- Laura foi na frente, fez um serviço belíssimo de resgate. A amiga dela e o marido se salvaram, inclusive, uma tal de Jussélia. Porém... o lugar onde ela estava foi explodido, nós procuramos nos túneis que ela disse que iria se esconder, fizemos buscas e não a achamos.
- Então vocês não acharam o corpo dela? - Sam respondeu, pulando da cadeira, coração saindo do quase inerte para o martelar disparado.
- Não achamos. - ele olhou preocupado para ela. - Mas não alimente esperanças. Houve explosões, incêndios, o celeiro de munições explodiu...Havia muitos corpos, mas não eram reconhecíveis.
- Ah, por favor! Ainda que incinerado não é possível confundir a Laura com algum homem daqui!
- As coisas não são tão fáceis! Existe muita diferença, ela é alta, olhos azuis, tem uma tribal nas costas, mas Sam, nas condições que ficam estes sinais desaparecem.- ele respondeu irritado.
Ela sentiu vontade de bater nele. Muita vontade. Até que não resistiu e agarrou sua camisa, mostrando os dentes enquanto falava.
- Ela NÃO está morta. Eu sei disto. Eu SINTO isto. Eu vou achá-la e quando o fizer vou provar pra você que ela não morreu, que você não sabe de nada e... que ela não tem uma tribal tatuada nas costas.
- Tudo bem, nós estamos com equipe de busca. Henri está cuidando disto pessoalmente. Você quer fazer parte da equipe?
- Você não é muito bom com as perguntas, Mitzel. - Ela se levantou e pegou sua mochila, bebeu a água e o encarou. - Você vai demorar?
- E você pensa que é assim? Quer que eu chame um táxi pra te levar até lá? - O olhar obstinado dela e o fato de que ele estava mesmo pronto para partir, fez com que se levantasse rapidamente. - Vamos embora, mas você vai seguir minhas ordens, moça.
Sam foi sentada no banco de trás de um jipe que sacolejava muito. Olhava para fora, com sentimentos mistos, se recusando a aceitar que tudo o que poderia restar de Laura fossem cinzas, ou destroços. Alguma coisa não estava bem, mas ela estava viva. Ouviu Mitzel contar que os senhores Olivier e Pierre tinham morrido, quando tentaram intervir em uma aldeia que foi totalmente destruída. E que tinha sido Laura quem os encontrou e enterrou. Sam se condoeu por sua amada, conseguia conceber sua dor diante do quadro. Fechou os olhos e tentou falar com ela em seus pensamentos, mas eram tantos que acabou pegando uma caneta e um pequeno bloco de notas em seu bolso e escreveu para Laura. Iria enlouquecer no percurso se não fizesse isto.
******************
Laura,
Resolvi escrever esta carta porque assim estou falando com você diretamente. Neste momento é tudo o que mais quero e que preciso. Me perguntei se seria uma carta de amor, no entanto, do que mais seria? Tudo o que sei sentir é amor, portanto não poderia ser outra coisa. Só não sei exatamente qual face dele vai se mostrar. Amo você completamente, o que implica dizer que tenho todos os sentimentos, os bons e os péssimos. Vou do carinho extremo, ao ciúme doentio, que me faz querer estrangular seu amigo Mitzel (você fez alguma tatuagem? Se fez como ele sabe? Você tem explicações a me dar, mocinha), da vontade de te abraçar o resto da vida à mágoa por não ter te achado.
Preciso te contar sobre mim. Sou ao mesmo tempo o que sempre fui, porque faço as mesmas coisas, conheço as mesmas pessoas, entretanto, jamais serei a mesma que era antes de te conhecer. Te amo! E isto muda tudo, não tem jeito nem tem volta. Te tenho comigo mesmo assim tão longe. Estou tão entregue nas suas mãos! E tão feliz por isto!
As notícias que chegam de você são sempre tão incompletas, a última agora foi que você teria morrido, olha as coisas que você me faz ouvir! Como se fosse impossível que eu realize este desejo imenso de estar ao seu lado. Viver ao seu lado todos os dias, conhecer esta coragem e dignidade que me deixou tão orgulhosa de ouvir. Agora mesmo, estão lá na frente falando em sua bravura, já nem sei se sou digna de tamanha heroína. Brincadeira, eu sou sim e se não for você vai ter que aprender com alguém que não está à sua altura, porque eu não te largo mais. Você pode falar que isto tudo que estou escrevendo não faz sentido, não sei se faz mesmo, mas preciso, então não reclame, estou deixando meus sentimentos se manifestarem sozinhos e por mais que eu esteja desesperada, cansada, angustiada, morta de preocupação, medo, saudade e mais uma dezena de coisas... eu sei que o seu coração entende o meu.
Tentei tirar umas fotos no caminho, esta viagem está sendo tão longa, sabe, o tempo longe de você tem este dom de ser cansativo, comprido, aborrecido. Estou com saudade de ouvir você sorrindo, quando você sorri fica tudo tão lindo, esta sua boca grandona, que foi feita para se encaixar com a minha... sonho muito com ela. Sonhos inocentes, ou melhor, não tão inocentes, tá...nada inocentes, na verdade. Lau, eu quero muitos beijos seus todos os dias. Acordar com eles todas as manhãs, dormir com eles.
Quando você voltar para casa vai ver que mudei em algumas coisas... Aprendi a fazer seus pratos preferidos, já sei fazer seu café do jeito que você gosta, prometo que vou fazer todos os dias e te levar na cama. Várias vezes arrumei tudo para te esperar, porque te sentia tão forte, que não me espantaria se simplesmente entrasse pela porta da frente, com seu sorriso lindo, enchendo minha vida de alegria. Já me xinguei muito pelo meu medo absurdo, minha covardia, minhas escolhas erradas. Virei quase uma autista voluntária para estar sempre neste mundo onde nós nunca nos separamos.
