- O que aconteceu com seu pé? - perguntou Sam, se virando de repente para ela, assim que saíram do bar.
- Eu já estava de coração partido, aproveitei e quase quebrei o pé pra fechar o pacote. - respondeu com tristeza.
- Você! - Sam engoliu as palavras, sentiu o sangue subir para seu rosto, puxou a mão que segurava a de Laura e se sentiu, imediatamente aleijada de uma parte vital - Pra onde está me levando?
- Até o táxi, aquele ali, de porta aberta, com minhas malas dentro.
- Tá, eu estou de moto, você está pensando de ir para onde? - perguntou com frieza.
- Para.... casa? - ofereceu Laura, com receio.
- Ah! E onde é sua casa?
- Onde você estiver. - respondeu de imediato - Mas... eu posso deixar minhas coisas na casa dos meus pais, se você quiser.
Sam considerou por um tempo, antes de subir em sua moto que estava ali ao lado. Pegou o capacete e falou:
- Vamos para o meu apartamento. - e acrescentou com mágoa - Quero conversar antes que você suma novamente. Ainda sabe explicar ao taxista onde fica?
Laura simplesmente ergueu uma sobrancelha e cerrou os lábios antes de entrar no táxi. “Mulheres!”
****
O silêncio ainda reinava na mesa sempre animada dos amigos de Sam. Arthur estava lívido e pasmo. Não contava que Laura voltasse após ter falado que estava noivo de Sam. Precisava pensar em uma forma de se sair bem desta e com o barulho que estava ali não conseguiria. Saiu do bar e foi para a praia, seguido pelos amigos. Mas ele nem prestava atenção neles. Estava muito nervoso e começou a falar sozinho, buscando apoio nele próprio.
- Eu deveria ter mantido ela ao meu lado, mas aquela cachorra louca estava babando de raiva, poderia até me agredir, aquela estúpida! Justo agora que eu estava tão íntimo naquela mansão! Se ela começar a “inventar” histórias sobre mim, nunca mais posso entrar lá, nem freqüentar a piscina, a sauna, vou ter que andar com meu carro velho e nem vou poder ir aos mesmos restaurantes!
- Arthur, calma! Do que você está falando? - perguntou Virna espantada com a reação dele.
- É cara, calma! Que histórias ela pode inventar? - Gisele perguntou, assombrada pelo tipo de coisa que o afligia.
Mas Arthur nem se dava conta da presença delas ali. Continuou divagando. Precisava achar uma saída para o seu grande dilema: ser afastado da vida luxuosa que ele tanto gostava.
- Um plano brilhante! Elas nunca iriam se encontrar novamente! Mas esta vaca tinha que voltar! Droga! Todo este tempo investindo nesta porra, isolando aquela loira burra, deixando ela mais solitária e facinha... pra esta sapatão aparecer e estragar tudo. - chutou a areia com fúria - Desta vez não vou só sabotar os recados dela, vou é acabar com a raça desta pervertida.
Ninguém se mexia naquela areia. Queixos caídos olhando assustados para um transtornado Arthur que contava, sem se dar conta, que tinha culpa, em todo o sofrimento de Sam nestes meses.
- É, mas sempre tem o Cássio! É isto! Ele gosta de mim. Droga, vou ter que comer o viadinho se quiser continuar passear de lancha nos finais de semana. Aquele bixa estúpido vai ser útil...
Arthur poderia não estar notando a presença da turma ao seu lado, mas sem dúvida sentiu o soco que Gabriel lhe deu no olho, jogando-o no chão.
- Como diz a Virna, homens, bixinhas estúpidas ou não, tem a sua utilidade, seu gigolozinho de merda! Te soquei em nome do grupo, mas espero que a Laura acabe com a sua raça de vez! - Gabriel falava vermelho de raiva, balançando a mão para aliviar a dor.
Arthur, uma mão apoiando o local onde levou o soco, meio zonzo, olhou para os rostos e viu expressões de pasmo, ódio, decepção. Dois sentimentos se apoderam dele, disputando espaço: vergonha e medo. Quase cedeu à vergonha, o pedido de desculpas chegou à sua boca, mas ele a fechou com força, impedindo o som de sair. Deixou que o medo o dominasse e o impelisse a buscar a proteção que podia. Sacou seu celular e apertou a tecla de discagem rápida.
- Cássio.... - começou a falar.
Mas Virna, sua melhor amiga, arrancou o celular de sua mão, olhando para ele como quem olha para uma barata. Ela jogou o celular para Gabriel, que o quebrou e jogou as partes no mar.
- Obrigada, Gabriel. Sempre digo que é muito útil ter um homem na nossa turma.
