Quando Arthur se recuperou o suficiente para ficar em pé, Sam entrou na sala e fechou a porta. Ela tinha rejeitado a presença dos amigos e de Laura. Arthur era um assunto dela.
- Você me confunde, Arthur. Um dia você é meu melhor amigo. O único que me agüenta, força seus amigos a me aceitar. No outro me fala que é apaixonado por mim. Algum tempo depois consegue me fazer um mal que não sei a que espécie de inimigo se faria. Qual é a sua, afinal de contas, o que foi que eu te fiz?
- Outra hora, Samantha. - resmungou impaciente, a mão apalpando o rosto recém machucado - Teu irmão acabou comigo, se você não está percebendo! Não estou bom pra sermão.
- Não quero te dar sermão. Apenas ter com você o que pode ser a nossa última conversa. - falou com calma, atirando para ele umas pedras de gelo que pegou no bar - Se isto te importa, peço que fale comigo, decentemente.
- Vai! Pergunte o que quiser. - falou enquanto passava o gelo pelo rosto - Mas você está disposta a acreditar em mim?
- Se você me falar com sinceridade, Arthur. O duro é que passou tanto tempo com mentiras, que tenho medo que não saiba mais ser sincero.
- Eu tive que pensar rápido, está bom! - respondeu irritado - Ela me ligou e eu vi a chance de conseguir o que sempre quis. Tomei a decisão que achei certa. Eu vi que você não ficou muito bem, me dava nos nervos que você nunca melhorasse... sei lá, me senti meio culpado e acabei me afastando.
- O que você sempre quis! Pelo que vi nestes meses o que você sempre quis foi usufruir das coisas da minha família. E depois, não seria muito mais fácil você me contar tudo, nem que fosse depois? Você não percebeu o quão mal estava me fazendo?
- Está viajando, Sam! Ou era na hora ou não poderia te contar nunca! - ele falou com escárnio.
- Não podia porque eu ficaria brava com você? - ela perguntou como se estivesse ligando pontos.
- Você me afastaria. Aposto que não ia nem se lixar para os meus motivos, para os meus sentimentos, você iria me afastar e ainda fazer o pessoal ficar contra mim. E eu não poderia voltar mais aqui. Droga, acho que nunca mais o Cássio vai falar comigo. - ele se irritou e chutou uma cadeira.
- Isto quer dizer que você acha que fez certo?
- Acho sim! Quer saber este tempo foi importante na minha vida, eu aproveitei este tempo. Você não sabe de nada Samantha! Eu fui às melhores festas, convivi com gente de nível, não tinha que ficar contando trocado pra abastecer meu carro. Quer saber? Eu faria tudo de novo! - gritava em desafio.
- Então esta é a resposta que eu queria ter, Arthur, era nisto que eu não estava acreditando até agora. Você era o meu melhor amigo, por toda a vida e não se importou e não se importa com o que eu passei. - a voz dela transparecia o sentimento que a machucava, tinha perdido um amigo, se sentia traída e magoada. - Você esteve comigo naquele aeroporto por 22 horas, Arthur, sabendo que ela não chegaria! Você me viu correr para a Espanha, voltar de lá me sentindo a última das pessoas. Eu te falei tantas vezes que queria só entender o porquê....
- Coisa de mulher! Mulher gosta de fazer drama e era isto o que você estava fazendo. Você queria um motivo pra se sentir a vítima do mundo, a coitadinha.... “Ah, pobre Sam, a orfãzinha que foi abandonada pela sapata da namorada” - falou com escárnio - . Coitadinha de você, Sam! Se liga! Você tem tudo! Sua mãe morreu, beleza, a herança é sua. Tua sapa te deixou, dane-se, você pode afogar sua mágoa andando na sua lancha, chorar nos Alpes, é fácil ficar deprimida quando é rica e....
A ira que tomou posse de Arthur com todos os últimos acontecimentos dificultava sua percepção. Não notava que não era só Sam quem ouvia seu entusiasmado discurso descontrolado. Não notou o desprezo de Cássio e Dr Rafael, a indignação dos amigos, ou a aproximação perigosa de uma Laura vermelha e de olhar endurecido. Ele só conseguia ver que estava ferindo Sam. E sentia prazer nisto, vingava-se dos anos em que a desejou e nunca a teve. Foi com susto que se sentiu sendo arremessado de encontro à mesa de bilhar.
