Arthur ter chegado de surpresa ao aeroporto, foi a salvação de Sam. Ele ficou ao seu lado o tempo todo e procurava distraí-la, deixá-la mais calma. Falaram sobre a tortura que estavam os aeroportos no Brasil. Fizeram cruzadas, jogaram xadrez, ouviram música, comeram sanduíches, sentaram no chão, olharam para a TV, caminharam incontáveis vezes até o balcão de informações. Arthur comprou um mapa e fizeram roteiros, imaginando que Laura poderia não ter pego um vôo direto. Às vezes, com a intenção de chegar mais rápido se faz a escolha errada de conexão.
Por volta das oito da noite, depois de onze horas de espera, Sam já estava muito assustada, além de terrivelmente cansada. Tentou o celular de Laura o dia todo. Verificou sua caixa de mensagem incontáveis vezes, relendo a mensagem que Laura mandara, tentando achar algo subscrito, que indicasse que ela simplesmente errara a data.
Ligou para os Sanches, perguntou se tinham alguma informação de Laura, sem contar que a morena iria chegar, para não preocupá-los. Foi Lídia quem atendeu e disse que não, ela não tinha ligado hoje. Perguntou se tinha o telefone de Lupe, Lídia disse que não, que talvez sua mãe tivesse, mas ela não estava no momento. Sam não quis deixar recado. Ela tinha dito onze horas, quem sabe não era onze da noite a que se referia. Este pensamento tranqüilizou Sam, era óbvio que Laura estava falando de onze da noite! “Como só agora fui pensar nisto? Gênio que eu sou! Agora ela vai chegar e vou estar fedida e cansada”.
Pediu para Arthur ficar esperando ali e foi até o hotel mais próximo. Por sorte, sempre tinha uma roupa de reserva no carro, já que era comum se sujar quando tirava fotos. Tomou banho, encostou o corpo na cama por quinze minutos, mas a agitação e o sentimento de que tinha algo terrivelmente errado acontecendo não lhe deu paz. Assim, menos de uma hora depois de ter entrado no hotel, já estava de saída, levando alguns sanduíches para Arthur.
- Ei, o que foi isto? Milagre da multiplicação? Deixei o Arthur sozinho e encontro a turma toda!
- Quase toda, está faltando só a sua deliciosa morena! - falou Gisele, que era uma verdadeira entusiasta de Laura.
- Pois é! Deu chá de banco na gente, esta maluca! Custava colocar PM depois do 11, que digitou?
- Ah, vai falar que você não curtiu passar o dia no aeroporto!
- Com certeza, Arthur! Era tudo o que eu queria pra este domingão, ficar o dia sentada nestes bancos ultraconfortáveis! Foi para isto que me preparei tanto, ontem!
- Mona! Não reclama, daqui a algumas horas, você vai fazer amor com aquela deusa imensa de olhos brilhantes, boca enorme, dentes fortes. Uuui! Ela é uma loucura!
- Vou nada! Vou deixar ela de castigo por ter me feito esperar 14 horas!
- Castigo pra quem? Se tem um castigo que eu não dou pra Andréa é greve de sexo. Eu sei que vai ser pior pra mim.
- É, não faz greve, mas quando você acha que tem razão é bem violentinha, viu dona Virna.
- Violenta? Ai, como é que é isto, mulher! Me conta tudo, que eu gosto de uma violência de vez em quando!
Enquanto Gabriel se sentava entre Andréa e Virna para adquirir novas técnicas, Arthur se aproximou de Sam e disse que o pessoal ligou perguntando onde estavam, ele contou e eles vieram. Sam não achou ruim, afinal a conversa estava ajudando a não ficar mais nervosa. Tinham levado violão, baralho, cerveja e uns aperitivos.
- Que bando de farofeiro! Daqui a pouco o pessoal da TV vai filmar vocês, eles andam doidos atrás de imagens de demora em aeroporto. - Gabriel imediatamente tirou um pente do bolso e espetou mais seus cabelos.