Não é fácil dizer adeus. Não foi fácil dizer adeus para você. E eu disse por mais de uma vez! Mas não vou dizer agora, não mesmo! Vou te encontrar viva, inteira e nós vamos ser felizes, foi para isto que vim. Não quero mais passos entre nós, a gente não sabe viver assim, não é? Estou ouvindo o que seus amigos estão falando de você... taciturna, calada, amarga.... Você não é assim, não somos assim, só ficamos assim quando estamos separadas. Então temos que resolver isto.
Eu... para todos os lados que olho só vejo você, no meu passado, no meu futuro. Onde você está neste momento? Por favor Laura, esteja bem, esteja viva para mim.
Te amo.
***************
Depois de horas de viagem, chegaram ao que Sam pareceu o mapa do inferno. Só havia restos, fumaças, destroços. Tinha ouvido Mitzel dizer que algumas coisas saíram muito erradas. Que infelizmente o número de mortos superava o que tinham em mente, à princípio. A explosão do depósito de armas e munições foi catastrófico, o que indicava que estava repleto. Sam ouvia estas coisas com um frio constante no estômago. Laura estava ali quando tudo aconteceu.
Henri os recebeu, ficou surpreso quando viu a pequena loira entre os recém chegados. Não sabia como se comportar diante da resolução dela em seguir à frente.
- Você tem mesmo certeza que quer estar ali?
- Eu vim para achar a Laura. Você já a encontrou? - a pergunta saiu com um pânico maior do que queria demonstrar.
- Não, mas...
- Mas então estamos perdendo tempo. Onde vocês já procuraram? - perguntou resoluta e aliviada.
Henri olhou atônito para Mitzel que simplesmente balançou os ombros e disse:
- Melhor obedecer.
Sam redividiu os grupos de busca, Henri mostrou a ela a rede de túneis que havia no local, onde já tinham ido e as armadilhas que tinham encontrado e que tornava o trabalho lento e perigoso. Dois dos homens mais experientes ficaram no grupo de Sam. Ela estava estranhamente calma, desde que soube que não acharam o corpo. Tinha certeza em sua alma que Laura estaria viva. Fechava os olhos e tentava ouvir seus instintos, abrir seu coração para que a ajudasse a encontrar. Enfim escolheu um caminho e deixou todos os sentidos alerta.
Os túneis eram caminhos, esconderijos, armadilhas. Se interligavam, ou simplesmente acabavam sem sentido, um verdadeiro labirinto. Sam já estava exausta e a cada minuto mais desesperada, já tinham entrado muito a fundo e não havia qualquer sinal. Encontraram uma parede bloqueando o caminho. Os homens desanimaram, já tinham encontrado várias destas... olharam para Sam e seus olhares eram eloqüentes o suficiente para ela entender que teriam que voltar e procurar outro caminho. Era o racional a se fazer, realmente não tinha nada para frente, mas o que fazer com a imensa lanterna em sua mente que insistia em dizer para prosseguir?
- Vamos tentar achar uma saída por aqui.
- O que, senhora? - perguntou o mais alto dos homens, que andava encurvado há algum tempo para não bater a cabeça no teto, como se não tivesse ouvido direito tamanho absurdo.
- Existe uma passagem por aqui. - falou com a firmeza que não sentia, já que sua visão lhe mostrava algo que seu coração não aceitava ver.
O homem menor bateu com seu cajado na parede, para mostrar para ela que o som era sólido, como o solo que havia dali para frente. Ela passou a mão por toda a parede, tentando achar uma passagem, uma ranhura, qualquer coisa que se vê em filmes e era isto o que passava na cabeça daqueles homens “uma inexperiente, seguindo manuais de filmes”. Sam se lembrou de Indiana Jones quando disse que a passagem nunca estaria marcada com um X. Fechou os olhos e deixou se guiar pelos instintos. Enfim desistiu, realmente não havia nada além daquelas paredes. O desânimo avassalador fez com que derrubasse o cajado, quando foi se baixar para pegá-lo, viu o olhar de espanto dos dois homens.
- A senhora ouviu? - ao olhar interrogativo dela, ele jogou novamente o cajado no chão. - Oco!
Sam nem notou a velocidade com que caiu no chão para procurar o que rapidamente encontrou. Havia uma passagem para baixo, era assim que os túneis continuavam. Quis descer correndo, mas os homens a impediram e, cautelosamente seguiram adiante. Era um caminho de volta, um esconderijo muito elaborado que rumava para preocupação dos homens para próximo, muito próximo de onde ficava o depósito das armas. Sam reparou que o caminho à frente estava em ruínas, seu coração fazia tanto barulho que atrapalhava sua concentração. Então parou e disse:
- Ela está aqui. E está viva. - falou com uma certeza inabalável.
Os homens estavam mais crédulos depois de realmente terem encontrado uma saída onde ela disse que teria. Não questionaram. Pararam e observaram o local com mais atenção. Vigas caídas, escombros, muita poeira, destroços e...
- A mão dela! Olhe, é a mão dela ali no chão. - Eles viram com dificuldade, porque tinha uma enorme viga que estava dificultando a visão, era inegavelmente a mão de uma mulher branca.
Avisaram pelo rádio onde estavam e que tinham encontrado e precisariam de ajuda. Sam estava tentando tirar os obstáculos do caminho, chamando por Laura, sem ouvir resposta. Sam aproveitou seu tamanho e agilidade e conseguiu chegar perto o suficiente para tocar na mão, respirou fundo e quando sentiu um fraco calor apoiou a cabeça no chão pelo alívio. Ela estava lá e estava viva. Abriu espaço o melhor que pode para facilitar a respiração dela. O reforço chegou e, juntos, conseguiram abrir caminho. Laura estava presa sob alguns blocos, estava inconsciente, mas a existência de papel e lápis perto de suas mãos mostraram que ela esteve consciente até pouco tempo. Muito perto dali, dois corpos de homens, completamente esmagados pelos blocos, sinalizavam o quão por pouco não perderam a morena. Henri e Mitzel tinham treinamento como paramédicos, e realizaram os primeiros procedimentos. Ao que tudo indicava, ela estava presa pelas pernas, em uma acomodação que ainda que a prendesse a protegia. Seria preciso muito cuidado para retirá-la de lá sem que a estrutura desmoronasse.
