Laura chegou em La Coruña no final da manhã de segunda-feira. Estava um vento frio, céu nublado, garoa fina. “Que droga, se tivesse trazido minha loirinha este tempo seria perfeito... para ficar em casa vadiando”, pensou com um sorriso sonhador no rosto, enquanto corria para a grande porta do hospital. Pensar em tudo que tinha deixado no Brasil, era o que tinha feito desde aquele abraço apertado em Sam na despedida, desde a lágrima que ela secou com um beijo naquele rosto tão amado.
Chegou à recepção e mal teve tempo de abrir a boca para perguntar por sua amiga, quando sentiu alguém pulando em suas costas. O reflexo agindo antes que o raciocínio fez com que a intrusa fosse atirada com força ao chão.
- Credo Laura! Você não era tão violenta assim, ai meu traseirinho.
- Desculpa, desculpa, Su, dá a mão aqui, deixa eu te ajudar. - Laura estava constrangida, sabendo que todo mundo que estava por perto observava o que pensaram ser uma briga. - Para você estar eufórica assim, acho que sua mãe está melhor, estou certa? - perguntou com esperança, enquanto abraçava a amiga.
- Está! Ela melhorou muito ontem, hoje até deu uns passinhos, pra ir ao banheiro - falou a morena empolgada, ainda massageando seu quadril. - ela perguntou de você de novo, vai ficar super feliz de te ver. Vamos lá, eu te levo.
Laura se deixou ser puxada pela caçula, calculou que as outras irmãs estariam lá e sua sempre prestativa memória a fez lembrar do beijo que Lupe lhe deu na última vez que tinham se visto. Isto Laura, colabore com você mesma, não podia se concentrar na mãe doente na cama? Agora tem que olhar pra ela e saber que ela está doente NA cama e a filha dela está doente pela SUA cama. A este último pensamento, deu um tapa na sua testa, fechando os olhos com força e a boca em sinal de desgosto.
- Laura, você está bem? Está tão vermelha!
- Não esquenta Su, isto anda acontecendo muito comigo ultimamente.
Sulamita a olhou de rabo de olho, também preocupada por saber que, além de Lupe, Dana estaria no quarto e ela não era nada boba. Contavam com a esperteza da mãe para a estratégia que tinha montado com sua irmã, mas Dana iria atrapalhar, não concordaria com elas. Precisava pensar em algo para tirar a irmã mais velha de lá e tinha que ser já.
- Espere um pouco aqui fora, Laura, porque - titubeou -... o ... médico disse ... que não pode ter muita gente lá dentro... ao mesmo tempo. - estava feliz com a idéia, repetiu entusiasmada - É isto, o médico disse que não pode ter muita gente lá ao mesmo tempo.
- Tudo bem, eu espero. - Laura estava mais surpresa com a forma que Su falou do que com a própria sentença, que era de fato sensata.
Tomara que Lupe tenha encarado aquele beijo da mesma forma que eu, uma despedida... Eu nem achei uma despedida ruim, na verdade. Pelo menos não na hora, me lembro que achei o beijo dela legal, mas depois que... A porta se abriu e Dana saiu quase empurrada por sua irmã caçula. Ao se deparar com Laura, abriu os braços para abraçar a amiga.
- Ah, querida! Então é você a tal visita surpresa! Que bom te ver! - Laura apertou o abraço, das três, era com Dana que tinha um relacionamento mais amigo.
- Que bom ver que você está com o nariz moreno! Vim morrendo de medo de encontrar as três parecendo renas de Papai Noel!
- É, ficou com medo é de ser abraçada por melequentas. Mas que nada, madresita melhorou muito durante esta semana, na sexta-feira o médico disse que ela poderia... - levou um beliscão - Ai, Su, está doida!
- A visita é para nossa mãe, não para você, abelhuda! Venha Laura - agarrou o braço de Laura e a empurrou para dentro, não dando tempo para que ela encaixasse as peças do quebra-cabeça que, decididamente, haviam se espalhado.