Laura esqueceu que estava na casa do pai de Sam. Não notou que olhavam para ela. Só podia ver que aquele cafajeste estava fazendo a sua namorada chorar. Precisava fazê-lo calar. Bateu nele com toda energia que conseguiu concentrar. Se ele não tivesse tentado resistir depois do primeiro safanão, talvez ela não tivesse canalizado toda a frustração acumulada nos últimos meses em fúria. A cada tentativa de revidar, mais ela se enfurecia, com mais força batia. Ele deixou de ser só Arthur, via nele o egoísmo de Lupe, a intromissão dos velhos franceses, as coisas terríveis que tinha visto. Ele estava caído inconsciente quando levantou seu braço com fúria cega, um último golpe que foi impedido por Sam.
- Já chega, Laura! Acabou ... ei, olha pra mim, acabou.
Os sentidos voltaram de uma vez, deixando-a atordoada com o susto. Seus olhos vagaram do brilho esverdeado, que a olhavam tão assustados para o rosto ensangüentado caído ao chão. Notou que não estavam sozinhos e que o silêncio constrangedor era carregado de susto e sobressalto. Gabriel, que estava concluindo medicina, se aproximou para cuidar de Arthur.
- Não se assuste, ele vai ficar bem. - deu um sorriso encorajador - Talvez até fique bom.
Laura então voltou seu olhar para Sam, que ainda segurava seu braço. De forma estranha, após extravasar uma fúria há tanto contida, se sentia vazia. Entretanto, olhar para aqueles olhos tão eloqüentes, tão comoventemente cheios de fé nela, sentiu o amor a invadir por completo. Já não tinha qualquer outro sentimento. A vergonha pelo que fez se dissipou, as outras pessoas presentes perderam a importância. Só existia Sam e o amor que sentia por ela.
***
Os dias passaram com Laura em busca de reconquistar a confiança que havia se partido, as semanas se juntaram com Sam em um estranho paradoxo: cada dia mais forte era sua necessidade de estar com Laura, cada vez maior a certeza de que se quebraria.
Atravessavam juntas pelo tempo, sem que eles a afetasse da mesma forma. Laura se manteve por perto. Partilhavam a casa, faziam juntas as compras. Viajaram juntas para visitar o sertão, onde realizaram um projeto conjunto, que, por ser pontos de vista diferentes se completavam.
Sam e Letícia se acertaram e também descobriram novas facetas de Jackie, que afinal, era uma mulher admirável, com suas qualidades e defeitos como qualquer outra. O que Letícia ocultou, era algo que pertencia só a ela, momentos que viveu ao lado de Jackie e que não tiveram coragem de levar em frente. Algo que pertenceu só a elas.
Da mesma forma, Laura conseguiu reconquistar do Dr Rafael, que havia ficado secretamente satisfeito pelo tratamento que ela deu à Arthur, defendendo sua filha. Ele não podia negar que era grato à ela por ter promovido sua reaproximação com sua menina. A intervenção dele junto aos pais de Arthur foi providencial para que o rapaz não entrasse com ação contra Laura e Cássio, por danos físicos.
***
Já era começo de outubro e em Recife o calor infernal fazia com que gotas de suor escorressem pela testa de uma alheia loira, que andava de um lado para o outro em sua varanda, olhos fixos na rua, os dedos se contraindo e esticando, mal percebendo que suava, ou que sua mão estava trêmula.
- Por que ela tem sempre que fazer assim? - esbravejou sozinha.
Mais um dia, mais um atraso. Ou não seria um atraso? Ela poderia simplesmente não aparecer, já tinha acontecido antes. Era inevitável que aquela conhecida e perturbadora sensação se apoderasse dela sempre que a namorada não estava ao seu lado. Era assim desde o retorno de Laura Sentia o coração batendo descompassado, calafrios pelo corpo, a angustia, uma sensação de que algo terrível iria acontecer. A sensação era semelhante a de alguém que, em uma rodovia, se visse de frente com um caminhão, sem tempo de desviar. Pânico absoluto.
