Era o fim de uma tarde fresca de inverno. Sam caminhava sozinha na praia. Valorizava demais estes momentos de solidão, junto ao mar. Reparou, com ironia, que sempre se sentava no mesmo lugar, embora raramente prestasse atenção ao caminho. Com o passar do tempo deixou de se irritar com isto também. Fazia parte das coisas que não podia mudar e com as quais não tinha forças para lutar.
Simplesmente deixava seus pés escolherem o caminho e, assim como seus pensamentos faziam, eles a levavam onde podia sentir a presença de Laura.
Laura.... Seis meses sem nenhuma notícia. Metade de um ano sem ver, sem tocar e tentando desesperadamente esquecer. Mas nem com isto ela lutava mais. Já tinha feito várias tentativas, tentou se afastar de tudo que trouxesse a lembrança, correu para as coisas que a feriam, na tentativa de, pelo menos a dor conseguir afastar os pensamentos, mas nada, nada tinha este poder. Aprendeu a fingir, a não falar, a não deixar ninguém perceber quando ela sentia um calafrio no estômago por ver a morena em sua frente... E logo perceber que era apenas uma miragem, o seu desejo a iludindo.
Fechou os olhos e deixou o vento tocar seu rosto, bagunçar seus cabelos. Sentiu seu celular vibrar, olhou o visor, não podia contar a ninguém, mas também, não podia negar que uma tola e tênue esperança sempre a fazia desejar ver um único nome no display.
- Diga painho.... - falou com um suspiro.
- Oi minha princesinha! Estou te esperando para jantar, mandei fazer pizzas, das que você mais gosta.
- Não painho, não precisa me esperar para jantar hoje. Acho que vou sair com o pessoal, o Arthur me chamou, parece que as meninas vão estar lá, também.
- Que bom que você vai sair. Eu tenho que rever uns documentos, quando você chegar passa na biblioteca para me dar um beijo antes de dormir.
- Mas painho, é que hoje eu quero ir dormir no estúdio. Faz tempo que não passo por lá.
- Você acha uma boa idéia, filha? - ele falou preocupado. - Vou pedir para o seu irmão ir dormir com você lá, então.
- Não precisa, eu sei me cuidar; morei quanto tempo sozinha? Não confia mais na sua menina, não? E depois o Cássio não cuida direito nem dele mesmo.
- Sempre vou confiar em você, minha criança! Sempre! Mas não confio nos outros. Às vezes parecem ser boas pessoas, mas não passam de cretinas e,,,
- Painho.... painho! Fica tranqüilo, eu estou bem!
- Vou ficar tranqüilo, Sam, confio muito em você, filha. Se cuida, viu! E não esquece que painho te ama!
- Também te amo, beijos.
Sabia que ele não ia ficar tranqüilo, que ele iria ligar outras vezes em seu celular, que ia pedir para Cássio ficar por perto. Quando notava o tamanho da preocupação dele com ela, quase se arrependia de tê-lo procurado naquele dia, depois de ouvir a conversa entre os pais de Laura, conversa que confirmava a suspeita que a enlouquecia.
“Ela não trocaria a África dela por nada neste mundo“.
Ela própria tinha dito isto, sempre que tinha comparado um namoro com o trabalho, voltava correndo para o trabalho. Mas, ela não podia acreditar. Laura tinha dito que desta vez era diferente. “Ela me disse que ficaria sempre comigo... como a minha mãe disse.” Sam deu um soco na areia.
- Sempre a mesma coisa! Que bobagem voltar a confiar. Porque fui esperar que desta vez fosse diferente? Como pude me entregar tanto assim?
Lembrou-se dos olhos azuis onde lia tanto amor, do abraço tão quente, reconfortante, daquela despedida, se confundindo com outro do passado.
- Ah! Idiota! Idiota! Como eu pude acreditar que você sentia por mim a mesma coisa que eu sentia por você? Mas como eu conseguiria duvidar de você? Dos seus olhos? Como, Laura? Por que você não me preparou para aceitar que iria embora?
Sentiu que iria chorar, mas não sabia se ainda tinha lágrimas, cerrou os olhos com força, se deitou na areia e cobriu os olhos com a mão.