- Olha se não é a matriarca mais linda da Espanha! - disse, caminhando sorridente em direção à mulher que a tinha acolhido como uma tia querida, segurou na mão da mulher que estava deitada, mas não parecia, nem de longe estar com uma vela acesa na mão.
- Achei que não ia mais te ver, minha filha! Quase debandei pro lado de lá desta vez! Se estivesse sozinha em casa, não teria dado tempo de me salvarem, um minutinho a mais e você ia ter que fazer sua própria paella - falou com o natural exagero, peculiar à família.
Laura que tinha entrado no quarto tentando se equilibrar do puxão que Su tinha dado, não tinha notado que Lupe estava ali, na porta do banheiro. Por isto se assustou quando sentiu a morena passar o braço em suas costas e encostar a cabeça em seu colo, com muita naturalidade.
- Ah, oi Lupe! - Laura deu um abraço nela, pois seria um movimento com começo e fim, diferente daquele “ficar encostada” que achou desnecessário. - Como é que vão as coisas? - deu um passo em direção à cama e segurou a mão de dona Carmen.
- Você sabe como é tudo quando não está aqui. - falou languidamente. - Ainda mais quando tivemos uma despedida daquelas. - falou baixinho, mas garantindo que sua mãe notasse o olhar cheio de malícia que ofereceu à visitante.
Laura ergueu uma sobrancelha, franziu o canto da boca e, nitidamente engoliu uma resposta. Voltou seu olhar para a mulher que estava na cama e que olhava de uma para a outra, Laura pensou que poderia apostar que ela estava fazendo contas, chegando à conclusão de que um mais um era dois. Quase pediu, em voz alta, para ela reconsiderar o resultado. Ao invés disto, falou:
- Minha mãe mandou a senhora ficar boa logo, disse que não me deixa ficar na Espanha se minha tia honorária estiver tirando férias em algum hospital, por ai.
- Como se hospital fosse spa! Bem que eu queria passar umas férias na pousada dela, mas ao invés disto, me deixam aqui, comendo esta comida sem gosto.
Neste momento o médico entrou no quarto, acompanhado pela enfermeira que estava cuidando daquela ala.
- Senhoras, eu preciso examinar a dona Carmen, - disse, olhando na prancheta afixada aos pés da cama, com os dados da paciente. - Vamos ver se a paciente mais falante deste hospital já está pronta para voltar para casa.
Lupe tentou pegar a mão de Laura para levá-la para fora, mas um movimento rápido da outra a impediu, já não estava distraída a ponto de ser um alvo fácil.
- O que foi isto lá dentro, hem? - disparou, tão logo a porta se fechou.
- O que foi o quê? - perguntou Dana, que não se convenceu que deveria ir conferir se era o alarme do carro dela mesmo que estava disparado.
- Nada! Coisa nossa! - respondeu Lupe, fuzilando a caçula com o olhar e vendo ela fazer um gesto com as mãos que indicava que tinha tentado.
Laura sentiu o celular vibrar se virou para pegá-lo em sua bolsa, aproveitando para falar só para Lupe ouvir:
- Não existe isto de “coisa nossa”. - Se afastou para atender e, ver o nome no display aliviou sua expressão da zanga ao sorriso mais carinhoso.
- Vamos ver se não - murmurou para si mesma a espanhola, a quem não tinha escapado a mudança brusca de humor na mulher por quem julgava estar apaixonada.
*********
- Almoçar, Laura? Só pensa em comer, sua pesada! - Sam colocou a maçã perto do bocal para que a outra pudesse ouvir a mordida que deu.
- Mas eu posso - falou com a boca cheia - eu tenho boa forma - caiu na risada com a reação que ouviu.
- Já encontrou as espanholas? - seu tom já era mais reticente.
