- Sam... - Laura murmurou bem baixinho ao ouvido da mulher que estava perto de seus lábios - Sam... não olhe agora, mas seu pai está sentado ai do lado.
- Hum... - foi a resposta sonolenta - Xiii! - completou em seguida, também baixinho, já totalmente desperta. - Tem alguma chance dele não ter me visto aqui?
- Não...tenho certeza que não! - sentiu a loira afundar a cabeça de volta, mas um providencial cutucão, fez com que ela olhasse para o lado do pai.
- Bom dia, painho - falou com um sorriso falso.
- O que significa isto, filha! - ele estava certamente zangado, mas falou devagar, fuzilando Laura com os olhos.
- Err... painho.... sabe, já é muito constrangedor você estar vendo, explicar eu não vou não.
- O que é que esta....
- Calma, painho! O senhor não poderia esperar lá na portaria, a gente desce em dez minutos.
- Não! A não ser que vocês .... é claro que estão - falou balançando a cabeça, inconformado - espero dez minutos, mas no décimo primeiro, se não estiver lá, eu subo.
- Tudo bem, mas bate na porta que a Laura é meio exibicionista. - Laura, que tinha acompanhado a cena olhando por uma frestinha de olho, deu uma beliscadinha em Sam, pelo comentário.
- Sua medrosa! Olha só, coração disparado de medo do sogrinho! Quem diria Laura Sanches! - falou sem se mexer do lugar que para ela parecia o paraíso, assim que seu pai saiu.
- Err... sabe, ele estava de cara feia e tal, mas acho que sua mão tem mais a ver com meu coração disparado.
- Que mão, esta aqui? - e mexeu no cabelo de Laura com a mão esquerda.
- Nãão! A outra.... ahhh, esta ai mesmo! Hum!
- Olha! Nem tinha reparado que ela estava aqui! - falou com fingida inocência - Pena que ela vai ter que sair - ouviu a morena reclamar - além do que, você está de castigo!
Levantaram e trocaram de roupa rapidamente. O estômago de Laura roncava, mas ela estava mais preocupada é com a encrenca que a esperava lá embaixo. Não queria prejudicar o relacionamento de Sam com o pai. Assim que chegaram à recepção, Sam pegou o pai pela mão e o conduziu para fora do prédio.
- Vamos conversar em uma padaria, que não agüento mais ouvir o estômago desta morta de fome roncar.
Laura, intimamente, fez reverências à compreensão de Sam. Chegaram à padaria e, mal se sentaram, Laura já chamou uma atendente.
- Por favor, um suco de laranja, café com leite, leite com chocolate, ah, uma porção de pão de queijo e pode fazer um misto quente e uns destes pãezinhos doces de batata e.... - olhou para seus acompanhantes - vocês vão pedir já?
- Oxi, achei que você estava pedindo pra todo mundo!
- Não esquece que ela está voltando da África, painho.
- Ah, estou morrendo de dó - falou com ironia.
Laura pensou em responder, mas tanto por saber que eles tinham razão por estar zangados quanto porque já tinha o que beber e comer à sua frente, resolveu ficar calada.
- Painho, o que você foi fazer lá tão cedo? - perguntou olhando entre encantada e espantada para Laura comendo com tanta voracidade.
- Você não apareceu e eu fiquei preocupado, mas francamente, filha! - ele continuava balançando a cabeça em sinal de desaprovação - Quando esta... moça voltou? - deu uma olhada pra Laura e emendou - Deste jeito vai engasgar!
- Ontem, eu voltei ontem - respondeu Laura, após tomar um gole de café.
- E já foi se aproveitar da minha filha?! Depois de tudo o que ela passou? Você por acaso sabe.....
- Painho! Parece que não sabe fazer negócios! Dá licença um minuto ai, Laura, vai devorando o seu banquete - agarrou a mão de seu pai - vem comigo.
