este o motivo. Ou teria sido só uma desculpa para não dizer que era totalmente imotivado?
Com grande esforço, fez o movimento contrário ao que sempre fazia.
Desta vez se forçou-se a permanecer no momento daquele abraço, da sensação de conforto e segurança que sentira. Lembrou-se de quanto amor sentiu por sua mãe, e como isto a fazia sentir-se aquecida por completo.
Logo em seguida, a imagem de seu pai chorando agarrado ao caixão, seu irmão sentado em um canto, com sua tia abraçando-o e ela tentando entender porque sua mãe não parava com aquela brincadeira sem graça.
Aquilo só poderia ser uma brincadeira. Ela tinha prometeu que ficaria para sempre ali. Sam não aceitou ninguém por perto, olhou para sua mãe o tempo todo, desafiando-a mentalmente, querendo ver até quando duraria a farsa. Na hora de fechar o caixão, bateu nos agentes funerários, chutou, gritou com eles “então não viam que era só uma brincadeira?”.
Mas não teve jeito. Sua tia explicou que “mamãe estava muito cansada, com muita dor e agora estava descansando, mas que estaria sempre ali, com ela”. Sam chamou sua tia de mentirosa, sua mãe não se cansava. Nunca! E também não estaria mais ali, sabia disto agora, pois se ela estivesse, nunca deixaria seu irmão com o nariz escorrendo como estava agora. Não... ela não voltaria mais. Era tudo uma mentira. Só era verdade a dor e a solidão.
Sam virou-se na cama e chorou, como não fazia desde aquela noite em que perdeu a fé nas pessoas. Chorou tanto, que acabou dormindo de cansaço. Mas não antes de falar em voz alta: “mãe, eu sinto tanta falta de você!”
***
Ao mesmo tempo, mas em espaço tão distinto, Laura deitou-se pensando em quanta mágoa pode se esconder em um semblante sério. Imaginou o quanto aquela loirinha bicuda deveria estar sofrendo neste exato momento. Sozinha, em um mundo só seu.
Sam não era mais que uma garotinha que se viu sozinha e teve medo do mundo. Sentiu uma grande vontade de abraçá-la neste momento e de poder aliviar sua dor. Podia imaginar que ela estaria chorando....
Desejava poder ajudá-la a descobrir o mundo que só parecia ver através da lente de sua câmera. Laura pensou sobre isto. As fotos de Sam capturavam muita beleza. Muita solidão, mas também muita beleza.
Tinha a impressão é que ela não estava muito longe de conseguir vir ao mundo dos sentimentos. "Quem sabe com minha ajuda?", pensou. Vontade não lhe faltava, interesse muito menos....
Assim, dando-se conta que não conseguia pensar em mais nada, deixou-se um recado antes de adormecer:
"Cuidado com o que pede a Deus, ele costuma atender!"
- Cara! Você não acredita com quem eu estava falando!
- Considerando sua animação deve ter sido com o Brad Pitt...- ele pareceu considerar por um segundo - ou com a Angelina Jolie, talvez.
- Oxe! E eu lá sou tiete deles? Ta me estranhando, cabeção? – deu uma pedalada em seu amigo, de baixo para cima, pois seu 1,63m não permitia muita coisa com ele em pé.
- Vamos lá, sou péssimo para adivinhações.
- Tcharan! Com Laura Sanches! – ela falou saltitando, de frente para ele, com as duas mãos fechadas sobre a boca.
Arthur ficou olhando para ela, achando que nunca a tinha visto tão bela. Com certeza, nunca tão entusiasmada.
- Suponho que eu deveria saber quem é, não é mesmo?
- Aff! Em que planeta você vive, cabeção?! Laura Sanches é uma fotógrafa suuuuuuper famosa. Ela tem uma das coleções mais invejáveis de prêmios que um fotógrafo de respeito pode desejar. Sou super fã dela!
- Que legal! Ela te ligou para algum trabalho?