Viraram as costas e deixaram Arthur lá, de joelhos na areia, com o rosto já inchando.
******
Quando Laura chegou no prédio, Sam já estava lá. Ela parou na porta do apartamento, se sentiu repentinamente envergonhada por estar com suas malas. Seria mais fácil conversar sem esta sinalização de “quero ficar aqui” tão gritante. Afinal, ela estava noiva de outra pessoa. Outra pessoa que talvez aparecesse para dormir ali naquela noite e ela teria que ir embora levando suas malas, sinalizando que “tiraria seu time de campo”, o que ela não sentia inclinação alguma em fazer.
Enfim, após erguer a mão inúmeras vezes e desistir em seguida, descobriu que nunca estaria realmente pronta, portanto, não adiantava esperar mais, acabou apertando a campainha.
- Perdeu a chave? - perguntou Sam, abrindo a porta enquanto dava espaço para ela entrar.
- Não, eu só.... - só não sabia o que dizer, então se calou.
Sam esperou que ela concluísse, ao ver que a morena tinha se calado foi até o balcão buscar as bebidas que tinha preparado quando chegou. Era tanta coisa que sentia ao mesmo tempo. Tinha resolvido ir de moto para tentar ganhar um tempo e amansar as vozes contraditórias e impacientes em sua cabeça. Já se sentia feliz por ter controlado, até aquela hora seu desejo de pular em seu pescoço para beijá-la.... ou esganá-la. Decididamente não tinha certeza se controlaria uma destas vontades... ou as duas, quando estivessem próximas o suficiente para isto.
Com prudência, deixou um cálice de vinho sobre a mesa para Laura, pegou o seu e foi se sentar na poltrona, com uma mesa de distância, por medida de segurança.
- Pode se sentar, Laura. Nem está tocando Hino Nacional. - Laura olhou para as malas ainda em sua mão, Sam notou e acrescentou - Pode deixar ai mesmo, elas não vão sair correndo... ou desaparecer.
Laura suspirou profundamente. Estava tão cansada, tão confusa, estranhava em sua alma os sarcasmos de Sam. Elas sempre brincaram, mas o tom a estava magoando. “Principalmente porque eu tenho culpa nisto” pensou com melancolia. Largou as malas e se sentou. Sabia que a loirinha olhava para sua taça, mas que percebia seus movimentos, também não sentia muito ânimo de encará-la, tinha medo de olhar para sua mão e ver a aliança. O clima estava horrível, as duas estavam magoadas, confusas, lutando com sentimentos grandes. Mas nenhuma delas, de todo coração, queria estar em outro lugar... talvez mais próximas, mas depois de todos estes infindáveis meses, podiam se olhar, respirar o mesmo ar. Desta vez foi proposital que Laura puxou o ar com força. Sentiu-se feliz, era tudo que ela tinha pedido a Deus por meses, afinal de contas.
Sam percebeu os lábios de Laura se movimentando, como se ela fosse sorrir, a via com os olhos semi fechados, onde só o brilho azul podia ser visto, notou que ela estava mais bronzeada e uma delicada e quase imperceptível tiara segurava seus cabelos para trás, deixando só alguns fios que insistiam em cair no rosto. “Linda, incrivelmente linda! E eu... daria tudo para estar nos braços dela agora, esquecer tudo”
- Como é que se faz para esquecer tudo? - perguntou com um fio de voz, traindo sua intenção de parecer fria, estava com a cabeça baixa, mirando sua taça.
- Você gostaria de esquecer... tudo? - perguntou rápido
- Não... não seria possível mesmo - respondeu pensando que realmente seria impossível não se lembrar de quanta solidão sentiu nestes últimos meses.
Laura, de cabeça ainda baixa, erguia os olhos para olhar para ela. Estava decidida a lutar por seu amor, mas precisava analisar o tamanho do estrago...
- Senta aqui perto, Sam
- Por quê? - perguntou com desconfiança, cabeça ligeiramente inclinada, viu Laura suspirar, tomar um gole de vinho e erguer um dos ombros para responder.
- Porque .... porque quando a gente não encontra as palavras certas e nem sequer as erradas, sempre se pode contar que nossos corpos se entendam.
- Ah! - Sam murmurou um tempo depois, boquiaberta... - você é muito, muito cara de pau, Laura! - respondeu com indignação, tentando não deixar transparecer o quanto aquela esperança safada que leu no rosto da morena a tinha encantado. - Depois de tudo o que passei, nem se você tivesse periquita de diamante eu iria tocar .... assim tão fácil.
“Assim tão fácil, não? Quer dizer que...” sentiu a esperança aquecer seu coração.
