segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Capítulo 11

Os dias frios que antecederam o Natal na Espanha, foram também de negociações complicadas para Laura. Não era tarefa simples se desvincular da ONG. Tentaram persuadi-la de todas as formas. Principalmente Pierre, o braço direito do Sr Olivier de Morens, mentor de Laura. Ele tinha participado de seu recrutamento e sabia o quanto ela era valiosa não apenas para a organização, mas para seu velho amigo. Argumentou com Laura que ela não poderia tomar uma decisão enquanto Olivier não tivesse voltado. Ela devia a ele uma explicação.

Enfim, após alguns dias de conversa e Laura tentar, inutilmente localizar seu mentor na África, chegaram a um acordo de que ela continuaria prestando serviços para a organização, mas em outra frente. Iria começar fazendo um trabalho sobre a transposição de um importante rio brasileiro, que dava indícios de só beneficiar latifundiários, apesar da campanha ser feita sobre pessoas carentes de água.

Outra tarefa cansativa estava sendo tentar evitar Lupe. Já tinha aceito o pedido de desculpas de Su, mas a irmã do meio só se aproximava dela para se jogar em seus braços, literalmente. Laura chegou a sair de lado e deixá-la cair, mas isto não a impediu de continuar tentando e se insinuando, cada dia mais zangada, principalmente depois que perdeu a irmã como aliada.

Laura falou com Dana sobre sua decisão de voltar ao Brasil, da nostalgia por estar se afastando de um trabalho que se orgulhava por ter feito e, enfim, falou sobre seu interesse em estar vendendo o apartamento.

Percebeu que a espanhola ficou sinceramente feliz quando lhe falou do amor que sentia, de como tinha sido recebida. Contou que quase se perderam no aeroporto, mas que a menor dúvida que tinha desapareceu quando olhou para os olhos de Sam, sentiu sua pele, quando a puxou para sair da confusão.

Disse que nem mesmo ela entendia o motivo de ir direto para a casa da loirinha, sem nem ao menos perguntar se podia. Simplesmente sabia. Sabia que tinha encontrado um amor e que era correspondida da mesma forma. Tudo muito rápido, porém, muito concreto.

- Você parece estar mais surpresa com isto que está vivendo, do que eu que estou só ouvindo, Laura.

- Estou mesmo, Dana! Imaginei que chegaria ao Brasil e nós iríamos nos conhecendo melhor. Pensei em ficar nos meus pais e nos vermos. Acredita que ela nunca levou ninguém na casa dela?

- Ninguém? Mas ela...

- Ela já ficou com algumas pessoas. Não é nem um pouco ingênua... ainda bem! - acrescentou com um sorriso. - Mas, nunca namorou.

- E de repente, você chega com mala e cuia!

- Não tinha nem mala, pra falar a verdade, só levei uma bolsa pequena. - falou para zuar a espanhola, levando um tapinha no braço, como castigo - Mas foi isto, no final das contas, cheguei e fiquei lá, com naturalidade, não me pareceu racional ir a outro local.

- E qual foi a reação dela pra isto?

- Ela me fez sentir em casa. Levou minha bolsa para o quarto e nunca falou “minha casa”, mas nossa. É isto que me comove, sabe! É um sentimento tão natural, nós somos tão cúmplices nisto, parece que nos conhecemos há séculos.

- Pronto! Vai chorar agora não! Vai destruir a imagem da Laura forte que eu tenho!

- Que chorar o que, sua míope! Eu ando meio sensível, por causa da TPM - falou Laura, enquanto se dirigia à cozinha para buscar mais chá.

- E quanto ao apartamento? O que a minha personal corretora indica?

- Neste ponto estou é vibrando por você voltar para sua terrinha!

- Sua ingrata! Então está feliz por eu estar indo embora!

- Ingrata é você, estou resolvendo um problemão pra você e ainda reclama. Eu mesma vou comprar este apartamento.

- Ah, mas me conta! Estar comprando casa significa que o Alejandro quer mesmo... - Laura ficou repentinamente, muito empolgada

- Casar! Pois é, ele conseguiu uma transferência para cá, pediu para eu procurar uma casa. E eu disse que agora não dava porque é preciso cuidar da minha mãe. E ele disse pra eu ver se não tinha algum apartamento aqui no prédio mesmo. Mas aqui você sabe como é difícil.