- Se eu ficar famoso, ai ninguém me segura! - falou erguendo os braços.
Enfim, duas horas se passaram, mas a única notícia que chegou foi de que todos os vôos nacionais estavam atrasados. Tinham parado de cantar para ouvir a notícia. Mas, percebendo o desânimo de Sam, voltaram imediatamente a cantar.
- Droga! E eu nem sei por onde ela está vindo!
- Calma, Sam! Nossa primeira noitada no aeroporto, a gente tem que aproveitar.
Mas Sam estava longe de estar calma, ainda mais quando o relógio, mesmo se arrastando, já mostrava números tão distantes da hora esperada. Vôos chegavam e, a cada um, alguém a acompanhava inutilmente até o portão de desembarque.
Sete da manhã e ela desistiu de esperar ali. Já fazia duas horas que Gabriel tinha levado as meninas embora. Arthur cochilava no chão. E ela achou melhor tentar descobrir o que tinha acontecido. Diversos vôos tinham chego do Rio e São Paulo. Se Laura tivesse feito conexão estaria em um deles. Passou a noite correndo os olhos para a tv, sentindo calafrios sempre que aparecia algum noticiário e se acalmando logo que via que estava tudo em paz nos céus. Nenhuma notícia sobre aviões, para seu alívio.
- Sam, acho melhor eu ficar com você. Se te conheço bem, você vai querer revirar o mundo até achar a sua garota. Vou te ajudar que ai você só precisa procurar em meio mundo.
- Não sei por onde começar, Arthur. E vou querer sua ajuda sim, mas não agora. Agora você vai pra sua casa, vai tomar banho, dormir e....
- Não, Sam, eu dormi o suficiente lá, vou te ajudar a procurar.
- Vai pra casa, Arthur. Eu vou descansar um pouco também.
- Certeza? Você está bem?
Ela não respondeu, só se deixou abraçar. Mas quando sentiu que suas forças estavam se minando, o empurrou com delicadeza.
- Quando eu acordar, te ligo.
Arthur saiu e Sam desabou no sofá. Estava exausta, tinha andado uma maratona dentro do aeroporto, sentado naquelas poltronas terríveis, mas o pior era não saber o que tinha acontecido.
Ainda era muito cedo para ligar para os pais de Laura. Com os olhos fechados, juntou forças para tentar mais uma vez o celular de Laura. Nada. Ficou deitada no sofá, na mesma posição por alguns minutos, que pareceram séculos. Mal teve tempo de dormir e pulou assustada, coração disparado. Ouvia sua própria voz, em uma conversa recente.
“Acho bom mesmo! Mas não mude de assunto, mocinha. Ainda quero saber como você dava foras.“ “Técnica masculina. Rápida, prática e indolor. Eu ia para a África e quando voltava já não tinha mais recados na caixa de entrada.”
- Não! Nem pense nisto, Samantha Figueiredo. NÃO! Eu não vou pensar nisto! Comigo é diferente!
Mas não podia negar o frio no estômago e o coração disparado. Nem ao menos podia evitar que a lembrança continuasse.
“Ah, eu não ia agüentar aquelas carinhas desesperadas, querendo um pouco mais da deliciosa e habilidosa morena de um e oitenta.”
- Ela não faria isto comigo! Ela não fez isto comigo!
“Pode acreditar, eu fiz muito por elas enquanto ficamos juntas, mas depois, a sensação de vazio, a vontade desesperada de fazer algo de útil, sempre que comparei um namoro com o meu trabalho, descobri o quanto sou apaixonada pelo que faço.”
- Meu Deus, Laura! Você não fez isto comigo, eu sei que não! Eu sei que você sente por mim o mesmo que eu por você! - Sam falava baixinho, enquanto era assaltada por lágrimas que contradiziam a fé que demonstrava em palavras.