Sam segurava a mão de Laura, fazendo o possível para não atrapalhar o trabalho de resgate, sentia, entretanto, que colaborava, tanto que ninguém pediu que saísse, ou ao menos sugeriu. Olhava aquele rosto lívido, cheio de poeira e parecia que nunca a tinha visto tão linda. Com a ponta dos dedos contornou a linha das sobrancelhas, dos lábios, sentiu o ar quente que saia das narinas, ritmado, parecendo uma poesia. Deu um ligeiro sorriso, com uma vontade desesperada de a abraçar e tirar qualquer dor que ela estivesse sentindo.
O papel no chão, chamou a atenção de Sam, ela o pegou e pegou o lápis também. A folha estava toda escrita. Aquela caligrafia que ela conhecia tão bem. Ficou olhando para o papel por um longo tempo e então o guardou no bolso. Quando olhou para baixo, encontrou os olhos de safira a mirando, mas foi por um breve instante, porque logo eles se fecharam. Quando conseguiram retirar Laura, a levaram ao posto médico improvisado e constataram fratura em uma das pernas, escoriações e uma forte desidratação. Milagrosamente, apenas isto. O motivo de estar demorando para acordar é que ainda preocupava.
Sam não saiu de seu lado o tempo todo, se mostrava uma esforçada enfermeira, dedicada à sua única paciente. Aproveitando a relativa calma da tarde, sentou-se no banco, ao lado da cama e pegou a carta que Laura escreveu, enquanto estava presa nos escombros. Já tinha lido várias vezes, mas não cansava de olhar para aquela caligrafia, para o pedaço de papel que representava o pensamento que ela considerou importante manifestar, seu legado, o conteúdo a emocionava até o mais profundo de seu ser.
- Você ainda tenta se comunicar telepaticamente com as coisas, baixinha?
- Lau! - os olhos de Sam se encheram de lágrimas pela primeira vez, enquanto ela se levantava para encarar o rosto que tanto amava.
- Eu estou sonhando de novo... Amo sonhar com você, por favor não me deixe acordar. - a voz dela era cansada e ela fechou os olhos que pareciam pesados.
- Ei, não durma de novo! - Sam falou alto, chamando a atenção de Henri que entrava na barraca.
- Laura, você acordou! Eu te disse que nós não iríamos embora sem você! - Henri não conseguia conter a felicidade.
- Henri o que você está fazendo no meu sonho? - Laura perguntou confusa, mas ao ver a expressão dele emendou. - Não que seja ruim sonhar com você, mas os meus sonhos com a Sam são só pra nós duas.
- Você não está sonhando não! - ele foi verificar os sinais dela novamente.
- Como não... - ela olhou para Sam, piscou forte, olhou novamente, depois olhou em volta. - Você... está mesmo aqui?
Sam sorriu, se abaixou e colou os lábios contra o dela.
- O que você acha?
- Acho que estou é no paraíso! - com um sorriso, voltou a dormir.
Sam os perturbou tanto que acabaram conseguindo um helicóptero para levá-los dali, as duas e Henri, que dizia para Sam não se preocupar, pois era normal Laura estar dormindo por tanto tempo.
Quando chegaram à cidade, Henri a levou até a casa de Omar, que sempre os hospedava. Laura foi levada para o quarto e Henri disse que logo ela acordaria, desta vez com mais consciência e por mais tempo. Tentou fazer Sam comer e se hidratar, o que ela aceitou por educação. Logo o cansaço a venceu e ela dormiu, sentada ao lado da cama.
Quando Laura acordou, ficou um longo tempo olhando incrédula para Sam, encantada, fascinada. “Então é mesmo verdade”, pensou enquanto passeava seus dedos nos cabelos dourados. “E eu... eu já tinha perdido a fé”. Henri que passava pelo quarto viu que ela estava acordada e entrou. Laura mostrou Sam dormindo e pediu baixinho para ir ao banheiro. Ele a ajudou a caminhar, esperou que ela tomasse seu banho, escovasse os dentes e a levou de volta para a cama, perguntou se ela queria que ele ficasse, mas já sabia a resposta, saiu e fechou a porta. Ela ficou um longo tempo acariciando os cabelos que se espalhavam pela cama. Quando Sam abriu os olhos, encontrou os de Laura fixos nela, repletos de carinho, de amor, fazendo seu coração disparar até doer. Ficaram em silêncio, apenas se olhando, as mãos de Laura segurando com delicadeza o rosto de Sam, trouxe-a para mais perto de si e viu os lábios rosados que se aproximavam de seu rosto, fazendo que os seus próprios ganhassem vida e ansiedade, sentiu o toque destes lábios contra sua pele, em todo o seu rosto, aquecendo por onde passava, iluminando, arrancando suspiros. Suas bocas se aproximaram, mas sem se tocar. Seus olhares navegavam de encontro ao outro, fazendo promessas, falando de tanto amor. Aproximavam-se com extrema lentidão, os olhos querendo continuar a se perder no azul, no verde, as bocas se atraindo, ansiosas pelo contato. Quando enfim se tocaram, a cortina dos olhos se fechou lentamente e se entregaram com todo seu ser na união de seus lábios. Sam entreabriu a boca e Laura apertou seus lábios de encontro a ela, sentindo o sabor, a textura, o calor, explorando e se deixando explorar. Laura ainda mantinha as mãos abertas apoiando o rosto da loirinha, quando se afastaram, abriu os olhos e encontrou o reflexo cristalino de seu amor dentro do infinito verde.
