segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Capítulo 14

Depois de mandar a mensagem para Sam, avisando sobre sua viagem para o Brasil no dia seguinte. Laura fez os ajustes finais para se despedir desta etapa de sua vida.

Enquanto escolhia algumas fotos para montar um álbum para Sam, Dana e Su duelavam em frente ao guarda-roupa.

- Larga isto, mocréia! Eu vi primeiro!

- Nem pensar, você nem tem onde usar um vestido destes! É muito chic pra uma fedelhinha como você!

- É chic mesmo! Onde é que você usou isto?

- Não sei... - Laura olhava pensativamente para o vestido, forçando sua memória. - Este ai... não, não foi naquele evento, foi... hum, não lembro mesm...

- Ah, droga! - interrompeu Su, quando Dana largou o vestido - é alugado! Nem pra mim, nem pra ela!

- Alugado! É mesmo! Aluguei para usar naquela entrega de... ai céus, daquela ruiva.... deve fazer uns dois anos! Por que nunca ligaram atrás?! Vão cobrar uma fortuna quando eu for devolver.

- Ou... - Su ergueu um envelope que estava na bolsa que acompanhava o vestido, balançava as sobrancelhas com malícia - ... não vai custar nada!

Assim que Laura percebeu que a espanholinha iria ler o bilhete, deu um salto para tentar agarrá-la, mas Dana ajudou a irmã a correr pela casa enquanto lia em voz alta, perseguida por uma mulher e protegida por outra.

- Um pequeno agradecimento.... ui, não me pegou.... pela noite.... ah ... inesquecível.... socorro, Dana .... Uma noite com você vale.... ai, meu dedo....devolve Laura, sua conquistadora!

- Nem! - falou Laura rasgando o cartão - Eu só precisava me alimentar de vez em quando, oras!

Dana tinha se aproveitado da confusão e levado o vestido e outras peças que tinham escolhido embora. Su se deu conta disto e correu para seu apartamento, para fazer um segundo tempo da discussão.

Laura balançava a cabeça com um sorriso. Acho que vou sentir saudade destas desmioladas. Pegou duas grandes malas que tinha pego emprestado com Dona Carmen e começou a ajeitar as roupas que sobraram em seu guarda-roupa. Roupas apropriadas para o frio espanhol que dificilmente usaria em Recife. Dana iria levar para doação assim que voltasse da viagem que ia fazer com o noivo na passagem do ano.

Como terminou o que tinha a fazer com antecedência, se permitiu ficar sentada na poltrona por um tempo, tinha organizado as fotos de acordo como montaria o álbum e seu celular descansava ao lado delas, para estar à mão. Os últimos minutos foram passados com ela contemplando a foto de Sam. Vou entregar minha vida nas suas mãos, como sei que a sua está comigo, pequena. E isto é bom e certo, porque amo você, como sei que você também me ama. A paz do momento foi interrompida, quando a porta se abriu com brusquidão e uma desesperada Lupe entrou por ela.

- Você não vai embora, Laura! Este é seu lugar, é pra cá que você sempre volta.

- Não, Lupe, este não é meu lugar. - respondeu com serenidade, enquanto corria os olhos pelo apartamento - Adorei o tempo que passei aqui. Posso dizer que vivi ótimos momentos neste lugar, convivi com pessoas que nunca vou esquecer ou deixar de amar.

- Então, Laura! Vai deixar isto tudo?

- Meu coração não está aqui, Lupe. Este - levou as mãos sobrepostas ao peito - este que bate aqui, não é o meu. As coisas nunca mais poderiam ser iguais se eu ficasse, porque já não sou a mesma pessoa.

- Eu te amo, Laura! Não me deixe! Olha esta foto - mostrou a foto que tinha sido tirada na cafeteria do hospital - você fica tão feliz ao meu lado, olha seu sorriso, nós combinamos.