- Difícil vai ser você estar casada e morar ao lado da sua família.

- Já pensei nisto. Eles são.... quer dizer, nós somos um tanto quanto...

- Espanhóis - Laura ofereceu com um sorriso. - Faz parte desta cultura uma família muito próxima, preocupada. Eu sei, porque é minha ascendência de pai e mãe.

- Tudo tem que ter um conselho de família! Mas nós entramos na sua casa como se fosse o quarto de uma irmã.

- E seu marido não vai gostar que entrem de sopetão na casa dele, não é?

- Mas eu já pensei nisto. Pensei em ficar com este apartamento enquanto não nos casamos, porque eu vou poder entrar aqui direto. E além disto, posso namorar e não descuidar da minha mãe sem esforço. Quando estiver perto do casamento, ai vejo uma troca. Sempre tem alguém dos andares de baixo querendo subir, ou alguém de cima que não agüenta pagar e quer descer.

- É mesmo, já me ofereceram várias vezes.

- Está vendo, e em andares diferentes, de preferência mais distantes, ficamos mais preservados.

Laura riu, não acreditava muito nisto, mas por hora, resolvia tanto seus problemas como o de Dana e Alejandro. Combinou que deixaria toda a mobília, só ia levar os bibelôs que tinha trazido de suas viagens à trabalho em várias partes do mundo e, claro, suas fotos.

Em seu íntimo ficava feliz por seu apartamento passar para uma amiga. Gostava dele, mesmo muito mais simples que o de Sam, era aconchegante e prático. Gostaria que Sam o visse enquanto ainda é meu, garanto que eu ia gostar mais dele com a presença dela. Porque ela deixa tudo mais clarinho com aquele cabelinho de ouro passeando agitado, e deixa tudo mais emocionante com a eletricidade e ... puts, como eu amo esta guria.

****

Na véspera de Natal, Sam ligou para Laura e descobriu que ela não poderia mesmo vir tão cedo, ainda tinha uma documentação para cuidar. Leu para ela o convite formal que recebeu para a ceia na casa de seu pai, e que ficara tentada em recusar para poder aceitar outro que recebeu, via telefone, de dona Letícia, “sua sogrinha do coração”.

- E qual festa você escolheu ir?

- Não é uma questão de escolha, tenho que ir na de painho. Nossa família somos só nós três, se eu falto é 33% de abstenção.

- Nossa! Na festa de meus pais vêm todo mundo, quando não juntam os hóspedes. Acho que não sou 1%. Em termos de quorum, você ganha disparado de mim.

- Parece que este ano o pessoal da turma vai para lá. O Gabriel você sabe, sozinho ele é uma escola de samba inteira. E as meninas...

- O Cássio sabe que elas são casais? Me ocorreu agora que ele vai ficar todo ouriçado com tanto gay na casa dele.

- Deve ter comprado desinfetante para passar em tudo depois.

- Puxa, eu queria passar este Natal ai! Teve um ano que passei na África. Em alguns países você já sente muito forte a pasteurização, sabe, como na África do Sul, por exemplo.

- Ah, é? Já foram tomados pelo “espírito consumista do Natal”?

- Alguns sim, principalmente nas grandes cidades. Mas mesmo assim, ainda tem muito mais colorido por lá do que no resto do mundo. As pessoas ainda são muito mais do que meros consumidores.

- Laura, você tem noção de quantas vezes falou na África estes últimos dias? Não que eu não goste - emendou quando percebeu a reticência do outro lado da linha - só estou achando que você está com saudade.

- É que são as minhas memórias, Sam. É isto o que eu tenho para falar.

- E eu gosto muito disto, você sabe, não é? Sempre admirei o seu trabalho. Só....- respirou fundo antes de continuar - você não está arrependida pela opção que fez?

Laura pensou por alguns instantes. O que não foi passado despercebido. Tinha pensado nisto tantas vezes e a cada vez tinha mais certeza do que queria.

- Não Sam, não me arrependo nem um pouco. Já fiz o que eu podia ter feito.

Sam notou que a voz de Laura tinha ficado embargada. Como não estava vendo seus olhos, não soube que era de emoção, a estranha emoção que tomava a morena de assalto em algumas ocasiões, a enchia de amor e a deixava sem saber como respirar. Ao invés disto, considerou que sua amada estava muito triste por ter que decidir entre dois amores.

