Within Temptation "Blue Eyes" 2007 http://www.youtube.com/watch?v=5A7pRNQ-WHE
Sozinha no meio daquele solo desértico, o calor escaldante sobre ela e um vazio de gelo em seu coração. Segurava a arma carregada, sentia-se impotente. Tinha a sensação de se ver de longe, do alto. Vazio... ela e o vazio, a perda. Laura sabia que não poderia ficar muito tempo ali. Deixou cair uma última lágrima. Selou com ela a mudança de atitude. Seu sangue começava a sair do gelo, diretamente para o fogo. Começou a sentir a ira invadir seu corpo, retesar seus músculos, endurecer suas feições. Agora tinha contas a acertar. Toda frustração, toda dor a estavam transportando deste mundo e a levando para um universo paralelo, feito de violência e sangue.
Não era a primeira vez que sentia ser transportada para uma dimensão paralela. Se lembrou de um tempo que pareceu muito distante, ter sido transportada para o universo do sublime e do amor. Mas este tempo tinha passado. E isto fazia parte da dor que sentia. Uma dor que precisava ser derrotada, ou acabaria com ela. Laura deixou a ira a invadir, ocupar os espaços do amor sem esperança. Da dor pela perda dos amigos queridos. Da indignação pelas injustiças.
Sentia aquela arma se tornar extensão de seus braços. Iria buscar vingança. Distribuir a dor que sentia. Isto poderia acabar com sua vida. Porém percebia que sua vida já tinha acabado há muito tempo, não tinha nada a perder. E isto a tornava perigosa.
Ela caminhou de volta ao que sobrou do acampamento. O cheiro era horrível e podia ser sentido de longe. Mas ela não se importava com isto. Cavou uma trincheira comprida, onde enterrou os corpos de seus amigos. Mais números para a deplorável estatística da guerra. Médicos, enfermeiras, jornalistas, geólogos, fugitivos desnutridos, mulheres, homens guerreiros e crianças na mesma vala. Vidas tão diferentes. O que somos no final das contas, senão adubo para a terra? Pensou enquanto jogava mais uma pá de terra. E todos iguais. Voltando para casa talvez, talvez apenas corpos disformes, indistintos, em uma vala perdida, junto com seus sonhos, seus feitos. Outra pá, jogada com raiva. Grande estupidez se matar assim! Quantos destes chegaram a conhecer o amor?
As armas dos guerreiros mortos não tinham sido levadas. Não faltava arma ou munição, nunca faltava. Esta era uma guerra onde os únicos vencedores estavam muito longe, vivendo sua vida de forma exemplar em outro continente. Laura se armou o máximo que pode, localizou o rádio e material para sobrevivência que estavam escondidos no abrigo. Localizou sua equipe e, de forma codificada indicou onde poderia ser encontrada. Pediu a presença de Henri e Mitzel.
Eles entenderam o recado. Enfim partiriam para o ataque, tinha chegado ao fim o tempo dos tapas na cara. Organizaram suas equipes, desmontaram o acampamento pois sabiam que desta vez iriam para o tudo ou nada desta equipe. Caso não fossem bem sucedidos, dificilmente algum deles voltaria. Encontraram Laura no dia seguinte, no local marcado. Ela estava com uma expressão dura, firme, decidida. Já tinha armado um plano, mas precisava dos mapas que eles trouxeram para ter certeza. Seria preciso sacrificar alguém para que o plano tivesse êxito. Mas, os demais poderiam agir com grande chance de sucesso.
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Francês e polonês discutiam sobre qual homem teria as qualidades necessárias para este desafio, enquanto Laura tinha se ausentado. Não chegavam a um acordo. Sabiam que ninguém ali se furtaria a dar sua vida pela causa à qual dedicavam seus melhores anos. Mas qual deles poderia realmente executar o que seria necessário? Laura voltou, vestes cáqui, da cor da areia da região. Cabelos presos em um boné também da mesma cor. Um fuzil preso às costas. Seus olhos com um brilho perigoso.
- Não montei este plano para mais ninguém. Só eu estive lá, só eu posso desativar a segurança e permitir que vocês entrem.
- De forma alguma Laura! Ou eles te pegam, enquanto você estiver lá, ou nós podemos te matar, quando fizermos o ataque. Você não pode estar lá dentro!