- Esta foto - Laura a pegou, olhou e em seguida a jogou displicentemente sobre as outras, na mesa - ela foi tirada logo após eu conversar com Sam. Já tinha visto sua mãe, já sabia o que fazer da minha vida. Eu estava feliz... sim, estava, mas era por ela!

Lupe, ao ouvir estas palavras, voou para cima de Laura com violência. A espanhola tentava atingir a mulher mais alta com socos, mas a esquiva era sempre mais rápida, até que suas mãos foram seguradas com força, por uma Laura extremamente irritada.

- Saia daqui, Lupe!

- Não saio! Esta casa nem ao menos é sua, mais!

- Tudo bem, saio eu. Você conseguiu estragar as boas lembranças que ainda restavam de você, Lupe.

Furiosa, pegou suas malas que estavam próximas à porta, o casaco e a bolsa com a passagem e documentos. Se virou para Lupe e disse:

- Talvez você nunca entenda. Mas existe uma força que faz meu coração bater. E é atrás desta força que vou. É o meu caminho, meu lugar, o que importa para mim! E agora, por gentileza, pode sair que eu vou fechar a porta e se a casa não é mais minha, sua é que ela não é.

A espanhola era a própria fúria. Passou por Laura vermelha, olhos soltando faíscas. Mas não disse mais nada, foi para sua casa e quase arrebentou a porta.

- Droga, agora não vai dar para me despedir deles! - resmungou enquanto pegava suas coisas e caminhava rapidamente para o elevador.

O caminho para o aeroporto foi feito em silêncio. Pelo menos ela não abriu a boca para falar com o taxista. Estava concentrada nas conversas eloqüentes que se desenrolavam em sua mente. Eram tantas as coisas que tinha para falar! Queria contar para Sam sobre seus sentimentos, a falta que sentiu dela, o amor que só crescia, as coisas que viu pensando nela. Mas como traduzir o que sentia?

Imaginava chegar no aeroporto e a encontrar lá, novamente. Desta vez avisou que iria. Nem sempre se pode contar com a sorte de um encontro inesperado daqueles.

Encostou sua cabeça no banco e fechou os olhos para saborear as lembranças. Cada sorriso, cada brilho do olhar, o carinho, as brincadeiras e desafios. O riso de Sam era tão fácil, ela era de uma sensibilidade tão grande e franzia o nariz... Ai meu Deus, a cada lembrança me apaixono mais, como é possível?

Tudo o que Laura queria era que o tempo se esvaísse. Que o espaço se transformasse. Que aquele oceano não estivesse mais entre elas. Colocou as mãos no bolso de seu casaco para aquecê-las e, de repente, abriu os olhos assustada.

Droga, esqueci meu celular. Vou ter que voltar, minha agenda está toda lá.Ai, que merda, as fotos! Tudo em cima da mesa! Que droga! O que aquela maluca tinha que aparecer! Vou ter que voltar, arrrrgh!

- Senhor - falou ao motorista - Nós precisamos voltar ao apartamento. Será que dá tempo de irmos e voltarmos?

- Só se a senhorita for pegar outro avião, porque o trânsito no sentido contrário está lento.

- Tudo bem, vamos direto,então. - falou com um suspiro, Laura não tinha idéia de como se virar sem a agenda de seu celular. Mas quando Dana voltasse, poderia enviá-lo para ela, juntamente com as fotos. Além do que, não queria mesmo ser encontrada estes dias.


Assim que chegou ao aeroporto, pagou ao taxista ainda em dúvida de ter tomado a decisão correta. Não se sentia muito confortável neste momento, uma angústia a alertava que alguma coisa não estava bem. Olhou no relógio e pensou em tentar trocar a passagem. Mas neste momento, ouviu seu nome ser gritado por uma voz masculina. Um homem de aparência carregada, vinha em passos largos em sua direção. Não esperou se aproximar muito para falar agitado, em francês.

- Laura! Então conseguiram te avisar! Graças a Deus! Venho tentando ligar no seu celular há tempos, mas você não atende. Vamos, temos que correr. Vamos!