- Você está com meio coração...

- Romântica esta imagem - Laura respondeu após um suspiro.

****

Os amigos de Sam chegaram juntos na casa do Dr Rafael. Arthur e Cássio os receberam, visto que Sam conversava com seu pai na Biblioteca.

- Eu só não quis incomodar vocês com estas coisas bobas. Sei bem que época de declaração é corrida no escritório. - Sam falava com um sorriso amarelo.

- Não me incomoda em absoluto, Samantha. Você pode ir juntando os seus documentos conforme eles chegam e trazer aqui para nós. No primeiro dia nós já entregamos sua declaração e você recebe a restituição mais rápido.

- Não se preocupe, painho. Eu nem vejo os papéis, o escritório de contabilidade faz tudo pra mim. Quem foi que pintou esta tela da mamãe? - Mudou de assunto rapidamente, se encaminhando à tela que sempre esteve na Biblioteca.

- Uma artista que não pinta mais, daqui mesmo da cidade, era muito amiga da sua mãe. E quanto ao imposto, este ano eu vou fazer o seu pessoalmente, quero ver o uso que você vem fazendo da mesada que vem recebendo.

- Ai! - Ela não pode conter a sensação de estar em uma enroscada, até que algo chamou sua atenção. - Olha só! Foi a mãe da Laura quem pintou este quadro!

- A mãe da.... ah, é? Elas eram amigas antes de sua mãe se tornar crítica de arte. Depois, os amigos dela deste meio se afastaram. E onde está a Laura?

- Na Espanha, resolvendo uns assuntos dela.

- Mas ela vai voltar? - Dr Rafael se sentou em sua poltrona e, para espanto de Sam, a puxou para seu colo.

- Acho que para passar o Ano Novo com a gente.

- Você gosta mesmo dela, não é?

- O senhor também parece ter gostado, eu não esperava um escândalo, mas um pouco mais de resistência.

- Ah, eu gostei sim. Ela deixa o seu irmão doido! E depois, sua mãe me preparou para este tipo de notícia, um pouco antes de morrer.

- Mainha achava que eu era lésbica com menos de 10 anos?

- Não! - ele riu com gosto - Nós estávamos discutindo sobre o Cássio naquele dia.

Sam estava boquiaberta. Não imaginava que seus pais tinham tido este tipo de conversa. No entanto, o barulho que podia ouvir da vindo da sala, indicava que sua turma já tinha chego,

- Vamos lá receber os convidados, filha. Outro dia te conto o resto da história. - Ele falou a erguendo com delicadeza.

- Mas com toda certeza! Vou mesmo querer saber disto. E quero saber também sobre a amizade de mainha com a mãe de Laura. - Disse enquanto caminhavam juntos para a sala.
Apesar de achar que a presença de Laura teria feito aquele Natal ser muito mais especial, Sam não podia negar que foi o melhor em muitos anos. Em mais de uma década, com toda certeza.

Cássio tinha feito uma programação muito formal, inclusive para a ceia, porém seu pai quebrou as formalidades, permitindo música para que “as crianças” dançassem, durante a refeição puxou assunto com todos, imitou Gabriel dizendo que “homem tinha sua utilidade”, quando foi convidado a cortar o peru, o que provocou muitos risos.

Cássio que a princípio ficou meio alheio ao perceber que as amigas de sua irmã eram casais, logo se soltou, tanto quanto era possível. Arthur ficou ao lado dele, tentando fazê-lo se enturmar. Sam olhava a cena e se lembrava do que seu pai tinha dito. Isto, aliado às dezenas de brindes que fizeram e à inconfessável alegria que estava sentindo pela conversa com seu pai, a fazia ter acessos de riso.

- Lau! Eu to rindo feito hiena!

- Eu acho que prefiro o Garfield. Nossa que pessoal animado!

- Amor eu acho que meu irmão gosta do Arthur e mainha foi amiga da minha sogra e meu pai me pegou no colo e depois imitou o Gabriel e...

- Calma ai, respira... quantos brindes vocês fizeram? - Laura perguntou sorrindo, notando que falava com uma hiena embriagada.

- Uns trocentos e dois, pelo menos. - ouviu Laura rir e perguntou - e você ficou sozinha mesmo, delícia?