- Um de nós tem que estar. Eu sou a única que tem chances de sair viva de lá.
- Ninguém tem. É um plano suicida.
- Não vejo assim. Eu consigo... e se não conseguir... Bem, nós temos uma causa justa. Nossos amigos morreram por ela. Ficarei honrada em me juntar a eles.
- Você não vai! Eu vou, também posso sair de lá vivo.
- Não, Henri. Ela tem razão! Coragem, Laura. Seu coração é nobre. Ele vai te mostrar a saída. Nós vamos tirar você de onde você estiver.
- Fique viva, Laura. Não vou voltar pra casa sem você.
- Quando receberem o sinal façam o melhor que puderem. Eu sei que posso contar com vocês.
Laura esticou a mão à frente. E os dois homens, emocionados, juntaram as suas. Henri mordia os lábios. Mitzel mostrava com o olhar o quanto estava orgulhoso e comovido com a decisão daquela mulher. E como confiava que ela sairia viva desta.
O plano consistia basicamente em entrar no laboratório, desligar os sensores de segurança, identificar onde estavam sendo mantidos presas as pessoas usadas como cobaias e escudo e transmitir esta informação à equipe. Depois, era necessário chamar atenção do lado oposto para que sua equipe pudesse entrar sem por em risco a vida dos cativos. Precisavam destruir parte do laboratório para que não fosse mais usado. Mas tinham que deixar o suficiente para que as provas levassem aos culpados. Não se tratava de um ato isolado, mas de levantar o tapete das sujeiras que eram cometidas ali.
Este era o mesmo lugar que Laura tinha ficado presa quando foi resgatar seu mentor. Conhecia meios de entrar sem ser vista. A grande dificuldade estava em por os cativos em segurança sem ser vista e em chamar a atenção sem ser morta. Detalhes... uma coisa de cada vez.
Durante todas as vezes que tinha estado no meio do conflito, tinha se impedido de pegar em armas. Acreditava que seu trabalho como fotógrafa e as informações que conseguia obter, eram o suficiente. Era a sua parte. Mas não desta vez. Ela fazia parte desta guerra. Tinha motivos para estar armada. A ira a movia, mantinha-a alerta, consciente. Enquanto rastejava pelo túnel que a levaria até o interior do laboratório, lembrou-se de seu ataque de fúria quando atacou Arthur. Poderia tê-lo matado, novamente agradeceu à Sam, silenciosamente, por tê-la impedido. Lembrou-se do sentimento que a invadiu naquela hora. Colocou a mão em seu bolso e sentiu o objeto que tinha comprado naquela tarde, há quase um ano, uma vida atrás. Sentir o anel que pretendia dar como um símbolo de seu amor, sempre fazia seu peito se encher daquele sentimento mágico que nunca iria se acabar. Vacilou... não, não podia se permitir pensar nela agora. Era um amor perdido afinal de contas. Teria que ficar esperando até a melhor oportunidade de entrar, o que poderia levar horas, não pode impedir sua mente de voar, enquanto observava o vai e vem das pessoas.
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Embora fosse apenas três horas da tarde, aquele dia já tinha tido seus momentos intensos. Ela tinha levantado cedo, depois de passar um tempo mágico observando Sam dormir. Ela era tão linda entregue aos sonhos, lembrou-se que teve que se forçar a sair da cama, poderia passar dias contemplando aquele rosto belíssimo, o movimento ritmado da respiração. Mas sabia que ela sempre acordava faminta, então se aprontou e foi buscar pãezinhos frescos. Quando voltou quase se amaram mais uma vez, esquecendo a fome, como aliás, sempre faziam. Mas a ligação as atrapalhou. Novamente se sentia encostada na parede. Desejava mais do que tudo ficar com Sam no Brasil e começar com ela uma vida nova. No entanto, tinha uma missão a cumprir. Não iria sozinha, isto estava descartado, a questão era que não queria por Sam em risco, sob hipótese alguma. Sabia que ela aceitaria o risco. Visto de fora sempre é estimulante, mas nas condições que aquele continente existia, era difícil ter margens de segurança.