- Palhaça! Eu imagino mesmo que tenha muitas por ai, mas espero que você não fique olhando para todas. ... é, eu coloquei a venda na sua bolsa pra isto mesmo, mas deveria ter colocado uma viseira igual aquela dos cavalos, porque senão você vai voltar cheia de hematomas pra casa.
- Você sabe que sim, mi casa su casa, sempre vai ser, se você se comprometer em me trazer café na cama, claro.
- Sam, onde coloco estas... ah, desculpa, não vi que estava ao fone.
- Só um minuto Lau ... - afastou o fone de sua boca e instruiu - Coloca no envelope branco que está sobre a bancada, por favor, Arthur. Já vou ver as outras.
- Tenho que trabalhar, já está em cima da data de apresentar as fotos no.... é, ele está me ajudando. Era o meu ajudante exclusivo antes de ser substituído por uma senhora que entende um pouco de fotos.
- É, um pouco, só um pouquinho - Sam ria muito, adorava irritar, ainda que de brincadeira, a morena.
- Já está com saudade? É mesmo? Nossa, grande assim? Eu também senti um bucadinho.... Beijos, me liga ... - caiu na risada de novo - Nem vem! Você tem o número! Ta bom, também te amo.
Desligou o fone, mas ficou o segurando perto dos joelhos, estava sentada no sofá de sua sala. Lembrou a dificuldade de dormir que teve esta noite, sua cama tão inutilmente grande, a casa tão silenciosa, nenhum riso, nenhum móvel sendo atropelado pela descoordenada, nenhuma janela sendo aberta... nenhum carinho. Se convenceu de que, realmente, tudo depende do olhar que se dá ao mundo. E que o olhar é o reflexo do que se passa pela alma. Pela sua agora, passava uma enorme vontade de estar em outro lugar.
No entanto não estava, tinha um trabalho para ser entregue, tinha um amigo, ajudante, apaixonado para domar, tinha que adaptar sua casa para ser compartilhada por duas pessoas.
- Arthur! Vem cá, vamos conversar.
********
Laura desligou o fone e ficou pela janela, ao final do corredor do hospital. Logo as três irmãs se juntaram a ela, exultando, pois a mãe recebera alta. Desceram até a cafeteria do hospital, muito animadas.
- O duro é que ela não vai ficar em casa estes dias! Minha tia disse que quer cuidar dela pessoalmente. -falou Dana
- Porque nós somos barulhentas e o médico receitou tranqüilidade - emendou Lupe
- Porque a nossa comida é apimentada e ela precisa de ... uma governanta inglesa! - completou Su, com ironia.
As irmãs riram deste último comentário e explicaram para Laura que o sonho da tia era ser uma versão espanhola da perfeita governanta inglesa. Mas tudo o que ela tinha conseguido era falar com um arremedo de sotaque inglês. Laura se juntou a elas no riso, Lupe aproveitou a situação e apoiou a cabeça em seu ombro, ainda rindo. Um momento de alegria espontânea, devidamente registrado pela câmera prevenida da mais nova das irmãs Martinez.
Quando o burburinho passou, Laura pediu para que elas contassem direito o que o médico tinha dito, qual era o estado real de saúde de dona Carmem.
- Ela está bem, Laura. Vai ter que tomar remédio sempre pra pressão, pro coração e, o mais difícil, fazer uma dieta rígida. Mas o pior já passou, graças à Deus.
- É, Laura, ela vai precisar de uma governanta inglesa para o resto da vida. Você não quer se candidatar, não? Acho que você seria uma boa governanta inglesa. - falou Lupe, com as mãos cruzadas sobre o peito.
- Tenho muitas habilidades - Laura riu - mas duvido que uma delas seja ser inglesa, muito menos governanta.
Conversaram animadamente por mais alguns minutos, Laura percebeu que as duas mais novas ficavam nervosas quando Dana abria a boca. Durante o resto daquele dia, percebeu que seria quase impossível falar a sós com a amiga. Por isto, no noite da noite, final do jantar que tinham preparado em seu apartamento, fez a pergunta que queria ter feito desde cedo.