Sam levou o seu pai até a calçada, onde não podia ser vista pela morena. Não que esta estivesse disposta a largar seus pãezinhos doces tão facilmente.
- Painho a gente ainda não conversou direito, sei lá, aconteceram coisas, eu tenho que tirar tudo à limpo primeiro e...
- Mas você já foi se deitar com ela filha! - passou a mão pela cabeça. - Assim você não se dá o respeito!
- É... não era a intenção - falou rubra.
- Se não era intenção, ela não tinha nem que ter ido pra sua casa! Iria ser bem mais fácil resistir a tentação.
- Não! Pra casa ela tinha que ir sim! Painho, eu estava morrendo de saudade desta bandida. - falou baixinho - Eu.... fiquei tão... ah, nem sei dizer o que eu senti, mas ela tinha que ficar por perto.
- Tudo bem, filha. Só que perto não é dentro!
Sam olhou boquiaberta para o pai que, quando percebeu o que disse, ficou profundamente constrangido e vermelho.
- Desculpa, Samantha... err... escapou.
- Imperdoável! O senhor está fazendo mal uso de informação obtida de forma irregular, painho!
- Mas também! O que é que vocês estavam fazendo na sala, só com aquele lençol de proteção?
- Falei que foi um arroubo! Se fosse planejado teria ficado no meu quarto.
- Filha, não quero discutir este tipo de coisa com você.
- Ainda bem, painho, ainda bem... Eu vou voltar lá, pra dentro. E...
- Parece que é a hora que eu vou embora. Mas quero falar com ela assim que você tenha esta tal conversa.
- Tudo bem, painho. Vou pedir para a Virna, minha amiga, ligar para resolver sobre uma festinha na sua casa hoje a noite, pode ser?
- Festinha? Você não acha que está pedindo demais para mim não, filha? Ela te machucou! E você quer dar uma festa porque ela fez o quê? O favor de voltar seis meses depois?
- Não. Eu quero é evitar falação! Juntamos todos de uma vez, todo mundo vê e fala de uma vez e pronto. Sem contar que eu quero averiguar uma coisa...
- Está certo, confio no seu bom senso. Mas Samantha... - pegou a mão dela que já caminhava para dentro da padaria - Não se machuque mais, filha.
- Vou tomar cuidado, painho. - respondeu descrente de conseguir.
Antes de voltar, ligou para Virna, pedindo para que organizasse uma festa na casa de seu pai para aquela noite. A amiga, antes de confirmar, perguntou três vezes se era mesmo para chamar o Arthur. Quando entrou novamente na padaria, Laura não estava mais lá. Olhou por todo o ambiente, sentindo um frio terrível tomar conta de seu corpo, congelar seus pensamentos. Voltou seu olhar para a mesa e ficou sem reação por alguns angustiantes segundos. Então, sentiu uma mão tocar-lhe o braço.
- Sam, tudo bem? Você discutiu com seu pai?
- Laura! - pulou no pescoço dela - Onde você estava!
- Calma, baixinha! Olha - mostrou sua camisa - derramei suco e fui limpar. - olhava preocupada pelo nervosismo que via na face da loirinha.
- Não faz mais isto, Lau! Não some de novo...
- Shhh, amor, estou aqui - Laura a embalava, sentindo seu tremor.
Repentinamente, Sam vestiu sua máscara de frieza e disse que estaria esperando do lado de fora. Laura pegou sua bolsa e a seguiu rápido.
- Olha, Sam...
- Não quero conversar agora. Você já foi falar com os seus pais? Avisou que está na cidade?
- Não... - falou após considerar por um tempo - queria dedicar mais tempo à você, primeiro.
- Primeiro... pois é, vamos às coisas segundas, então. - se encaminhou para o prédio. - Sua família também está preocupada com você.
- Mas Sam, as coisas segundas também são sobre você.- entrou na frente dela, pegando seu rosto e a fazendo encará-la. - e as terceiras, quartas...