Levou Sam para conhecer dona Anália, a mãe de sua amiga de infância, Jussélia. Queria partilhar com ela o máximo de coisas possíveis de sua vida. Mas não sabia se deveria fazer isto com a parte arriscada. Não poderia imaginar como viveria se causasse qualquer dano à sua amada. O que ela tinha certeza absoluta mesmo é que viveria para sempre com Sam. E foi para simbolizar isto que estava entrando naquela joalheria. Seu coração praticava saltos acrobáticos, não por medo, ou por achar que era uma decisão precipitada. Apenas emoção de amar e de ser um sentimento correspondido. Não imaginava mais viver longe dela. A escolha do anel foi particularmente complicada. Fazia questão de saber a procedência de tudo. Não queria dar uma jóia que tivesse relacionada a qualquer tipo de exploração humana. Além do mais, nada parecia ser adequado e ela viu muita coisa até que um chamou sua atenção. Delicado mas forte, com um desenho muito sutil, mas que o fazia ser diferente, único. Achou que aquela jóia era digna de simbolizar o seu sentimento.
Deu mais uma olhada na jóia que tinha permanecido entre seus dedos antes de guardá-la no bolso. Uma aparente e transitória tranqüilidade lhe permitiria avançar mais alguns metros sem se fazer notar. Assim que ouviu ruídos, se abrigou o melhor que pode, sentiu fome, não era raro sentir fome quando estava na África, embora seus últimos meses no Brasil não tenha sido marcado por regularidade em refeições. Lembrou-se, já que não tinha como escapar de suas lembranças, de um jantar em particular, muito planejado, muito sonhado... mas que não chegou a acontecer.
- Então posso contar com a presença do Cássio, Dr Rafael? - Laura falava hesitante ao telefone.
- Ele não vai faltar no ... noivado, ou sei lá como você está encarando isto, da própria irmã! Se for preciso eu levo pelas orelhas.
Laura riu no telefone, imaginar Cássio chegando levado pela orelha parecia engraçado, mas a verdade é que ela estava rindo à toa nestes dias. Já tinha acertado com seus pais o jantar em que entregaria o anel para Sam, já que as hipocrisias legais ainda não permitiam casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil, queria ao menos simbolizar seus sentimentos, seu desejo de amor eterno, companheirismo, cumplicidade e fidelidade com a mulher que amava diante de suas famílias e amigos.Gabriel, sempre resmungando, Gisele e Fernanda estavam trabalhando há dias preparando o salão de festas da pousada. Virna e Andréa vinham questionando muito sobre isto ser surpresa para Sam, mas não se negaram a ajudar, faziam as compras e transportavam tudo e todos com a maior boa vontade.
O jantar estava marcado para o dia seguinte ao que o anel fora comprado, portanto aquela noite seria sua “despedida de solteira”... e a viveu da melhor forma possível. Tiveram uma noite mágica, perfeita.
- Idiota! - deixou escapar em um sussurro. “Como se existisse perfeição neste mundo! Eu deveria ter desconfiado que era bom demais para ser verdade..” . Aproveitou este momento em que se livrou dos devaneios para avaliar a situação e, para seu desalento, teria que esperar mais algumas horas, quieta, silenciosa. Pensando.
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Ficou sentada no chão do corredor por uma eternidade, jamais conseguiria precisar o tempo. Tentou se levantar, mas suas pernas não a ajudaram. Mil pensamentos a tomando de assalto, a dúvida do que fazer. Seu desejo era de voltar lá para dentro. Implorar se fosse necessário, fazer o que fosse preciso para que Sam a acordasse daquele pesadelo. Queria viver o amor pelo qual esperou a vida toda.Mas sabia que Sam precisava de um tempo, era isto o que deveria ter feito no início, reconquistar a confiança, merecer a confiança e não voltar como se tivesse ido apenas na esquina por alguns minutos. Ligou para Leandro, que a buscou sem fazer perguntas. Não deixou que perguntassem muita coisa mesmo, só disse que estavam dando um tempo e que não falaria sobre isto. Cedeu à tentação de procurar por Sam, uma, outra vez e em todas as vezes foi recebida com um consentimento mudo. faziam amor, mas não dormiam juntas, não conversavam. O silêncio tinha se imposto e era mais dolorido do que uma discussão, pois não podia ser resolvido, não podia ser negociado. Se sentiu sozinha, como jamais sentira, evitava a turma de Sam, por medo de estar invadindo o espaço dela. Mas não evitava os lugares que ela freqüentava. Era raro encontrar, Sam estava reclusa novamente, mas um dia estava no luau, no colo de Virna. Neste dia não reparou na quantidade de bebida que passou por sua garganta. Lembrava vagamente de estar com um violão, ajoelhada na areia, de sua voz soando estranha, do olhar de piedade, pasmo e... seria mesmo desejo o que viu naquelas esmeraldas?