Tentava controlar este sentimento, mas não tinha mais muita esperança de ganhar. Acreditava que o tempo seria o remédio, mas o tempo só fez intensificar a sensação de que estava frágil, totalmente dependente de uma outra pessoa. Pessoa que poderia simplesmente poderia ir embora. Notou durante estes meses que Laura escondia algo de sua vida na África. Como odiava quando o celular tocava e ela pedia licença e ia atender muito longe, às vezes até fechava a porta da varanda, ou saia do carro. O olhar de interrogação que lhe lançava então era só respondido com um balançar de cabeça, ou um chacoalhar de ombros. Mas Sam sabia que não era algo sem importância. Estas ligações eram a porta aberta que Laura tinha deixado em seu passado. Porta pela qual ela inevitavelmente passaria de volta, algum dia.
Pensando assim, os dias de Sam giraram em torno da espera aterrorizada de que o “algum dia” estivesse impresso naquela saída furtiva, no almoço cancelado, no atraso para o jantar.
Finalmente, a moto surgiu na rua. Sam observou os longos cabelos negros esvoaçando, abaixo do capacete. Fechou os olhos e se encostou na porta, querendo que saísse no suspiro toda a angustia que estava saindo. Foi então para a segunda parte de seu ritual. Correu para o banheiro, lavou os olhos e nuca e pulsos com água gelada, pingou colírio nos olhos e se segurou no mármore, cabeça baixa, tentando se concentrar em sua respiração.
- Onde se escondeu meu Garfield preferido? - Laura chamou, assim que abriu a porta e correu os olhos pelo apartamento.
- Trancada no banheiro ... de onde não vou sair tão cedo! - respondeu depois de tomar ar algumas vezes.
- Sinta-se em casa, loira! - falou próxima à porta - Aliás, mocinha, já descobri que este é o segredo da sua magreza. Come feito um delicado javalizinho, mas não sai do banheiro. - provocou.
- Não tem coisa melhor pra fazer do que ficar me torrando, não? - resmungou, provocando risos em Laura.
- Ter coisa melhor para fazer até que tenho! Mas vou precisar da sua companhia. - completou com malícia.
Não respondeu. Ficou lá trancada por mais uns quinze minutos, escutava os tranqüilizantes barulhos que a morena fazia na cozinha, enquanto cantarolava uma música antiga. Era tão bom saber que ela estava ali. Queria tanto poder acreditar que era para sempre.
Saiu do banheiro e foi para a sala de jantar, ficou observando Laura ajeitar as velas e o arranjo de flores, que já estavam perfeitos. Girou o prato, reorganizou os talheres, nitidamente se questionando sobre a ordem certa e, mais nitidamente ainda, pouco se importando com isto.
- Por onde for, quero ser seu par... Oi, amor, não tinha te visto ai - falou, interrompendo a “cantoria”.
- Não quis interromper. Vai ter festa aqui hoje?
- Luz de velas, vinho, flores! E eu trouxe uma lasanha para nós. - falou orgulhosa de si. - Mandei fazer do jeito que você gosta, opa, quer dizer, eu fui lá na Casa das Massas, mas eu mesma que fiz, do jeito que você gosta e achei melhor assar lá mesmo, pra te fazer surpresa.
- Ah, tá! E eles não te ofereceram emprego, não? Parece que a lasanha que você fez ficou perfeita! - falou aspirando o aroma da massa fumegante sobre a mesa, sem no entanto sentir a fome que fingia ter.
- Até ofereceram - falou, puxando a cadeira para que Sam se sentasse. - Mas eu falei que tenho uma gatinha amarela em casa, muito gulosa e tudo o que eu faço é para ela.
Aos poucos, como sempre acontecia, o carinho de Laura, o prazer de partilhar os momentos com ela, o amor que sentia, substituíam o pânico de antes. Aos poucos ela conseguia engolir o jantar, se entregar ao momento, se perder no mar azul. Após uma tarde de incerteza e pânico, sempre vinha uma noite de volúpia.