- Na verdade não, nós conversamos por MSN, mesmo. E não, não era sobre trabalho
Ele agora parecia realmente interessado em saber mais, o que, pela primeira vez com Sam, não parecia ser algo difícil de conseguir.
- E então, como foi a conversa com sua ‘ídola’?
- Ah, Arthur, ela é uma profissional que admiro muito, mas nunca fui do tipo tiete, sabe? Nem tinha reparado bem em como ela era. Sempre reparei muito nas fotos que ela tirou, talvez por isto não tenha prestado atenção nela mesma, antes.
- Está dizendo que agora prestou?
- É, estou...prestei atenção em uma foto no orkut, porque aquela palhaça colocou uma foto do Garfield no MSN.
- Você também usa.
- Pois é, ela colocou para tirar sarro de mim!
- Ah é? Mas ela colocou durante a conversa ou antes?
- Quando entrou já estava assim, por quê?
- Ela entrou só para falar com você, então.
Sam parou para considerar sobre isto. Iria perguntar para Laura na próxima conversa. Ficou animada novamente, contou para Arthur durante o trajeto à pé, até o bar, quase toda a conversa.
Quando chegaram, estavam rindo das brincadeiras que haviam feito sobre “fotógrafa sexy”. Sam notou que os amigos de Arthur pararam de rir quando os viram, assumindo uma postura mais rija na cadeira. Ela sabia muito bem o motivo disto. Não costumava deixar passar uma oportunidade para ser sarcástica e enfiar o dedo na ferida alheia. Não era a toa que os amigos de Arthur sempre perguntavam a ele se ela estaria junto, quando marcavam alguma coisa.
Só que Sam não estava com instinto destruidor nesta noite. Sentia-se animada, tinha tirado algumas fotos muito boas de manhã, tinha se divertido com a conversa... ela tinha falado com Laura Sanches!
Sentou-se à mesa ainda rindo. Olhou para eles e disse:
- Calma povo! Eu não mordo... a não ser se for pizza! Estou morrendo de fome, já pediram?
- Ainda não, estávamos esperando vocês, a gente pediu uma porção de frios para esperar, pode ser? – Andréa falou passando a travessa para o outro lado da mesa, sua voz parecia um tanto receosa. Ver Sam brincando não era algo muito comum. Não sem ter alguém chorando, pelo menos.
Apesar do clima inicial permanecer tenso por mais alguns minutos, logo estavam todos se divertindo com os causos que Virna, a namorada de Andréa estava contando.
Conforme as rodadas de bebida iam se sucedendo, mais pessoas adquiriam coragem para subir ao palco e soltar a voz... alguns para deleite dos ouvintes, outros para a saudável destilação de veneno, mesmo. Logo, o pessoal da mesa de Sam começou a pedir para que ela fosse cantar. Um olhar que faria congelar toda água do oceano, foi eloqüente o suficiente para que mudassem o alvo da brincadeira. É, não deveriam abusar da sorte. Ainda mais que a noite estava se saindo surpreendentemente boa.
******
Laura teve dificuldade de dormir quase a noite toda. Ficou pensando em seu estilo de vida, ficou pensando em Garfield, e em seu trabalho (afastava este pensamento como se fosse uma mosca), pensava que gostaria de ter um rosto para pensar em Sam...
Acordou ouvindo barulhos abafados na porta da frente de seu apartamento. Ficou deitada, rindo, esperando. Logo, ouviu a porta se abrir e uma sucessão de “psius” e “shhh” que fariam acordar uma múmia. Levantou da cama e foi esperar na parede, ao lado da porta. Logo, a porta se abriu com violência e três garotas entraram correndo e pularam na cama. Laura foi logo atrás delas, se jogando sobre suas invasoras.
- Ai! Isto não vale! – gritou Lupe, tentando achar uma brecha para escapar
- Socorro! Tão me amassando! - Su não conseguiria sair dali, tinha muita gente sobre ela, o máximo que podia fazer era tentar espernear.
- Peste! Nunca dá pra te enganar, não é? – por fim, Dana, a mais velha e mais forte das três irmãs Martinez, resmungou com falsa irritação.