- Ela não me ligou! É isto! Ela disse que sempre deixava um recado na secretária.... -
Olhou para o telefone de sua casa e viu a luz da secretária piscando. Desta vez, parecia que ia congelar inteira. Ficou alguns segundos olhando aquela luz infame piscando. Uma parte de si querendo correr até lá e descobrir sobre o recado, outra parte a grudando no chão, como se ela fosse só uma peça de concreto.
Pânico, sentimento até então desconhecido para a valente loira que desafiou a tristeza de uma infância desprotegida, a solidão que a perseguiu a vida toda. Agora não se sentia valente, tinha medo de conferir suas mensagens e descobrir que seu sonho de felicidade era feito de fumaça.
Hipnotizada pela luz intermitente, conseguiu se aproximar do telefone. Esperou o silêncio se fazer dentro de si. Fez calarem todas as vozes. Olhou para a tecla, aproximou seu dedo dela e, decidida, a apertou.
“Samantha, não está em casa mesmo? Avisa o pai daquela moça que painho resolveu ir passar o Reveillon lá. Pode confirmar minha presença também.”
Havia mais 3 mensagens, uma de seu banco, desejando boas-festas, uma de Arthur, perguntando se ela já havia ido ao aeroporto e outra do pai de Laura.
“Oi Sam, aqui é o ... droga, ela vai rir do meu nome. Calma, mulher, você quis que eu ligasse, agora fica quieta... vou começar de novo que ela não está entendendo nada. E a Laura deve estar do lado dela rindo do pai. A Laura ligou, ela está ai com você?”
O bip cortando o recado foi recebido com desespero pela loirinha. Ela chacoalhou o aparelho, apertou a tecla novamente e, no desespero para ouvir novamente o recado, acabou o apagando.
- NÃO! Droga, droga!
Correu até sua bolsa, a virou de cabeça para baixo para achar o cartão da pousada. Normalmente saberia o número, mas no estado em que estava, se vangloriava por saber que o cartão estava na bolsa.
- Bom dia, o senhor Geo está? - falou atropeladamente.- Dona Letícia? Não, eu queria falar com algum dos proprietários. É Sam. Pode ser com ele sim, obrigada.
- Madrugou, cunhada?
- Oi Lê! Nem dormi, para falar a verdade. Os seus pais não estão por ai?
- Não! Eles foram ontem para a Aldeia e só voltam à noite. É um ritual de acasalamento pra terminar o ano quente!
- Você sabe se a Lau ligou? O seu pai deixou uma mensagem meio estranha para mim, não entendi muito bem.
- Nem pessoalmente dá pra entender o “Geo”, quem dirá por telefone. Espera ai, estou vendo a agenda. Quando tem algum recado é aqui que marcam... não, não tem nada não.
- Arr ! - deixou escapar - Lê, eu preciso falar com a Laura, mas o celular não está atendendo, você tem o número das espanholas?
- Pelo tom da sua voz, eu já estava procurando. Aconteceu alguma coisa? - Sam ouviu as folhas serem viradas com força, bem como o tom de voz preocupado dele.
- Não... - hesitou um pouco e resolver falar - na verdade, não sei. Ela disse que chegaria ontem, mas não veio e não consigo falar no celular, não deixou nenhum recado para mim.
- Não deixou, que bom! Ufa! Até assustei agora! - falou com perceptível alívio.
- Por que isto, Lê? Confesso que estou mais preocupada.
- Nada não, eu gosto de você, cunhadinha. Olha, eu não achei aqui, mas sei que a dona Letícia, aquela mulher que se nega a anotar em agendas, tem.... em algum lugar. Vou procurar e se não achar ligo pra ela, pode ser?
- Se você prometer que não vai demorar....
- Não, não demoro não. Já te ligo e Sam... fica calma! A Lau não sumiria assim... não sem deixar nenhum recado.
- Ok. - foi tudo o que Sam conseguiu responder. Sabia muito bem o que ele estava falando.
Não restava nada a fazer por hora. Sam decidiu tomar um banho e tentar descansar. Queria ter energias para brigar com Laura quando ela chegasse, queria xingar muito, sentia vontade de esganá-la neste momento. Mas, sobretudo, queria ela perto o suficiente para poder fazer isto.