Acordou sonolenta, com o sol já invadindo o quarto. Se espreguiçou lânguida como um felino. Fechou os olhos tentando se concentrar nos sons da casa. Mas a casa estava silenciosa. Se levantou de um salto, vestiu um roupão apressada e foi procurar Laura pela casa. Ela não estava. Só o que havia era um bilhetinho preso com um imã, em formato de pingüim, na geladeira. Ela não o leu, embora estivesse colado à sua frente. Ficou lá, parada com o olhar fixo, embora a mente estivesse longe dali, tentando afastar o calafrio, a angustio, o medo.
- Ei Sam, você está tentando se comunicar por telepatia com a geladeira? - Laura havia se aproximado dela, sem que ela desse conta e agora a abraçava por trás. - Não funciona não, olha só, a sua Laurinha vai te ensinar como é o esquema. - Laura esticou a mão e abriu a geladeira. - Está vendo?! Agora sim vai dar certo!
Sam não respondeu, apenas se encostou mais naquele abraço aconchegante, fechou os olhos e o perfume tão conhecido ajudava a se acalmar.
- Trouxe uns pãezinhos diferentes, suco e o jornal. Você não liga a cafeteira? Estou morrendo de fome, só vou tomar um outro banho rápido, porque a rua já está infernalmente quente.
- Claro. Senti seu cheiro de longe. - tentou brincar.
- Aposto que gostou! - Laura voltou na mesma hora.
- Vai tomar banho, Lau! Você está parecendo um estivador do porto.
A morena abriu a boca pra responder, mas não encontrou palavras. Ergueu as sobrancelhas três vezes seguidas e seu rosto não escondia o que pensava.
- Nem pensar! Nunca tive sonhos com estivadores - viu que a outra se aproximava dela lentamente - ... não... fique longe, estou armada de uma frigideira - Laura exibia os braços, em pose de Popaye - .sai para lá sua musculosa!
No entanto, a musculosa tinha ficado animada com a brincadeira de estivador. Sam foi carregada para o quarto feito um saco de batatas, ainda que sob protesto.
- Você não estava com fome, não?
- Estou faminta!
- Hum! Posso saber como é que esta estivadora muito forte pretende matar a fome?
- Pode sim, mas não vou falar não, eu vou te mostrar.... - Sam foi arremessada na cama, no exato momento que o celular de Laura tocou. - Com os diabos estes fdp que ligam na hora errada.
- O vocabulário está perfeito para as docas! - Sam riu, fazendo um sinal de positivo para Laura que atendeu sem olhar no identificador.
- É bom que seja urgente! - atendeu, agressiva, fez silêncio em seguida e mostrou nas feições que tinha dado um furo - Ah, desculpa, era brincadeira! Pensei que fosse... tudo bem, pai, a gente pode ir sim. - Sam rolava de rir da cara vermelha de Laura.
- Onde nós vamos? - perguntou assim que a morena desligou o telefone.
- Por hora nós vamos voltar onde estávamos há cinco minutos atrás. - mas ao encostar o joelho na cama, novamente o toque do celular a tirou do sério - MALDIÇÃO! PORQUE EXISTE ESTA PORRA DE APARELHO! - ia desligá-lo, mas uma olhada rápida no visor a fez desistir.
Sam que estava se divertindo com a situação, notou apreensiva a mudança de humor de sua amante. Laura pareceu tensa, pediu licença e disse que logo voltaria. Para Sam o clima acabou, ela se levantou e foi terminar de fazer o café. Morria de vontade de saber sobre as ligações misteriosas, mas não se atrevia a perguntar e Laura não se oferecia para contar. A última vez que tinha acontecido isto, elas estavam com as meninas e o Gabriel em um luau, dois dias antes, Tinha sido uma conversa demorada, Sam observava discretamente e viu que após desligar o telefone, ela continuou afastada por um longo tempo, ar contrariado e depois, se juntou a eles, mas se manteve calada até que Sam a convidou para irem embora, o que ela aceitou prontamente.