- Antes só do que mal acompanhada. Delícia? Taí, pode me chamar assim!

- Eu não falei isto, você entendeu mal!

- Falou sim, embora talvez amanhã você não lembre disto.

- Ah, nem é! Só estou meio alta...

- Jura! Queria ver você alta, vai doer menos minhas costas.
- Lau - falou com voz doce, deixando passar a provocação - Você vem passar o Ano Novo aqui mesmo? Eu convidei painho e até o Cássio pra ir lá nos seus pais.

- Falando deste jeito eu quero ir é hoje! E se a gente passar o dia 1º juntas, vamos ficar juntas o resto do ano?

- Indubitavelmente! - Sam falou enrolando a língua, ouviu Laura rindo do outro lado - E eu quero te dar o primeiro beijo do ano, pra te beijar o ano inteiro.

- Se for assim, meia-noite a gente tem que dar uma fugida do povo pra...

- Laura, tarada! - um segundo de silêncio e Laura ouviu Sam falando longe do bocal - Por que esta cara, Cássio? Você viu que ela é gostosa, sorte minha que é tarada...- voltou a falar no bocal - foi embora o mauricinho enrustido.

- Você acha que é isto mesmo? Não me pareceu não. Ele só é um menino meio perdido, solitário.

- Ah, Lau, sei lá! Você sabe que os meninos são cheios de ficar de brincadeirinhas entre eles. Podem até falar que não comem alface de jeito nenhum, mas quando não tem ninguém olhando eles comem é a plantação toda.

Laura riu muito com aquela ligação, Sam estava muito alegre, provavelmente pelos brindes, mas com toda certeza, a mudança de comportamento do pai dela tinha ajudado muito. Se sentia feliz por estar fazendo parte das mudanças na vida deles. Tanto tempo onde o medo falou mais alto que o amor. Tanto tempo de carinho não feito, de solidão desnecessária. Sabia que tudo dependia da boa vontade deles em mudar e, pelo que podia notar, isto existia.

Um texto que tinha lido naquele dia*, (já que era uma internauta convicta, destas que vasculham blogs de estranhos), em um blog que gostava muito, falava em solidão, destas que não machucam. “... e uma das formas da solidão, é nem sequer nos sentirmos sós”, estava sentindo isto neste momento, mesmo estando só em sua casa, fazendo seu próprio café, sentia seu peito tão cheio de amor, que já não era sozinha. “Partilhamos tardes serenas com um amor, daqueles que nem sempre precisa de palavras, daqueles que nos faz olhar mais longe e perceber que a vida também é isto. Também é silêncio, também é paz.”

(* Texto extraído do Blog Mulher de 30:
http://mulherde30.blogs.sapo.pt/arquivo/1078799.html )

**********

No dia de Natal, dona Carmen fez questão de voltar para sua casa. Não abria mão de fazer a oração do almoço com sua família, ainda mais que “sua família andava precisando de muita oração”. Laura não recebeu o convite habitual, ao invés disse foi almoçar com Pierre, que não deixou de tentar convencê-la a não se mudar para o Brasil.

No final da tarde, Laura estava entrando no apartamento, quando uma assustada Su disse que sua mãe queria conversar com ela. Laura guardou a chave de volta no bolso de seu casaco e foi para o apartamento. Caminhava como quem vai para o matadouro. Ao abrir a porta, encontrou a família Martinez, pai, mãe e filhas, reunidos na sala. Lupe tinha os olhos vermelhos e Dana estava toda vermelha. Dona Carmem, sentada em sua poltrona ligeiramente reclinada, com uma coberta sobre ela, passou à Laura a impressão de soberania. Era a matriarca assumindo a defesa de sua prole. Uma cena bonita de se ver, caso não tivesse certeza que estava indo para um julgamento. O seu próprio.

- Feliz Natal, para todos. - cumprimentou com um meio sorriso, tentando com a alusão à data, desarmar os espíritos.

- É o Natal mais trágico desta família! Se é que ainda temos aqui uma família! Parece mais um bando de selvagens com interesses contrários, que só sabem desrespeitar as leis da moral e da igreja! - a resposta desfez a esperança do espírito natalino falar mais alto.

- Vai começar de novo, mãe? - Dana rebateu irritada.