- Iam pular em cima de mim? Eu gosto mais de ficar por cima, baby! – Laura falou já se arrependendo, quando reparou no imenso subtexto, que a frase continha... não, isto é supertexto mesmo. – E aí, vão se render ou querem que eu role mais um pouquinho aqui em cima?
- NÃO!!!! Desce daí sua ...vaca!
- Sua o que? Não ouvi direito! – Laura deu um pulo sobre elas.
- Sua forte, invencível e poderosa ! – responderam as irmãs, entre risos e gemidos.
- E linda – emendou Lupe, ela não deixaria passar a chance.
Laura saiu de cima das amigas, já sabendo que seria alvo de uma guerra de travesseiros. Era sempre assim, sempre que chegava suas vizinhas vinham dar as “boas vindas”, contar a ela todas as (poucas) novidades da cidade e depois, saiam juntas para um jogo de vôlei de praia. Elas estavam viajando no dia anterior, por isto só notaram a presença de Laura no dia seguinte. Tinham, por segurança, uma cópia da chave do apartamento da amiga. A mãe delas, dona Carmem fazia imensos discursos sobre os perigos de uma moça morar sozinha. Ela achava graça, mas era bom encontrar este afeto materno assim tão perto.
Dana, a filha mais velha de dona Carmen, tinha a mesma idade que Laura, Su, a caçula tinha 24 e Lupe, 27. Lupe, desde que ela se mudara ali, tinha ficado interessada nela. Laura fingia não perceber, porque, apesar de ser uma espanhola muito, muito sensual, não despertara paixão nela. E não iria se arriscar a perder as valiosas amizades só por aventura. Mas só Deus sabe o quanto era difícil resistir às investidas daquela belíssima mulher, de pele e cabelos castanhos, com mais curvas que a estrada de Santos, ainda mais depois de tanto tempo que ela não ficava com ninguém.
Laura foi praticamente arrastada para um almoço na casa de suas vizinhas, depois, saíram para aproveitar o dia mais quente que o normal, para um joguinho de vôlei na praia. Ficaram a tarde toda jogando e depois esticaram até uma lanchonete para beber uma cerveja e rir dos tombos que se deram na partida.
Chegou em casa tarde da noite e tudo o que conseguiu fazer foi tomar um belo banho e tirar a areia que parecia estar por todos os cantos de seu corpo, queria conferir seu orkut, ver se Sam tinha respondido seu scrap. Ela tinha feito uma pergunta e Sam saiu pela tangente. Perguntou o motivo dela estar entusiasmada na noite anterior, quando havia saído com seus amigos, mas Sam só respondeu que... que não responderia! No entanto, estava mesmo muito cansada, deixou para o dia seguinte.
Laura se acomodou no sofá para conferir seus recados. Viu que Sam tinha deixado um scrap, pedindo para conversar à tarde. Olhou seu relógio e notou que já estava muito atrasada, mesmo assim, resolveu tentar.
Laura: Bom noite, Sam
Sam: Boa !
Sam: pq vc perguntou se eu estava rouca?
Laura: porque vc foi cantar ontem
Laura: em cima do muro...pra lua
Sam: palhaça!
Sam: pagar micos não é o meu forte.
Laura: ah não?
Laura: que tipo de bicho vc gosta de pagar?
Sam: kkkkkkk
Sam: Sereias.... leões
Laura: Leoas não?
Sam: Hum... Para falar a verdade, eu pego o que é mais prático para cozinhar...
Laura: :o
Sam: vou ter que explicar isto?
Laura: vai sim, quero ler isto por extenso.
Sam: Ai, ai... Lá vai, então. Eu não corro atrás de ninguém, não vale o esforço, geralmente. Se noto que tem alguém interessado em mim e se acho que vale a pena dar alguns minutos do meu tempo, então, deixo rolar
Laura: sem dó nem piedade
Sam: é, simples assim
Laura: vc nunca se apaixonou?
Sam: eu??
Laura: não, o gato com quem eu to conversando
Laura: por fala nisto...
Laura: vc não pode por uma foto aí?