Agora novamente aquela aparência contrariada com a ligação, atendendo em francês, se afastando. Sam sentia que algo de muito errado estava para acontecer. Começou a se sentir mal, novamente, mas não queria que Laura a visse assim. Bateu a porta de serviço, gritando um já volto e foi para seu “refúgio secreto”. Tinha achado um cantinho muito ventilado na casa, que era perfeito para ficar quieta sem que Laura notasse que estava em casa. O usava como um “esconderijo” em suas crises. Mas para sua surpresa, neste dia, além da brisa fresca, entrava pela janela a voz de Laura, que falava ao telefone na janela do estúdio.
- Não posso fazer isto, Pierre! Quantas vezes tenho que te dizer? ..... eu entendo, já te disse como acho que vocês tem que fazer isto, aliás, tenho falado com quase todo mundo sobre isto.... mas é exatamente este o ponto! Ela é a questão!...... Não é que eu não queira. Você sabe o quanto eu me esforcei para nós estarmos nestas condições, mas... ah, eu não posso fazer isto, vocês estão pedindo demais para mim. ...... Mas Pierre, onde estão os outros, eles sabem o que fazer, eu já fiz minha... .... Não, Pierre, se vocês tentarem isto vão estragar tudo..... Eu, Pierre. Eu conheço o lugar, estive lá há um ano atrás..... Não vejo outra alternativa, mas.... ai, droga! Droga!
Sam mal respirava para não fazer barulho. Fechou os olhos e aguçou os ouvidos, Laura falava em francês, rápido, alterada, irritada. Sentiu o sangue abandonar seu corpo quando após um longo silêncio ouviu a conclusão da conversa.
- Eu vou pensar, Pierre.... entendo, eu ENTENDO, ok! Não pressione, mais tá! Eu quero que você pense muito bem no que isto significa para mim, o que é que você está me pedindo. - após algum tempo de silêncio, ouviu-a praguejar novamente, simultâneo com som muito parecido com o arremesso de um celular contra a parede. - Maldição!
Laura aproveitou que Sam tinha saído, pegou uma fruta e desceu também, precisava caminhar, pensar... mas não queria fazer isto sozinha. Sam ainda ficou um longo tempo sentada ali, avaliando o que tinha ouvido, avaliando o que sentia. “Então ela vai pensar... vai pensar e o que decidir sela as nossas vidas.” . Se sentiu como um peso na balança, sabia que de um lado estavam os ideais de Laura, no outro o amor delas. Então era algo mensurável para ela. E não era assim tão distinta a diferença para que ela se decidisse de uma vez. “Para mim seria tão mais fácil decidir. Eu te amo, preciso de você....você me ama, mas do que você precisa? O que você foi buscar na rua agora? Vai voltar...? Nós tivemos uma noite tão perfeita, mais uma vez nos encontramos em uma outra esfera. É por isto que você ainda hesita em me deixar, mesmo se sentindo tão atraída pela sua missão? Quanto tempo vamos agüentar viver assim?”
Uma resposta muito fria, muito dura tomou forma em sua mente. E conforme se delineava, apagava a angústia, tristeza, medo. Apagava todos os seus sentimentos. “Não, eu não posso mais viver assim. Não é justo te dividir desta forma..Uma noite como esta não paga nos atormentar assim ”. Decisão tomada, livre de sentimentos, resolveu viver bem este dia. Saiu de seu esconderijo disposta a não pensar, só viver.
*****
- Nos desencontramos, amor.... Quer correr?
- Até gostaria, mas parece que já temos compromisso pra hoje.
- Temos?
- Ligação do seu pai, lembra?
- Ah! Vou te levar para um lugar especial hoje. - Laura falou pegando a chave da moto e os capacetes.
- A última vez que você falou isto.... - foi a resposta acompanhada de um olhar zombeteiro.
- Não! - Laura falou rindo - Não tem luzes de néon envolvidas neste assunto.
- Ainda bem!
- Se bem que me lembro de você ter gostado.
- Estando com você... - falou se apertando mais na morena, que conduzia a moto com tanta tranqüilidade.