- Desde quando vocês sabiam que dona Carmem não estava correndo risco de morte? - a pergunta foi feita em tom casual e Dana abriu a boca para responder, quando as outras duas se atrapalharam, falando ao mesmo tempo.
- Desde hoje - falou firmemente, Lupe.
- Desde ontem à noite - soltou Su, estridente.
Laura se encostou na cadeira, esticou as pernas e colocou uma mão, displicentemente na cabeça, sem proferir um comentário sequer. Iria só observar.
- Não sejam dramáticas! O médico disse no dia seguinte que ela foi internada que tinha sido só um susto, mas que ela iria precisar ficar de repouso e por isto teria que ficar no hospital.
- Você não se importa com ela, Dana! - gritou Su, para espanto da irmã mais velha. - Ela corria riscos, por isto ficou internada.
- Calma, Su! Calma! Mamãe já está bem, vem cá - Dana se levantou e tentou abraçar a irmã, que se levantou e saiu correndo para sua casa.
Bingo! Dana não sabia de nada! Bem feito para mim que viajei feito uma desesperada sem me informar direito antes. Vamos ver qual vai ser o próximo ato.
E o próximo ato era a revolta de Lupe. Laura sabia que era com ela, por ter percebido suas intenções, conseqüentemente estragado seus planos.
- E você Laura? Vai reclamar porque a minha mãe está bem? Preferia que ela estivesse para morrer? Se arrependeu por ter deixado aquela... - buscava uma palavra que mostrasse sua repulsa, mas um brilho cortante no olhar de Laura a fez recuar alguns níveis na ofensa que gostaria de proferir - ...loira sem açúcar para trás.
- Não. - respondeu serenamente. - estou realmente feliz por ver que dona Carmem esta bem. E não foi de todo mal ter voltado mais cedo pra cá.
- Não?! - a afirmação surpreendeu as duas irmãs ao mesmo tempo. Dana ainda estava tentando entender o filme que tinha passado o dia todo à sua frente, mas ela não vira.
- Não. Eu tinha coisas a resolver. - falou, bocejando logo em seguida.
- Que coisas? - perguntou Lupe, recebendo um sorriso de canto de boca como resposta. - Conta Laura!
- Mas nem que a vaca tussa! Você está de castigo! - olhou para o relógio e completou - E já pra cama! Não esquece de escovar os dentes e rezar antes de dormir. Rezar bastante.
A pele castanha da espanhola se transformou em vermelho intenso, o rosto ansioso, se fechou em fúria. Ela olhou em volta, em busca de algum objeto para atirar. Laura se esquivou da cesta de pão, dos guardanapos e da garrafa de refrigerante, antes de Dana agarrar a “fúria” pelos braços e a levar para casa. A ouviu gritando: “vai ter que se acertar com madresita”.
Na casa das espanholas, Dana, juntou as irmãs para contar o que estava acontecendo. Lupe simplesmente virou as costas e bateu a porta de seu quarto com força. Su, após alguma resistência, acabou entregando o ouro. Disse que ligaram para Laura, usando a doença da mãe delas para que ela voltasse rápido. Disse que várias vezes viu a irmã chorando e que não pode negar ajuda a ela.
- Mas vocês não pensaram na Laura, não é?
- Quem garante que a tal loira seja mesmo um amor? Por que ela não pode simplesmente amar a Lupe e não ter coragem porque é amiga dos nossos pais?
- Ela vai voltar. Vocês não perceberam que o plano de vocês era muito fraco? Ela simplesmente vai voltar.
- Ah, Dana! Passagem de avião não nasce em árvore! Estas coisas são caras e a Laura trabalha na África, na Ásia, lá pro leste, o Brasil fica fora de mão pra ela. Quantos anos ela ficou sem ver a família? Só quando eles vieram...