- Calma, Pierre! – respondeu no mesmo idioma – Não recebi nenhum recado, vamos para onde? O que está acontecendo?

- Vamos Laura, no caminho eu explico, nosso avião já está de partida. Temos que correr!

Pierre pegou as malas de Laura e começou a correr pelo aeroporto, em direção diferente, muito diferente de onde era o embarque para o Brasil. Sem outra alternativa, Laura o seguiu, quando ele parasse ela iria pegar sua mala e dar as costas para este demente. Mas Pierre não era demente, e seu nervosismo não parecia ser desmotivado. De repente, ela sentiu que, o frio na barriga que a perturbou desde que saiu de casa, poderia mesmo não ser só ansiedade ou asco de Lupe.

Acelerou seu passo e alcançou o homenzinho que tinha um palmo de língua para fora, devido a corrida. As várias que ele já tinha dado em alguns minutos por aquele aeroporto.

- Vamos Laura, nosso vôo vai sair em alguns minutos.

- Nosso vôo? Pierre, preste atenção, eu vou embarcar sim, mas é para o Brasil e o meu vôo ainda vai demorar um pouco.

- Brasil?? Mas Laura você não sabe o que aconteceu?

- Não, Pierre. Por favor me diga, antes que eu te vire no avesso pra descobrir. – a possibilidade de, o que quer que tenha acontecido pudesse prejudicar sua viagem a deixava furiosa.

- O Sr Olivier, Laura. Ele foi seqüestrado. Eles querem você lá, só acreditam em você, dizem que só o seu trabalho trouxe algum respeito pra eles. Eles irão matá-lo se você não for. E nós não temos muito tempo, sabe como o velhote é. Ele ... ele precisa de você, agora.

- Eu não posso ir agora, Pierre. Não assim, tenho que fazer uma ligação primeiro, pelo menos isto.

- Você liga de lá, Laura, se nós não formos pra lá agora, ele vai morrer! – o francês olhava para ela como se ela estivesse pedindo para ele tomar banho em pleno inverno, estava totalmente chocado por ela vacilar em salvar a vida de seu mentor, um amigo que a tinha como filha.

O sistema de som do aeroporto deu a última chamada, agora não tinha tempo para fazer ligações, ou para questionar. Era a vida de seu velho amigo ou... ou a minha. Resignada, fez o que tinha que fazer... fez o que estava longe, muito longe de ser o que queria fazer.

Assim que aterrissaram em Cartum, no Sudão, Laura olhou, pela milésima vez, com angústia para o relógio. No Brasil deveriam ser 9 horas, dentro de duas horas poderia estar chegando. Deu um tapa revoltado em sua própria cabeça. Queria acordar deste pesadelo. Pierre monologou durante a viagem, contou como Olivier tinha sido seqüestrado, as condições que estava preso, as pessoas horrorizadas que tinham avisado. O conflito estava muito além do suportável por humanos da região de Darfur. Laura tentou achar um telefone que pudesse usar. Ainda tinha dois números na sua agora odiada péssima memória para telefones. De repente, se lembrou que Pierre deveria ter um celular, se virou de chofre para o homem que a seguia sem saber muito bem para onde. O homem quase trombou nela. Com uma certa irritação, Laura agarrou o celular dele, que tinha visto no bolso de sua camisa. O homem assustou, mas achou o brilho no olhar de Laura muito violento para contestar.

Rezando para que pelo menos esta ligação desse certo em todo este mar de erro, Laura teclou os números.

- Pronto.

- Pai, é a Laura, avisa a Sam que não pude pegar o vôo. Estou no Sudão, foi uma emergência. Vou tentar ligar pra ela.

- O quê? Na....

Ai céus, meu pai é uma lástima pra recados e a ligação estava ruim. Decidida, apertou números diferentes e ligou para o único outro número que se lembrava.

- Fala!