O lugar especial era o bairro onde Laura cresceu. Visitaram a casa dos pais de Jussélia. Foram obrigadas a ficar para almoçar, a comida simples que para Laura era uma das mais perfeitas do mundo. Tinha gosto de infância, de amizade. Contou para eles que havia encontrado a amiga na última viagem, contou do hospital onde trabalhava, da conversa perto da fogueira, do quanto tinha achado a amiga madura e feliz e respondeu todas as perguntas sobre Daniel, o noivo da amiga que os pais dela só conheceriam no casamento, marcado para dezembro. Para eles era sempre bom ter notícias. Conviviam muito mal com a falta de notícia e pior ainda com as más notícias daquela região.
Sam ouvia atentamente. Nunca mais tinham conversado sobre o tempo que Laura passou fora. Novamente faziam o mesmo jogo: ela não perguntava e Laura ficava satisfeita por não ter que falar, pois não queria mentir, nem muito menos colocá-la em confusão. Sam se deu conta que nunca teve coragem de falar o quanto as coisas não ditas a perturbavam. Tinha um medo tão grande de perder Laura novamente que se sentia mumificando. Podia perceber isto agora.
- Eu sou tão dependente de você! - falou mais como uma constatação, quando saíram dali.
- E eu te amo, muito!
- Também te amo... - falou reticente, seu pensamento concluindo o raciocínio. “Mas não é certo precisar tanto de você.”
Laura deixou a loira no estúdio onde ela iria trabalhar aquela tarde e foi resolver uma pendência que a estava atormentando. Independente da decisão que tomasse, precisava resolver isto. Era algo que vinha planejando desde que voltara. Só não tinha feito antes porque nos primeiros meses sentiu que Sam não ficava bem sozinha, procurava sair o mínimo possível de perto dela. Ainda mais que as coisas no Brasil raramente ficavam prontas na hora combinada, o trânsito era caótico, sua família falava demais, ou seja, sempre que saia sozinha acabava demorando mais do que imaginava de início. Algumas horas depois, nova correria para ir para casa, mais uma vez não conseguiu cumprir a hora combinada, só se tranqüilizava por não notar mais nenhum efeito negativo em Sam por isto.
Notou que sua amada estava serena, como a muito tempo não a via. Levou-a para casa se regozijando com o leve fardo em suas costas, Sam a tinha abraçado forte e se inclinado em suas costas. O contato tão carinhoso encheu Laura de desejo, ela acelerou para estar em casa o mais rápido possível.
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A pressa de Laura contrastava com a antagônica calma de Sam, o encontro dos olhares refletia em cada uma a necessidade de eternizar aquele momento. Uma, enxergava naquela luz verde a esperança de um futuro feliz. A outra, via no azul a necessidade de liberdade que não sentia-se no direito de tolher. A pouca luminosidade incentivava o exercício dos sentidos....
As mãos reconheciam o trajeto sem precisar do auxilio visual, pois inúmeras vezes percorreram tal caminho a ponto de enxergarem nos olhos, uma da outra, o percurso a ser traçado, as roupas descartadas, uma a uma, enquanto a distância até a cama era vencida até se tornar concreta sob os corpos nus e ansiosos pelo contato que tornava-se íntimo, cúmplice, urgente. Ao sentir o calor de Laura sobre sua pele, Sam suspirou e puxou-a para que se encaixasse no local onde precisava senti-la sua...uma última vez. Laura gemeu baixinho no ouvido da mulher que abria-se para recebê-la. Mais uma vez buscou seu olhar...aproximou seus lábios ....roçaram-se..
-“Assim...gosta assim, amor..” Foi uma pergunta que saiu dos lábios de Laura, num sussurro, enquanto se movia devagar sobre Sam, cuja resposta foi um beijo sôfrego, intenso e carregado da saudade que já sentia e que a fez, num impulso desesperado empurrar Laura de lado e trocar de posição com ela...olhou em seus olhos que refletiam o céu que jamais esqueceria..
-“Gosto, mas agora...quero assim...”