Depois de tantos desencontros, depois de tanto lutar com a vida, na vida, pela vida... por sua vida, elas sentiam que tudo se justificava, tudo se encaixava. Nada do que antes era problema parecia sem saída. Os medos e frustrações, a esperança e as promessas destruídas. Tudo parecia ser apenas degraus que as levavam onde estavam. Não havia do que reclamar, o que lamentar. Naquele quarto só havia lugar para dois sentimentos que se completam e ansiavam se completar. Amor e desejo buscavam se fundir, para só assim, trazer estas mulheres de volta à vida.
Um beijo que trazia consigo toda a história delas duas, mas que até por isto, não precisava de explicação, não tinha urgência, não tinha tempo, não tinha limite e nem pudor.
Se iniciou não se sabe quando e muito menos quando foi interrompido para dar lugar a novas explorações. Seus corpos já se conheciam, mas todas as vezes conseguia o privilégio de ser a primeira, o carinho de cada toque, as doces descobertas de cada sensação. Tudo se fazia novo. Cada som que aqueles movimentos provocavam, cada resposta, trazia em si um novo sentido, uma nova busca. Eram corpos se satisfazendo, almas se completando, se alimentando.
Aquele ato que, entre elas já gerara um prazer tão intenso que ultrapassou o limite e chegou à dor. Agora era, apenas e tão somente, uma entrega sem muito pensar, sem muito pesar.
*****************
Alguns dias depois, estavam prontas para voltar ao Brasil. Laura mancava toda feliz apoiada em sua “muleta” loira.
- Você é perfeita até nisto. Olha só, tem o tamanho certinho pra eu me apoiar.
- Você deveria se lembrar que se eu deixar, você cai.
- Então eu estou nas suas mãos!
- Isto ai! Completamente vulnerável!
- Mas ... Você não me deixaria cair. - Laura falou triunfante.
- Não. - a resposta veio firme e rápida, mas o complemento foi em tom de desafio. - Mas você não vai querer provar a teoria, vai?
- Rá! Sai desta Laura! Esta pequena dá nó em pingo d’água. - Mitzel falou enquanto as alcançava, sem disfarçar que estava ouvindo a conversa.
- Já ouviu falar em diálogo, rapaz? Aquele entre duas pessoas, não três, duas, só duas?
- Deixa de ser egoísta, Laura! Você já a escondeu tempo demais. Agora é hora de compartilhar...
- O quê? - Laura parou abruptamente, quase caindo, já que Sam não previu seu gesto.
- Laura, ela é incrível no campo! Nós precisamos de pessoas assim, você sabe disto, concordou com isto quando voltou.
- Você nem sonhe, eu não ... não acredito que você está tendo coragem de.... - Laura estava sem palavras, tamanha indignação.
- Vamos pensar, Mitzel. - Sam interveio, ampliando o queixo caído de Laura. - Fecha a boca pra não entrar moscas, Lau.
Quando entraram no avião, Laura quis saber da participação de Sam em seu resgate. Ficou encantada em saber que devia a vida a ela. Ficou apaixonada por esta mulher forte, destemida, confiante que Sam revelava ser. E, para sua surpresa, sentiu seu amor se aprofundar, coisa que não imaginava ser possível. Encheu-a de beijinhos, carinho, carícias e Sam achou melhor sentar em outro banco para não serem jogadas pela janela do avião pelas pessoas que olhavam feio. “Povo desocupado”, pensava mudando de lugar. Laura fazia gestos indicando o lugar dela, pedindo para voltar. Mas ela tinha um ar tão safado que a loirinha sabia que não iria resistir. E depois, ela tinha que consertar algumas frases antes de entregar sua carta para Laura. Já não queria levar café na cama todos os dias, observou rindo.
- O que é isto? - Laura falou tentando pegar o papel.
- Devolve! E você não poderia ter saído do seu banco, conhece a palavra repouso?
- Conheço - falava esticando o braço pra Sam não alcançar o papel. - É aquilo que a gente faz desde que eu acordei lá no Omar.
- Ei, bandida! Está escrito o meu nome aqui! É meu, você não pode me impedir de ler!
- Laura, às vezes você é uma criança!
- E você então é pedófila! - falou com fingindo espanto.
Sam não podia fazer nada a não ser rir. Permitiu que Laura lesse a carta.
- Por que a letrinha tão tremida? Aquela estrada asfaltada tão lisinha....
- Eu quase virei milk shake lá!
- Ah! Então era isto o que você tanto procurava nas minhas costas! Achou mesmo que eu tinha feito uma tatuagem?
- O pior não é isto, pior é pensar o motivo do Mitzel saber que você fez!
- Ah, isto tem alguma coisa a ver com aquela cena patética de você, na ponta dos pés, esfregando a mão na cara dele?
- Tem. Era isto ou esfregar a cara dele nas suas costas. - olhou feio para Laura. - Fora de cogitação!
Laura continuou a leitura, tinha feito pausas para brincar, para esconder sua emoção. Era muito simples, seus sentimentos eram os mesmos, também estava totalmente entregue naquelas mãos quentes que ela viu como um sonho bom quando abriu os olhos após perder as esperanças. Ela viu que Sam relia sua carta. Estava tomada de uma emoção muito parecida com a sua. Colocou o braço atrás de suas costas a puxando para um abraço. Sam encostou a cabeça naquele colo, ouvindo embevecida a melodia do pulsar daquele coração. A morena acariciava os cabelos encostados em seu peito, sentia o calor, o peso daquela cabeça contra seu tórax. Deixou sua mente vagar.