- Não faz isto, Laura! - retirou as mãos dela e desviou para continuar seu caminho.
- Tudo bem.... mas nós vamos ter que subir antes para trocar de blusa.
- Hum.... - Sam considerou, mas conhecia bem esta armadilha - Tem roupas suas nos seus pais, você se troca lá.
Laura se calou e a seguiu até o carro, no estacionamento do prédio. Entraram no carro e, aproveitando o insulfime, tirou a camisa molhada. Viu Sam a olhando disfarçadamente, comentou.
- Assim seca mais rápido. - Sam, a olhou com aqueles olhos eloqüentes, porém não comentou nada. Laura a achou magnífica, e se deu conta, mais uma vez que estava completamente apaixonada. - Sabe que eu te amo, não sabe?
Sam ficou calada e assim que chegaram em um farol fechado, deixou a cabeça repousar na mão esquerda, que estava apoiada na porta do carro. Ficou assim, olhando para Laura, sem saber como responder. O que sabia era que ela a amava. A buzina do carro de trás a trouxe de volta para o que tinha de concreto, o trânsito à sua frente, suspirou e seguiu o caminho até a casa da família Sanches.
- Você tem vindo aqui, Sam? - perguntou vestindo a camisa, quando chegaram.
- Não...
- Mas eles te convidaram, não é?
- O Lê me chamou para sair algumas vezes, os pestinhas também. Seu pai sempre perguntava de mim para o meu pai, a Lídia foi comigo para a Espanha. E sua mãe não gostava da minha. - lembrar da viagem e da conversa que ouviu, a fez ficar com enjôo. - E eu preciso controlar isto, droga. - resmungou saindo do carro.
- O quê? Como é que é? Foi muita informação de uma vez só, você precisa controlar o quê?
- Nada, Laura. Vamos lá. - apesar de estar puxando Laura para dentro da casa dos seus pais, não se sentia assim tão firme. Se lembrava muito bem que todos eles tiveram certeza de que Laura a largou, se lembrava muito bem que a sua “sogra” a via como competidora.
Entraram de mãos dadas pelos fundos. E foram atingidas por baldes de água. Logo apareceram os pestinhas, autores da arte, que vieram conferir quem foi a vítima.
- Duas numa armadilha só! Suceeesso!
- Tiiia - gritou um pulando no pescoço da tia.
- Gatiiinha - gritou o outro, se jogando sobre Sam, quase a derrubando.
- Olha o respeito, pirralho!
- Ah, desculpa ai, tia! - falou sem graça, largando de Sam para abraçar a tia - mas que é gatinha, é!
- Também acho. Mas eu vi primeiro.
- Tia, porque você sumiu?
- Porque foi preciso, mas eu voltei.
- Xi, deu um rolo! Ficou todo mundo bravo com você, igual ficaram com a gente no dia que a gente colou uns pregos lá em frente do Zé Borracheiro,
- É, mas a gente só queria ajudar ele a ganhar mais dinheiro. Agora você, tia! Que papelão.... - completou no ouvido da tia - Eu até vi a Sam chorar!
Laura ficou subitamente triste, lamentava cada vez mais a forma que as coisas aconteceram. Não estava certa de ter conhecimento do tanto que magoou sua loirinha ainda. Observou Sam sendo levada, encharcada, para dentro da casa por um dos gêmeos, então perguntou ao seu inquisidor.
- E vocês não cuidaram dela pra mim?
- A gente bem que tentou, né tia. Mas ela estava muito triste, nem trabalha mais, não quis ir ao cinema e até batatinha ela andou recusando. Ai voinha mandou a gente dar sossego pra ela, porque você não namorava mais ela.
- Ela falou isto, foi? - Laura perguntou espantada, mas depois, se lembrando de seu padrão, compreendeu que seus pais teriam mesmo esta impressão. - deixa quieto, vamos lá que eu tenho que trocar de roupa - fez careta para o menino e tentou correr, atrás dele - te pego, pirralho.