Tomou seu banho em silêncio, sentia o corpo pesado. Mediu cada passo para chegar à sua cama; olhou para ela. Tão arrumada, as pétalas que tinha jogado no dia anterior, já tão escurecidas, contrastando com o tecido branco. Resignada, ergueu a colcha para retirar as flores e se deitou, deixando seus olhos fecharam com o peso do cansaço.
Uma hora de sono agitado e o som do telefone a despertou completamente. Pulou da cama e correu para a sala.
- Oi!
- Oi Sam, não achei o número aqui. Meus pais também estão incomunicáveis. Devem ter desligado o telefone, aqueles pervertidos!
- E agora, Lê? Eles estão em Aldeia? Você sabe onde é?
- Sei.... mas...
- Eu entendo que é importante pra eles, mas pode ter acontecido alguma coisa, ela pode estar precisando de ajuda e..
- Ta! Tudo bem, fica calma. Vamos fazer assim, eu passo pra te pegar e nós vamos lá falar com eles, pode ser?
- Ótimo, te espero lá embaixo... e Lê, eu já estou descendo.
- Tudo bem, vou colocar a capa vermelha e num piscar de olhos estou ai.
Sam trocou o chip de seu celular, deixou o outro carregando, vestiu a primeira roupa que encontrou e desceu para esperar por outro Sanches, desta vez não teve que esperar muito.
- Que maquiagem esquisita é esta que você está usando? Ta parecendo um furão. - Ele comentou, quando pararam em um semáforo e ele quis descontrair sua acompanhante.
- É uma sombra chamada “noite acordada no aeroporto”. Efeito garantido.
- Ah, eu sei como funciona. No carnaval uso umas destas, só que no pescoço. Chama “orgias múltiplas carnavalescas”.
Sam riu, Leandro era um rapaz muito descontraído, porém responsável, como toda a família de Laura. Ele perguntou do recado que Laura deixou para ela, concordou que ela poderia estar mesmo falando em onze da noite.
- Quando ela mandar mensagem de novo, falando coisas como “na hora do almoço eu te pego”, pergunta almoço de que dia. Ela vai se sair com esta, pode esperar. - ele falou enquanto estacionava.
- E agora, temos que achar os seus pais. Vamos Leandro...
- Ai! Dói em mim pensar ... - ele estava com uma expressão de dor no rosto.
- O que? O que foi?
- Calma, mulher! É ... meus pais... não sei se quero olhar para eles agora. Sabe... meu pai está comendo minha mãe.
- E?
- Tem noção de que isto é horrível de se pensar? A minha MÃE!
- Oxi! Tu não pode ser normal! - mas vendo que ele realmente resistia à idéia de prosseguir, ela o liberou - fica ai, cuidando do carro, eu vou sozinha.
- Ah, obrigada! Por isto que gosto de você, vai lá! Também estou ficando preocupado.
Sam foi e logo localizou o casal. Estavam tomando café tranqüilamente na varanda. Arregalaram os olhos quando viram Sam, caminhando em direção a eles.
- Ah, oi Samantha! Bom dia! - Geo, levantou para abraçá-la.
- Que coincidência você aqui! A Laura está com você? - perguntou Letícia, dando beijinhos no rosto de Sam.
- Não... pois é, vim perguntar dela para vocês. - ao ver o olhar de interrogação deles, prosseguiu - O senhor me ligou ontem e eu não entendi direito o recado. Depois acabei perdendo a mensagem antes de ouvir de novo.
- Ah, não se preocupe! É normal isto acontecer!
- É! O pior é que é verdade. A Laura ligou e não deu pra entender o que ela estava falando, a ligação estava péssima, eu só ouvi seu nome, ai a palavra “vôo” e depois ”sumidão” ou era “suadão”, ai caiu. Como ela falou em vôo e Sam, logo conclui que ela estaria com você.