*************
Ela tinha sido capturada e estava sendo levada, sem gentileza alguma por dois homens imensos, que andavam meio agachados por aquele túnel baixo. Desceram por uma abertura no chão. Um local parecido com o que ela usou para se infiltrar, e estavam caminhando de volta quando ela caiu, mas eles não pararam, simplesmente seguiram em frente, a arrastando, cada um segurando de um lado. De repente a explosão, escuro, poeira e quando ela voltou a abrir os olhos notou que havia desmoronado tudo por ali.
Dos dois homens que a acompanhavam ela só viu os pés sobre um enorme bloco. Seu primeiro pensamento foi meio vingativo “Se ferraram”, mas depois sentiu pena. Não eram realmente seus inimigos, não passavam de marionetes. Tentou se mexer, mas não conseguiu. Sua perna latejava e ela quase desmaiou de dor. “Ops, me ferrei”. Refez o caminho mentalmente. Seria muito improvável ser achada ali. Era preciso sair. Tentou se mexer novamente mas desmaiou. Gritou, chamou, mas não tinha ninguém para ouvir. Seu braço estava para fora e ela conseguiu puxar o que havia no seu bolso. Só papel e lápis, o rádio e as armas tinham sido retirados. “Dizem que o papel é a maior das armas, vamos ver o que ele pode fazer por mim”. Mas seus pensamentos tinham um nome.
***************
Sam
Você precisava me ver agora, estou parecendo a pequena sereia, só que o rabo é de concreto e o cabelo é preto e não sou tão pequena assim! Acho que venho me sentindo um ser estranho assim há muito tempo. Me acostumei tanto com os dias e noites em que fui completa, quando estávamos juntas, que hoje me custa conviver com esta metade que me sobrou. Pedaços que sobraram de mim, alguns que nem mesmo eu conhecia, ando meio violenta nestes dias. Não gosto nada destes lados meus que conheci, gostava mesmo do que havia em mim e que só via quando estava ao seu lado.
“Não vou falar da falta que sinto de você, nem ao menos da falta que sinto de mim". Lembra quando a gente leu isto no Blog da Mulher de 30, pois é, quando me dou conta que você não está ao meu lado, me sinto tão sem rumo, tão ausente de mim.
Enquanto ficamos separadas me perguntava o tempo todo o que poderia fazer. Qual decisão poderia tomar, que te trouxesse para perto. Mas não podia fazer isto. Quando você me procurou eu sabia que era tarde demais para nós. Eu teria que ir embora. A questão mudou para imaginar se você poderia me esperar. Se eu poderia alimentar esperanças... de ser feliz, te fazer feliz. Construirmos nossa vida.
Vim para este inferno e encontrei tudo destruído. Amigos mortos, amigos desaparecidos. Tudo destruído. Um espelho do meu coração. Olha amor, tudo o que sobrou de mim, foram fragmentos, pequenos cacos de vidro com pontas cortantes...
Estou tendo muito tempo para pensar nesta catacumba. Avaliar quem eu sou. Descobri que tudo o que sou, Sam, sou por você. Devo a você as mudanças, da mais simples às mais radicais na minha vida. Os meus sonhos de futuro (ainda me lembro deles), minhas promessas, as mais belas lembranças, os mais doces sentimentos. Devo a você também todas as lágrimas contidas e as derramadas, toda solidão, a angústia das noites sem fim, os porres homéricos, as horas sentadas em frente ao mar... esperando você chegar.
Mais uma vez, te vejo à minha frente. E como sempre acontece, só o que sobra é o amor que eu sinto. Posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que todo o meu desejo, tudo o que mais queria nesta vida era ver de novo o seu olhar. Estar meio soterrada, ter visto tanto sangue e destruição, ter enterrado os meus amigos, sobreviver tantos dias sem sentir sua presença... nada disto pôde mudar este amor. Ele é tudo o que tenho, ele é seu... sempre seu.
Te amo.
******************
Sentia-se tão fraca quando finalizou a carta, tão vazia de medo, tão cheia de amor, que não lutou contra o sono. Sabia que era nele que poderia encontrar com Sam novamente. E, com um imenso agradecimento aos céus que abriu os olhos e a viu em sua frente. O rosto de anjo, a pela macia, os olhos de esmeralda, tanto amor... Se sentiu feliz e se entregou novamente ao cansaço.
Sam se movimentou nos braços de Laura, a trazendo de volta para o presente. Tinha ganho da vida mais uma chance e não iriam desperdiçá-la. Desde a primeira conversa entre elas sabia que tinha encontrado um tesouro. Todas as dificuldades, os problemas só serviram para lapidar, deixar o sentimento que as unia mais puro, intenso, verdadeiro. Lembrou-se de um poeta que disse que a felicidade existe, mas está onde a pomos e nunca a pomos onde estamos, deu um sorriso ao perceber que a sentença era falha, pois sua felicidade estava ali mesmo, bem juntinho ao seu coração. Apertou o abraço e depositou um beijo na testa da loirinha, que mesmo dormindo abriu um sorriso feliz.
**************************
Dois meses depois da chegada delas ao Brasil, a pousado de Geo e Letícia foi aberta para uma grande festa, casamento e despedida, de Laura e Sam. Elas resolveram trabalhar juntas, e voltariam para a África, agora que Laura já podia caminhar bem. Laura se espantava a cada dia com a resolução, visão aguçada e autoridade que Sam demonstrava ter. Ela iria contribuir muito, sem sombra de dúvidas.
A pousada já começava a receber os convidados. Os pestinhas estavam encantados com o papel de anfitriões e, claro, não perdiam oportunidade de fazer graça com todos que recebiam. Quando era uma mulher bonita, logo mandavam um sinal de rádio para Leandro os ajudar, mas foram tantas que logo o esquema naufragou.