- Socooorro! Tem uma pirata da perna de pau atrás .... ai, vô! Segura o veio! ..... Nossa, tia! Boa pegada!
- Ai, estes moleques ainda vão acabar comigo. Filha! Que surpresa, das boas.
- Que desculpa esta sua, Geo, fingir que vai cair pra tomar a frente! Larga, larga.... vem cá, me dar um abraço. - Letícia abraçou a filha e aproveitou para dar umas palmadas - nunca mais faz isto com a gente, onde já se viu! Sumir deste jeito.
- Ai... - Laura se esquivou das mãos da mãe - Mas eu liguei e avisei. Aliás, eu pedi para o senhor dar um recado, Sr Geo! Fala pra Sam que eu pedi.
- Parece que não tem juízo, Laura! Vai pedir pro seu pai dar recado! Ele nem entendeu o que você falou!
- Ah é! Afinal você estava com algum suadão ou era no Sudão? - perguntou com curiosidade, típica das pessoas distraídas.
Laura se limitou a balançar a cabeça e olhar penalizada para Sam, que voltava com uma enorme camiseta, provavelmente de Lídia. Recados não dados, poderia ser tão menor o rombo nos sentimentos. Mais uma vez lamentou por aquela estúpida saída abrupta do apartamento, por ter esquecido o celular e por não ter decorado o número de Sam.
- Mas então, filha, que susto você deu pra gente! Foi um dos seus maiores sumiços, nós achamos que....
- Que você esqueceu que o almoço é por sua conta hoje, Geo. - interrompeu dona Letícia, sabendo que o marido iria deixar escapar mais uma das suas.
- Ah é! Esqueci mesmo, deixa eu voltar, o Leandro já deve estar chegando com as verduras... ah, não falei, olha ele ai, pelo menos um dos meus filhos sai e volta a tempo.
- Laura! - Leandro correu para abraçar a irmã, deixando cair as sacolas no chão. - Ai que vontade puxar suas orelhas! Ah, Samantha! Minha cunhadinha preferida, vem cá dar um abraço!
Geo pegou as verduras e foi para a cozinha, rebocando os pestinhas junto, sob protesto dos pequenos que queriam “ver o circo pegar fogo”. Na verdade, o clima ficou meio constrangedor entre as pessoas do lado de fora. Leandro se jogou em uma das cadeiras e puxou Sam para seu colo.
- Te vi numa motona poderosa dia destes! - falou puxando papo.
Laura foi, sutilmente, puxada de lado pela mãe que a arrastou para a cozinha. Ficou parada na porta, olhando, sem gostar muito, Sam no colo de Leandro, que falava gesticulando. Notou que Sam ficou agitada quando ela começou a se afastar, embora não deixasse de falar com seu irmão.
- Agora me explica, mocinha! O que é que foi este seu sumiço?
- Foi um assunto urgente na África, não deu pra deixar de ir.
- E desde quando fotógrafos tem assuntos urgentes? - perguntou seu pai
- Ora! Fotógrafo é quem mais tem assuntos urgentes! Afinal as coisas não ficam lá paradinhas esperando a minha boa vontade!
- E seja lá o que for que você fotografou justifica deixar a gente nesta angústia, filha? E esta menina ai, tendo crises de nervo... Arre que menina mimada!
- Mainha! O que é que você tem? Vocês eram tão amigas! Ela estava tão feliz por você a tratar bem, o que aconteceu?
- Rolo seu! Você sumiu sem avisar, todo mundo achou que queria terminar com a menina, ai ela foi intrometida e ouviu o que não devia e depois ficou descontrolada, querendo ir pra Espanha de qualquer jeito e não quis conversa com ninguém este tempo todo...
- Ela só conversava com os meninos, mas nem com eles queria sair. O pai dela falou que ela ficou....
- Eu sei como ela ficou, eu não estava muito melhor.