Cinco meses se passaram. Tinha finalmente tomado sua decisão, já não podia se dar ao luxo de continuar no Brasil. Dona Anália a tinha procurado, dizendo que Jussélia e seu marido estavam desaparecidos, alguns rumores de que seu posto de trabalho havia sido atacado, ninguém para dar notícias precisas, estava desesperada de angústia e por isto, resolveu procurar a única pessoa que sabia que poderia ajudar... era o empurrão que faltava para que Laura saísse do torpor em que vinha vivendo e a constatação pura e simples de que não poderia cogitar de levar Sam consigo, pois poderia ser uma viagem sem volta.
Na véspera de sua viagem foi até a praia. Sentou-se na areia e fechou os olhos, tentando absorver energia para fazer o que tinha que ser feito. Ainda de olhos fechados, algum tempo depois, sentiu seu coração se aquecer. A serenidade melancólica que sentia sempre que ficava perto de Sam. Não passava de uma figura solitária sentada na areia da praia, sob a fraca luz do luar. Não precisava olhar para saber quem estava ao seu lado, como sabia que não tinha sido difícil ser localizada. Elas já tinham superado esta fase há muito tempo. Sentiam a presença da outra em suas almas.
- Eu estive te procurando em mim....- falou a recém chegada.
- E você me encontrou? – perguntou ainda de olhos fechados, após um longo silêncio onde só as ondas haviam se pronunciado.
- Te procurei nos meus sonhos, na minha felicidade, no meu amor, na minha esperança... mas só parte de você estava lá.
Um suspiro, dois... a umidade do ar foi recebida na brisa fria.
- Então você continuou a busca?
- Eu precisava te encontrar inteira, e só por isto fui te procurar na dor, no rancor, na mágoa, no medo, na angústia. Assim encontrei a parte que faltava.
- Você é uma pessoa tão especial, tão linda, competente, seu sorriso é a coisa mais linda do mundo. Às vezes penso que eu só vim trazer confusão pros seus dias. Tanto que eu quis facilitar, tornar mais colorida sua vida, mas o que você estaria fazendo se nunca tivéssemos nos encontrado? Sem mim, você estaria saindo com seus amigos, tirando suas fotos perfeitas, estaria namorando... – a última palavra saiu apenas em um sussurro.
- Eu não vivia isto antes de te conhecer, nem viveria agora. Acho que sempre te esperei. Quando você sumiu, quis negar sua importância, negar o que sentia, banalizar. Mas não foi possível, negar sua existência seria negar minha capacidade de sentir. Me apeguei então à esperança que você se tornasse apenas um grande amor... só que do meu passado. Ainda assim não adiantou de nada. Para onde eu corresse, o que quer que fizesse, era esperando por você, para que você visse. É sempre só você que está no meu coração.
- Eu só te machuquei com meu silêncio, agora consigo ver. ...
- Você foi mesmo para uma região em guerra? - Sam perguntou abruptamente.
- Não foi a primeira vez, já tinha ido outra vezes... é o meu trabalho, uma parte dele, pelo menos. - a resposta, como sempre, vaga, reticente.
- Você ia para cidades que sofriam conseqüências... você foi mesmo para a guerra, quer dizer, onde você corria riscos? - Sam insistiu.
- Fui
- Por quê?
- Foi preciso.
- Por quê?
- Agora não faz mais muita diferença, não é? O estrago já está feito. - Laura concluiu.
- Você continua apegada à renúncia de falar, Laura. Realmente não sei viver implorando para ouvir, preciso que você confie em mim. Você pode fazer isto?
Fez-se uma longa pausa, na qual Laura se limitou a olhar profundamente nos olhos de esmeralda, em um duelo sobre falar ou não. Até que o momento passou e o silêncio com todo o seu peso incomensurável dominou o ambiente, esmagando os corações, ou o que sobrava deles. Não tinham forças suficiente para se mexer, ou tentar falar.