- O que foi agora? Ah, quer saber, vou pegar um travesseiro pra você dormir no sofá.
- Ah.... - Laura começou a objetar.
Sam parou a caminho do quarto, temendo ouvi-la dizer que iria para a casa de seus pais.
- O quê? - respondeu temerosa.
- Posso tomar um banho primeiro?
- Pode - autorizar a fazia se sentir no controle - mas não demore que eu quero dormir.
Laura abriu sua mala, pegou uma camisa grandona, para não ter que procurar por muito tempo por sua roupa de dormir, calcinha, toalha e sua escova de dentes.
- Sam - chamou quando estava na porta do banheiro.
- Hum - respondeu a loirinha, que estava a observando, discretamente, pelo espelho.
- Quer vir comigo?
Laura conseguiu fechar a porta antes do travesseiro a atingir. Sam sorriu, sozinha no quarto. “Ela não é de confiança, não é de confiança, não esqueça disto, idiota! Como você é fácil Samantha Figueiredo! Não deveria nem ter deixado falar com você, quanto mais deixar tão perto... tão perto... Poderia estar perto mesmo, é tanta saudade! Mas... “. Mas Sam não se sentia pronta para perder novamente.
- Laura... - perguntou quando ela saiu para o banheiro - o que você fez no pé?
- Chutei uma pedra.
- Ah... ela te xingou primeiro?
- Ela se parecia com o Arthur. - respondeu para surpresa de Sam, que fechou a cara.
- E você chutaria o cara que ficou ao meu lado enquanto você foi correr atrás de uma outra foto premiada sem ao menos me ligar?
- Eu não tinha seu número...
- Me poupe, Laura - respondeu zangada. - Vai, vai dormir, não quero discutir hoje.
- Boa noite, então... amanhã a gente discute. E Sam...
- O que que é agora? - estava zangada, seu tom foi ríspido
- Nada não, deixa pra lá. - Laura saiu e fechou a porta e resmungou só para si, do lado de fora. - mas eu to morrendo de fome!
Laura ficou entre a cozinha e a sala. Seu estômago a incomodando terrivelmente, nem se lembrava de quando é que tinha posto algo na boca pela última vez. Resolveu arriscar o caminho para a cozinha, Sam não negaria alimento para uma morta de fome, afinal de contas. “Periquita de diamante...” riu de novo, como tinha feito durante o banho. Abriu a geladeira que era praticamente um fóssil. Estreitou os olhos para olhar o conteúdo... tinha pães, frios, leite, suco... tudo vencido, tudo com data de validade para o começo de janeiro. Sentiu-se congelar. Coisas para esperá-la. Deu uma olhada, tudo o que ela gostava, Sam tinha observado suas preferências, para agradá-la. De repente conseguiu conceber a dor da loirinha. Ela tinha avisado, mas a demora, sem dúvida a tinha feito desconfiar se voltaria. “Tomara que aquele besta tenha dado o recado antes dela ir para o aeroporto, porque senão, a coisa foi ainda pior” .
Mexeu nos armários e encontrou leite e achocolatado, preparou um copo para si, porém, a despeito da fome, precisou se forçar a tomar. “Com certeza, esta não é a coisa da qual sinto mais fome”, pensou e foi se deitar. Olhou com desânimo para o sofá, mas achava justo, por hoje. Se sentia tão cansada que qualquer lugar era um bom lugar, mesmo que tivesse que ficar curva, devido ao seu tamanho, assim, logo pegou no sono.
Sam não conseguia dormir, um pânico absoluto superava sua felicidade, sua mágoa e o que mais pudesse sentir. Tinha certeza que quando acordasse a morena não estaria mais lá. Tentava se acalmar, mas acabou não se controlando e levantou para trancar as portas, esconder as chaves, por cadeado nas janelas. “E me internar em um sanatório”. Acabou só trancando as portas. Tinha feito o possível para não olhar para o sofá, mas quando retornava para o quarto não resistiu. Laura já estava dormindo, parecia exausta e estava toda encolhida no sofá, usando só uma camisa. Sem tirar os olhos dela, se aproximou e se ajoelhou. Agora que não precisava ficar tão na defensiva podia observá-la com atenção. Observou a respiração pesada, o peito arfando ritmado, notou cicatrizes novas na testa, nas mãos, nos braços. Não se conteve e segurou gentilmente a mão toda machucada que estava solta e a levou até seus lábios. “Sua maluca, você andou correndo riscos”.