- Mas afinal, Laura, se não queria terminar com ela, por que é que não ligou, avisou, que raio de urgência foi esta?
- Não deu tempo de fazer nada, as coisas por lá estavam péssimas, tentei avisar... droga! - olhou para fora e se irritou por Sam ainda estar no colo de seu irmão - Larga ela, seu espantalho!
Lembrou da conversa com Sam, quando ela disse que seu pai era ruim para dar recados, porém bom para compreender. Questionou-os do que exatamente tinham compreendido, o que Sam ouviu. À medida que ouvia, sentia seu coração congelar. A viagem para a Espanha, saber que Lupe teve um tempo sozinha com ela no apartamento, forçou a memória e conseguiu se lembrar do cenário que Sam vira. Roupas, malas, as fotos, o celular, tudo dando indícios de que ela simplesmente fizera outra opção. “Tudo já seria bastante ruim, só pelo tempo que demorei para voltar. Não precisava ter piorado tanto com estas circunstâncias! Tadinha da minha loirinha “
Como para compensar, Laura não saiu do lado de sua baixinha o tempo todo. Assistiu a conversa entre ela e sua mãe, onde dona Letícia acabou reconhecendo que se sentiu muito triste por ter deixado a impressão que transferia para ela a mágoa que trazia da mãe. No final, ficaram com retalhos que ainda teriam que costurar, mas já era alguma coisa.
Depois do almoço, as duas conseguiram escapar dos pestinhas que queriam o kit cinema, ou seja, filme, lanche, praia. Tinham uma lista tão grande de coisas para conversar que era até difícil de achar o começo. Foram para a praia, onde Sam estivera, tão deprimida no dia anterior. Ficaram um tempo indefinido quietas, olhando o vaivém do mar.
- Fui para a Espanha. - Começou Sam, de repente, olhou para Laura, inclinando a cabeça. - Você sempre deixa sua casa com a aparência de que só saiu para comprar uma caixa de fósforos?
- Só quando eu saio fugindo.
- Fugindo?
- A alternativa era socar a Lupe.
- Ah... - Sam considerou que Laura não fez a escolha certa, talvez isto tenha ficado evidente, porque Laura respondeu ao que ela não disse.
- Errei mesmo, deveria ter chutado aquela cretina da minha casa, pego as fotos que ia te dar de presente, meu celular... com a minha agenda. - fez careta neste último item.
- Por que você ligou para o Arthur? Preciso falar com ele.
- Ele é outro que estou com vontade de socar! -falou com raiva. - Foi culpa sua que liguei pra ele! - ante o olhar interrogativo, continuou - Lembra aquela vez que você me deu um número para ligar e me fez decorar?
- Era o celular dele... - Sam concluiu. - Mas a gente se falava tanto pelo telefone!
- Nem tanto, por mim poderia ser muito mais... mas enfim, você é o número 1 da minha discagem rápida. Eu só sabia o número do meu pai e o do Arthur.
- Não acredito que ele não me deu o recado! Ele ficou comigo no aeroporto o dia inteiro!
- Você me esperou por muito tempo?
- Seis meses, 4 dias e 8 horas. - falou baixando os olhos.
- Prometo não atrasar mais que dez minutos, tá.
Sam não respondeu, apenas a fuzilou com os olhos. “Não faça promessas se não pode cumpri-las.”
- Tentaram te dar outro recado, depois... foi quando ele disse que vocês estavam noivos.
- Ainda não acredito! E esta história de noivos! Ele nem ficou muito comigo, se você quer saber!
- Claro que quero saber! Conta tudo. - Laura se ajeitou no sofá, subitamente interessadíssima, tanto que fez Sam sorrir.
- Você às vezes parece uma velha, fofoqueira!
- Fofocas sobre você me interessam. “Migalhas dormidas do seu pão”, me interessam. E me conta, ele te assediou muito? Sabe que isto vai ser relevante quando eu estiver com o meu punho no nariz dele!