- Está vendo, dona Laura, o que você fez para nós? O que fizemos para você ter tanto ódio de nossa família? Para semear a discórdia entre nós? - a face enrijecida, enquanto vomitava sua fúria, entristeceu, mas não surpreendeu Laura que escutou calada e em pé uma série de perguntas que, sabia bem, estiveram atormentando dona Carmem durante toda a semana.

- Dona Carmem, lamento profundamente que a senhora veja a situação desta forma. Em nenhum momento tentei desrespeitar sua família, que sempre me acolheu e aceitou...

- E você fez mal uso disto! Não é porque eu aceitei sua anormalidade você tinha que transformar minha filha nisto também! Minha família está desonrada!

A frase surpreendeu Laura, que arregalou os olhos, tentando entender. “Pronto, e agora esta! Só falta dizer que desonrei a filha dela e querer que eu case!”. A idéia lhe deu vontade de rir e teve que baixar a cabeça para não fazê-lo. “Se concentra, vamos, pense. Cenas de guerra, capítulo 13 de Honra e Coragem, vai, você consegue, pense em coisas tristes, não ria agora”. Alheia ao drama interno da morena, a mulher mais velha continuava seu discurso inflamado:

- ... e Dana fica defendendo você! Me desrespeita, me desacata! Diz que é normal, que eu tenho que aceitar! Tenho que aceitar nada! O que acontece no seu apartamento não é problema meu, mas minhas filhas não quero envolvidas nesta sujeira. Guadalupe está perdida para mim! E eu sonhei em ver a menina entrar na igreja, ter filhos saudáveis que fortaleceriam o nome da família.... ah, meus sonhos estão todos no chão! Estas filhas desalmadas, desnaturadas.

Laura se mantinha de cabeça baixa, não ousava olhar para Lupe. Sabia que ela deveria estar vertendo lágrimas, ainda mais por ter sido chamada pelo nome que odiava. Por ver que o plano deu errado, que teria que fazer uma escolha hedionda que a maior parte dos pais impõe aos filhos: abdicar do direito de tentar ser feliz, para satisfazer um padrão que a sociedade considera normal, ou enfrentar o julgamento e condenação constante, que vai minando com o amor e respeito entre pais e filhos. Teve pena dela.

- Dona Carmem, por favor, me escuta um pouco, depois a senhora reinicia ou reconsidera. Mas sabendo da real situação.

- Fale! Duvido que você vá conseguir aumentar o estrago que já fez na nossa família.

“Tomara!” pensou Laura, antes de tomar fôlego e olhar para eles por alguns instantes. Deixou seu coração se encher de carinho por aquelas pessoas que estavam ali, olhando em expectativa para ela.

- Bem, em primeiro lugar, eu quero agradecer a vocês. Quando cheguei aqui na Espanha, vim para fazer um trabalho que já tinha começado em Recife, mas que aqui iria ganhar maiores dimensões. Não sei se conseguiria fazer sem o apoio de vocês. Não sei o que seria de mim, sem as nossas conversas à noite, enquanto comíamos pizza, depois que voltei de cada um dos lugares onde só tinha visto sangue e destruição.

- Era nossa obrigação te acolher, você era só uma menina que nem sabia fazer comida direito - dona Carmem assentiu, com um bico, porém em um tom menos agressivo.

- E vocês fizeram isto muito bem, me senti segura aqui. E mais do que isto, me senti fazendo parte de uma família.

- Nós sempre te tratamos assim! - agora o bico começava a tremer.

- Sempre me trataram assim. E, da mesma forma que na minha casa, vocês me aceitaram como eu sou. - Laura se aproximou da matriarca, se agachou perto dela e a olhou diretamente nos olhos, antes de acrescentar - a senhora me acha uma pervertida? Acha que sou má companhia pras suas filhas porque nasci com uma orientação sexual diferente daquela que as pessoas dizem ser a certa? A senhora acha mesmo que eu desrespeitaria sua casa?

- Não! - agarrou as mãos da menina que sempre gostou como uma filha, que sempre estava alegre, mas mesmo assim era responsável e dava bons conselhos para suas meninas... - Não, minha menina! Venha cá, minha filha, desculpa esta velha caduca! - puxou Laura para um abraço e ficou choramingando no ombro da morena - Eu... só queria que...