- Você escutou suas palavras, Su? Quantos anos ela ficou sem ver a família! Agora estava com eles e vocês tiraram dela a possibilidade de passar um Natal com os pais, por um capricho! Reze para que ela possa fazer isto uma outra vez, porque senão a culpa vai ser de vocês duas.
- Eu .... - Su olhava para a irmã de olhos arregalados - não tinha pensado nisto!
- Não, vocês não pensaram nela. Su, você ao menos viu o rosto da Laura quando a menina ligou? Eu sei que sou uma romântica incorrigível, mas me vieram lágrimas aos olhos.
- Eu vi, ela ficou serena, feliz, o resto do mundo deixou de existir. Mas também vi a Lupe olhando pra ela, Dana. Nossa irmã! Ela já está encanada por estar gostando de mulher, agora, ser rejeitada por mulher depois de tudo é duro!
- Não tem nada demais gostar de mulher, isto faz parte do que ela é e não interfere em nada nos outros aspectos de relacionamento ou personalidade. Agora, mentir, trair, trapacear, prejudicar uma amiga como vocês fizeram, isto sim me preocupa!
Enquanto Su baixava a cabeça na sala, Lupe atrás da porta do quarto dizia para si mesma que apesar de não contar em ser descoberta tão cedo, pelo menos tinha trazido Laura e a segunda parte do plano estava em andamento.
*******
Laura em seu apartamento fazia contas parecidas. O plano de Lupe e Su era óbvio e com uma grande possibilidade de ter sido mal calculado. Queriam que ela voltasse.... e ela voltou. Queriam que dona Carmem fizesse deduções e ela fez. A conseqüência disto é que talvez surpreenda aquelas duas vigaristas que pensam que me enganaram....
- Mas não contaram com minha astúcia! - Disse com um sorriso, se lembrando que o grande motivo para ter voltado era se desligar da organização e encerrar seus vínculos com a Europa, inclusive vender aquele apartamento.
Queria começar uma nova fase da sua carreira no Brasil, fazendo aquilo que todos achavam que realmente fazia: foto-reportagens de situações críticas, o que o Brasil tinha em abundância. Seu projeto era se juntar a Sam e fazer abordagens diferentes de um mesmo tema, pelo que tinham conversado, sabia que a proposta seria muito bem recebida.
O que lhe pesava um pouco no coração era deixar sua organização quando ela estava prestes a dar a cartada final. Tinha trabalhado duro para isto, foram anos fazendo viagens perigosas, cansativas, desgastantes para atingir um objetivo que agora estava perto. E ela não participaria deste desfecho.
Mas era algo em que já tinha pensado e pesado em outras ocasiões. De um lado sabia que, com sua presença ou não, conseguiriam desmascarar os laboratórios que usavam cobaias humanas, na África. Por outro lado, a oportunidade de ser feliz com a pessoa que amava exigia sua presença e ela também queria estar perto, queria ter o prazer de acordar todos os dias sentindo a folgada a usando de travesseiro. Estar com Sam fazia tão bem a ela, como via sua presença fazendo bem a outra também.
- Amor deixa a gente besta, mesmo! Preciso me emocionar tanto só de lembrar do corpo dela junto ao meu quando acordo! - resmungou para si mesma - E pensar que aquele paspalho a viu logo cedo! Ele que se meta a besta com a minha garota!
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- Quer conversar de novo, Sam? Já me chamou cedo pra me dar sermão por bebida, depois por ter sido preso - ele ia enumerando com os dedos - e a culpa disto foi sua, depois pra eu levar o trabalho a sério e agora, Madre Superiora, qual vai ser o motivo pra eu ajoelhar no milho?
- Por falar em milho, você bem que podia fazer uma pipoca enquanto eu coloco o filme pra nós assistirmos. E pode ficar com esta cara lambida mesmo, porque você foi rude à toa. - Sam falou, ofendida.
Alguns minutos depois, ele voltou com uma grande tigela de pipoca, uma garrafa de refrigerante e dois copos. Ela já tinha escolhido o filme e o deixado pronto para começar.