- Não vou mais chorar, eu preciso continuar a minha vida!
Queria tanto encontrar com Laura, ainda que fosse apenas para olhar nos olhos dela, para se perder neles mais uma vez e quem sabe desta forma, reencontrar sua alma.
Imaginava se algum dia pararia de doer. Esquecer, sabia que isto não aconteceria. Tinha muita coisa para se lembrar, culminando com a viagem à Espanha, tudo o que viu no apartamento de Laura!
Sam se lembrou do quanto insistiu para fazer esta viagem sozinha, logo no primeiro dia do ano, mas que seu pai não abriu mão de acompanhá-la, bem como a irmã de Laura, Lídia. Quando chegaram, souberam que Dana, que tinha comprado o apartamento, tinha ido viajar com o noivo e levado a chave, para que ninguém mexesse em nada. Com autorização de dona Carmem, Sam usou a chave que Laura tinha deixado com ela. Deixaram que ela entrasse sozinha, enquanto Lídia e seu pai foram ao apartamento da espanhola, que falava rápido e agitada.
Sam olhou o apartamento. Tão diferente do seu, mas tão acolhedor. Seus móveis rústicos e confortáveis, práticos e nobres. Caminhou solenemente até o quarto, olhou a cama, a grande janela atrás dela, por onde entrava a luz do sol. Abriu o guarda-roupa e viu que ainda continha algumas peças. Deu uma olhada rápida na cozinha, se sentou na cadeira e se lembrou de Laura contando de suas manhãs, de seus banhos, do seu cotidiano naquele lugar. Podia sentir no ar a energia dela que emanava daquelas paredes.
Voltou para a sala e se sentou na poltrona. Ficou um tempo, olhando para o que tinha evitado prestar atenção quando entrou. Naquela sala estava a constatação: ela fizera uma escolha de última hora. No sofá estavam duas grandes malas, Sam as abriu a primeira e estavam repletas de roupas. E sobre a mesa de centro, fotos de Sam de um lado, além de uma foto da família e outra só dos pestinhas, e do outro, fotos da África. De lado, uma foto de Lupe apoiada nos ombros de Laura, ambas sorrindo, Sam observou a data e viu que foi tirada no dia que Laura chegou. Por fim, sobre as fotos, parecendo selar a decisão, o celular deixado para trás, juntamente com a última mensagem que ele enviou e com o desejo de cometer uma loucura e largar tudo para viver um amor. A coluna da razão vencera a da emoção.
- Enfim conheço a famosa Sam! - falou uma morena que estava parada perto da porta, em um português com forte sotaque. - Ela não foi para você, afinal de contas!
Sam não se virou. Estava com olhos vermelhos, mãos trêmulas, rosto banhado de lágrimas tão salgadas quanto doloridas. Mas era um combate.
- Como também não ficou com você, ao que parece. - respondeu com o máximo de firmeza que conseguiu juntar, enquanto secava o rosto com o dorso da mão.
- Não, ainda não.... Mas é sempre aqui que ela volta - falou enquanto se sentava no sofá e erguia a sua foto, na tentativa de fazer com que Sam olhasse para ela.
- Você entende o que sua foto faz no meio destas outras, Lupe?
- Ah, sabe meu nome! - falou com sincera surpresa - Então ela falou em mim! - não obteve resposta da pequena mulher, que se esforçava para respirar. - Claro que falou. Esta foto, simboliza que sou importante para ela. Por isto não voltou. Eu entreguei a ela pouco antes dela sair.
- Sua foto aqui representa o que ela pode ter com facilidade, Lupe. Não é você, não sou eu. É o trabalho ou a vida - disse, alternando as mãos entre as colunas de fotos, olhava com fúria para Lupe. - e sua foto, ao lado, só representa que mesmo que escolha o trabalho, sempre vai aparecer uma migalha de vida, barata, ordinária, mas sempre uma migalha.