- Arthur, é Laura. Por favor não posso falar muito agora, avisa para a Sam que não ...droga... não pude ir, aconteceu um imprevisto muito sério, coisa de vida ou morte.... Vou tentar ligar para ela assim que puder, mas talvez não dê para ser estes dias. Ela deve estar no aeroporto.

- Quem está falando??

Laura olhou para o céu e contou até mil, em um segundo, enfiou uma unha em sua própria cabeça, com angústia.

- Laura, namorada de Sam, Arthur.

- Ah, eu aviso, ela já foi ao aeroporto. – respondeu com má vontade.

- Eu não vou estar lá, por favor avise a ela.

- Está bem, vou para lá.

- Arthur... por favor, diga que eu a amo e..... – o som de ligação interrompida quase enlouqueceu Laura, definitivamente, neste momento. Mas já não havia muito a ser feito. Agora era esperar que Sam a entendesse quando ela chegasse.


*** *****

Os meses seguintes de Laura foram passados como um pesadelo sem fim. Logo que chegaram, já havia um avião de pequeno porte com os motores ligados e, juntamente com voluntários de várias especialidades, rumaram para a região mais cheia de conflitos da África.

Viagens sem fim, em uma terra desolada, seca, dizimada. Negociações complicadas, porque não tinham seqüestrado um membro de ONG, mas um fotógrafo e era assim que Laura negociava. Porém, ela aproveitava para obter informações que sempre foram difíceis de conseguir. Sabia que na verdade, era este o real motivo da captura do senhor Olivier. Ele queria conhecer por dentro os cativeiros e as condições de vida neles.

Ela queria resolver tudo rápido, mas infelizmente não era assim que as coisas aconteciam por ali, e ela sabia disto. Não contava encontrar tanta destruição, não tinha como se comunicar, locomoção só em comboios muito armados e mesmo assim com grandes riscos. O que não estava seco pela natureza, estava queimado pelos homens. Vilas inteiras deixaram de existir. Era preciso muita concentração para sobreviver ali.

Uma das poucas árvores no meio daquela parca vegetação rasteira servia de encosto para ela. O Sol alto queimava os miolos. Laura tirou a boina, limpou o suor da testa com as mãos e olhou para cima. Uma única folha verde tremeluzia iluminada pelo Sol. “O verde dos olhos dela”. Sentiu a saudade a esmagar. Era tão dolorido pensar que poderiam estar acordando juntas, depois de uma noite de amor e carinho, que estariam trabalhando juntas, construindo sua vida, seu cotidiano partilhado.

Todas as noites Laura dormia agarrada à única foto que tinha levado consigo. Suas bagagens haviam ficado com Pierre na última aldeia que possuía alguma segurança e um hotel. Levara pouca roupa, cantil, canivete, lanterna, câmera, algumas baterias e a foto, seu tesouro do qual não se separava por nada. Perguntava-se quanto tempo ela esperaria, se o relacionamento delas, tão novo, sobreviveria á distância. Arthur estaria por perto, tentando, sempre tentando. E se ela resolvesse ceder a ele? “Não! Ela vai me esperar! Eu pedi que esperasse, aquele moleque não é homem pra ela!” Mas se dava conta que os meses intermináveis estavam passando e já eram muitos. Era aterrorizada pela saudade, incerteza, ciúmes. Precisava dar um fim a esta situação.

As negociações não evoluíam, o grupo que tinha seqüestrado seu amigo “recrutava” os sobreviventes dos massacres que vagavam em busca de refúgio e asilo para situações que poderiam ser piores que a morte. Queriam que ela fosse para eles uma porta voz junto às organizações que tentavam coibir estes abusos. Alegavam que era atividade pertinente à cultura deles e que não cabia a ninguém de fora interferir. Irritados por não ver nenhum progresso, Laura acabou capturada também.

- Minha filha! Você aqui! - Olivier a ajudava a se levantar, visto que ela foi empurrada para a tenda.