- Tinha cerveja na geladeira, você não viu?
- Eu não bebo em dias de semana - ele respondeu calmamente, enquanto enchia os copos. - finais de semana, só bebo quando não dirijo e ainda assim, nunca o suficiente pra eu enrolar a língua.
Sam pegou umas pipocas, com um sorriso maroto, mas não resistiu a dar um “pedala” nele, como ela sempre gostou de fazer.
- Nada como passar a manhã ajoelhado em milho pra ficar bonzinho.
- Quieta que começou o filme.
- Eu já assisti mesmo - ela respondeu balançando os ombros.
- Você já assistiu este filme? Mas é branco e preto!
- Casablanca é um clássico!
- A gente assiste clássicos quando está ficando velho.
- Está insinuando o quê? - ela se empertigou na poltrona, enchendo a mão de pipoca.
- Que o seu sofá não vai gostar nada de pipoca - ele se afastou dela, por segurança.
- Quantos homens conseguem vestir calça preta e blazer branco com tanta elegância?
- O filme é branco e preto, poderia ser qualquer cor a roupa deles, vai que é amarelo com azul marinho.
- Combinação esquisita! O que passa pela sua cabeça?
Ele não respondeu, mas olhou para o rosto dela por um tempo longo. Ela não olhou para ele, mas percebeu seu olhar. Ficou olhando para a tela por um tempo, sem, no entanto, ver. Depois perguntou:
- Desde quando?
- Não sei...
Continuaram olhando para o filme, não prestaram atenção na frase não dita mais famosa do cinema. “Play it again, Sam”. Embora quando a música começou a ser tocada, Arthur tomou coragem para falar.
- Você sempre foi interessante. Era a menina da casa mais bonita da rua, a que ganhava sempre nos jogos, a menor da rua, mas a mais respeitada. Só você tinha coragem de discutir com os professores e eles tinham medo da fama do seu pai. Você foi a primeira menina que vi beijando outra menina. E depois outros garotos... e eram eles quem queriam repetir a dose e nunca você.
- Pensando bem, eu sou meio esquisitona. - mas ele não riu.
- Você é linda e é dura, sabe quebrar uma pessoa só com palavras. É competente, reconhecida, tem uma casa legal. Seu irmão é super novo e já é um senhor advogado. Você é a garota que todos querem ter.
Ficaram em silêncio até o final do filme. Ele se levantou, deu um beijo na testa dela e saiu. Ela pegou o celular, pressionou o número 1 e assim que foi atendida disse:
- E no final das contas, ele não gosta de mim, mas de um ícone de força que ele criou com a minha imagem. A força que ele queria ter. Não passo da garota que os outros querem ter e ele pode exibir. É duro ser gostosa!
- Boa madrugada, querida! Está falando de quem mesmo? - perguntou Laura entre bocejos.
- Laura, você ou está comendo, ou dormindo, ou se preparando pra comer, ou dormir. Tem noção do que vai acabar virando, né? A tal mulher de 120kg que você me disse que era na nossa primeira conversa.
- Arthur? - Laura parou de rir e se sentou na cama - Ele estava ai até agora?
- Você escutou o que eu falei ou estava dormindo?
- Eu.. err, eu percebi que era você!
- Sorte a sua, porque se me chama Lupe....
- O quê? O que você iria fazer, hein? Quero os detalhes sórdidos. - Laura tinha se deitado de bruços na cama, apoiava-se nos cotovelos, e agora falava provocando.
- Ah, deixa de ser tarada, Laura! Quer dizer, deixa enquanto você está ai.
- Boa a sua correção. Eu não deixaria de ser tarada perto de você, futura senhora Sanches.
- Você que vai ser senhora Figueiredo. - riram um pouco e Sam voltou a falar animada- deixa eu te contar do Arthur, ele ficou o dia todo aqui e eu o chamei várias vezes pra conversar, mas sabe quando fica difícil de achar uma brecha?