Com as duas mãos segurou seus cabelos e moveu-se sobre ela querendo gravar em seu corpo, em sua pele, em seu sexo toda a essência daquela mulher. Percorreu com o lábios a pele do pescoço, mordendo, chupando...ouviu-a gemer quando arranhou com os dentes a pele quente, mas não parou. Continuou sua insana exploração, descendo pelo corpo da mulher que amava e sabia que jamais pertenceria a ela, alcançou os seios, sentiu-os excitados em sua língua, sugou-os arrancando gemidos de Laura que se confundiam entre prazer e dor...A necessidade de uma, se contrastava na submissão da outra....Laura deixava que Sam manifestasse seu desejo como lhe conviesse...e esta se servia pensando apenas naquele momento, que para ela, seria único...e, com objetivo de preencher sua memória futura, foi em busca de todos os sabores que sabia...jamais esqueceria.
Ao sentir a língua quente, exploradora e voraz entre suas pernas, Laura agarrou-se no lençol...sabendo que nada deteria sua esfomeada amante...seu corpo respondeu num orgasmo retumbante entregando a mulher que amava o que ela mais ansiava receber. Extasiada, Sam recebeu e apropriou-se de forma sedenta e ansiosa de todo o prazer que Laura lhe entregou...queria mais e sem demora retornou pelo caminho percorrido, porém, desta vez com delicadeza..parou nos lábios de Laura e no beijo demonstrou toda satisfação de tê-la completamente entregue a sua vontade...afastou-se e baixinho...
-“Agora..vira amor..” Sussurrando, ao mesmo tempo que mostrava a ela o que queria...mordia sua nuca delicadamente.. Laura virou-se atendendo ao pedido de Sam, que não escondia a necessidade do alívio urgente, demonstrando de forma ansiada em cada movimento do seu corpo que pressionava, esfregava, latejava contra as nádegas que se ofereciam passivamente, num movimento sensual, a vontade de seus desejos....gozou abafando o grito em uma mordida na nuca de Laura que se deliciou sentindo o corpo da outra relaxar sobre o seu...
Por alguns segundos, Sam sentiu-se flutuar...apagou, momentaneamente, para acordar no movimento de Laura que, lentamente virava-se para segurá-la em seus braços....beijaram-se. Para uma a confirmação do amor que sentia, para a outra, também...
Laura adormeceu, sem perceber a lágrima solitária que escorria pela face de Sam. *
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Naquela manhã, quando Laura acordou, Sam já não estava na cama. Normalmente ela quem acordava primeiro, amava observar aquela mulher tão linda completamente entregue ao sono. Já tinha passado horas acordada em nome deste prazer. Também amava a reação dela quando recebia seu café na cama, fingindo que não esperava. E o prazer sempre tão intenso com as pequenas atenções. Mas esta não era uma manhã como as outras. Era Sam quem estava trazendo o café na cama. E o seu olhar sempre tão eloqüente estava fugidio, evitava se confrontar com os seus, que assumiam uma expressão interrogativa cada vez maior. Laura quase não tomou o café, não quis comer nada.
- Não Laura - Sam falou se afastando até com certa agressividade - Se veste que eu vou te esperar na sala.
- O que está acontecendo, Sam? - já estava absolutamente apreensiva.
- Te espero, tá.
Laura se vestiu em segundos. Nem foi ao banheiro, não se preocupou em pentear os cabelos. Aquilo não estava parecendo uma brincadeira, como tantas que faziam.
- Oi amor, o que foi que aconteceu.
- Senta aqui, Laura. - Sam não conseguia olhar para ela sem sentir um nó na garganta, ou falava de uma vez, ou não falaria mais. - Eu... eu preciso que você vá embora.
- O quê? - Esta opção não tinha passado pela cabeça de Laura, ela não conseguia se decidir se aquilo era mesmo sério, ou se ao menos não era um pesadelo, dos muito ruins, piscou várias vezes antes de perguntar. - Por que isto agora? Nós estamos tão bem! Isto é uma brincadeira, não é? Não tem graça, Sam.
- Não, Lau. Não é brincadeira... e não, nós não estamos tão bem.
- Ontem mesmo você disse que me ama... que precisa de mim! O que foi isto? Me explica, porque eu não estou entendendo nada.
- Eu te amo. Nunca amei nem vou amar alguém assim. E preciso sim. Mas, Lau... não posso precisar de você para me sentir bem, para ter ânimo de fazer qualquer coisa. Queria simplesmente te amar e isto ser uma coisa boa. Mas me oprime. Te prende. Não gosto disto.