Laura contou para Sam exatamente como foi sua ligação para Arthur, depois, a ligação feita por Pierre. Contou do seu pânico em encontrá-la noiva, mas a resolução de que sempre valeria a pena vê-la de novo. Ficou sabendo da longa espera no aeroporto, da viagem para a Espanha, as argumentações de Lupe e a interpretação para as coisas deixadas para trás. E também que Arthur parecia ter desistido de tentar animá-la, mas sempre estava pronto para sair com Cássio.
- Não entendo! Se ele não estava interessado em você porque fez isto com a gente?
- Lau, tem duas coisas, uma é que ele pode te culpar por eu não gostar dele - viu um sorriso vitorioso tomar conta do rosto da morena - ... E a outra coisa é que mesmo que ele tivesse me dado o recado, bem, seis meses é muito tempo! - viu o sorriso desaparecer, tão rápido quando nasceu. - Por que você demorou tanto, afinal? O que é que você foi fazer de verdade, lá?
Laura ficou um tempo considerando, cabeça baixa. O que tanto poderia falar? Certas coisas, quanto menos se sabe, melhor é. Não poderia não falar nada. Mas tinha assumido um compromisso de se calar. Suspirou antes de falar pausadamente.
- Um amigo... foi ele quem me mostrou o caminho das pedras. Ele tinha sido capturado por um grupo de uma aldeia que eu ajudei no passado, sei lá, minhas fotos ajudaram de alguma forma. Eles queriam negociar comigo.
- Durante seis meses, Laura? Nenhum telefone por perto? Seis meses é muito tempo! E como foi que você se machucou assim?
Laura se limitou a inclinar a cabeça para o lado e contorcer a boca. Como explicar que foi capturada e que fugiu entre tiros se arrastando naquele solo árido? Queria mesmo é deixar tudo para trás, enterrado no passado.
Sam não ficou satisfeita com as respostas de Laura. Porém, sentia um medo tão aterrador, que não ousava questionar, embora isto a machucasse. Ela que sempre fora competitiva e dominadora, se via agora como uma presa derrotada. Tinha certeza que Laura iria embora logo, pelo mesmo motivo que a tinha feito se calar, a achar algumas palavras perdidas entre a verdade. Algo era mais importante para ela do que o sentimento que as unia, era evidente. E este algo, fatalmente a deixaria solitária novamente, talvez sem volta.
*************
Laura foi pega de surpresa pela festa daquela noite. Queria só namorar, descansar, cansar novamente... . Mas ela não foi chamada para discutir o assunto, apenas fora informada de que iria. Quando chegou, Dr Rafael a levou diretamente ao escritório para conversarem, enquanto Sam se juntou às amigas, que estavam em volta da piscina, olhando muito reticentes para ela.
- Preciso que você me explique um ponto, Laura. - ele começou, assim que se sentaram, cada um em uma poltrona, estrategicamente separados por uma mesinha.
- Pois não, fique à vontade para perguntar. - “sinto que não vou ficar à vontade para responder”, pensou.
- Você insistiu tanto para que eu estreitasse os laços com a minha filha, você sabia que ela iria precisar? - ele falou após analisá-la atentamente por uns segundos.
- Ela sempre precisou. Ela é mulher adulta, competente e forte, mas dentro dela sempre existiu a garotinha encolhida, precisando do carinho que, afinal, é um direito dela.
- Interessante você falar isto. Nesta mesma poltrona que você está, eu a encontrei diversas vezes encolhida durante estes meses. A minha garotinha vinha para esta sala quando estava triste. Ficava aqui em silêncio, sozinha, tão distraída que nem notava minha presença por um longo tempo. Era só silêncio e solidão.
- Mas o senhor estava ao lado.
- Creio que só você sabe o caminho de tirá-la da solidão. E de jogá-la lá novamente. Eu pude fazer muito pouco e muito me assusta você estar de volta.