- Que a sua filha não tivesse que passar por situações difíceis... acho que no fundo é o que todos os pais querem. E, no entanto, quando os pais estão do lado, não tem desafio que seja insuperável. Ainda mais com pais como vocês!

- Ah, meu Deus! Não vai ser fácil! Vocês estão namorando?

- Não. - Laura respondeu rápido, antes que Lupe tivesse oportunidade de abrir a boca e estragar tudo. - Não, nós nunca namoramos. E eu estou voltando para o Brasil.

- O quê? - Lupe e Su, fizeram coro com sua mãe, na surpresa da notícia.

- Estou vendendo meu apartamento aqui. Já fiz o que tinha que fazer neste lado do mundo, pelo menos por enquanto. Dana está...

- É surpresa, bocuda! - Dana falou alto.

- Dana! Você está guardando segredo de seu pai? - enfim, o homem que sempre ouvia quieto e acatava a decisão da família, sentiu o clima ameno o suficiente para falar.


O restante da noite foi tranqüilo, exceto para Lupe, que se trancou em seu quarto. Dana pediu para deixarem ela quieta, sabia o quanto sua irmã estava frustrada. Dana acabou contando para a família de seus planos com Alejandro e o assunto foi recebido com festa e logo o assunto Laura/Lupe foi deixado de lado. Laura sabia que tinha amenizado a situação e que Dana manteria tudo sob controle. “Hoje de madrugada estava feliz por estar ajudando a situação com Sam, agora aqui nos Martinez, vou dormir podendo falar: E mais uma vez o dia foi salvo pela menina super-poderosa.”. O pensamento a fez cair no riso. Dana se aproximou dela e disse que ia querer saber o que foi que estava tão risonha... ela tinha notado a dificuldade de Laura para se controlar enquanto escutava o “sermão”.


***********

Sam estava sentada sozinha na praia, no lugar onde tinha amanhecido com Laura e seus amigos, lembrando daquele dia. Olhava para o oceano se imaginando do outro lado dele. Parecia que sua vida estava totalmente desta forma. Olhava para ela, no começo daquele mesmo ano. Seu comportamento, seus relacionamentos, a distância com seu pai. Seu sentimento de vazio profundo. Ainda era a mesma pessoa. Mas estava tudo tão diferente! Quando iria acreditar se alguém dissesse que ela desejava alguém morando com ela. Dividindo seu quarto, seus problemas, seus sonhos. Riu quando pensou nisto. Certamente chamaria a pessoa de demente.

O toque do celular avisando que chegou uma mensagem, tirou Sam do seu devaneio. Pegou o seu celular e abriu um sorriso quando viu quem era o remetente. A mensagem dizia: “1,80m de surpresa para você no aeroporto amanhã, às 11h, não vou te contar o que é! Não adianta insistir”

O coração de Sam disparou e o celular quase foi retorcido, arremessado, quebrado, atirado ao ar. Ela ainda estava tentando absorver toda esta emoção quando um novo sinal salvou o celular deste seu agoniante momento. “Por favor, não pegue nenhum avião, é só para ir ao aeroporto”. Palhaça!

Então ela viria para o Ano Novo mesmo! Quanta coisa para fazer! Desta vez vou preparar tudo. Tenho que deixar a casa limpa e perfumada, comprar flores, lingerie.. hum! Sam se perdeu em seus pensamentos, enquanto se dirigia ao carro. Tinha muitas providencias para tomar. Laura não tinha mencionado se avisara seus pais, provavelmente não. De qualquer forma seria melhor ela não dizer nada. Não estava muito a fim de dividir Laura com ninguém, pelo menos não por agora. Voltou a pensar na decoração do apartamento, queria que Laura se sentisse em sua casa. Ah, e não poderia esquecer de comprar uma lasanha, ela tinha dito que ia fazer isto da outra vez, será que tinha velas em casa? Ah! E tenho que ligar para o Arthur não aparecer em casa e deixar o meu irmão longe também. Já chega terem visto a minha namorada pelada uma vez.