- Era pra estar. Ela disse que viria ontem, mas não chegou.
- Oh... mas... Laura não é de fazer isto! - a mãe dela falou assustada.
- Ela disse que viria? Você... ahn... você checou sua secretária eletrônica?
- Chequei, não tinha nenhuma mensagem dela.
- Ainda bem! - falaram os dois em uníssono.
- Eu pensei em ligar para as vizinhas dela. Talvez saibam de alguma coisa.
- Isto! Talvez a dona Carmen tenha ido novamente ao hospital! É só pode ser! Eu tenho o telefone delas, está...
- Todo mundo tem seus defeitos... - Geo falou baixinho para Sam, enquanto Letícia corria para dentro para olhar em sua bolsa - ela é incapaz de anotar os números em agendas, marca no primeiro papel que acha e depois nem sabe de quem é!
- A Laura disse que tem problemas com números de telefone, também!
- Pois não é! - ele falou erguendo a mão, se lembrando desta peculiaridade de sua filha - A bichinha tem uma memória habilidosa, mas é incapaz de guardar números de telefone. Puxou a mãe nisto.
- As famosas habilidades dela - Sam baixou a cabeça e sorriu.
- Não se preocupe. A Laura, depois que ganhou aquela câmera, deu tanta dor de cabeça pra gente.
- Ah é? Ela era novinha quando ganhou a câmera, não era?
- Ela não tinha dez anos ainda! Na verdade, esta menina nunca foi de parar muito em casa. - ele se inclinou e ergueu os olhos, para se lembrar. - a danada não saia da casa de umas amiguinhas.
- Ela já me contou estas histórias, Ju... Ju alguma coisa. - Sam estava mais calma.
- Isto! Ju alguma coisa! Esta mesma! Só que depois que ela ganhou a máquina, a menina mudou! Ela ganhou um prêmio lá na escola e eu fiquei todo orgulhoso dela! Mas ela não ficou, ela olhava estranho para aquele diplominha que fizeram. Um dia ela me contou que aquilo era um lembrete para ela. Um lembrete que o mundo não era perfeito! Vê se isto é assunto de criança! Os pestinhas não querem nem saber! Se o mundo não é perfeito eles querem é acabar de quebrar!
- Nem fale nestes meninos, Geo! Se falar é capaz deles aparecerem na nossa frente. Está aqui, filha! Eu demoro, mas acabo achando.
- Ah, muito obrigada! Eu vou ligar já!
- Você fala espanhol? Elas falam muito rápido é difícil de entender.
- Nossa! Nem pensei nisto. Não falo, a senhora pode falar com elas, então? Pode ligar do meu celular.
- Não, imagina, só vim buscar o meu - pegou o seu celular sobre a mesa e se virou para dentro do apartamento - eu vou lá e ligo enquanto vocês continuam a conversa.
- Eu vou com a senhora...
- Não! Eu me atrapalho com qualquer barulhinho, elas falam muito rápido, estas espanholas, é melhor... Geo, continua contando seus causos para a menina. - Entrou e fechou a porta, deixando Sam boquiaberta.
- Não liga, não! Ela sempre quer saber de tudo primeiro. É melhor você sentar aqui. Fica tranqüila, ela já vem.
Sam se sentou. Mais zangada, muito mais zangada do que tranqüila. Ela estava desesperada por notícias e agora, que poderia saber de alguma coisa, tinha que ficar afastada! Teve vontade de falar que Laura nem ia contar para eles que viria só para ela.... Laura estava vindo para ela. “Pena que ela não chegou...“ . Ela queria ouvir a conversa, mas o sogro falava sem parar.
- Mas, como eu estava te contando, ela ficou muito inquieta, não parava mais em casa, saia cedo e só voltava à noite. Nós pegamos no pé dela, cheguei a seguir, mas ela é danada! Só falava para a gente confiar nela. Acabou arranjando um monte de encrenca! Suspeito que nem soube de todas...- falou olhando para os pés - Até que um dia, resolvemos confiar mesmo. Porque senão ficaríamos loucos! Ela sumia, mas voltava, às vezes machucada, sem nunca reclamar. Ela entrava em rolo e saia sozinha. Uma menina notável!