Talvez pelo idioma, ou pela acuidade das palavras, Lupe não teve resposta imediata. Sam se aproveitou deste momento de pasmo da morena para observá-la melhor. Não se sentia melhor que ela, nem com vantagem alguma. Sentiu pena, pois afinal das contas, ela recebera ainda menos do que ela própria. Levantou-se e foi embora, sem olhar para trás, sem saber para onde ir, nem ao menos porque ir.
Ficaram mais um dia na Espanha, porque Sam passara mal. Voltaram e Dr Rafael levou Samantha para sua casa. Ela não colocou nenhuma resistência. Trabalhou pouco nestes últimos meses, passou para outros fotógrafos o que foi possível, desistiu de seus projetos. Só pegava na câmera em raras ocasiões e o resultado era sempre sombrio e solitário. Fotos que ela não compartilhava com ninguém. Algumas vezes, de madrugada, entrava na Internet, só com um usuário desbloqueado, um usuário sempre offline. A mesma conta de orkut que nunca se atualizava.
Seus amigos tentavam sempre estar com ela, consolaram, choraram juntos, procuraram levá-la para sair, mas ela nunca aceitava, ou quando ia, ficava sempre calada, parecendo assustada com freqüência. Arthur não saia de sua casa, mas há vários meses, ficava mais com Cássio do que com ela. Exceto quando saiam, ai ele não saia do lado dela, sempre mudava de assunto quando alguma das meninas perguntava se tinha notícias. Sam notava que Arthur a exibia como um troféu, mas não achava que isto tinha importância. “Ele, ao menos sempre está lá”.
http://www.youtube.com/watch?v=3XnFW-7O2mo
Sam se levantou, não se preocupou em tirar a areia da roupa. Alcançou a calçada e, enquanto caminhava, observava o trânsito da noite. Carros velozes, pessoas caminhando. “Correr para quê? Para onde vão tão apressados, para quem correm?”. Chegou a sua moto, ajeitou o fone de ouvido, colocou a música no último para tentar não ouvir mais seus pensamentos. Colocou o capacete e, ao som de Ódio, deixou a velocidade resgatar a sua atenção. Sam adorava a sensação que sentia com a velocidade aumentando, viseira levantada para sentir o vento no rosto, a atenção aguçada, tudo passava muito rápido, perdiam as formas, perdiam o sentido. Queria um mundo assim. Sem sentido, sem tempo, sem formas. Só borrões, luzes que não significavam nada, nenhum pensamento. Só a estrada passando rápido, rápido, cada vez mais rápido.
- Documento do veículo e habilitação, por favor.
Era inevitável ser parada pelo posto policial. Frustrada por terem interrompido seu momento de paz, entregou os documentos com um suspiro profundo.
- A senhora tem noção a que velocidade estava? - o policial perguntou enquanto pegava os documentos.
- Não, senhor, não tenho. O marcador só vai até 250 Km/h.
- A senhora estava acima desta velocidade. Mais que o dobro do permitido, é falta gravíssima.... - falava enquanto preparava a multa que Sam pegou e guardou com os documentos, sem realmente prestar muita atenção ao sermão que o policial fazia.
- ...e todo mundo tem problemas, por a vida dos outros em risco não vai diminuir os seus. Pense nisto e boa-viagem.
Ela assentiu, tinha ouvido a última frase. Por a vida dos outros em risco. Desde que sua mãe tinha morrido, Sam não tinha medo da morte. Lembrou que Laura lhe contou de um pensamento mulçumano, que tinha norteado seu comportamento. “Eu me permito caminhar acompanhada pela vida e pela morte, sem temer nenhuma e nem outra, mas respeitando ambas. Quando o medo de morrer é grande, não se aproveita a vida. Quando o apego à vida é desmesurado, se corre para a morte.” Pegou a estrada de volta, agora pilotava dentro da velocidade permitida, onde os pensamentos, sem nem um pouco de vergonha, a levavam uma vez e outra e novamente para Laura, a mulher que a resgatou da penumbra dos pesadelos infantis, para depois largá-la no escuro novamente.
- Que saudade, que saudade! Puta merda, que saudade!
Quando chegou ao bar, Arthur foi ao seu encontro, a abraçou e a conduziu à mesa.