Nos poucos momentos que não eram arrumação e preparação, Sam se dava conta do quanto estava feliz. Como era boa esta sensação de confiança, esta vontade de estar junto. Elas se conheciam há tão pouco tempo, se lembrava da primeira conversa pelo MSN há poucos meses. De como a conversa diária tinha evoluído da descontração imediata até um namoro carinhoso. Uma parte dela dizia isto era uma tremenda bobagem, que ela não poderia mesmo estar levando isto a sério. Mas levou e quando se viram pessoalmente, se sentiu tranqüila, confiante, amada, amando...

Laura está vindo. Laura está vindo para mim!

Desejou com todas as forças que os minutos passassem voando. Contou horas, contou minutos, contou segundos. Até mesmo sua aula mais chata passara mais rápida do que estes segundos.

Enfim, o dia seguinte chegou. Ela não esperou clarear para pular da cama, na qual se revirara a noite toda. Trocou os lençóis, saiu para buscar as flores que tinha encomendado, mas ainda estava fechada a loja. Ficou lá na porta resmungando que deste jeito não tem progresso, onde já se viu, 7:03 da manhã e tudo fechado. Cansada de afundar a calçada da floricultura, foi até a padaria, onde escolheu alguns docinhos e petit four . Voltou para a floricultura que ainda estava fechada... praguejou e foi até a banca de jornais. Será que ela gosta de ler jornais locais? Larga mão de ser besta, Sam, você não pretende mesmo que ela fique lendo jornais. Não, eu não pretendo, mas também não quero mostrar que não pretendo. E por que não? Porque não quero parecer uma desesperada.

- Moça, a senhora vai querer ou não vai querer este jornal? Ele já deve estar meio zonzo de tanto que a senhora pega e devolve.

- Hã?

- O jornal...

- Que jornal??

- ... este que a senhora está levando pra passear.

- Hã?

- Moça, resolvi dar este jornal de presente. Pode levar.

Sam, realmente não conseguiu entender muito do que o jornaleiro falava, e também já tinha perdido o fio de seu pensamento, já que tudo estava um caos em sua cabeça. Ela está chegando! O pensamento fez nascer um sorriso em seu rosto. Ela abriu a bolsa, pegou uma nota de vinte reais, deu ao jornaleiro e foi embora, sem pegar o troco.

- Cada louco que me aparece! Vou oferecer mais jornais de graça pra ver se ganho mais gorjetas assim!

Enfim, a floricultura estava aberta. Sam pegou as flores que tinha encomendado e se dirigiu apressada ao seu apartamento. Agora iria se atrasar! Bem, ao menos iria se atrasar para as duas horas antes que queria estar no aeroporto. Vai que o avião adianta.

Mas o avião não adiantou. Nem atrasou. Chegou na hora prevista. Só que Laura não veio nele. Como era um vôo com conexão, ficou aguardando no aeroporto. Meio-dia chegou e encontrou Sam esfregando os lábios uns nos outros, enquanto olhava pelos portões de desembarque. Uma hora, ela estava roendo os nós dos dedos, para não estragar os esmaltes. Duas da tarde, Sam andava de um lado para o outro, ligando novamente para o celular que só chamava.

- Sam, você ainda por aqui?

- Arthur, deve ter acontecido alguma coisa, estes aeroportos estão uma droga. Ela deve estar retida em alguma droga de aeroporto. E eu estou morrendo de fome e estou aqui deste as 9h e meu pé já está doendo de ficar em pé aqui e...

- Calma, vem cá, vamos ali no restaurante, eu espero com você.

- Não quero sair daqui e se ela chegar e eu não estiver lá?

- Sam... aviões são um tanto quanto grandes e barulhentos. O aeroporto tem sonorização, a gente vai saber quando um pousar.

- Eu não queria sair daqui até ela chegar.

- Pode demorar, você sabe que está tudo muito demorado nos aeroportos. Você tentou pedir informação?

- Não, ainda não.

- Ela ia descer onde? No Rio ou em São Paulo?

- No Rio, eu pesquisei. E tinha conexão as 8h, para chegar aqui às 11h.

- Vou tentar saber de alguma coisa. Pode guardar seu lugar aqui.

Arthur se encaminhou para os guichês, para ter informações, que ele sabia que seriam inúteis. Pelo que conhecia sua amiga, sabia que a espera seria longa. Tinha vindo bem confortável já prevendo um dia no aeroporto. Paulista se diverte passando o dia no aeroporto, vou ver qual é a graça, ainda mais que agora quem vai rir por último serei eu.

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