- Já reclamei tanto desta água que nos separava, hoje estamos do mesmo lado do oceano, mas existe uma barreira muito maior entre nós, intransponível.... você... simplesmente não confia em mim. Não há nada que eu possa fazer pra mudar isto. Logo eu talvez não seja nem lembrança pra você.
Isto não é verdade, mas como eu posso te dizer isto? Minhas ações mostram que você está certa. Eu nunca vou te esquecer, você é todo meu coração. Tenho tentado tanta coisa para preencher seu espaço, mas tudo o que consigo é perceber o tamanho de sua ausência. Como posso te explicar isto, sem correr o risco de te machucar mais? Será que é mais seguro para você que nós vivamos uma vida sem sentido, cada uma como um zumbi em um canto do mundo? Você me deu tanto amor e só tenho dor, mágoa e saudade para te dar em troca.
Sam interpretava o silêncio e a respiração pesada de Laura ao seu lado como um assentimento às suas considerações.
- Você deve se lamentar muito o dia que me conheceu, não é Sam? – o tom de voz era carregado de emoções conflitantes, mágoa e tristeza disputavam espaço ferozmente.
- Não – Sam respondeu em um sussurro. Após um longo suspiro concluiu - Já questionei muito minha existência, Laura. Mas nunca a sua. – falou tristemente.
Ficaram em silêncio por um longo tempo. Ambas sem forças para dar o passo que selaria definitivamente a separação.
Como segurar o tempo, como fazer com que ele não mude para o segundo fatal em que vamos estar tão amargamente condenadas à viver com metade do que somos?
Mas o tempo não parou de correr e chegou o momento que só restava a Laura levantar-se. Ela sentia estar despedaçada, dor maior do que julgava existir, mesmo para ela que já tinha visto tantas atrocidades, tanto sofrimento, Não, não se sentia pronta para sentir o que sentia agora, lutando com cada passo que a levava para longe de sua alma, de encontro ao vazio. Se tivesse olhado para trás, teria visto o pedido mudo que Sam fazia para que ela ficasse.
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Noite quente de sexta-feira, todas as baratas saem da toca. Sam estava sentada na rede de sua varanda, olhando as estrelas. Lembrava-se sempre de uma das primeiras conversas que teve com Laura, sobre estarem unidas quando olhavam ao mesmo tempo para um mesmo ponto.
Por onde andaria Laura neste momento? Já fazia uns quatro meses que não a via, afinal ela tinha voltado sozinha para a África, um dia depois da tentativa de Sam de conversar com ela, seguindo os conselhos de sua terapeuta. A mais frustrante de todas as suas conversas. Laura não a acolheu, estava muito triste, tanto quanto ela, mas continuava transmitindo insegurança, resoluta a não compartilhar seus pensamentos.
Tinha sido muito difícil resistir ao encanto da morena nos meses que antecederam a partida dela do Brasil. Se encontravam casualmente, ou não tanto assim. Não conseguia resistir o desejo insano que sentia de amá-la, devorá-la. O tamanho de sua paixão a assustava, bastava estarem sozinhas e ela notar que os olhos azuis se tornavam turvos que se rendia por completo. Só de lembrar já se sentia quente... era só fechar os lábios para sentir a boca que fora feito de encomenda para a sua tocá-la.
- Eu ainda acabo louca! Abraçar travesseiro sexta a noite é pra gente doente - falou se levantando para sair.
Faltavam peças demais no quebra cabeças, precisava se sentir segura. Precisava pensar. Sempre algum detalhe importante escava entre seus dedos. Andava em círculos com seus pensamentos, mas sabia que o atalho estava perto.
- Olha a Sam! Enfim saindo da toca, loira!
- Já é hora, não... – falou dando um beijinho nas amigas.
- Já passou da hora, faz um tempo.
Sam se sentou no lugar de sempre, embora estivesse faltando três pessoas ao que era seu grupo antigamente. Arthur não andava mais com eles, trabalhava com turismo agora, ou melhor, acompanhante de turistas, como informou Gabriel, outro que não estava presente. A terceira cadeira vazia, bem, é a cadeira que antes ficava encostada com a sua, de onde vinha uma mão sempre atrevida passear pelas suas pernas. O garçon chegou e ela pediu um vinho para beber sozinha, porque as meninas já estavam tomando cerveja e não a acompanharam. Continuaram no costumeiro ritmo alegre da conversa, Sam tentou se interessar, mas se distraia com facilidade. Aquele lugar era tão cheio de recordações, se lembrou do show que ela tinha intenção de assistir, mas que trocou por uma visita acompanhada ao banheiro. Sorriu quando se lembrou que as amigas estavam do lado de fora.