Sam ouvia com metade da atenção. Adoraria estar tendo esta conversa em uma situação mais agradável, queria fazer inúmeras perguntas, mas, no momento, o que precisava saber é o que dona Letícia falava ao telefone. E saberia já, porque ela estava voltando.
- Tenho uma boa e uma má notícia.... - sem esperar a escolha, prosseguiu - a boa é que a dona Carmem está bem! A má é que elas não sabem da Laura. Só que ela saiu pra viajar.... não sabem para onde.
- Não se preocupe, Sam - Geo pegou na mão dela para amparar, assustado com a palidez que se acentuou - Faça como nós, confie nela, ela some, mas aparece depois.
- Com certeza teve algum serviço urgente que apareceu e... - se assustou com o olhar que Sam lançou diante destas palavras - ... bem, as espanholas vão ligar se ela aparecer.
- A senhora pediu para elas procurarem por lá? Tem como saber se ela foi até o aeroporto? Não acredito que não estejam preocupados! Ela sai de casa para pegar um avião e não chega!
- Eu ...bem, nós vamos tentar saber, vamos ligar para a companhia. Você deveria ir para casa, está parecendo cansada.
- É eu vou. - Sam falou irritada, se levantando rápido e saindo de perto dos sogros, que no momento queria esganar.
Ela virou as costas e Letícia praticamente empurrou Geo para o quarto. Lá dentro, contou o que não falou para Sam.
- Acho que ela deixou a menina!
- De novo! A Laura não pode ficar firme com ninguém, não? Esta menina é tão boazinha, tão ... especial! Por que você acha isto?
- Por que ela deixou metade das coisas dela no apartamento. Se ela quisesse voltar, seria de vez, traria tudo. Deixou o celular lá, inclusive, eu pedi pra Lupe ir procurar alguma pista no apartamento.
- Mas por que ela não ligou, se queria terminar? Ela sempre liga!
- Acho que ela não teve coragem, devia estar gostando mesmo desta menina. Mas nunca acreditei que a nossa filha fosse largar o serviço que faz; você sabe, ela ama isto! O recado que ela deixou pra você deve ser isto. Pense bem, ela falou Sam e falou... Sudão! É isto, ela foi para o Sudão.
- Ah! Faz sentido, estava com muita interferência, a ligação, mas ... é, ela falou Sudão! Mas que trapalhada ela foi nos meter! Ela não trocaria a África dela por nada neste mundo, mesmo!
- Mas e agora, o que a gente vai fazer com a Sam, como a gente vai contar para a moça, ela estava crente que a Laura ia largar tudo por ela!
- Ela está agitada, eu tive que contar umas histórias lá para ela esperar; notei que você queria fazer a ligação sem ela ouvir. Como vamos contar?
- Não sei! Ela parece muito com a mãe! Quer tudo do jeito dela, quer tudo certinho, acha que entende de tudo, que conhece mais a Laura do que nós!
- Querida, não deixe sua implicância com a Jackie atrapalhar sua visão!
- Implicância! Aquela mulher... ela, ela mudou minha vida, eu poderia ser uma artista reconhecida!
- Ela só fez uma crítica do seu trabalho! Era o trabalho dela e, convenhamos, minha linda, não foi uma crítica destrutiva, não se atormente mais com isto. Você sabe o valor do seu trabalho. E acho que poucos o admiravam mais do que ela.
- Nós vamos começar o ano brigados, Georvalino!
- Tudo bem, não precisa apelar! Não falo mais! Só estou muito preocupado com.......Samantha! - ao se virar, Geo encarou Sam olhando para eles, com lágrimas por todo o rosto. Mas foi uma visão rápida, tão rápida quanto ela conseguiu correr para longe dali.
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