Os amigos de Sam, entre eles a artista Nathk, chegaram antes e ajudaram com a decoração. Fernanda com os dois olhos pregados em Gisele, já que a Indiazinha também estaria lá. Ed aproveitava o seu imenso tamanho pra ajudar com as coisas altas e Lila, sempre por perto da namorada, fazia a decoração dali de baixo. Andréa, já recuperada, cuidava de seu filho, com Virna sempre ao lado, formavam uma linda família. Gabriel todo eufórico se apresentou à Mitzel e Henri que vieram ao Brasil especialmente para o casamento, mas os dois gostaram mesmo é de conversar com Gustavo e Dy, que estudavam Direito e eram partidários de causas sociais.
Aos poucos os convidados, todos eles especiais foram chegando e formando seus grupos, interagindo. Sy e Kaká, sempre juntas batiam papo com Luciene, Patty, Paty e Law, Vi e Quel, Tilhe e Soraya, Angelia, Fernanda que se juntaram ao grupo.
Um grupinho jovem e risonho, estava sentado na grama, Kelly, Dessinha, Mah, Nanda, Bru, Betinha, Scarlet, Lu, Ana, Nilene e Lucy pareciam rir muito dos causos grandiloquentes que Bidí contava, acompanhada das Marys
Os garçons trabalhavam em um ritmo alucinado, por sorte Lenice estava lá para coordená-los com sua grande perspicácia e comprometimento, não dava folga a Arthur, que aceitou trabalhar para poder voltar a se encontrar com os antigos amigos.
Em uma mesa muito ornamentada, algumas lobas uivavam para a lua. Inês, a bebezinha, sempre com uma florzinha nas mãos. Ise, uma abelha rainha muito linda, cheirava a flor. Perto dali, Mônica e seu lindo sorriso, observava Bell contando suas aventuras empolgantes, a doce Ione, Vida, Dany, Nathalia, Olívia, muito animadas, discutindo seus contos que adoram ler. Junto a elas, em uma conversa sempre desenvolta e animada, as brilhantes, Diedra, Wind, Rose Angel, Raydon, Priscila, Jackie e Paula Marinho, trocavam idéias, com certeza saia coisa muito boa dali. Ao longe, Rafael, Geo e Letícia e dona Anália olhavam para esta mesa... pessoas tão criativas juntas, sempre era bonito de se ver! Aproveitando a distração do marido, Letícia abriu sua bolsa e olhou para a pequena foto que levava em segredo em sua bolsa pensando “Nossas meninas vão ser felizes, pode ficar tranqüila”.
Carla, Talissa, Marcela, Rapha, Dani, Paulinha e Cris estavam sentadas, papeando com Soninha e Socorro, quando Cecília chegou cumprimentando todo mundo com sua voz de locutora e, devido à sua fama ninguém levantou , o que fez a sósia de Gaby dizer seu quase mantra:
- Ninguém merece umas amigas como vocês! Levanta ai, gente! - por amor à retaguarda, houve risos, mas ninguém obedeceu.
Na pista de danças, onde Bel, especialista que é, entre todas as mulheres da Terra, escolheu dançar com Manu, sua namorada. O que com certeza significa alguma coisa.
Cássio conversava com Lídia e seu marido, aos poucos parecia conviver melhor com as diferenças. Pegou Arthur olhando para ele várias vezes, estava para perder a paciência quando viu a chegada das espanholas, com suas cores e animação. À princípio foi meio constrangedor, mas logo Dana, seu marido e Lupe se juntaram com a família de Laura e se divertiram muito. Lupe estava encantada com uma festa com tanta gente bonita, tinha mudado muito com o suporte de sua família e só veio para se desculpar pelos estragos que fez. Su logo fez amizade com Cássio e não demorou para que procurassem por algum canto menos iluminado para conversar.
Laura e Sam chegaram muito atrasadas à festa, de mãos dadas, usando vestidos da mesma tonalidade, passearam pelo jardim, cumprimentando os amigos, distribuindo beijinhos, sem se separarem. Ninguém questionou o atraso, já que elas estavam lindas e escancaradamente felizes. Lupe conseguiu se aproximar e se desculpar, só não conseguiu ganhar seu beijinho de cumprimento, porque Sam rosnou para ela.
Val, por ser líder da gangue, foi quem realizou a cerimônia, falando sobre fidelidade, comprometimento, entrega absoluta. Falou muitas outras coisas, já que é falante, até que alguém no fundo gritou: “Atáia Val!” Muitos risos, troca de alianças, champagne, muita música boa. Era uma noite de lindo luar, brisa suave, muito amor. Elas subiram ao palco, onde THE MITIDOS estavam animando a festa e Marcela cedeu o microfone sem achar ruim, já que sua ruiva estava ali ao lado do palco.
- Como estas duas gostam de beijar! - Laura falou, olhando sorrindo para as duas, o ar travesso de Sam como se dissesse “olha só quem diz”, foi bastante eloqüente e fez a morena ficar da cor dos cabelos de Vivi. - Ah..então, até perdi o rumo! Vou querer um destes depois, viu! - falou para Sam.
- Depois... - respondeu, pegando o microfone - Deixa eu ajudar, senão não sai o nosso agradecimento.
- E ele precisa sair rápido, porque eu fiquei mesmo com vontade!
- Como eu ia dizendo, nós estamos aqui para agradecer a presença de vocês. De todos vocês, os que foram citados, os que não foram, todos e cada um de vocês foram essenciais para que o nosso amor se concretizasse, deixasse de ser um sonho.
- Quem acreditou na gente, quem atrapalhou, quem criticou.... de alguma forma, fizeram parte da nossa história e, não tem nada que gostaríamos de mudar. Só agradecer.
- Nós estamos indo embora, mas temos nosso meio de comunicação, vocês sabem onde nos encontrar. Pedimos que sempre incentivem o amor, sempre respeitem o amor, pois ele é o bem mais precioso que existe nesta vida.
- De todo coração, muito obrigada! Vocês são o máximo!