- Eu a amo, como nunca imaginei ser possível amar alguém. Se eu pudesse, jamais seria responsável por uma lágrima sequer dela.
- Então tome cuidado, porque você tem este poder. Um imenso poder, que requer uma imensa responsabilidade. Agora vá, ela deve estar ansiosa.
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Era uma noite fria de junho, quando Laura chegou do lado de fora da casa viu que Gabriel estava improvisando uma fogueira no jardim, ele tinha a mão enrolada numa faixa. Fernanda, agora morena estava contando alguma piada, porque sua namorada Gisele e umas outras meninas que Laura não conhecia, riam muito. Mas não era elas que os olhos azuis estavam procurando, portanto, seguiram rastreando o ambiente. Encontrou quem queria, mas não como queria.
- Pronto! Agora virou moda colocar ela no colo! - Deixou escapar em voz alta.
- Laura, sua cor está linda! - Gabriel, falou, entrando na frente dela e a abraçando. - Aiii! Que lixa humana! Quer que busque uns baldes de hidratantes para você, linda!
- Acho que vou precisar mesmo - Não pode evitar de rir. - E você, mocinho, o que fez nesta mão?
- Soquei o Arthur! - falou com orgulho.
- Sério?! Cara! Estou louca de vontade de fazer isto! Conta os detalhes pra mim. - Quem visse de longe, certamente pensaria que estavam falando sobre um ótimo presente de Natal. - Por que você fez isto... não, primeiro conta se você ouviu algum barulho legal, sabe, tipo osso quebrando, sangue jorrando.
- Foi ótimo! Encarnei Rocky Balboa, fui fechando o pulso, deixando a raiva condensar e explodir em movimento, pegou bem no olho, ele foi virando o rosto, o suor voando, a língua para fora - ele estava reproduzindo a cena em câmera lenta - e puft! Desabou na areia.
- Ah! Meu herói! - Ergueu a mão dele, como em uma luta de boxe.
- Ai! Esqueci de contar que luxei a mão! - olhou desconfiado para os lados. - Fiquei sabendo que ele vai vir aqui hoje. Alguém - e apontou para ela com o queixo - vai ter que dar conta do recado.
- Estou me sentindo um pit Bull e ele é a presa - ela falou mostrando os dentes.
- Uh! Vai cachorra! - ele soltou um gritinho entusiasmado, que logo se transformou em medo, com o olhar que recebeu. - Calma, amiga, amiga...
Enfim conseguiu chegar perto da loirinha, que permanecia sentada no colo de Virna, ouvindo muito atenta sobre a confissão de Arthur, elas contaram que a noite culminou com o lance que Gabriel tinha encenado. Laura puxou Sam para o seu colo, ciumentamente e tomou seus lábios com gula, posse. Não a deixou longe o restante da noite.
Quando Cássio e Arthur chegaram, as conversas morreram e, pouco discretamente, as meninas e Gabriel se aproximaram de Sam e Laura, com intenção de protegê-las.
- Como é que você tem coragem de entrar na minha casa de novo? - Cássio disparou, ainda longe, para Laura.
- A casa é do painho, foi ele quem organizou a festa de boas-vindas para ela, Cássio. Baixa a bola ai. E você Arthur, senta aqui que nós precisamos ter uma conversa bem séria.
- É muita falta de vergonha da sua cara, Samantha. Já não chega ser uma pervertida? Ainda tem que ser fraca? Aposto que acreditou em tudo o que - falou com asco em seguida - esta ai, inventou pra se safar, inventando histórias para incriminar o único homem decente que te atura.
- Ei rapaz! Olha como fala com elas! - Gabriel interveio.
- Sai fora, bichinha! Vai ver se acha algum porteiro por ai pra ....
- Nem ouse, Cássio! - Dr Rafael falou, duramente atrás dele. - Não admito que destrate um convidado meu em minha casa.