Então notou que na mão direita, que repousava junto ao coração, havia uma foto. Movida pela curiosidade, soltou com delicadeza a foto. Laura se remexeu e murmurou ainda dormindo “Sam”. A loirinha olhou sua foto, a que foi tirada entre dois beijos, lembrou de como se sentia completamente feliz naquele instante. Toda a saudade a invadiu e no entanto, ela estava ali, à sua frente. Fechou os olhos e permitiu que as lágrimas rolassem silenciosas. E então ela sentiu... O contato áspero, porém quente e terno impedindo as lágrimas de seguirem o seu curso.
- Vem aqui, pequena. - falou com voz sonolenta, que pareceu encantadora para Sam.
Laura a puxou para si, com força suficiente para impedir contestação. Abraçou-a apertado, apoiando os cabelos loiros em seu colo. Só queria que ela se acalmasse, que ela sentisse seu calor, assim como precisava sentir o dela. Ficaram assim um tempo, uma fazendo carinho, a outra se apoiando, ouvindo o coração tão próximo, deixando esta verdade invadi-la. Sam tinha medo de simplesmente acordar, como acontecera tantas vezes nestes meses. Apertou ainda mais o abraço, como se para impedir que a outra simplesmente se esvaísse entre seus dedos. Ao final, tanta proximidade cobra seu preço. E ambas sentiam a respiração se alterar, a temperatura subir, um desejo poderoso se apossar, um desejo de se fundir, de juntá-las de forma inexorável, indestrutível.
Sam levantou a cabeça, seus olhos tinham assumido uma tonalidade escura e densa, estava deixando os instintos tomarem posse, varrer os pensamentos, medos e dúvidas, ser apenas uma mulher sedenta de amor. Encontrou os olhos de azul intenso, onde via brilhar a mesma chama que os dela, notou as abas do nariz tremendo, sinalizando o desejo que a possuía. A boca semi aberta e úmida a convidava para matar sua sede e ela não pestanejou em ceder. Não tinha nada a perder. Porque com aquela mulher estava tudo o que tinha.
Beijou-a com o desejo contido em meses, suas mãos buscaram com urgência sentir a pele da outra. Sam desceu seus beijos até o pescoço, enquanto a morena puxava sua camisola.
- Você está precisando de rios de hidratante! - falou, retirando ela mesmo sua camisola.
- É a falta de você que me deixou seca.
- Esta foi péssima, Laura - falou - sorte sua que eu coleciono suas pérolas.
Já não havia tecidos entre elas, a última peça, a calcinha branca de Sam ainda estava na mão de Laura, que tentava jogá-la longe mas o movimento da loirinha, cavalgando em sua cintura, apertando seus seios e olhando com lascívia para ela, a entorpeciam. Laura buscava intensificar o contato entre seus corpos, por mais que tivesse sonhado com um reencontro cheio de carinho e serenidade, seus corpos tinham necessidades urgentes e buscavam com sofreguidão o alívio.
- Senti tanto sua falta - Sam sussurrou, enquanto distribuía beijos pelo corpo esguio. - tanta falta dos seus beijos - se ergueu para se apoderar com gula da boca que esperava a sua entreaberta.
Devoravam-se em beijos quase canibais, toda raiva, acidez, mágoa esperava para ser derrotada no embate das línguas, nos corpos se friccionando, lutando selvagemente por contato.
Quando o orgasmo chegou, elas se olhavam cheias de amor. Sam descansou sobre o corpo suado de sua amada, voltando à posição inicial. Recebeu o abraço apertado, encostou sua cabeça naquele colo macio, ganhou beijo no topo da cabeça.
- Também senti muito sua falta, amor. Quase enlouqueci de saudade.
- Mas por que você não me avisou, Laura?
- E por que você vai casar com o Arthur, Sam?
- Como é? - perguntaram as duas juntas, quando ouviram a última pergunta que cada uma fez.
- Como não te avisei? Não te avisei do quê?
- Peraí Laura, que história é esta de casar com o Arthur?
- Ué... O Art.... - Laura parou de falar e abriu a boca, de repente compreendendo tudo - O Art ... não! Ele não seria capaz!
- Vai Laura, termina uma frase, assim fica difícil! - Sam tinha se sentado no lado oposto do sofá e olhava ansiosa pra Laura.
- Eu avisei, Sam. Não tinha o seu.... por todos os deuses do Olimpo, com você nua assim na minha frente, não dá!
- Para com isto, o assunto é sério! - resmungou zangada, porém também encantada com a vista. - E não adianta que eu não vou me desconcentrar. - falou puxando sua camisola por cima do corpo.
- Ah... então, pois é, fiquei sabendo que você estava noiva do Arthur. - acrescentou rápido - Não é verdade, não, né.