- O amor não é um fardo, Sam. Eu não me sinto presa! - notou no rosto rijo, que queria parecer forte a sombra da ironia passando, percebeu então que as coisas não estavam acontecendo como ela imaginava durante estes meses e mais, Sam percebera que ela estava dividida, na beira do precipício, jogou uma corda de salvação. - Te amo tanto!
- Eu também te amo. Mas não dá para viver assim. Você não conseguiria imaginar o inferno que tenho vivido estes meses - respirou fundo, fechou os olhos por alguns segundos e falou - Todas as vezes que você sai de perto de mim, não sei se vou te ver novamente e como eu disse preciso mais de você do que deveria.
- Sam, o tempo cura tudo. Nós podemos deixar que ele feche estas feridas que estão abertas... as que eu abri.
- Não, Laura. Não é o tempo que cura. Ele simplesmente passa por nós. Ele tem passado por nós e nos deixado da mesma forma que estávamos quando você voltou.
- Então se nem nisto você acredita, eu não sei mais o que te dizer. Então nada vai mudar.
- Só o que pode mudar... são as ações. Se a gente continuar fingindo que nada aconteceu e que nós não estamos mudadas, nada vai mudar e assim não está bom para mim. Eu não consigo mais viver assim.
- E... - o nó na garganta era tão grande que dificultava a fala - É esta a atitude que você quer tomar?
- Eu quero que você vá viver a sua vida, realizar suas façanhas, Fazer as coisas que só você sabe. - falou baixinho, nem ela mesma queria ouvir. - Mas você pode ficar aqui hoje.
- Não. Eu vou embora. Se você disse que preciso ir, que não suporta mais viver assim, eu vou agora. - “Porque se ficar mais um minuto, não vou conseguir ir...” – Seja feliz.
- Então é este o final... - “Por favor não vá, lute por mim” - Eu só queria que você soubesse, que... bem, seja feliz. – juntando todas as suas forças, deu o passo para abrir a porta, o passo que traria sua antiga vida de volta, sozinha amarga, porém sem tanto terror .
Laura saiu, no entanto não sentiu sua alma a acompanhar. E esta perda foi tão grande, que a força lhe sumiu. Sentou-se no corredor, se encostou na parede, baixou a cabeça entre as pernas e começou a chorar.
A porta se fechou, condenando-a à uma vida de escuros e vazios. Foi tanto dela que saiu por aquela porta, que o ar lhe faltava e ela não teve consciência de quantos eternos segundos se passaram até que pudesse dar um passo e se apoiar na parede, por onde escorregou.
Ficaram assim, costas a costas, uma única parede no meio. Uma parede feita de medo de encarar uma vida muito nova que a figura morena sentia, feita da falta de coragem que a loira sentiu por não se atrever a segurar seu amor ali. Uma parede de tijolos, cimento, medo, insegurança, separando duas pessoas que choravam a mesma dor.
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Galerinha do Bem!
Gostaríamos de agradecer uma escritora linda, fabulosa, perfumada, delicada, gentil, maravilhosa, encantadora de borboletas e de quem, não sei se alguém notou, nós somos muito fãs.
Ela escreveu um pedaço deste capítulo, a nosso pedido (cara de pau!) e extrema gentileza dela.
* Wind Rose, muuuito obrigada pelo carinho, atenção e só para constar, sua participação vale o ingresso do conto todo.
Queridas crianças
O próximo capítulo provavelmente será o último, então ele está dando um trabalho danado pra ser escrito. Esperamos que vocês sejam um pouco pacientes.
Além do mais, as personagens estão muito confusas, fim de namoro, confusão, melancolia, sabem como é, né. Quem nunca amarrou um bode que atire a primeira pedra.
Sam, coitada, tá tão perdida que precisou de ajuda profissional. Por sorte tem uma psiquiatra muito competente, especialista em divagações Raphais, mas que abriu uma ex cessão pra nossa loirinha.
A consulta pode ser lida no blog "No Divã com a Rapha", nossa pirata mais querida atende pacientes especiais em casos de emergência.
VALEU RAPHA!
http://nodivacomarapha.blogspot.com/2008/03/analizando-sam.html
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
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