- Ah é? E por acaso o senhor sabe que esta reuniãozinha aqui é para envenenar o Arthur, o MEU convidado? Ou só os amigos da Sam têm importância? - gritou, pela primeira vez na vida com o pai.
- Arthur, desde quando você deixou de ser meu amigo? - Sam aproveitou. - Porque parece que o Cássio tem razão em alguma coisa nesta vida e você agora é o amigo dele apenas. - falou com mágoa, parecia machucada, mas não alterou o tom de voz.
- Ele não deixou de ser seu amigo! Você é cega, Samantha? Quem quer que queira te afastar desta ai é seu amigo, burra!
- Já chega, Cássio. Eu não admito que você se comporte assim!
- E eu não admito que tratem mal o Arthur na minha casa. Olhe pra ele, já está todo machucado porque esta... este rapaz ai juntou uns caras para bater nele, a mando da Laura. Nem bem chega já faz estrago.
Laura que estava tentando se manter impassível para dar corda para que o muito tolo é o terrivelmente maldoso se enforcassem, não conteve uma exclamação de espanto. Mas ela passou despercebida, porque fez coro com as meninas que tinham assistido a cena no dia anterior.
- Ah! Mas eu fiz sozinho! - Gabriel falou decepcionado.
- Venha, Cássio. Você não precisa passar por isto. O problema delas é comigo. - Arthur olhou com ódio para Laura, desprezo pelo resto das pessoas ali, se valendo que Dr Rafael e Cássio estavam atrás dele.
- Isto! Vão passar a noite em outro lugar. - ficou olhando eles se afastarem, depois de virou para o silencioso grupo que fazia o mesmo que ele. - Meninas! Voltem à animação! E não se preocupem com horário, eu gosto destas festas de vocês, traz vida à esta casa! Agora, se me dão licença. - mandou um beijo para Sam, recebeu um em troca e foi para dentro.
Arthur e Cássio não saíram. Cássio achou desaforo ter que sair de sua própria casa e esbravejava no salão de jogos, totalmente indignado por Sam não ter saído do colo de Laura, por ter falado duramente com Arthur, por tratá-lo como se ele e não ela, fosse o idiota ali. Arthur ouvia, motivava, se fazia de vítima e enfim, concluiu que era a hora de fazer seu sacrifício em nome de tanta defesa.
- Cássio, ninguém nunca me defendeu assim. - falou com um sorriso galanteador.
- Você merece, Arthur. Tenho visto o quanto esforço fez, até a vida toda, porque agüentar a Sam não é para qualquer um.
- Alguns sacrifícios valem a pena, para chegar onde se quer. - falou sensualmente se aproximando, prendendo a língua com os dentes, lábios entreabertos.
- Que? Chegar onde? - Cássio perguntou confuso.
- Chegou a hora de você receber seu prêmio. - falou com malícia.
Arthur se aproximou mais, tinha caprichado no perfume masculino, enchido o bolso com preservativos, tomado algumas doses de conhaque e deixado a camisa com alguns botões abertos, de modo a mostrar seu peito bronzeado e peludo. Se sentia uma máquina sexual e com esta intenção passou lentamente, porém com firmeza a mão na bunda de Cássio. Com toda certeza não fazia parte de seus planos o violento soco que tomou no olho que não estava roxo, assim que o irmão de Sam se recuperou do susto.
- Enlouqueceu? Como é que você ousa me tocar? Então você também é uma bicha? - Cássio estava violentamente vermelho, de cólera, vergonha, despeito, nojo.
- Ai, Cássio eu posso explicar, cara!
- Vá explicar pra sua turma, viado! Nunca mais se aproxime de mim! Nunca mais entendeu. - gritou e, não contendo a ira, chutou o estômago de Arthur que permanecia caído no chão.
Sozinho no chão, sem saber qual olho doía mais, como voltar para casa, com todos os seus amigos contra ele, só conseguia repetir uma palavra. “Fudeu!”
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Obrigada Luciene, pela sugestão :)
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