Laura olhou para ele, como se olha para uma criança que não se dá conta das artes que faz.

- O senhor está bem?

O magérrimo homem, a levou para um dos cantos da tenda e falou baixinho, em português, para não ser entendido por outra pessoa.

- Descobri coisas muito úteis! Acho que agora nós vamos conseguir acabar com eles de vez, minha filha! Que bom que você veio. Vai ser perfeito!

Laura suspirou profundamente, uma... duas vezes. Controlou o tom de voz e disse entre dentes :

- Nós só temos dois problemas: nos mantermos vivos e sair daqui. No mais está tudo ... não, no mais não está tudo perfeito. Era pra eu estar fazendo amor com uma loira que eu amo na rede, numa hora destas, ao invés disto, tenho que agüentar este cheiro de churrasco humano nauseante, vendo pessoas se matarem por ganância. Não tem nada perfeito!

- Ah, então você está mesmo apaixonada! - ele a olhou com espanto - Não acreditei quando o Pierre contou que você nos deixaria por.... estar enamorada! Sabia que você viria.

- Não conte com isto em uma próxima vez! Por acaso tem alguma idéia de como sair daqui?

- Não! Entrar foi fácil, mas eu contava que você.... - o olhar para ela era de absoluto pasmo - Você ia nos deixar mesmo?

- Não, na verdade não.... só ia para outra frente. - Laura o entendia, no final das contas e ele era tão confiante nela que a raiva foi substituída pelo seu lado prático - Vamos dar um jeito em tudo.

- Não vá se arriscar por mim, sou uma carcaça velha, só preciso passar pra você tudo que observei aqui, filha.

- Vamos sair os dois daqui, ou nenhum de nós. - olhou para as pessoas miseráveis, muitas doentes, que se amontoavam neste outro estilo de escravidão. - Depois voltaremos para levar todos.

- Ah, você vai ficar conosco, então?

- “Voltaremos” foi um jeito coorporativo de falar, Sr Olivier. Deixo isto para Henri, Mitzel e companhia.

- Eles vieram com você? Gosto do estilo destes rapazes!

Ela ia responder, mas achou melhor se calar. Quanto mais ele sabia, em mais rolo era capaz de colocá-los. Mas na verdade, tinha programado uma forma de fuga com os rapazes. Tinha visto que negociação não daria resultado e planejaram sua captura para que pudesse resgatá-lo. Era um plano arriscado, mas após alguns dias estudando o comportamento e hábito dos vigias, o colocou em execução. Olivier teve que quase ser nocauteado por Laura para aceitar fugir sem levar as outras dezenas de pessoas junto. O que poria tudo a perder. Ela lamentava imensamente, mas não poderia fazer nada agora. Tiveram que se arrastar no chão por um longo trecho, ouviam os tiros ao longe, de seu grupo que distraia a atenção dos vigias para que pudessem fugir.

A viagem de volta foi complicada, tiveram que parar inúmeras vezes, houveram escaramuças. Atrasos intermináveis para angústia de Laura, que nunca desejou tanto estar longe dali. Um motorista ferido em tiroteio e tiveram que desviar da rota para procurar um dos postos médicos que os Médicos Sem Fronteiras mantém nestas regiões. Grandes tendas, com poucos recursos, equipamentos e medicamentos, onde médicos e enfermeiros voluntários fazem de tudo para salvar vidas.

- Parece que ninguém chega inteiro a este lugar! - comentou uma enfermeira, em francês enquanto olhava as mãos machucadas do Sr Olivier. - Acho que o senhor precisa é de um enchimento entre o couro e o osso.

- Ah, minha filha, não se preocupe comigo! Atenda quem realmente necessita da sua valorosa ajuda. Eu estava mesmo precisando de um regimezinho - comentou sorrindo.

Laura olhava a cena com uma sobrancelha levantada. Aquela voz tão serena da enfermeira, o carinho com que ela observava o seu mentor, chamava sua atenção. Meu Deus, é ela!