- Nossa, mona! Seu visual “rainha do deserto” está de fechar! - falou Gabriel, empurrando Arthur para poder abraçá-la. - Larga da mulher! Eu não vou querer para mim! Sem ofensas, viu lindinha! - apertou a ponta do nariz dela. - Mas meu negócio é outro!
Sam se esforçou para rir, para prestar atenção na conversa. Era até fácil,
A turma já não se reunia como antes. O namoro de Gisele e Fernanda tinha evoluído para morarem juntas, Fernanda dizia que só depois de virar morena conseguiu amarrar Gi, que não desmentia. Andréa e Virna pensavam em adotar uma criança e corriam atrás dos documentos e Gabriel cada dia mais ocupado, com seus “atendimentos”. Também, estavam magoados com Arthur, por ele os ter, deliberadamente afastado de Sam, quando ela mais precisava de presença. Ele praticamente morava na casa dos Figueiredo e sempre dava uma desculpa para que não fossem visitá-la. Eram raras as oportunidades que tinham de falar com ela sem ele monitorasse, censurasse e Sam estava apática, não reagia a isto. Virna tentava conversar com ele, desconfiava de suas atitudes e reações, porém Arthur desconversava e mais e mais afastava Sam deles.
O bar estava lotado nesta noite, tinha um grupo legal se apresentando. O tempo estava bem fresco, as conversas animadas. Sam olhava ao redor, mal notava o braço de Arthur passado em suas costas. Via as taças de cerveja sendo levantadas em um alegre brinde na mesa logo adiante; prestava atenção na música que era cantada “eu não existo longe de você e a solidão é o meu pior castigo, eu conto as horas para poder te ver, mas o relógio está de mal comigo”, a fumaça dos cigarros mais à frente, nublava o ambiente, as luzes do palco mudando o colorido do bar. E tudo parou. A música cessou, os brindes congelaram no ar, todos se calaram, a fumaça se esvaiu a luz perdeu o foco. Só exista o gelo em seu estômago que a paralisava e o par de safiras que estavam fixos nela.
Virna, que a encarava há um bom tempo, se preocupou com a súbita palidez de sua amiga. Já tinha notado isto várias vezes. Sam passava os olhos incessantemente pelo lugar procurando e, com certeza, desejando encontrar alguém específico. Desejava tanto que sempre ficava com esta expressão de quem tinha realmente visto algo, mas depois, a visão desaparecia e ela ficava muito cabisbaixa, ainda mais triste do que antes. Virna já tinha seguido este olhar outras vezes. Sempre era alguma morena de cabelos compridos, ou um par de olhos azuis, ou uma pessoa alta. Sua amiga estava com dificuldade em deixar o passado passar **. Só que desta vez foi diferente. Ela não baixou a cabeça, continuava olhando para o mesmo lugar. Virna se virou e piscou forte duas vezes. “Ou é miragem coletiva ou eu também estou vendo!” Seu movimento não passou despercebido de Andréa que também se virou e, em segundos a conversa acabara na mesa, todos olhavam para Laura em pé, a duas mesas de distância.
Arthur por reflexo, tirou rapidamente o braço das costas de Sam e ficou quase mais pálido que a loirinha. Laura o fuzilou com os olhos, mas logo voltou seu olhar para Sam, suavizando imediatamente sua expressão. Se aproximou e deu a mão para a mulher que parecia sufocar com palavras que vinham em correnteza, mas que não tomavam forma.
- Venha comigo.
Sam olhou para a mão estendida em sua direção. As firmes e machucadas mãos de Laura. Notou que não tinha diante de si a mesma pessoa que se despediu dela há alguns meses, mas que o olhar era o mesmo. Quis ficar sentada e dar ao seu orgulho, auto-estima, dignidade o direito de não se deixar levar tão facilmente. Mas juntamente com as palavras, engoliu orgulho e o que mais fosse. Simplesmente pegou naquela mão e se deixou levar.
* Historinha de faz de conta, tem passagem para a hora que o personagem quer. Os passaportes estão todos em dia, bem como as demais exigências legais, ok.
** Sam Raydon, obrigada pela inspiração.
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