Taças de champagne foram erguidas, abraços distribuídos, a banda voltou a tocar e logo, ao som de Minha Flor, Meu Bebê, as duas sumiram rapidinho dali, juntas, sempre juntas.
************************************
“Talvez o fim não seja nada e a estrada seja tudo” (Antônio Cícero)
*************************************************************************************
E depois do fim, uma Laura conhecendo o que acontece quando o dia não é do caçador :P
Por Gustavo Samuel:
Um dia da caça....
Laura se ajeita na cama. Ela se mexe com cuidado para não acordar a mulher que fazia seu corpo de travesseiro. Ela coça a cabeça e faz uma careta para si mesma. Mais uma que teria que dar um fora educado e implorar a Deus que essa não tenha levado a noite (e que noite!) a sério demais.
- Já acordou?
A mulher pergunta com uma voz sonolenta e levanta a cabeça para olhar nos olhos de Laura.
- Nossa!
- O que?
- Você é linda, sabia?
Laura abre um sorriso amarelo e revira os olhos. "Já vi tudo! Essa vai ser difícil. Acho que tenho que aproveitar o silêncio, me levantar, inventar uma desculpa qualquer e ir embora. Vamos lá. No três. 1, 2, 3 e..."
A mulher se levanta e dá uma espreguiçada longa. Laura abre a boca para dizer tudo que planejava, mas as palavras não saem, a imagem do corpo nu de Luana (ou seria Márcia?) a deixou completamente muda.
Tinha tocado e beijado cada parte dela na noite anterior, mas não contemplara toda a obra-prima de uma vez, sem contar que estava completamente bêbada ontem.
"Força, Laura. Isso é só sua libido. A noite foi ótima, mas você não quer mais complicações na sua vida."
- Luana, eu...
- É Laura, não é?
- É.
"Ah, PÁRA! Ela nem ao menos lembra meu nome?"
Luana começa a se vestir e torna a falar.
- A noite foi um espetáculo, mas infelizmente...
"Epa! Essa frase era para ser minha..."
- ...tenho um compromisso inadiável. Tava quase esquecendo...também, tinha motivos pra me destrair, né?
"Eu to levando um fora! Eu!!!!!"
Luana dá um beijo rápido em Laura, que ainda não acredita no que está acontecendo, e abre a porta para ir embora.
- Espera só um instante.
- O que foi? - Luana se vira sorrindo para Laura.
- Então é assim? Você me usa, satisfaz seu desejo e me deixa aqui... chupando dedo?
Luana coça a cabeça, da mesma forma que Laura fez quando acordou, e murmura um “ai ai” antes de responder.
- Olha...Laura. Não é você sou eu...
"Bem feito. Ela ter sido contratada pelas mulheres que escutou isso de você. Estou provando do meu próprio veneno."
- Não consigo me ligar às pessoas. Sempre fujo de qualquer possibilidade de relacionamento e...- não quero te ferir de maneira alguma.
"Eu conheço a ladainha".
Luana volta e lhe dá um rápido beijo.
-Você foi muito especial pra mim.
Laura espera ela sair, solta um longo suspiro e se deixa cair na cama.
- Sabe o que é pior, Laura? Você nunca vai saber se estava gostando dela ou só se isso é só despeito por ter levado um fora.
*************************************************************************************
E olha só o motivo da fic não ter continuação o/
SOB OLHARES ATENTOS
Gustavo Samuel
Laura coloca um cd e o deixa tocar. Fecha os olhos e se concentra só na música. Deixa a melodia tomar conta de todo o seu espírito. Depois, abre devagar o par de olhos azuis que tanto invejavam e vai para a cozinha, estalando os dedos no ritmo da canção.
- Tcha, tcha, tcha, tcha... Essa vai ser uma grande noite. Sam vai adorar isso aqui.
Ela desliga o forno e retira uma lasanha de lá. Coloca a travessa em uma mesa e busca numa adega improvisada um vinho tinto seco e o deixa ao lado da lasanha. Ajeita os pratos, organiza os talheres e pega duas taças de cristal.
- Tudo pronto. Agora... Vou vestir algo fácil de tirar.
Sam chega em casa e bate a porta com força. Laura sai do quarto, com um vestidinho curto, que não deixou de ser percebido pela loira, e foi até ela, rebolando ao ritmo da música.
- Nem vem.
Laura começou a acariciar o rosto de Samantha. Rapidamente, procurou lugares mais ousados, como as coxas e as nádegas da outra. Sam a encarou de cara fechada e repeliu as carícias:
- Minha gatinha tá de mau humor? TPM?
- Eu não estou de TPM!
Laura solta um assovio e graceja:
- Bonita e malvada!
A morena tenta voltar às carícias, mas Sam a impede. A loira desliga o som e pega alguns papéis dentro de uma pasta e os joga para Laura. Ela olha para a primeira folha e lê “@mor.com Eight.hands – Carla, Marcela, Rapha e Talissa.
- Fic nova no fator? Faz tempo que não acesso.
- Pois é. Tem uma fic uber lá, sobre duas fotógrafas que se conhecem pela internet...
Laura tenta desviar do olhar fulminante que aqueles olhos verdes lhe dirigiam. Ela segura com força uma risada e tenta evitar o assunto, apontando para a mesa de jantar e a lasanha:
- Fiz seu prato favorito.
- Laura, você contou coisa demais para essas meninas na nossa festa.
- E pro menino também.
Samantha bate a palma da mão na mesa com toda a força, fazendo as taças e a garrafa de vinho estremecerem. Laura aperta os lábios um contra o outro e evita fazer qualquer outro comentário. Sabia que qualquer gracejo faria a loirinha explodir.