- Minhas mãos também estão machucadas, você pode cuidar delas? - perguntou em português, estendendo as mãos para a enfermeira.

O Sr Olivier olhou espantado para Laura, pois sabia que mesmo que estivesse realmente ferida, sempre daria a frente para outros serem tratados. Um olhar nada complacente também foi dado pela enfermeira a ela antes de voltar sua atenção ao velho quase esquelético.

- Não senhora, primeiro as coisas ..... Laura!

E então, Jussélia se esqueceu da prioridade e pulou no pescoço da amiga, como se fosse no dia anterior a última vez que fez isto.

- Grandona! Não acredito que estou te vendo de novo! Não acredito!

- Nós somos do mesmo bairro, como você não me veria de novo? - falou enquanto apertava o abraço em sua amiga de infância.

- Pois é, e nos estamos só um pouquinho longe dele agora, não é?

Jussélia encerrou seu turno de trabalho e levou Laura para a casa onde ficavam as pessoas que trabalhavam no posto médico. Eram voluntários do mundo inteiro, que se revezavam nos puxados turnos. Quase todas as noites se juntavam em volta de uma fogueira para trocar informações, falar de suas vidas, seus países. Laura ficou sabendo que a amiga já estava trabalhando há anos naquela região.

- Nossa, Ju! Quatro anos que você está aqui, então? Como é que a gente nunca se cruzou antes! - falou enquanto virava um gole sabe-se lá do que, fazendo careta por causa da bebida que parecia rasgar sua garganta.

- Vai, vira outro assim que a gente vai ter que te carregar lá para dentro! - comentou rindo - - Quatro anos! Me formei e vim ajudar por um mês, mas acabei não sentindo mais vontade de ir embora.

- Eu já vim tanto para cá neste período. Só fui para o Brasil agora no final do ano.

- Conheço o seu trabalho, Laura. Você é muito comentada aqui. Eu sentia o maior orgulho em falar que era minha amiga. - riu e falou em francês para os outros ouvirem - Eu dizia que era amiga da Laura Sanches, mas ninguém acreditava, sabe, diziam que eu estava contando vantagem!

Laura observou os sorrisos amarelos que foram endereçados para sua amiga. Tinha notado as outras pessoas olhando para ela durante a noite, cochichando. “Celebridade! Droga, deveria estar usando meu óculos de sol e distribuindo autógrafos com ar de paisagem!” pensou divertida.

- As pessoas aqui acreditam que você trabalha para aquele grupo quase terrorista que vêm desbancando algumas companhias petroquímicas, mineradoras e laboratórios que exploram o povo daqui.

Laura engasgou com a bebida, sentiu o líquido sair pelo nariz e agora se sentia um dragão com fogo pelas ventas.

- Terrorista? - falou tossindo.

- Contesta o terrorista, mas não fazer parte, não é? - Ju deu um sorriso malicioso para a amiga que corava - Eu esperava isto de você.

- Não tenho idéia do que você está falando. - comentou nada convincente.

Para sorte de Laura, Daniel, o namorado inglês de sua amiga escolheu este momento para chegar.

- Ah, que honra conhecer você Laura, a Ju fala tanto da infância, de como você mudou a vida dela e inspirou pra vir pra cá!

- Ela é a grande amiga da minha vida. - falou Laura, com sinceridade. - Mesmo que depois, por uma série de motivos a gente acabou se vendo pouco, nunca deixei o posto de “melhor amiga” vago.

- Aw, que bonitinho! - Ju deu um novo abraço comovido na amiga.

Laura ficou sabendo que Daniel e Ju pretendiam se casar ainda este ano e que se mudariam para a Inglaterra, onde Daniel já exercia Medicina há alguns anos, ele dividia um consultório com dois amigos, além de ser plantonista em um hospital. Eles contaram que conheceram no primeiro ano dela na África, onde ele trabalhava como voluntário um mês por ano. Naquele ano o mês dele se estendeu para três. No ano seguinte ficou dois meses seguidos, mas voltou seis meses depois para mais dois meses de trabalho e, enfim tomar coragem de pedi-la em namoro.