- la fica calada a noite inteira, quando eu conto que estou com cálculo na vesícula e tenho que operar ela ri! Mas não é mesmo muito desaforo! – reclama Andréia olhando indignada para Sam, capturando sua atenção.
- Ops... desculpa, eu estava pensando em outra coisa. – falou constrangida – Então você vai deixar a Virna disponível por uns tempos?
- Nem pense, nisto! – respondeu jogando um guardanapo amassado nela.
- Disponível! Bons tempos, esqueceu que agora nós temos um filhotinho? A gente só conseguiu sair de casa porque o Gabriel ficou de babá. É incrível como ele se dá bem com o Gustavo.
- E porque não estou sentindo dor hoje, eita encrenca dolorida esta!
- A vantagem é que é uma dor que operando acaba... e nem é uma operação muito complicada, não é?
- Não, não é. Logo eu vou estar saltitante feito uma gazela no campo, cuidando da minha casa, do meu bebê, da minha marida. – virou-se e deu um beijo rápido em Virna.
Sam colocou mais vinho em sua taça. “Dor é só operar que passa, o que vai ajeitar a minha vida, será que tem como operar amor?”
- Luxúria! – falou Gisele repentinamente.
- O quê?
- Luxúria ajuda a combater saudade de ex. – respondeu simplesmente, como se tivesse lido o pensamento de Sam, que olhava para ela considerando.
- De onde saiu isto agora?
- É que eu não te entendo, Sam. Vocês estavam super bem, por que você terminou com ela se fica ai com esta cara de velório? Sabe que às vezes eu chego a ficar com saudade daquela grossa que você era? Pelo menos dava pra ver que tinha alguém ai dentro.
- Shh – Fernanda, puxou o braço de Gisele para ela parar de falar – Ela não está falando sério quanto a você voltar a ser do mal, não, viu! Só jeito de falar.
Mas Sam não riu da tentativa da amiga de amenizar o clima. Há tempos vinha meditando sobre isto, mas entrava em círculo vicioso de pensamento, não conseguia achar a saída, ofereceu uma resposta, que sempre se dava.
- Eu tive que fazer isto, ela estava se prendendo, ela queria ir embora, estava dividida.
- Ela foi embora Sam, mas só depois de cinco meses te rondando, ela queria voltar, fez tudo para mostrar isto. Eu sei que ela tentou conversar com você, te mostrou que tinha intenção de casar, nós estávamos até preparando a festa, você sabe disto.
- Sei.... mas também sei o que eu ouvi, Virna. Eu não duvido que ela me ame, mas tenho certeza que ela iria embora, eu ouvi quando ela falou com o francês.
- Que francês?
- Um diabrete de um velho, eu acho. O mesmo que fez com que ela não voltasse.
- Você não acha que se ela tivesse intenção mesmo de ir embora, não teria ido logo em seguida, logo que você a pos pra fora? – Andréa considerou.
- Ela estava dividida antes e continuou dividida...
- Ela escolheu, Sam, escolheu ficar com você. – falou Gisele impaciente. – Você só não conseguiu acreditar nela.
Sam não respondeu, bem sabia que isto era verdade. Depois que elas terminaram, Laura a procurou para tentar conversar, mas sempre era reticente ao falar de seus planos, sobre as coisas que sempre escondera.
- Ela também nunca confiou em mim.
- Ah, não sei.... Um dia eu perguntei pra ela porque vocês não se sentavam e falavam tudo o que tinham para falar, melhor que isto, tudo o que a outra precisava ouvir, porque dá nos nervos ver esta situação de vocês, as duas chorando pelos cantos porque não aprenderam o DR. - Virna falava impaciente.
- Discutir a relação - esclareceu Andréa, diante do olhar interrogador de Sam.
- Ah... E o que ela respondeu?
- Que a dúvida dela nunca foi confiar ou não em você, mas sim te proteger demais porque te ama, ou te expor demais por não conseguir ficar longe de você.
- Mas por quê? Que segredo é este afinal? E porque vocês não me falaram isto antes?