Laura: é difícil continuar falando com um gato
Sam: vc tem certeza que quer fazer isto?
Sam: eu não posso garantir sua paz de espírito depois
Laura: :/
Laura: vc colocou foto da Renée O'Connor!
Sam: está louca??
Sam: eu sou muito mais jovem! E incrivelmente mais sexy! =]
Laura: Hum! É vc mesmo?
Sam: claro
Laura: Ai, meu Deus! :o
Laura: vc sabe o q isso significa?
Sam: que eu sou linda e carismática? ;-)
Laura: não!
Laura: quer dizer, é, mas não é isto! Nós estamos fadadas a nos apaixonar!
Sam: O.o
Sam: Coitada, enlouqueceu!
Laura: nunca leu fics?
Laura: a sósia da Lucy e a sósia da ROC sempre se apaixonam!
Sam: kkkkkkkkkkk
Sam: vc tem cada uma, Laura! Eu não me acho parecida com a ROC ...
Laura: agora não vai ter como fugir, Sam. A nossa sorte é que as fics têm finais felizes!
Sam: Cara!Já levei muita cantada, mas esta sua, por Zeus!
Laura: convencidaaaaaa
Sam: nem! Vc está ai falando de, se eu entendo o subtexto, de almas gêmeas!
Laura: e não tente me enganar, vc ainda não respondeu minha pergunta!
Sam: :o
Sam: nem lembro qual era
Laura: vc já se apaixonou?
Sam: não, nunca. Por que, deveria?
Laura: sim, é bom
Sam: isto significa que vc já passou por isto...
Laura: não é ruim, Sam. Vc fala como se fosse algo... nocivo!
Sam: é mais que nocivo é ... irracional!
Sam: pq, em sã consciência, alguém coloca seus melhores sentimentos nas mãos de outra pessoa?
Laura: não acho que, quando a pessoa certa aparecer, vc vá ter opção
Sam: como saber quem é a pessoa certa?
Laura: quando vc se sentir em casa, quando sentir que encontrou um lar e não precisa mais procurar por nada... ai vc achou o amor
Sam: poético isto, mas a vida não é poesia, a verdade é muito dura
Sam: "não importa o quanto vc se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam"
Laura: alguém te machucou
Sam: não.
Sam: bem... talvez
Sam: mas não assim deste jeito
Laura: de que jeito então, Sam?
Sam: é uma história boba
Sam: boba demais pra tomar seu tempo
Laura: estou de férias e...
Laura: Pronto! Já estiquei as pernas, pode ficar a vontade
Sam: eu nunca falei sobre isto com ninguém
Laura: eu não tenho nada contra a exclusividade
Sam: hum....
Sam: tudo bem, mas se ficar entediada não diga que não avisei e eu sei bem que é idiotice minha.
Laura: eu já paguei pelas fichas, minha cara...
Sam: bem, eu tinha um cachorro quando era criança, me lembro dele desde... desde sempre
Laura: Ah é? E como era o nome dele?
Sam: Ralf, era um labrador, muito manso, muito meu amigo
Laura: labrador? era maior que vc então
Sam: Argh! >.<
Sam: Pior que é verdade, ele era sim e ele era meu cavalo, meu travesseiro, meu gira-gira
Sam: amava o Ralf, e ele tb me amava
Laura: hum...
Sam: ele me defendia quando achava que eu estava em perigo, não fui uma criança que namorou... e a culpa era dele. Um dia, meu irmão arrumou briga na rua
Sam: eu fiquei batendo no menino com a minha bolsa para ele parar de bater no meu irmão e ele levantou e me tirou do chão, o Ralf viu e veio na disparada para me defender e ...
Sam: bem, ele foi atropelado, coitadinho
Sam: mainha veio correndo para fora, o menino me soltou, meu irmão ficou na minha frente, não queria me deixar passar, ela chegou até mim e me abraçou, só ela conseguiu me acalmar
Sam: acho que nunca chorei tanto, no colo da minha mãe, sentindo o calor do abraço dela ...