- Eu sou tímido! - falou na defensiva, diante do riso incontrolável de Laura.

- E eu ganhei a aposta! -falou um médico loiro, com uma grande barba, que se aproximou enquanto eles contavam a história.

Contaram que estavam rolando apostas de quando Daniel iria tomar coragem para falar o que todo mundo já sabia. No final da noite, todos estavam contando suas histórias. Era o momento de esquecer a crueza do dia, um momento de se sentirem humanos e cheios de sonhos e planos. Laura contou sobre Sam para Ju, que tinha decidido voltar definitivamente para o Brasil.

- Que pena, Laura! Você é tão necessária aqui!

- Mas chegou a minha hora de cuidar da minha vida, Ju. Não vou parar de trabalhar, você conhece o nosso país, sabe quanto trabalho tem para ser feito lá, também. - falou com certa tristeza.

- Você a ama tanto assim? - falou após um momento

- Não... muito mais que isto! Independente de quanto você pensou, eu a amo muito mais! - fez uma pausa e se lembrou daqueles olhos verdes tão cheios de carinho - É aquela oportunidade única que surge na vida de uma pessoa, sabe. Aquela que se você não agarrar, nunca mais vai se perdoar. Ela mudou o meu ponto de vista sobre as coisas, é como um filtro, tudo o que olho, tudo o que faço, é por ela, é para ela.

- Ah, amiga! Se é assim você fez a melhor escolha! Vai ser feliz que no final é isto que o mundo precisa: amor e felicidade.

No dia seguinte, o comboio de uma Laura com uma terrível enxaqueca pode partir. Mais alguns dias viajando muito lentamente, com rotas desviadas, algumas escaramuças isoladas e enfim, chegaram em um local com relativa segurança, onde Laura tinha deixado Pierre há alguns meses atrás.

O velho francês a olhava meio sem jeito, procurando não encará-la. Laura estava ajeitando os últimos detalhes para o retorno à capital, onde pegaria um vôo de volta, mas, percebendo a atitude do amigo, o puxou, literalmente para um canto.

- O que foi agora? Está planejando furar o pneu do carro, roubar minha passagem ou o quê?
- Não, Laura! Eu já te disse que não sabia que você estava naquele aeroporto para ir embora, achei que você sou...

- Tá, tá... já sei, desculpa! É a saudade, que me deixa louca!

- É, menina... então... - ele tossiu, visivelmente encabulado - estes meses que você passou aqui, err... foram muitos, não é?

- Muito mais do que você pensa, caro amigo. Foram intermináveis, tudo o que eu quero é estar ... no meu lar novamente.

- Eu estava pensando, Laurinha, pense bem, minha filha... Foram tantos meses e se a sua garota, bem... e se ela estiver com outra pessoa - disparou ele, em um tom de voz que quase se desculpava.

- Ela não... - Laura começou a falar com certo espanto, mas parou para observar a expressão consternada do velho amigo - por que você está falando isto. Eu te conheço, você não está pensando nada! Você sabe de alguma coisa... diga! - ela agarrou com força o braço do homem à sua frente.

- Eu liguei lá, Laura, naquele número que você ligou. E...

- E?

- E o noivo dela atendeu. Um rapaz chamado Arthur. Disse que ela tinha saído para trabalhar e...

- Ligou como? Daqui não tem condições! Você está inventando para eu não ir embora, não é? - O homem agora era chacoalhado.

- Hei Laura, cuidado com nossos velhinhos, eles são frágeis - falou Henri separando-os.

- Eu fui até a cidade Laura, faz um mês e meio, me desculpe, queria muito consertar as coisas para você. - ele parecia arrasado, mas não menos que Laura que tinha perdido a cor.