- Não sei para as duas primeiras perguntas e para a terceira... - Virna começou a responder e diante de sua reticência Andréa interveio.
- Porque é um assunto entre vocês. Coisa que tem sua hora para ser resolvida. Se estamos falando agora é porque ela já foi, não vai poder te colocar no risco com o qual se preocupava, mas também não está aqui para te tirar do risco que te ameaça.
- Risco de deixar a vida passar sem a viver. Vocês não terminaram direito, tem pessoas que namoram inúmeras pessoas, terminam e voltam a viver. Não parece ser o caso de vocês duas. - Concluiu Fernanda, deixando claro que era um assunto que suas amigas discutiam com freqüência, para estarem tão sintonizadas.
- Ela ficou super mal com o fim do namoro de vocês.
- Eu também não estava bem.
- E por acaso agora você está bem? – perguntou Gisele.
- Não... eu só queria que tudo fosse perfeito como era antes, eu queria não sentir tanto medo.
- Medo do quê? Você sabe responder isto?
- Medo ... medo que ela fosse embora e eu me visse sozinha, medo que eu estivesse totalmente nas mãos dela.
- Mas como você está?
- Totalmente sozinha, totalmente nas mãos dela
- Então você percebe...
- Que este é o meu tesouro e não minha maldição. – concluiu, enfim saindo do círculo de seus pensamentos, que não a deixava dar este passo. - Era o amor por ela que me fazia ver beleza em tudo e a ausência que deixa tudo tão sem graça.
- Você disse que a deixou livre. Mas ela sempre foi livre, estava com você porque escolheu estar.
- Ela foi embora.... - falou com um fio de voz.
- E você está aqui esperando que volte? Mas ela pode não voltar nunca, você tem que sair desta inércia! Não está aqui o que você precisa, ela sempre correu para você, será que não está na hora de você também fazer isto? De ser o que tem que ser?
Sam se calou. Uma palavra brilhava em sua mente como resposta ao “ser o que tem que ser”. Uma palavra que sempre a assustou, mas agora a via de forma tão diferente, simples, precisa.
- Vulnerável, é isto afinal! -falava mais para si do que para as amigas - O amor exige entrega total e sempre temi tanto estar vulnerável. - olhou com incredulidade para as amigas que tentavam acompanhar seu raciocínio - Mas era isto o que me tornava forte, minha força, meu poder de enfrentar a vida, vinha exatamente de estar entregue, de me abandonar nas mãos dela. Estar vulnerável não significa ser fraca, no final das contas.
- É Sam, não significa mesmo. É na entrega absoluta que está a força. Mas você precisou perder para descobrir!
- Não! Eu não perdi, estou vulnerável, não vê! - falou sentindo uma insana alegria - enquanto não posso ver beleza longe dela, enquanto esta festa não tem som, só barulho só porque ela não está aqui é porque não a perdi, estou vulnerável! Pertenço a ela, como sei que ela pertence a mim. A Laura é vulnerável, é vulnerável e precisa de mim.
- Ah....- Gisele foi a primeira a falar, depois de alguns segundos - mas ela precisava mesmo sair correndo?
- Na verdade, acho que ela perdeu tempo demais. - concluiu Andréa, erguendo sua taça para um brinde.
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Miguel Bosé & Shakira - - Si Tu No Vuelves
A noite chegou, o movimento foi ficando escasso, até se extinguir de vez. Laura enfim pode sair de seu esconderijo. Sabia bem o que tinha que fazer e não perdeu tempo.
O dia quase inteiro que permaneceu só observando foi de grande ajuda para que ela avaliasse melhor suas possibilidades. Achou que estava muito mais perigoso, a segurança tinha melhorado desde sua última fuga. “Vai dar um pouquinho mais de trabalho sair inteira disto”.
Realizar a primeira tarefa se mostrou mais complicado do que parecia, teve que carregar os corpos adormecidos dos vigias no depósito, sem deixar sua arma com o tranqüilizante de lado. Depois, entrar no quarto onde estavam os prisioneiros não foi tão complicado quanto convencê-los a segui-la, já que estavam muito traumatizados com o tratamento que deram aos que tentaram fugir, após sua própria fuga. Convenceu alguns dizendo quem era, outros dizendo que ganhariam comida e bom tratamento e outros, bem, ela precisou mostrar que se fossem capturados seriam tratados com violência, se quisessem ficar ali, ela mesma seria violenta. Se maldisse por isto, mas tinha muita pressa, pouco tempo e a paciência não estava em sua lista de prioridade, no momento. Em uma das últimas portas que abriu, encontrou quem procurava. Seu coração se encheu de alegria enquanto dava um rápido abraço em Jussélia e Daniel. Eles se ofereceram para ajudá-la, mas ela negou, pediu que acelerassem o ritmo e ajudassem as diversas pessoas com dificuldade de locomoção.