Sam: consigo me lembrar até hoje do som da respiração dela, daquele calor... e dela me dizendo para ficar tranquila, pq ela estava lá.... ela estaria sempre lá
Sam: eu disse que o Ralf me amava e foi embora
Sam: e ela me disse que me amava mais... e nunca me deixaria
Laura: sua mãe morreu, Sam?
Sam: alguns meses depois do Ralf, eu tinha sete anos e não conseguia entender muita coisa. Só sabia que a ausência de Ralf me doía e que eu não queria que minha mãe ficasse longe de mim, ainda mais para sempre
Sam: Ela morreu depois de me dizer que eu poderia ficar tranqüila que ela estaria sempre ao meu lado...
Laura: vc acha q ela te traiu?
Sam: eu sei que isto é irracional, Laura, te disse que era idiotice minha, sei que as pessoas não morrem porque querem
Sam: mas é assim que eu sinto. Acreditei e não consegui... eu não consegui perdoar ela por isto
Sam: por ter ido... acreditei tanto que ela estaria mesmo pra sempre
Sam: aprendi que não devo confiar, que NINGUÉM merece confiança, as pessoas prometem coisas que não podem cumprir.
Laura: Sam, vc não pode assumir esta postura
Laura: está tornando sua vida muito amarga
Laura: como se relaciona com amigos, se não confia nas pessoas?
Sam: não preciso de ninguém, aprendi a viver sozinha
Laura: hum, de gato para guerreira-poetisa, para ilha, que metamorfose!
Sam: e você continua sendo a palhaça! Nunca fala a sério, Laura?
Laura: falo sim, Sam, só queria te aliviar um pouco
Sam: eu tenho um amigo, o Arthur
Laura: e ele te 'arthura' mesmo não confiando nele?
Sam: eu sou uma boa companhia, está bem! A gente sai junto, ele tem um grupo de amigos que me aceita na boa e pra mim está bom
Laura: está bem... sem grandes envolvimentos, pelo jeito
Sam: Laura... eu me sinto mais segura desta forma
Laura: pq?
Sam: pq ninguém se aproxima o suficiente para me machucar
Laura: vc faz todo o trabalho sozinha, não é mesmo?
Sam: vou me poupar de comentários sobre isto...
Sam: E vc, espertinha? Vc já se apaixonou?
Laura: mudança estratégica de assunto... vou fingir que não percebi
Sam: esta coisa de se sentir em casa e tals?
Laura: já sim
Laura: Bem, quer dizer, não exatamente assim. Mas já gostei de algumas garotas
Sam: teve alguma que vc pudesse dizer "mas depois de vc as outras são os outras?"
Laura: pois é! esta ainda não apareceu!
Sam: não perca as esperanças
Laura: não perco, ainda vou achar meu lar ambulante por aí
Laura: já viajei o mundo inteiro tentando encontrar, uma hora consigo
Sam: vou comprar uma lupa no Natal para você!
Laura: A conversa está boa, mas preciso ir dormir, agora, este jogo de ontem foi cansativo, se é que me entende. ;)
Sam: p-a-l-h-a-ç-a
Sam: já até sei pq vc gosta de vôlei de praia!
Laura: Hum, nem me fale! Biquines, suor, areia entrando, mãos tirando a areia... ai delícia!
Sam: Laura, vc tem noção que é MUITO sem-vergonha?
Laura: tenho muitas habilidades!
Sam: e ainda acha bonito ser feia!
Laura: Sam, vc é muito bicuda!
Sam: não sou, não! Vc que é safada!
Sam: e agora, vá dormir, pq está muito cansada
Sam: ficou jogando ontem a tarde toda, depois foi beber cerveja... E hj, só Deus sabe o que você aprontou.
Laura: é, já vou mesmo, foi bom ver sua foto. Assim não vou ter pesadelos com gatos preguiçosos tentando invadir a minha cama
Sam: pretenciosa...