- Que história é esta? Por isto que você não veio? Mas... não Laura, não vem com esta!
- Não! Eu não vim porque... puxa, eu mandei recado pra você, me diz que recebeu.
- Recado? Não, Laura, não recebi nenhum recado. - falou balançando a cabeça, com mágoa. - Em todos estes meses, o único recado foi o que o seu pai não soube dar;
- A ligação pra ele estava péssima e o meu pai ele é muito confuso pra dar recados.
- Mas é muito bom para compreender.... - falou se lembrando da conversa que presenciou.
- Não... não sei do que você está falando, mas nem sempre eles me compreendem, Sam. - tentava entender o que estava deixando de ser dito - E o outro recado, você recebeu?
- Que recado, Laura? O que a Lupe me deu?
- Lupe? - Laura quase engasgou - Lupe?
- É, Laura, Lupe, uma espanhola muito linda, muito maldosa, muito louca por você, que me disse que é pra ela que você sempre volta, depois de correr para o seu verdadeira amor... o seu trabalho.
- Não entendi mais da metade disto, mas não é da louca por mim que estou falando, é do louco por você! O Arthur não te deu meu recado, no dia em que eu deveria chegar?
Agora foi a vez de Sam ficar sem resposta. Abriu a boca e as cenas daquele dia vieram à sua memória sem controle. Estava esperando há mais de duas horas, Arthur chegou usando uma bermuda folgada, ela se lembrou de ter estranhado, porque ele é sempre todo arrumadinho para se vestir, parecia que sabia que teria que passar muito tempo ali. Ela nunca se perguntou o que ele foi fazer no aeroporto naquele domingo, em um horário que ela não deveria mais estar lá!
- Ele não te falou, não foi? - Laura estava estarrecida, compreendeu que a coisa tinha sido muito pior do que ela poderia supor.
- Mas Laura, por que você não veio? - havia tanta dor em sua voz, que Laura amaldiçoou todos os franceses que conheceu em sua vida, os espanhóis, ela própria e aqueles vermes do Arthur e da Lupe. - O seu trabalho é assim tão mais importante do que eu?
- Não! Não Sam! Eu não tive escolha, droga, não tive nem tempo para escolher. Não foi por trabalho...
- Foi por que, então! Me explica, porque eu não consigo entender, porque eu não te trocaria por nada.
Laura a viu chorando, apertando os lábios com força para não fazer barulho, que não se impediu o movimento de se aproximar e abraçá-la com força.
- Foi pra salvar a vida de um amigo. Foi por isto que eu fui.
- Como assim salvar? Por que você está toda machucada?
Laura a prendia no abraço, mas percebeu que ela tinha se exaltado, sentia seu coração disparando de encontro ao seu.
- Eu voltei... - respondeu simplesmente.
- Quer dizer que poderia não ter voltado? Você poderia ter morrido lá por este seu amigo e eu nunca mais saberia de você? É isto? - falou com fúria, se desvencilhando do abraço.
- Não, Sam! Eu voltaria para você! - tentava acalmá-la - Eu sou a mocinha da história, não morro no final!
- Para! Até mocinhas morrem... até heroínas morrem no final!
- Ah, eu nem fui salvar 40 mil almas e voltei, não voltei? Pode pegar - estendeu o braço.
Mas Sam estava furiosa. Deu um tapa no braço que estava estendido na sua frente.
- Isto não é brincadeira! Você acha que tem o direito de colocar sua vida em risco, Laura?
- E você é aquela moça que subiu em uma moto na minha frente hoje e saiu em disparada? Acha que só se morre em guerras?
- Ah, nem vem! Isto foi totalmente diferente! E não tente mudar de assunto, que eu te conheço!
- Ninguém pode me acusar de não tentar, pelo menos. E Sam, foi muito rápido, não tive tempo de fazer nada. E se tivesse que escolher novamente eu faria tudo diferente.
- Você faria o quê? Deixaria seu amigo morrer?
- Não. Eu te levaria comigo.
- Levaria? - Sam se sentiu tão feliz de repente, que sua guarda baixou.
- Levaria. Mas acho que eu vou acabar matando aquele francês antes que ele nos mate a todos. - falou puxando-a de encontro a si novamente - Ah, assim... que saudade de sentir seu calor.
- Apesar de você estar parecendo um porco espinho, também estava com saudades. Tanta saudade!
Amaram-se, trocaram carinhos e acabaram dormindo ali mesmo, abraçadas, Sam dormindo parcialmente sobre Laura, cobertas com um lençol. E foi assim que Dr Rafael Figueiredo as encontrou no dia seguinte.
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