- O que exatamente o Arthur falou? - perguntou com um fio de voz.
- Ele disse que a Sam cansou de esperar, que tinha aceito o pedido de casamento dele e que era para você não tentar atrapalhar a felicidade dela. Aí ele disse que ela tinha saído para trabalhar e depois iria .... provar o vestido de noiva.

Laura virou as costas e saiu apressada dali. Poderia esperar que Arthur se aproveitasse da sua ausência para tentar conquistar Sam. Mas não acreditava que ela cedesse a isto. No entanto, sabia que ela deveria estar extremamente desapontada pela sua demora e falta de notícias. Mas daí a aceitar se casar com Arthur? “Aquele pulha daquele almofadinha inútil” chutou uma pedra que voou para longe, “deve ter ficado com ela uma vez e...e...é! Pra ela se casar só se estiver grávida, por que se casaria tão rápido?” chutou outra pedra que foi ainda mais longe que a primeira. “Ela não faria isto, eu pedi que ela me esperasse ... mas ela não podia me esperar pela vida toda, droga” mais uma pedra chutada com violência, esta entretanto não se moveu nem quando Laura sentou nela para tentar aliviar a dor em seu pé. “Mais esta agora!”

Mancando, terminou o trajeto até seu quarto, onde juntou suas coisas. Voltou para a área externa e olhou os dois comboios prontos. Um deles, se encaminhando para a capital, onde ela poderia pegar um vôo e, quem sabe, ser madrinha do casamento de Sam com o almofadinha inútil. O outro, levava de volta às zonas de conflito, onde era necessária e útil.

Laura olhava de um lado ao outro, motores ligados, tudo preparado. Deu um passo à frente sem tender a um lado ou outro. Por fim, inspirou profundamente e se decidiu.

- Nem que seja só para ver seu olhar novamente, qualquer sacrifício vale a pena.

Uma viagem longo, interminável. A dor no pé a matando, as mãos ainda muito esfoladas, algumas cicatrizes a mais para a sua já extensa coleção. Tudo podia ser manejado, ela tinha experiência com a dor física e com o cansaço... mas como agüentar este ciúme que a fazia perder o ar? Pensar que Arthur estava abraçando a sua Sam, era insuportável. E que ele estava partilhando com ela os pequenos detalhes do cotidiano, rindo junto com ele, olhando as estrelas, dividindo a rede. Cobriu os olhos com o óculos escuro para esconder as lágrimas que rolavam, ora de dor, ora da saudade imensa, ora de puro amor... ora de raiva de Arthur.

Enfim, como tudo que parece não ter fim, uma hora acaba, Laura chegou ao Brasil. Os sentimentos ainda estavam digladiando em seu coração. A única certeza que tinha é que precisava ver Sam, o resto...bem, o resto sempre se ajeita.

Ela ia direto ao apartamento de Sam, no entanto, como o bar ficava perto dali, resolver parar ali mesmo. O ambiente cheio de fumaça, tantas vozes, mas Laura só ouvia seu coração disparado.

O pamonha estava com os braços ao redor das costas dela, parecendo o rei do pedaço, mas tudo o que podia ser captado era aquele olhar fixo nela, mas, covarde que era, largou-a quando a viu.

Tinha sonhado tanto com este momento. Se aproximou, nem tinha certeza como. Estava totalmente teleguiada. Neste momento resolveu que lutaria por ela, ainda que tivesse que chutar o traseiro de Arthur no meio de seu casamento. Decidida, estendeu a mão para Sam. Sentiu-se congelar nos segundos de hesitação onde viu tanta dor tirar o brilho dos olhos de esmeralda que tanto amava. Entretanto, Sam estendeu a mão de encontro à sua. Ela sentiu aquele contato que a fazia forte, que aquecia a sua alma. Tudo se resolveria se ficassem juntas, era isto que precisavam, então, mancando, conduziu-a para longe dali.

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