Sam: boa noite, Laura
A MENSAGEM “boa noite, Laura” NÃO PODE SER ENTREGUE AO DESTINATÁRIO
****
Sam meditava sobre a conversa que acabara de ter. Sempre se negara a falar sobre sua mãe. Na medida do possível, negava-se até mesmo pensar sobre o assunto.
Não conseguia entender porque falara disto com uma pessoa praticamente desconhecida. Mas talvez, exatamente por ser uma desconhecida que conseguira, concluiu.
Outro ponto que a intrigara era o assunto ter vindo à tona quando foi perguntada sobre não confiar nas pessoas. Jamais imaginara ser este o motivo. Ou teria sido só uma desculpa para não dizer que era totalmente imotivado?
Com grande esforço, fez o movimento contrário ao que sempre fazia.
Desta vez se forçou-se a permanecer no momento daquele abraço, da sensação de conforto e segurança que sentira. Lembrou-se de quanto amor sentiu por sua mãe, e como isto a fazia sentir-se aquecida por completo.
Logo em seguida, a imagem de seu pai chorando agarrado ao caixão, seu irmão sentado em um canto, com sua tia abraçando-o e ela tentando entender porque sua mãe não parava com aquela brincadeira sem graça.
Aquilo só poderia ser uma brincadeira. Ela tinha prometeu que ficaria para sempre ali. Sam não aceitou ninguém por perto, olhou para sua mãe o tempo todo, desafiando-a mentalmente, querendo ver até quando duraria a farsa. Na hora de fechar o caixão, bateu nos agentes funerários, chutou, gritou com eles “então não viam que era só uma brincadeira?”.
Mas não teve jeito. Sua tia explicou que “mamãe estava muito cansada, com muita dor e agora estava descansando, mas que estaria sempre ali, com ela”. Sam chamou sua tia de mentirosa, sua mãe não se cansava. Nunca! E também não estaria mais ali, sabia disto agora, pois se ela estivesse, nunca deixaria seu irmão com o nariz escorrendo como estava agora. Não... ela não voltaria mais. Era tudo uma mentira. Só era verdade a dor e a solidão.
Sam virou-se na cama e chorou, como não fazia desde aquela noite em que perdeu a fé nas pessoas. Chorou tanto, que acabou dormindo de cansaço. Mas não antes de falar em voz alta: “mãe, eu sinto tanta falta de você!”
***
Ao mesmo tempo, mas em espaço tão distinto, Laura deitou-se pensando em quanta mágoa pode se esconder em um semblante sério. Imaginou o quanto aquela loirinha bicuda deveria estar sofrendo neste exato momento. Sozinha, em um mundo só seu.
Sam não era mais que uma garotinha que se viu sozinha e teve medo do mundo. Sentiu uma grande vontade de abraçá-la neste momento e de poder aliviar sua dor. Podia imaginar que ela estaria chorando....
Desejava poder ajudá-la a descobrir o mundo que só parecia ver através da lente de sua câmera. Laura pensou sobre isto. As fotos de Sam capturavam muita beleza. Muita solidão, mas também muita beleza.
Tinha a impressão é que ela não estava muito longe de conseguir vir ao mundo dos sentimentos. "Quem sabe com minha ajuda?", pensou. Vontade não lhe faltava, interesse muito menos....
Assim, dando-se conta que não conseguia pensar em mais nada, deixou-se um recado antes de adormecer:
"Cuidado com o que pede a Deus, ele costuma atender!"

2 comentários:
Encontrei esse blog por acaso, mas me identifico com o texto. Sabe eu tb não acredito em ninguém, como Sam, acho que manter distância é a melhor maneira de não se machucar. Já passaei por isso, com algumas. E prometi qu enunca mais iria acreditar nas pessoas.
beijos.
É, não é fácil confiar nas pessoas, ainda mais qdo a gente já levou alguma rasteira de quem não esperava.
Por outro lado, a vida é muito curta pra gente não se permitir novas oportunidades, outras chances. Nem é dar chance aos outros, mas a quem mais sofre com isto, nós mesmos.
Um beijão, obrigada por ler e por comentar, tá. Pode crer que isto é muuuito importante pra mim.
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