- Sei...
- Pois é, mas ai, a gente estava vendo um filme e...
- Que filme?
- Casablanca. E ficou mais fácil porque não estava olhando pra ele. Ai saiu o assunto. E ele falou e falou e eu acredito que ele pensa mesmo que está apaixonado, mas não foi aquela coisa profunda sabe, ele se liga em aspectos superficiais.
- Você não percebeu sentimentos?
- Percebi que ele ficaria honrado em entrar para a minha família. Eu fiquei sem saber se ele estava falando com o coração, ou era um discurso que o Cássio preparou. - acrescentou rindo - Aliás, ele falou no meu irmão.
- Uh! Não se pode dizer que o mocinho não é original!
- O Arthur é um garoto meio perdido em relação a um monte de coisa, hoje a gente conversou sobre umas coisas que a mãe dele estava preocupada. Tomara que ele ouça a “garota que todo mundo quer ter”.
Laura pensou muitas coisas em poucos segundos, pensou sobre ninguém tem ninguém, mas também pensou “mas ela é minha”, pensou na intensidade do seu amor e na tristeza que é a vida quando se vive na procura. Na vaidade da posse e na serenidade de compartilhar.
- Ficou muda foi?
- É, mas eu pensei tantas coisas... e tudo girou em volta do “amo você com tudo que sou”.
- Ah, minha grandona está emocionada! Que bonitinha!
- Não estou não! - falou enquanto secava uma lágrima de pura emoção que as vezes era grande demais, inesperada demais.
- Está sim! E se tivesse aqui eu ia .... fazer carinho e te beijar e te abraçar ... ficou quieta de novo.
- Eu estava gostando do rumo da prosa. Pode continuar.
- Palhaça! - Laura riu, sempre ria quando era chamada assim - Agora me conta da sua espanhola.
- Não tenho nenhuma, vendi todas no Mercado Livre. Estou com uma grana legal!
- Quer dizer que é você quem vai pagar a próxima ligação! E deixa de me enrolar e conta como foi ai.
- Ah, sei lá, ela queria que eu viesse mas não imagina que vou ficar só o tempo de resolver o que preciso. Deu um jeito da mãe dela ver que ela está a fim de mim, mas a mãe dela ...
- A mãe dela é preconceituosa?
- Eu acho que ela não vai gostar disto não. Ela me respeita, mas, sei lá, eu não sou família dela. O lance da homossexualidade é o mesmo da doença, que é muito mais fácil aceitar na casa do vizinho que na própria. De qualquer forma, não estou me importando muito não.
- Você parece zangada.
- E estou, fiquei analisando. Ela acha que eu cai no conto dela. Ou seja, eu saí do Brasil, deixei você ai, minha família, meus planos, vim pra cá e agora só Deus sabe quando vou ter oportunidade de voltar.
- Ela deveria ter algum sentimento de culpa.
- E não tem! Ela é mesquinha, egoísta. É isto que me irrita. Se fosse do jeito que ela pensa que é, eu estaria arrasada. Não estou porque sei que vou voltar logo e definitivamente.
- Ah, tão bom ouvir isto, Lau! Vou ter café na cama todos os dias! - Sam brincou para disfarçar a emoção que a arrebatava.
- Vai acordar todos os dias sabendo que te amo.
- E nada pode ser mais precioso que isto. E antes que a gente fique melosa demais, vou desligar. Cansei de te ouvir bocejar.
- É que eu não dormi nada na viagem. E este fuso horário é uma loucura.
- Dorme então, meu amor. Tenha bons sonhos.... comigo.
- Com você eu sonho até acordada. Boa noite, meu amor. E Sam... - falou com voz inocente.
- Oi.
- Se você for pensar em mim agora, não quer ligar a cam?
- Ahn? - Sam pensou um pouco - Laura... VAI DORMIR!
Sam bateu o telefone e Laura caiu na risada. Iria ter grandes sonhos esta noite.
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