- Olha só isso:
“Desceu cuidadosamente Sam ao chão, não abandonando suas mãos do corpo da loirinha. Com fogo nos olhos, retirou a camiseta que estava atrapalhando sua visão. Sam ergueu os braços para facilitar o movimento, tinha fechado os olhos e jogado ligeiramente a cabeça para trás, oferecendo seu corpo para os carinhos que Laura não se furtou de fazê-los. Beijou aquele pescoço firme, deixou as pontas de seus dedos descobrirem todas as curvas que estavam expostas. Sam desfez o laço do roupão que Laura usava, passou suas mãos por dentro dele, sentindo o calor do corpo que tanto desejava. Como tinha imaginado toda a noite, embaixo dele só o corpo mais lindo que poderia imaginar. E algumas gotas de perfume.” Isso te lembra alguma coisa?- Lembra sim. Ah....Sam faz a mesa balançar novamente, batendo nela com força.- Isso aqui:“Sam entrou no apartamento e viu Laura sentada com seu roupão branco no sofá, a olhando intensamente, de cima a baixo.Siga esse corredor à sua frente, entre na última porta à esquerda e tome um banho. Lá você encontrará um roupão, vista-o e volte aqui.
Sam a olhou assustada. Estava com a voz rouca, sensual. Ela era mesmo a criatura mais linda que já vira. Seus cabelos soltos e negros caíam-lhe sobre os ombros e a abertura do roupão na altura de seus seios.
- Você não me ouviu? – Laura perguntou após dar uma olhada no papel em sua mão, falou baixinho para Sam - as fics, lembra?
Sam lutou para não rir. Tudo bem, se era para brincar de fics, encarnaria Carol e encantaria sua "cliente".
- Ah! Tudo bem, mas saiba que para você eu me daria de graça!
A noite prometia...”
- Você não me ouviu? – Laura perguntou após dar uma olhada no papel em sua mão, falou baixinho para Sam - as fics, lembra?
Sam lutou para não rir. Tudo bem, se era para brincar de fics, encarnaria Carol e encantaria sua "cliente".
- Ah! Tudo bem, mas saiba que para você eu me daria de graça!
A noite prometia...”
- Eu não contei tantos detalhes assim para elas.
Sam pega uma taça e a enche com o vinho. Toma tudo de uma vez. Depois joga a taça longe, criando dezenas de cacos de vidro.
- Quer que eu pense que elas, e ele, estavam nos espionando. Preparando a história, gravando tudo o que fazíamos?
- Sei lá. Eu só comentei algumas coisas. E você também falou bastante naquele dia.
- É, mas nada tão íntimo...
- Meu bem, todo mundo pensa que é ficção. Uma história inventada pela Eight. Todo mundo na festa sabe que nós transamos... e muito.
Sam deixa escapar uma risada e comenta com Laura:
- Sabem mesmo. Ainda bem que a Carla acabou a história na festa e não no dia seguinte.
Laura toma a fic das mãos de Sam e procura um outro trecho.
- Que você tá procurando, Lau?
- Uma coisinha.
“Sam levantou a cabeça, seus olhos tinham assumido uma tonalidade escura e densa, estava deixando os instintos tomarem posse, varrer os pensamentos, medos e dúvidas, ser apenas uma mulher sedenta de amor. Encontrou os olhos de azul intenso, onde via brilhar a mesma chama que os dela, notou as abas do nariz tremendo, sinalizando o desejo que a possuía. A boca semi aberta e úmida a convidava para matar sua sede e ela não pestanejou em ceder. Não tinha nada a perder. Porque com aquela mulher estava tudo o que tinha.Beijou-a com o desejo contido em meses, suas mãos buscaram com urgência sentir a pele da outra. Sam desceu seus beijos até o pescoço, enquanto a morena puxava sua camisola.”
- Adoro essa cena.
- Poderíamos repeti-la.
Os olhos verdes de Sam estão escuros e densos como no trecho da fic. Notou as mesmas abas do nariz tremendo, a boca sem aberta e úmida e a beijou com todo o desejo, agora não contido por meses, mas intensamente liberado todos os dias. Laura começou a despi-la, mas Sam a interrompeu abruptamente.
- Hey! Por que isso?
- E se estiverem gravando ainda?
- Não viaja, meu amor.
- E se Carla quiser fazer uma continuação de @mor.com?
- Claro que não, meu amor. Relaxa. Vamos brincar, vamos.
- Ou alguém, o garoto talvez, queira fazer uma homenagem à Carla.
- Gostaria de ver o Gustavo escrevendo nossas cenas de sexo selvagem.
Sam anda pela casa procurando em todos os cantos por câmeras e microfones. Ela abre armários, gavetas, vasculha em vasos, até que encontra um pequeno microfone e mostra para Laura. Laura levanta uma sobrancelha surpresa, pega o microfone e o quebra.
- ....
-....
As duas voltam a vasculhar a casa, até que Laura encontra duas minúsculas câmeras de vídeo. Chega bem perto delas, faz uma careta e...
******
Vadjab Gundag (também conhecido como Gustavo Samuel) diz:
- Descobriram tudo, Carlinha.
Carla diz:
Carla diz:
- Xiiiiiiiiii! Danou-se!

4 comentários:
Perfeito!
*emocionada*
Depois de acompanhar e saborear ca da capítulo, é uma felicidade imensa encontrar este. Mas tbm é uma tristeza grande.
O fim de uma história, sim.
O fim do amor, jamais!
Parabéns meninas!
_0_
Dra. Gô agradece sua visita e comentário e informa que está lendo sua obra publicada por este canal. Um abraço,
Dra.
Só posso dizer uma coísa lindo!
E não o final mas tudo o que levou a ele.
Parabéns a todas que se envolveram de alguma forma nessa linda história.
Aelia
Oi Aélia...
8 mãos sorridentes acenando pra vc \o/ \o/ \o/ \o/
Obrigada por ler e, uh! Que bom que vc gostou.
Postar um comentário