- Vai Ju e se cuida, porque prometi à sua mãe que a levaria de volta e se não cumprir, ela nunca mais vai fazer bolo para mim.
- Que Deus te abençoe, amiga. Tome cuidado e leve isto, foi muito útil para nós aqui. - entregou a Laura papel e lápis, ela não entendeu o motivo, mas guardou-os no bolso.
Após colocá-los em local seguro, deu a volta por todo o terreno, minando-o, até chegar no lado oposto por onde seguiam os refugiados. Era a hora mais perigosa, pois precisava chamar a atenção o máximo de tempo possível para o lado contrário, sem ser capturada. A idéia era que sua equipe, assim que ouvissem os disparos, atacassem pelo lado contrário, pegando-os desprevenidos. O que dificultava muito a ação era a quantidade de túneis escavados, por qual poderiam se esconder, atacá-la ou mesmo à sua equipe.
O rádio que Laura pegou de um dos vigias a estava preocupando, já que vinham pedindo a atenção deles há algum tempo. Ela sabia que teria que acelerar o ritmo, ou poderia por a vida dos fugitivos em risco. Ainda que a precipitação fosse mais arriscada para a sua própria vida. Começou então a fazer os disparos que tinha que fazer, tudo virou um caos em pouco tempo. Ela mudava de posição aproveitando o seu conhecimento daqueles túneis, atordoando-os. Logo chegou sua equipe, do lado contrário onde estava, tinham ordem para destruir tudo, Laura tinha que se esconder muito rapidamente. E era o que tentava fazer, quando braços fortes a agarraram e a empurraram até um ponto muito distante. Logo barulho, escuro e... nada mais.
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Sam chegou na tenda de Mitzel dois dias após ao ataque. Foi ele que atendeu a ligação que ela fez, para saber onde localizaria Laura, quem mandou buscá-la no aeroporto e levá-la até ele.
- Então tenho a honra de conhecer a famosa Sam! - ele falou, tentando ser simpático, mas visivelmente nervoso.
- Muito prazer, Mitzel. - ela respondeu, se controlando para não pular no pescoço dele e fazê-lo levar até Laura.
- Não vai falar que eu sou o famoso, Mitzel? - mas o olhar dela pedia urgência - Nunca deve ter ouvido falar....
- Na verdade ouvi sim, mas agora eu quero saber da Laura, se for possível.
Ele suspirou profundamente antes de responder. Mandou que sentasse e mandou pegarem água para eles.
- Ela não.... Olha Sam, o que eu vou te dizer é difícil. Mas você precisa ser forte.
Sam congelou. Esta era a senha para a pior notícia de todas, ela ficou branca e ele fez uma pausa, mas ela só disse.
- Continue.
- Nós realizamos um ataque antes de ontem. No dia que você nos ligou. A Laura, ela era muito corajosa e...
- Era? Como assim era? - Sam falava com raiva daquele polonês, ele não sabia de nada, se tivesse acontecido alguma coisa com Laura ela saberia, ela podia sentir.
- Ela se arriscou muito, nós sabíamos que ela corria riscos sérios, mas mesmo assim ela insistiu.... quando nós chegamos já era tarde para ela.
Sam simplesmente não conseguia acreditar. Não tinha sangue correndo em seu corpo, caiu sentada na cadeira, que Mitzel colocou embaixo, na hora. Não era possível, tinha certeza que ela pressentiria. Era verdade, entretanto, que estava com uma angústia terrível há alguns dias, angustia que ela creditara a sua partida repentina. Não... Laura não podia ter morrido. Simplesmente não seria justo.
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Agradecimentos aos comentários, safanões, sugestões, além das imprescindíveis Hands (Talissa e Sem Toba, pq Rapha tá de love), Paulinha, Luciene, Ise e Mônica.
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